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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: O GARIMPO ILEGAL NA AMAZÔNIA 

Na postagem anterior falamos rapidamente dos desmatamentos e da exploração ilegal de madeira na Amazônia. Frequentemente, essa exploração é feita em terras públicas, áreas de preservação, parques nacionais e terras indígenas (muitas vezes em conluio com os líderes tribais). Essas áreas desmatadas costumam ser transformadas em campos de cultivo e/ou pastagem para o gado. 

Um outro problema bastante complexo na região é o garimpo ilegal do ouro. Ha´poucas semanas atrás muitos dos leitores devem ter visto notícias de uma grande ação do Governo Federal contra o garimpo ilegal em terras do Povo Yanomani em Roraima, uma ação que, na minha modesta opinião, foi muito mais um “show para a mídia”. 

O território do Povo Yanomami ocupa uma área com mais de 98 mil km² apenas dentro do Brasil e sem considerar o trecho dentro do território da Venezuela. Essa área é quase igual ao território do Estado de Pernambuco e nela vivem cerca de 20 mil indígenas (a população yanomami total é estimada em 35 mil indivíduos). 

Apenas para efeito de exercício teórico – a Polícia Militar de Pernambuco conta com mais de 16 mil policiais em seu efetivo e segundo alguns analistas esse efetivo está defasado em cerca de 10 mil policiais. Algum de vocês conseguiria imaginar todo esse efetivo (mesmo defasado) sendo colocado par proteger a Terra Yanomami de invasores? 

De uma forma bastante simplificada, esse é o grande problema do garimpo ilegal na Floresta Amazônica – a região é grande demais e o país não tem recursos humanos e materiais para vigiar e proteger. Aliás, é difícil imaginar qualquer país que conseguisse fazer isso. Cito como exemplo os Estados Unidos, uma das maiores potenciais econômicas e militares do mundo, que não consegue evitar a entrada de imigrantes ilegais pela fronteira com o México. 

Além das dificuldades de fiscalização e controle, a Amazônia possui uma infinidade de caminhos terrestres e fluviais para o “descaminho” de todo o ouro extraído ilegalmente. Um destino fácil para “desovar” essa produção é a Venezuela, país que fica “logo ali ao lado”. Também existe toda uma rede internacional de “agentes” especializados em legalizar ouro e pedras preciosas – esse ouro ilegal acaba sendo comprado legalmente por países e pessoas acima de qualquer suspeita. 

As reservas de ouro na Região Amazônica são estimadas em, pelo menos, 25 mil toneladas, o que equivale a cerca de US$ 300 bilhões. Num dos anos em que a produção de ouro na região bateu recorde – 1988, se alcançou a impressionante cifra de 216 toneladas e os ganhos foram de US$ 3 bilhões, valor equivalente a 3 vezes os ganhos com a exploração de minério de ferro em Carajás.    

Esses números explicam facilmente por que tanta gente arrisca tudo – inclusive a própria vida, para se embrenhar na Amazônia em busca de ouro. 

O ouro é considerado o mais nobre dos metais, sendo usado para a confecção de joias e todo o tipo de acessórios de moda, objetos finos, moedas, medalhas e troféus, entre muitos outros usos. O ouro também é usado como reserva de valor por bancos centrais de todo o mundo. Além disso, o ouro tem inúmeros aplicações industriais – especialmente na produção de componentes e circuitos eletrônicos. Tudo isso cria uma enorme demanda anual pelo metal. 

O ouro de aluvião, que é uma das formas mais comuns do metal na natureza, é encontrado no fundo e nas margens dos rios. A forma mais simples para buscar esse ouro é através do uso de bateras de madeira ou de metal que são usadas para lavar o cascalho dos rios. A forma mais agressiva para extrair o metal é com o uso de dragas flutuantes. As margens têm a vegetação devastada e milhares de toneladas de terra e sedimentos são revirados sem quaisquer preocupações com os graves estragos ao meio ambiente.   

O garimpo sempre traz a tiracolo o mercúrio, um metal altamente tóxico para os seres vivos, que é usado em grandes quantidades para separar o ouro dos sedimentos. Os fragmentos de ouro se ligam ao mercúrio formando uma amálgama. Essa amálgama é depois submetida a altas temperaturas com o uso de maçaricos, fazendo o mercúrio evaporar e deixando apenas o ouro.  

Conforme esse vapor vai esfriando, micro gotículas de mercúrio vão caindo sobre os solos e águas do entorno do garimpo. De acordo com os estudos mais recentes, para cada 1 kg de ouro extraído nos garimpos cerca de 1,32 kg de mercúrio é usado. Estimativas indicam que, nos últimos anos, a produção anual de ouro no Brasil tem se situado entre 80 e 100 toneladas, o que implica num consumo total de mercúrio entre 100 e 260 toneladas.   

Essa técnica de separação do ouro foi usada intensamente nas Américas entre os anos de 1540 e 1900, onde se estima um consumo de 200 mil toneladas de mercúrio nas colônias espanholas e de 60 mil toneladas na América do Norte, entre os séculos XVIII e XIX.   

O mercúrio é absorvido inicialmente por microalgas, insetos, invertebrados e pequenos crustáceos que vivem nas águas dos rios, espécies que formam a base da cadeia alimentar. Essas criaturas são predadas por criaturas maiores, criando-se assim o ciclo de acumulação do mercúrio nos seres vivos. 

O mercúrio acompanha todo o ciclo da cadeia alimentar, passando de um organismo para outro, se acumulando em quantidades cada vez maiores ao longo do tempo. O mercúrio presente no organismo de peixes fatalmente contaminará qualquer ser humano que consuma suas carnes. Esse é um problema que vem crescendo na Amazônia.  O mercúrio pode provocar danos graves no sistema nervoso central, normalmente irreversíveis, que comprometem os sistemas sensoriais e motores. 

Um estudo realizado no Estado do Amapá e divulgado no final de 2020, nos dá uma clara ideia do nível de contaminação dos peixes por mercúrio – todos os peixes analisados apresentaram níveis detectáveis de mercúrio e 28,7% das amostras excederam o nível máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde. As espécies de peixes com os maiores níveis de contaminação são carnívoros de topo da cadeia alimentar, incluindo o pirarucu, o tucunaré e o trairão, algumas das espécies mais consumidas pelos moradores da Amazônia.   

Com tanto ouro espalhado por rios e matas por toda a Amazônia, com uma fiscalização deficiente e inúmeras formas para conseguir vender o metal sem responder a muitas perguntas, não é de se estranhar a grande quantidade de garimpeiros ilegais por todos os cantos da Amazônia. 

A destruição de águas e matas, além da contaminação de seres vivos com grandes quantidades de mercúrio, são apenas “pequenos detalhes” nessa grande equação… 

ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: OS DESMATAMENTOS ILEGAIS NA AMAZÔNIA

A Amazônia é um mundo à parte! 

De acordo com informações do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a chamada Amazônia Legal ocupa uma área total de 5.015.067,86 km², o que equivale a 58,93% do território do Brasil. Essa região engloba toda a área ocupada pela Floresta Amazônica e também áreas vizinhas dentro do bioma Cerrado. 

Se for considerada apenas a área ocupada pela Floresta Amazônica o do bioma Amazônico dentro do país são cerca de 4,5 milhões de km² (dependendo da fonte consultada esse número poderá variar). Na Amazônia tudo é superlativo – inclusive os problemas. 

Um dos maiores problemas da Floresta Amazônica atualmente é o desmatamento ilegal. Isso ocorre por falhas na fiscalização pelos diferentes órgãos envolvidos, pela corrupção de autoridades (inclusive lideranças indígenas), pela aceitação dessa madeira ilegal por empresas estrangeiras, entre muitas outras causas. 

O tamanho da região, que ocupa uma área equivalente à metade da Europa, já ajuda explicar a complexidade da fiscalização. Outro complicador é a grande quantidade de países onde a floresta está inserida – além do Brasil entram na lista Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Vamos nos concentrar no problema dentro do Brasil. 

O Brasil possui uma área coberta por florestas naturais equivalente a 477 milhões de hectares, o que corresponde a 56% da área do seu território e nos coloca na segunda posição mundial em preservação de florestas, atrás apenas da Rússia. Cerca de 1/3 dos remanescentes de florestas tropicais do mundo se encontram em nosso território, onde o grande destaque é a Floresta Amazônica. Nosso país também não faz feio quando se fala em florestas plantadas, que já ocupam uma área maior que 5,6 milhões de hectares. Somos um grande “país florestal”.   

De um país com tamanha disponibilidade de recursos florestais seria de se esperar uma grande participação no mercado mundial de produtos de madeira. Infelizmente, não é isso o que acontece. No mercado mundial de móveis, o Brasil ocupa uma fatia de meros 1%. As exportações da cadeia produtiva da madeira, onde se inclui produtos de madeira, móveis, papel e celulose, representam cerca de US$ 10 bilhões (2005), sendo que mais da metade desse volume de exportações fica por conta das indústrias de papel e celulose.  

De acordo com dados do Ministério da Infraestrutura, cerca de 80% da extração de madeiras na Floresta Amazônica é feita de maneira ilegal. Grande parte das áreas onde é feita essa extração se encontram dentro de Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal (RL), Florestas Nacionais e até mesmo dentro de Terras Indígenas, muitas vezes em associação com os índios.  

O grande consumidor dessas madeiras é o Estado de São Paulo, que compra cerca de ¼ de toda a produção. A maior parte dessa madeira, cerca de 70%, é usada na construção civil. Eu lembro de ter visto pranchas de madeira de lei de excelente qualidade sendo usadas para o escoramento de valas em diversas obras da rede de esgotos, um verdadeiro crime econômico e ambiental.  

A extração ilegal dessas madeiras amazônicas normalmente é feita em combinação com a grilagem de terras públicas. Os grileiros se associam com os madeireiros, recebendo uma porcentagem dos lucros com a venda das madeiras. As equipes dos madeireiros realizam “a limpeza” das áreas, derrubando toda a vegetação – muitas vezes é usada a técnica de arrasto, onde dois potentes tratores puxam uma extensa e pesada corrente, que derruba todas as árvores que encontram pelo caminho.  

Após a derrubada, os madeireiros selecionam os troncos de valor comercial, que são cortados e transportados para as serrarias. As demais árvores são deixadas a secar e depois de algum tempo são queimadas, liberando as áreas para a formação de campos agrícolas ou pastagens.  

A “indústria” da exploração ilegal de madeiras na Amazônia se vale da precária fiscalização das autoridades Estaduais e Federais, das sofisticadas técnicas para a falsificação das autorizações de corte e transporte das toras e, principalmente, das colossais dimensões da Floresta Amazônica.  

Mesmo com o uso de sistemas de monitoramento via satélite, o tempo de resposta de uma equipe de fiscalização pode levar semanas – os madeireiros já terão feito o seu “trabalho” de corte e transporte das madeiras e, os eventuais resíduos florestais ou provas do crime, já terão sido transformados em cinzas.  

É essa a dinâmica dos grandes desmatamentos na região, especialmente no chamado “Arco dos Desmatamentos”, uma extensa faixa que inclui o Sudoeste do Pará, Norte de Mato Grosso, Rondônia e Acre, ocupando uma área total com mais de 500 mil km².  

A ilegalidade também se faz presente nas cargas de madeiras exportadas pela Região Amazônica. Usando todo um conjunto de documentos falsificados, as toras são “esquentadas” e transformadas em produtos “legais”. Essas toras passam pelo beneficiamento (é proibido exportar toras brutas) e são embarcadas em contêineres marítimos para exportação. Para os compradores, a madeira foi extraída legalmente e não há qualquer irregularidade na sua compra.  

Um dos maiores compradores de madeira Amazônica é a China, país famoso por fazer “concessões” à legalidade. Interessados em garantir o crescimento contínuo das suas empresas, os chineses fazem “vista grossa” a muitos detalhes da documentação oficial e compram grandes lotes de madeira de alta qualidade e “ilegalidade”.  

A exploração ilegal e irracional de madeira na Região da Amazônia contribui muito na exposição do Brasil como o “grande vilão da ecologia mundial”, o que vem abrindo espaços cada vez maiores para os discursos de políticos ecologistas e também de ideias intervencionistas.  

Como tudo o que envolve a Floresta Amazônica é altamente complexo, reverter essa situação não é nada fácil. O uso de técnicas de monitoramento remoto via imagens de satélite para a emissão e validação dos documentos de autorização para derrubada e transporte das toras é uma das alternativas.  

As autorizações devem ser no formato de protocolos digitais, com rápida confirmação on line, extinguindo-se, de uma vez por todas, os formulários e carimbos de órgãos públicos, fáceis de falsificar e difíceis de rastrear. Como o número de rodovias que cortam a Amazônia é relativamente pequeno, postos de fiscalização estrategicamente localizados poderão bloquear a maior parte das cargas ilegais de madeira.  

No papel a coisa pode até parecer fácil, porém, fazer esse tipo de controle in loco é uma tarefa literalmente hercúlea… 

ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: OS SOLOS POBRES DA FLORESTA AMAZÔNICA 

A tão falada e defendida Floresta Amazônica ocupa uma área total entre 5,5 e 6,7 milhões de km² a depender da fonte consultada. Essa floresta ocupa extensas áreas no Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. A Floresta Amazônica está contida na Bacia Amazônica, um mundo de águas que ocupa uma área de mais de 7 milhões de km². 

No Brasil, a Floresta Amazônica ocupa uma área com aproximadamente 4,5 milhões de km², abrangendo todo o território da Região Norte do País, o Norte de Mato Grosso e pequenas faixas dos Estados do Tocantins e do Maranhão. Existe ainda a chamada Amazônia Legal, uma região criada com o objetivo de desenvolver economicamente a região e que ocupa uma área total de 5,2 milhões de km². 

Todos os números relacionados a Amazônia são sempre superlativos – tamanho dos territórios, extensões dos rios, volumes de chuvas, diversidade de biomas e de espécies animais e vegetais, entre muitos outros. Existe um item, entretanto, onde a Amazônia decepciona até o mais entusiasta dos ecologistas – a fertilidade dos solos. 

Apesar de toda a sua opulência de maior floresta equatorial ou tropical do mundo, o bioma Amazônico está assentado sobre solos de baixíssima fertilidade. De acordo com informações da UFPA – Universidade Federal do Pará, 92% dos solos da Região Amazônica apresentam uma baixa fertilidade natural, enquanto que apenas 8% são de elevada fertilidade.. 

Os solos naturais da Amazônia são dos tipos arenosos e argilosos, muito pobres em nutrientes – a imponência da vegetação da grande floresta pode até passar uma impressão diferente. Um dos segredos dos solos da Amazônia é a grossa camada de húmus formado pelo acúmulo de folhas e árvores caídas, e também pela decomposição dos corpos de animais mortos. Ou seja, é a própria floresta que gera grande parte dos nutrientes que sustentam a floresta, numa espécie de “moto perpétuo”.  

Outra importante fonte de nutrientes para a manutenção da vida vegetal são os sedimentos minerais que são carreados pelas águas dos rios. Uma das principais fontes desses sedimentos são as montanhas da Cordilheira dos Andes, onde minerais importantes como o fósforo e o potássio, nutrientes essenciais para as plantas, são encontrados. Importantes rios formadores da Bacia Amazônica nascem na Cordilheira dos Andes. 

O Deserto do Saara, localizado no Norte da África, por mais improvável que possa parecer, também contribui a seu próprio modo para a nutrição da Floresta Amazônica. Os fortes ventos alísios que sopram no sentido Leste-Oeste carregam grandes quantidades de areia e sedimentos finos através do Oceano Atlântico e parte acaba caindo sobre a Floresta Amazônica. 

De acordo com estudos feitos em 2019, pelo Goddard Space Flight Center, instituição ligada à NASA – Administração de Aeronáutica e Espaço dos Estados Unidos, na sigla em inglês, cerca de 27 milhões de toneladas de areia do Deserto do Saara são carregadas pelos ventos para a Amazônia a cada ano. Essa areia transporta um volume com cerca de 22 mil toneladas de fósforo. 

A manutenção dessa curiosa fertilidade, entretanto, depende da preservação da cobertura vegetal da floresta. Sempre que uma grande área da floresta é derrubada para a implantação de campos agrícolas ou formação de pastagens para o gado, essa camada fértil criada pelo acúmulo de húmus e sedimentos minerais passa a ficar exposta às fortes chuvas da região. As águas passam a “lavar” os solos, que gradualmente perdem a sua camada fértil. 

De acordo com estimativas do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, cerca de ¼ da área total desmatada na Amazônia, algo equivalente a 165 mil km², está abandonada ou subutilizada. E uma das principais razões desse abandono é justamente a perda acentuada de fertilidade dos solos para usos agrícolas. Ou seja – desmatar o bioma acaba sendo um péssimo negócio para todos. 

Uma das raras exceções amazônicas no quesito fertilidade de solos são as chamadas “terras pretas de índio”. Esse tipo de solo foi criado artificialmente por antigas populações indígenas que ocuparam a região Amazônica num passado distante – algumas estimativas remetem a 4 mil anos atrás. 

Na década de 1870, exploradores e naturalistas que viajavam por diferentes partes da Amazônia passaram a observar extensas manchas de solo escuro e profundo, de excepcional fertilidade. Com o passar dos anos e com desenvolvimento de novos estudos sobre esses solos escuros, descobriu-se que os teores de carbono nessas áreas eram muito mais altos que os valores médios de outros solos – cerca de 150 gramas de carbono para cada kg de solo, enquanto a média era de 20 a 30 gramas. 

Esses solos também se destacavam pelos altos teores de fósforo, cálcio, zinco, nitrogênio e manganês, além grandes quantidades de carvão, restos de cerâmica e resíduos de ossos. As técnicas que foram usadas por esses indígenas para a formação desse tipo de solo ainda são desconhecidas e vem sendo estudadas há muitos anos por especialistas de todo o mundo. 

Até onde os pesquisadores já conseguiram entender, o carbono foi fixado nos solos através da queima de materiais orgânicos na presença de pouco oxigênio. O carbono em alta concentrações melhora a absorção da água, o que facilita a penetração das raízes no solo e gera plantas mais resistentes. As características do carvão encontrado nas “terras pretas de índio” permitem uma longa retenção do carbono no solo, exatamente o contrário do que deveria acontecer na região Amazônica – essa retenção pode durar centenas ou milhares de anos.  

Estudos arqueológicos recentes indicam que a Floresta Amazônica foi densamente povoada no passado. Estimativas indicam populações entre 6 e 8 milhões de pessoas viviam na região e dependiam dessas terras pretas para a produção de alimentos. Não se sabe ao certo o que levou ao desaparecimento de toda essa gente, mas, o que é certo é que as terras abandonadas voltaram a ficar cobertas pela vegetação da floresta. 

Os pesquisadores calculam que essas terras pretas ocupam algo entre 1% e 10% de toda a área da Floresta Amazônica. A recriação dos mecanismos de formação dessas terras pretas poderá resultar numa excepcional alternativa econômica para regiões de solos pobres em todo o mundo, onde as populações locais se esforçam muito para obter poucos frutos da terra. 

Com solos extremamente pobres e/ou com manchas de alta fertilidade, a Floresta Amazônica é toda cheia de mistérios e de limites ambientais. É preciso estudar muito para que aprendamos a explorá-la da forma mais sustentável possível. 

ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: A BACIA AMAZÔNICA

A Bacia Amazônica ocupa uma área com mais de 7,5 milhões de km², onde se encontram mais 1.000 rios e várias dezenas de milhares de pequenos cursos de água. Alguns dos rios formadores da bacia hidrográfica entram na lista dos maiores rios do mundo a exemplo dos rios Negro e Madeira. 

O principal curso da bacia hidrográfica é o Amazonas, o segundo maior rio do mundo em extensão, com quase 7 mil km das nascentes até a foz. Esse é o rio com maior fluxo de água do Planeta – calcula-se que um volume entre 12% e 20% de toda a água doce do mundo flua através dos rios e ares (os chamados “rios voadores”) da Bacia Amazônica e, mais cedo ou mais tarde, essa água irá atingir a calha do rio Amazonas.   

A bacia Amazônica se espalha por 7 países: Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela e Guiana. O Suriname e a Guiana Francesa, países que estão nos domínios da Floreta Amazônica não ficam dentro da Bacia Amazônica. 

A Amazônia – floresta e bacia hidrográfica, formam um verdadeiro mundo de águas. Para que todos entendam em profundidade o que isso significa, prestem atenção nessa conceituação a seguir:  

Algumas estimativas científicas indicam que um volume equivalente a 383 mil km³ de água evapore dos oceanos a cada ano (dependendo da fonte consultada, você poderá encontrar valores diferentes deste). Para que você tenha uma ideia mais precisa do que é esse volume, ele equivale a uma camada de 1,06 metro da superfície de todos os oceanos do mundo: Pacífico, Atlântico, Índico, mares polares, Mar Mediterrâneo, entre outros.  

É claro que nas regiões mais frias do Planeta a quantidade de água evaporada é muito pequena – nas regiões mais quentes, especialmente ao longo da Linha do Equador, a quantidade de água evaporada pelo calor do sol será bem maior do que o valor médio indicado.  

Essa inacreditável quantidade de água na forma de vapor é colocada em circulação ao redor do nosso Planeta pela força dos ventos, elemento esse que também é influenciado pelas diferentes temperaturas ao redor do globo terrestre.  

Em algum momento, quando o vapor esfria, a água volta ao estado líquido e é precipitada de volta a superfície do Planeta – cerca de 75% das chuvas caem de volta sobre os oceanos e os 25% restantes vão cair sobre os continentes, na forma de chuva, neve, granizo ou sereno.   

O volume total dessa precipitação sobre os continentes equivale a mais de 95 mil km³ – isso pode parecer muita coisa a princípio, mas esse volume equivale a menos de 0,5% da água existente no Planeta inteiro: 97,5% da água existente na Terra é salgada, ou seja – água do mar, imprópria para o consumo. 

A água doce ou potável, corresponde a apenas 2,5% do volume de água existente no Planeta, sendo que a maior parte está congelada nos Polos e nas geleiras, e grande parte se encontra em aquíferos e lençóis subterrâneos de difícil acesso.  

A região onde se encontra a Bacia Amazônica intercepta 1/5 de todo o volume de vapor de água das áreas continentais, que se precipita na forma de chuva – são quase 20 mil km³/ano de água que irão cair sobre os solos da região e, na sua maior parte, vão fluir pelos rios, riachos, lagos e igarapés, até atingir a calha do poderoso rio Amazonas, que muitas vezes é chamado, e com toda a razão, de “rio-mar”.  

O caudal médio do rio Amazonas, termo que indica o volume total de água que corre pela calha do rio, corresponde a 209 mil m³ por segundo – isso significa que, a cada 10 segundos, um volume de água equivalente à Baía da Guanabara é lançado pela foz do rio Amazonas no Oceano Atlântico.  

Esse volume de água doce é tão grande que a salinidade do Oceano Atlântico é afetada numa distância de até 150 km da foz. O Nilo, o maior rio do mundo em extensão (é cerca de 300 km mais longo que o Amazonas), tem um caudal médio 60 vezes menor que o do nosso grande rio.  

Esse grandioso rio, ao contrário do que talvez possa parecer, nasce em pequenas fontes no alto da Cordilheira do Andes no Peru. A água dessas nascentes surge a partir do gotejamento de geleiras no alto das montanhas, que derretem vagarosamente ao longo do ano.  

Ainda não existe um consenso científico sobre qual é a nascente mais longínqua do rio Amazonas – a certeza que temos é que dezenas de pequenos fios de água vão se juntando e formando pequenos córregos, que por sua vez se transformam em pequenos rios, que mais tarde se transformarão nos grandes afluentes do rio Amazonas.  

Entre os inúmeros afluentes do rio Amazonas, destacam-se os rios: Napo, Javari, Jandaiatuba, Putumayo (chamado Içá no Brasil), Jutaí, Juruá, Japurá, Tefé, Coari, Piorini, Purus, Negro, Madeira, Manacapuru, Uatumã, Nhamundá, Trombetas, Tapajós, Curuá, Maicuru, Uruará, Paru, Xingu e Jari. Se você consultar as postagens do blog, vai ver que já falamos de alguns desses rios (sublinhados), mas ainda há muitos outros para se falar.  

As águas da Bacia Amazônica são as veias que alimentam a vida na Floresta Amazônica, o maior sistema florestal equatorial do mundo (a maior floresta do mundo, ao contrário do que muitos afirmam, é a Taiga ou Floresta Boreal). Calcula-se que mais de 1/3 de todas as espécies animais e vegetais do mundo vivam na Amazônia – somente em espécies de peixes, já se conhecem mais de 2.100 espécies diferentes e, a cada dia, se descobrem novas espécies.  

A largura média do rio Amazonas se situa entre 6 e 8 km – no período das chuvas, essa largura pode chegar à casa dos 50 km em alguns trechos, com uma profundidade média entre 20 e 50 metros. Isso significa que, com as devidas cautelas de navegação por causa dos bancos de areia, um navio superpetroleiro ou um grande navio de cruzeiro podem navegar tranquilamente nas águas do “rio-mar”.  

Com a mesma cautela na navegação e a depender da época do ano, cargueiros de grande porte podem entrar na calha do rio Amazonas e atingir portos fluviais na Colômbia, Peru e Equador – nenhum outro rio do mundo se aproxima tanto de um mar como o rio Amazonas.  

Todo esse “mundo” de águas doces, porém, não está a salvo de secas grandiosas como aquelas registradas em tempos recentes como 1963, 2005 e 2010, quando rios caudalosos acabaram transformados em filetes d’água.  

O fluxo de massas de vapor que segue continuamente na direção da região Amazônica está no centro da manutenção das chuvas periódicas que alimentam os rios e regulam o clima da região. Mudanças climáticas globais poderão mudar toda essa dinâmica e alterar o funcionamento dessa grande máquina viva chamada Bacia Amazônica. 

ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: A FLORESTA AMAZÔNICA

A Floresta Amazônica se distribui por uma área com aproximadamente 5,4 milhões de km², ocupando terras na Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. A maior parte dessa floresta, cerca de 60%, se encontra dentro do território do Brasil. 

Essa imensa massa florestal, nem de longe, é uma floresta homogênea com a Taiga ou Floresta Boreal das altas latitudes do Norte do planeta. A Amazônia é um grande mosaico de sistemas florestais, ou, como eu costumo chamar, uma verdadeira “colcha de retalhos” (patchwork), onde subsistemas florestais diferentes convivem lado a lado. 

Conforme o autor ou a fonte pesquisada, a Floresta Amazônica pode ser dividida em uma infinidade de subsistemas florestais. Para facilitar a didática dessa postagem, vamos usar uma das divisões mais simples, onde a Floresta Amazônica é dividida em floresta de terra firme, floresta de várzea, floresta de igapó, manguezais, campos de várzea, campos de terra firme, campinas, vegetação serrana e vegetação de restinga. 

As chamadas florestas de terra firme são áreas florestais que se ocupam solos que não estão sujeitos as grandes inundações anuais dos rios da Amazônia. Essas áreas têm como principal característica a presença de árvores de grande porte que podem alcançar até 60 metros de altura. Nessas florestas de vegetação densa a luz solar não consegue atravessar o dossel da copa das árvores, o que resulta em uma vegetação rasteira rala. 

As florestas de várzea, ao contrário, são sistemas florestais que se desenvolvem ao longo das várzeas inundáveis da Bacia Amazônica. Os rios dessa gigantesca bacia hidrográfica se caracterizam pela alternância de ciclos de cheia e de vazante, onde o nível das águas pode variar em até 15 metros conforme a estação. 

Durante o período das cheias, essas águas barrentas cobrem os solos pobres com uma grosa camada de sedimentos carregados de nutrientes. Essa dinâmica de águas se reflete numa vegetação especializada e adaptada, que possui uma diversidade bem menor que nas florestas de terra firme. 

Outro sistema florestal típico da Amazônia são as matas ou florestas de igapó, um tipo de vegetação que se desenvolve em terrenos baixos e frequentemente inundados (vide foto). Esse tipo de vegetação ocupa cerca de 8% da Floresta Amazônica. Uma planta típica dessas áreas é a vitória-régia, um dos símbolos da Amazônia. 

As espécies vegetais dos igapós são altamente adaptadas as condições ambientais dos terrenos alagadiços. A maioria das árvores tem altura entre 4 e 5 metros, com algumas raras espécies que podem atingir alturas de até 20 metros. Bromélias e orquídeas de diversas espécies são comuns nessas áreas. 

Os campos de várzea ou simplesmente várzeas são faixas alagáveis ao longo dos grandes rios onde se alternam uma temporada com solos secos e outra com solos encobertos pelas águas durante as cheias. Essas áreas possuem uma vegetação perfeitamente adaptada a esses diferentes ciclos. Essa faixa de terras costuma ser dividida em várzea alta e várzea baixa. 

A várzea alta apresenta um tempo de inundação menor e seca completamente durante o período da vazante. Caracteriza-se pela presença de espécies arbóreas como a sumaúma, assacu, andiroba e copaíba, além de palmeiras. A várzea baixa é a faixa de terras que fica mais próxima do leito dos rios e que se mostra inundada pela maior parte do ano. A vegetação predominante é de espécies de palmeiras como o açaizeiro e o buriti. 

As áreas de várzeas da Amazônia são as mais procuradas pelas populações tradicionais que sobrevivem do extrativismo vegetal, especialmente do açaí, da seringueira e da andiroba. Essas áreas também permitem a produção de culturas de milho, mandioca, arroz, cupuaçu, cana-de-açúcar e diversas espécies de frutas. 

Nos trechos da Floresta Amazônica que ficam próximos do Oceano Atlântico, especialmente no litoral do Amapá e do Pará, além da região do delta do rio Amazonas, se encontram regiões cobertas por manguezais e restingas. 

Os manguezais ou mangues, como são chamados popularmente, são ecossistemas costeiros de transição entre os ambientes marinhos e terrestres. São encontrados nas regiões tropicais e subtropicais de todo o mundo, sendo encontrados em enseadas, barras, lagunas, foz de rios, baías e em outras formações costeiras onde as águas doces de rios e lagos se encontram com as águas marinhas, formando um ambiente de águas salobras.   

As áreas de mangues possuem uma vegetação adaptada ao regime das marés. São plantas com raízes bem desenvolvidas, conhecidas como halófilas, e perfeitamente adaptadas às águas salobras. Os solos dos manguezais recebem e acumulam grandes quantidades de sedimentos e de matéria orgânica em decomposição, sendo considerados um dos mais férteis do planeta. As áreas de restinga se formam nos depósitos de areia ao longo das praias, formando um mosaico de vegetação predominantemente rasteira. A restinga delimita o ambiente costeiro e a floresta continental. 

Do lado oposto da Floresta Amazônica, nos terrenos altos das encostas da Cordilheira dos Andes e do Maciço da Guianas, a vegetação assume características de floresta serrana ou alta montana. Esses terrenos podem atingir altitudes de até 2 mil metros, com altos níveis de unidade, ventos e temperaturas baixas. Essas regiões costumam apresentar solos rochosos onde se desenvolvem árvores de pequeno porte, algumas espécies de palmeira, gramíneas que lembram pequenos bambus, musgos e orquídeas. 

Entre esses dois extremos também encontramos diferentes formações de campos com características muitos semelhantes ao Cerrado. Muitos desses campos surgem como manchas de vegetação rasteira cercada de florestas com árvores altas por todos os lados. Apesar de parecerem o resultado de ações de desmatamento, esses campos são formações naturais. 

Esse gigantesco complexo de sistemas florestais abriga uma rica fauna com uma infinidade de espécies de mamíferos, aves, peixes, répteis e anfíbios, além de uma infinidade de insetos. A floresta também abriga uma enorme população humana – apenas no território brasileiro são cerca de 25 milhões de habitantes, onde se destacam as populações ribeirinhas e as populações tradicionais indígenas. 

A Floresta Amazônica é um mundo a parte.

ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: AMAZÔNIA

A Amazônia é, de longe, o maior e mais complexo bioma do Brasil. Serão necessárias diversas postagens para conseguirmos apresentar aos leitores do blog uma visão ampla da tão falada e ameaçada Amazônia. 

Antes de qualquer coisa é preciso ter em mente três conceitos diferentes: Bacia Amazônica, Floresta ou bioma Amazônico e, finalmente, Amazônia Legal. À primeira vista podem parecer a mesma coisa, mas, existem diferenças conceituais importantes para um bom entendimento da questão. 

Comecemos falando da Bacia Amazônica, um mundo de águas que ocupa uma área com mais de 7 milhões de km², onde se encontram mais 1.000 afluentes – alguns destes afluentes, como o Negro e o Madeira, entram na lista dos 10 maiores rios do mundo.  

O maior desses rios, o Amazonas, é o segundo maior rio do mundo em extensão (algumas fontes afirmam que é o maior), com quase 7 mil km das nascentes na Cordilheira dos Andes até a foz, no Oceano Atlântico e é, de longe, o rio com maior fluxo de água do Planeta – calcula-se que um volume entre 12% e 20% de toda a água doce do mundo flua através dos rios e ares (os chamados “rios voadores”) da Bacia Amazônica e, mais cedo ou mais tarde, essa água irá atingir a calha do rio Amazonas. 

As nascentes de alguns dos principais rios dessa bacia hidrográfica se formam nas encostas da Cordilheira dos Andes, distantes centenas de quilômetros da Floresta Amazônica. Um desses casos é o rio Beni, que nasce no trecho boliviano da Cordilheira dos Andes e que vai se juntar aos rios Mamoré e Guaporé para formar o rio Madeira, um dos principais afluentes do rio Amazonas. 

A Bacia Amazônica ocupa áreas no Brasil, Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela e Guiana. Observem que o Suriname e a Guiana Francesa, que são classificados como Países Amazônicos, não fazem parte da Bacia Amazônica. 

Passemos agora para a Floresta Amazônica, a maior floresta equatorial (que muitos chamam de floresta tropical) do mundo. É comum “especialistas” afirmarem que essa é a maior floresta do mundo: esse título pertence a Taiga, também conhecida como Floresta das Coníferas ou Floresta Boreal, um sistema florestal que ocupa cerca de 15 milhões de km² numa faixa de altas latitudes ao redor do Norte do nosso planeta. 

A área ocupada pela Floresta Amazônica é de aproximadamente 5,4 milhões de km², ocupando terras na Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa – mais de 60% da Floresta se encontra no Brasil. Algumas fontes afirmam que a floresta ocupa uma área total de até 6,7 milhões de km², o que provavelmente está incluindo várias áreas de transição entre biomas.

A área total da Floresta Amazônica equivale a mais da metade de todo o território europeu. Calcula-se que mais de 1/3 de todas as espécies animais e vegetais do mundo vivam na Amazônia – somente em espécies de peixes, já se conhecem mais de 2.100 espécies diferentes e, a cada dia, são feitas novas descobertas. 

Finalmente, precisamos falar da Amazônia Legal, um conceito jurídico que foi introduzido em meados da década de 1950 com o objetivo de estimular o desenvolvimento econômico da Região Norte do Brasil. A Amazônia Legal compreende uma área total de mais de 5,2 milhões de km², o que inclui toda a área coberta pela Floresta Amazônica no Brasil, além de todo o território dos Estados de Mato Grosso e Tocantins e uma parte do Oeste do Maranhão. 

O conceito da Amazônia Legal é uma das principais fontes dos problemas ligados às notícias de queimadas e à “transformação da Floresta Amazônica em cinzas”, temas muito comuns nas notícias veiculadas pela mídia internacional. 

Caso qualquer um dos leitores tenha a curiosidade de consultar um mapa de biomas, vai perceber facilmente que o bioma Amazônico ocupa apenas a faixa Norte do Estado do Mato Grosso, um pequeno trecho no Noroeste do Tocantins e uma faixa no Oeste do Maranhão. A maior parte do Mato Grosso e do Tocantins são cobertas pelo bioma Cerrado. No Maranhão, além do bioma Amazônico, existem áreas cobertas pelos biomas Cerrado e Caatinga

O Cerrado, conforme já tratamos em postagens anteriores, abriga as grandes frentes do avanço agrícola no país. Esse bioma apresenta solos de baixa fertilidade e de grande acidez, problemas que durante séculos impediram seu aproveitamento em larga escala para atividades agropecuárias.  

Com o desenvolvimento de sementes adaptadas para esse bioma pela Embrapa –Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, na década de 1970, e de técnicas de correção de solos como a calagem, o Cerrado virou um dos principais celeiros da agropecuária do país. O Cerrado do Mato Grosso é uma espécie de “carro chefe” de toda essa expansão e, por estar totalmente inserido na chamada Amazônia Legal, está sempre colocando a “Amazônia” nas manchetes. 

Para muita gente, a Floresta Amazônica é um enorme tapete de matas verdes e homogêneas que se estende do Oceano Atlântico até os sopés da Cordilheira dos Andes, formando os “pulmões do mundo”. A foto que ilustra esta postagem é um exemplo dessa imagem. Essa visão romantizada do bioma, que é compartilhada por ecologistas e “especialistas” de todo o mundo, é totalmente falsa. 

A Floresta Amazônica é, na verdade, um grande mosaico ou “colcha de retalhos” (patchwork), como eu costumo chamar, apresentando todo um conjunto de sistemas florestais. Usando apenas uma dentre muitas divisões da vegetação, a floresta pode ser subdividida em floresta de terra firme, floresta de várzea, floresta de igapó, manguezais, campos de várzea, campos de terra firme, campinas, vegetação serrana e vegetação de restinga. 

Um exemplo da complexidade da Floresta Amazônica são os campos, um subsistema florestal muito parecido com o Cerrado Brasileiro e que foge totalmente da imagem da floresta com árvores altas e frondosas. Esses campos naturais surgem na forma de grandes manchas de vegetação rala cercada por árvores altas. À primeira vista, um observador inexperiente poderá até imaginar se tratar de uma área que foi desmatada. 

Um caso típico é Roraima, Estado amazônico que tem mais de 1/3 de seu território coberto por campos e lavrados, um tipo de vegetação aberta como as savanas africanas e estepes asiáticas. Outro desses casos é Rondônia, onde 30% da superfície era ocupada por cerrados e cerradões, áreas que passaram a ser usadas para agricultura e pecuária. 

Estudos recentes realizados pela Embrapa resultaram na criação de uma variedade de trigo especialmente adaptada para as condições de solo e de clima do Cerrado. Projetos experimentais em áreas do bioma na Bahia e em Goiás mostraram-se excepcionalmente produtivos, aliás, bem mais produtivos que a Região Sul do país, onde a cultura já é tradicional. Os campos e lavrados de Roraima despontaram como potenciais candidatos à produção desse novo trigo. 

A exemplo do que aconteceu nos cerrados e cerradões de Rondônia, a introdução da cultura do trigo em Roraima não implicaria na derrubada de áreas de matas da Amazônia. A pergunta que fica – como os ecologistas e os defensores da Amazônia veriam isso? 

Essa questão é apenas uma amostra da complexidade do bioma Amazônico e de todos os desafios para a sua exploração racional e preservação. 

ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: A HISTÓRICA DEVASTAÇÃO DA CAATINGA

A Caatinga ou os Domínios da Caatinga é um imenso mosaico de sistemas vegetais especialmente adaptados para as condições climáticas do chamado Semiárido Brasileiro. É o único bioma totalmente brasileiro e se espalha por todos os Estados do Nordeste, além de ocupar uma faixa no Norte de Minas Gerais. 

A Região do Semiárido Brasileiro compreende 925.043 km², ou seja, 55,6% da área da Região Nordeste. Estima-se que uma população de 23,5 milhões habite a região (dados de 2014).  A vegetação, em função do clima e dos tipos de solo, pode ser dividida, de forma muito rudimentar em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos.  

O povoamento da região do semiárido e os problemas ambientais na Caatinga começaram nas primeiras décadas da colonização do Brasil, quando os criadores de bois foram expulsos da região dos canaviais no litoral. Inclusive, uma carta régia, assinada pelo rei de Portugal, previa sérias penalidades à criação de gado a menos de 60 quilômetros dos canaviais.  

Expulsos da faixa costeira, homens e bois foram penetrando nos sertões e descobrindo em poucos anos o vale do Rio São Francisco, que viu suas margens ficarem cheias de fazendas e de boiadas. Nas estradas criadas para levar as boiadas para venda no litoral foram surgindo pequenos povoados e, em poucas décadas, todos os recantos dos sertões estavam cheios de gentes e de rebanhos.  

Os criadores perceberam já nos primeiros anos que os escassos campos entre os caatingais eram insuficientes para suprir a alimentação dos animais e se começou a prática de queimar as árvores para se aumentar, artificialmente, as áreas de campos. Com o crescimento dos rebanhos por toda a região do semiárido, essa prática se generalizou e já provocou alterações em mais de 70% da área da Caatinga. Em diversas regiões estão surgindo manchas de desertificação devido a superexploração dos solos provocada pelo excessivo número de rebanhos. 

A caprino-ovinocultura é a principal atividade agropecuária do sertão nordestino. A produção de caprinos, animais de pequeno porte extremamente adaptáveis às condições mais adversas impostas pelo clima, se moldou perfeitamente aos sertões semiáridos nordestinos, que detém o maior rebanho dessa espécie no Brasil, com aproximadamente 9 milhões de animais, mesmo número do rebanho de ovinos da região.  

O rebanho bovino no Nordeste tem aproximadamente 30 milhões de cabeças, grande parte vivendo em áreas do semiárido. Ainda é preciso incluir neste cálculo um rebanho com, talvez, 700 mil cavalos e de 900 mil asnos, onde estão incluídos os bons e velhos jumentos, burros e mulas que já foram os companheiros de vida e de trabalho de muitos nordestinos. 

Um exemplo dessa superpopulação é o que se vê na região da bacia hidrográfica do rio São Francisco, a mais importante do semiárido brasileiro. Das mais de 15 milhões de pessoas que vivem dentro da região da bacia hidrográfica, pelo menos 30% vivem no semiárido nordestino, o que representa quase o dobro da população que vive no Saara, o maior deserto do mundo, e transforma o nosso semiárido no mais habitado de todo o planeta.  

Todas as práticas de agricultura e pecuária, mineração, extrativismo dos mais diversos, ocupações urbanas de tamanhos diferentes, enfim – todos os usos e abusos ambientais que se desenvolveram por todos os cantos da região do semiárido, são encontradas também nas margens de todos os riachos e rios que alimentam o Velho Chico. 

A exceção de municípios como Petrolina em Pernambuco, com 338 mil habitantes, e Juazeiro e Barreiras na Bahia, com 200 mil e 138 mil habitantes respectivamente, a bacia hidrográfica do Velho Chico nos domínios do semiárido é formada por centenas de municípios com populações abaixo dos 40 mil habitantes, distribuídos em pequenas cidades, vilas e povoados dispersos por uma gigantesca região.  

Por todos os cantos se encontram pequenas propriedades rurais familiares, com seus pequenos roçados de subsistência e suas criações de bois, bodes e ovelhas. Em cada uma dessas pequenas propriedades são feitas queimadas frequentes para a preparação do solo para mais um plantio. Também há coleta de lenha para uso nas cozinhas, muitas vezes sendo necessária a derrubada de árvores.  

Os rebanhos pastam soltos pelos campos comendo tudo o que está disponível para se comer. Para a construção e manutenção das suas casas ou para realizar seus ofícios, os sertanejos usam as matérias primas disponíveis ao seu redor. Somando-se todos os bichos e gentes espalhados por todos os recantos do semiárido, são muitas bocas para se alimentar – bocas de gentes e de bichos, dentro de um ecossistema com tantas limitações. 

Essa superexploração dos recursos naturais do semiárido se refletem no Rio São Francisco – a redução sistemática no volume dos caudais do rio é indicativa do uso intensivo das águas nas centenas de afluentes da bacia hidrográfica. O assoreamento que se vê por todos os recantos ao longo do seu curso mostra que as matas ciliares de todos esses afluentes sofrem com o intenso desmatamento, com práticas agrícolas insustentáveis e com mineração descontrolada nas terras ao longo das suas margens.  

A baixa qualidade das suas águas mostra que cidades e vilas captam grandes volumes de águas frescas e limpas dos rios e devolvem esgotos sem qualquer tipo de tratamento – resíduos sólidos de todos os tipos, despejados por essas vilas e cidades em lixões improvisados, sempre acabam alcançando as águas de algum afluente e chegam por fim na grande calha do São Francisco. 

De acordo com algumas projeções oficiais, cerca de 50% da vegetação da Caatinga Nordestina já foi impactada por atividades humanas, o que colocada o bioma em posição semelhante ao Cerrado e aos Pampas Sulinos em termos de devastação, só ficando atrás da destruição ocorrida na Mata Atlântica. 

Com suas características peculiares de flora e fauna, muitas vezes tratadas como pobres quando comparadas a exuberância da Floresta Amazônica ou ao Pantanal Mato-grossense, a Caatinga tem uma enorme importância dentro do fabuloso conjunto de mosaicos ambientais do Brasil, merecendo toda a nossa atenção e cuidado. 

ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: CAATINGA

A Caatinga é o único bioma ou sistema florestal totalmente brasileiro, com plantas e animais perfeitamente adaptados a um clima sujeito a longos períodos de estiagem. A Região do Semiárido ou Domínio da Caatinga compreende 925.043 km², ou seja, 55,6% do Nordeste brasileiro. Estima-se que uma população de 30 milhões de pessoas habite a região.  

A Caatinga engloba áreas dos estados nordestinos do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e Bahia, possuindo o mais baixo índice pluviométrico do território brasileiro. Uma microrregião do Norte do Estado de Minas Gerais, também de clima semiárido, é associada ao sertão Nordestino numa conceituação geográfica conhecida como Polígono das Secas.  

A característica mais marcante dessa extensa área territorial é o seu clima semiárido do tipo tropical seco, com chuvas escassas e irregulares. A região possui uma média de temperatura elevada. O solo do sertão é em geral pouco espesso apresentando manchas de solos argilosos muito férteis, principalmente nas depressões e nos baixios. Os solos nessas manchas formam os chamados tabuleiros aluvionais e as várzeas de tabuleiros. 

Como acontece em qualquer grande bioma, a vegetação da caatinga não é uniforme e se constitui numa verdadeira “colcha de retalhos”. Em função do clima e dos tipos de solos, essa vegetação pode ser dividida, de forma muito rudimentar, em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos. 

A região conhecida como agreste constitui uma faixa de transição entre o Nordeste semiárido e espinhento e o outro Nordeste úmido da Zona da Mata, ocupada pelos canaviais. Os rios e as fontes de água dessa região nunca secam por completo nos verões, mantendo sempre um magro filete de água ou pequenas poças. A vegetação do agreste é chamada genericamente pelos botânicos de florestas espinhentas  

A região da caatinga pode ser definida como o reino das cactáceas. No solo ríspido e seco abundam as espécies conhecidas como coroas-de-frade e os mandacarus. As árvores de pequeno porte e arbustos completam a paisagem. É a região de maior aridez do sertão, que nas épocas mais secas vê desaparecer a água dos rios e dos açudes.  

Na região conhecida como alto sertão, o clima se ameniza levemente, com vegetação do tipo de savana e com faixas verdes dos carnaubais ao redor dos vales férteis da região. As espécies de cactáceas são mais raras no alto sertão. Pode ser classificada como uma área de transição entre o semiárido e o Cerrado.  

Ao contrário da imagem estereotipada de árvores eternamente secas e retorcidas, a vegetação do semiárido é altamente especializada em função do clima e acompanha a disponibilidade da água: quando chove, a vegetação se apresenta verdejante – já em épocas de seca, as folhas das árvores caem como forma de conservar a energia das plantas e se sobressaem as cactáceas como o mandacaru, o xiquexique e a coroa-de-frade.  

Um exemplo da adaptação da vegetação do sertão é a babugem, uma vegetação rasteira de rápido crescimento, que em poucos dias após as primeiras chuvas pinta o chão da Caatinga de verde, a cor da esperança, e faz surgir toda uma infinidade de flores coloridas – o sertão renasce das cinzas tal qual a mitológica fênix. 

A flora de toda a região passou por um intenso processo de adaptação à falta de água e a umidade do ar. Um dos exemplos mais espetaculares é o do frondoso cajueiro da praia que se transformou no cajuí do sertão, com folhas reduzidas e imensas raízes. Várias espécies de bromélias se adaptaram ao clima, incluindo-se as macambiras, cróias e croatais.  

Outras espécies, típicas de áreas desérticas como as cactáceas, são as mais adaptadas às condições físicas do sertão, incluindo-se aí as palmas, os mandacarus, os xique-xiques e os facheiros. São plantas de valor inestimável para alimentação dos gados e das gentes do sertão em épocas de secas extremas.  

Nos terrenos mais altos das serras como a do Araripe, de Baturité e da Borborema, a maior quantidade de chuvas e principalmente a estrutura diferente do solo dão origem a uma vegetação de aspecto mais doce, com tons de verde mais úmido e carregado, semelhante à vegetação das chamadas áreas de brejo. Essas áreas formam verdadeiros oásis de grande importância na vida econômica e social do sertão.  

A fauna sertaneja também é altamente especializada e adaptada às condições do meio ambiente. Segundo informações disponíveis, haja vista que é uma das regiões menos estudas do Brasil, já foram identificadas oficialmente 348 espécies de aves e 148 espécies de mamíferos. A maioria dos mamíferos do bioma tem hábitos noturnos e possui uma coloração na pelagem que se confunde com o meio, o que torna difícil sua observação e contabilização exata da quantidade local de espécies endêmicas.  

A região também possui inúmeras espécies de répteis e anfíbios. Como grandes áreas do sertão nordestino já tiveram suas características originais alteradas ou destruídas desde o início da colonização do Brasil, nunca teremos certeza do total de espécies da fauna já extintas pela ação humana. Exemplos ainda encontrados e de grande representatividade da fauna local são o veado-catingueiro, a capivara, a onça parda ou suçuarana, o sagui-de-tufo-branco, as cotias, os preás, os gambás, o tatupeba, a simbólica asa branca eternizada pela música de Luiz Gonzaga e o sapo-cururu da poesia de Manuel Bandeira.  

As primeiras expedições exploratórias que alcançaram o Semiárido Nordestino, ainda nos primeiros tempos da colonização, buscavam especialmente ouro e pedras preciosas. Encontraram uma terra de clima e vegetação bastante diferente da luxuriante vegetação da Mata Atlântica litorânea, tribos indígenas hostis e nenhuma evidência de ouro ou pedras preciosas. 

Esses exploradores passaram a se referir a essa imensa região como um “desertão” de gentes e de animais domésticos. A gente simples do litoral simplificou essa palavra e todos passaram a se referir ao semiárido como sertão – e as gentes que aos poucos passaram a ocupar essas paisagens foram batizadas de sertanejos. 

Coisas da história e da cultura do Brasil… 

ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: A AGROPECUÁRIA E O CERRADO

O bioma Cerrado ocupa mais de 2 milhões de km² e abrange áreas nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí, Rondônia, Paraná, São Paulo e Distrito Federal, além dos encraves no Amapá, Roraima e Amazonas (que são chamados de Campos Amazônicos). 

Formado por solos considerados pobres e de baixa fertilidade, o Cerrado ficou relegado a um segundo plano na história econômica brasileira por muito tempo. Nas últimas décadas, com o desenvolvimento de tecnologias para a correção dos solos e criação de sementes de grãos adaptas especialmente para o plantio no bioma, o Cerrado foi transformado no mais importante celeiro agrícola do Brasil. 

Falando apenas da soja, o grão mais importante produzido no país: mais de 60% da produção está concentrada em áreas de Cerrado. Essas terras também se destacam na produção de algodão e milho, entre outras culturas, além de uma pecuária de alta produtividade. 

O verdadeiro “pulo do gato” dessa revolução agrícola começou na década de 1970, com o desenvolvimento pela Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, de grãos especialmente adaptados para o clima e solos do Cerrado, com destaque para a soja

De um modo geral, os solos do Cerrado possuem uma baixa fertilidade natural, são altamente permeáveis e possuem uma baixa capacidade de reter água nas camadas superficiais. Completando o quadro, esses solos possuem altos teores de ferro e de alumínio em sua composição. Também é preciso destacar que possuem grandes reservas de água no subsolo. 

A vegetação nativa do bioma passou por uma série de mudanças evolutivas, se adaptando para essas condições ambientais. Essas plantas desenvolveram sistemas de raízes maiores e mais profundas como estratégia para contornar esses problemas nos solos. 

Os cultivos comerciais mais tradicionais como a soja e o milho possuem raízes curtas e, portanto, não se desenvolviam adequadamente nos solos do bioma. Depois de 10 anos de pesquisas e de melhoramentos genéticos nas plantas, a Embrapa lançou a variedade de soja “Doko”, um cultivar especialmente adaptado para os solos do bioma Cerrado, em 1980. De lá para cá a empresa lançou mais de 50 variedades de soja especialmente adaptadas para o Cerrado. 

Além da soja, a Embrapa desenvolveu inúmeras outras variedades de culturas agrícolas adaptadas para o Cerrado, com destaque para o milho e o feijão, o algodão herbáceo, além de plantas como a mandioca e a cana-de-açúcar. Um dos mais recentes sucessos da empresa é o trigo

Desde 2012, pesquisadores da EMBRAPA vinham trabalhando na tropicalização do trigo, cultura que se adaptou muito bem ao clima subtropical do Sul do Brasil. Cerca de 90% da produção brasileira de trigo, estimada em 7,7 milhões de toneladas, está concentrada em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. O consumo brasileiro é de 12,7 milhões de toneladas, o que obrigada a importação de mais de 5 milhões de toneladas a cada ano.  

Os esforços dos pesquisadores levaram à criação das variedades de trigo BRS 264, BRS 394 e BRS 404, todas adaptadas para o cultivo no Cerrado. Plantios experimentais dessas variedades começaram a ser feitos em Goiás, no Distrito Federal e em Minas Gerais, onde se obteve uma produtividade acima da média brasileira. Em 2021, um produtor de Cristalina, em Goiás, obteve uma produtividade de 9,6 toneladas por hectare, mais de três vezes a média obtida no Sul do Brasil. 

A mais nova frente de pesquisas são os Campos Amazônicos de Roraima, que são muito parecidos com os do Cerrado. O plantio experimental foi feito no final de 2021 e os resultados da primeira colheita foram promissores. As variedades utilizadas foram as mesmas desenvolvidas para o Cerrado.  

A produtividade obtida em Roraima foi superior à do Sul do Brasil, com um período de desenvolvimento das plantas na faixa de 75 dias, enquanto na Região Sul esse período pode chegar aos 180 dias. As perspectivas para a cultura nas áreas de campos naturais da Amazônia são extremamente promissoras. 

Todos esses esforços em pesquisa e desenvolvimento não tardaram a mostrar resultados. Os antigos domínios do Cerrado concentram atualmente 36% de todo o rebanho bovino nacional, sendo que 30% dos solos do bioma foram transformados em pastagens para boiadas. Cerca de 63% da produção brasileira de grãos está concentrada no Cerrado, onde se inclui mais da metade de toda a produção brasileira de soja.  

Todo esse sucesso na agricultura e na pecuária, entretanto, acabou se voltando contra a fauna e a flora nativa desse grande bioma. Nas últimas décadas o Cerrado se transformou numa espécie de campeão nacional em desmatamentos e queimadas. 

Nos últimos dez anos o Cerrado foi o bioma brasileiro que sofreu a maior perda de área nativa – 50 mil km², área maior do que o território do Estado do Rio de Janeiro. A região conhecida como Matopiba, que incorpora áreas dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, é a maior fronteira agrícola atual de expansão da cultura da soja e apresenta as maiores perdas de vegetação e de espécies animais nativas do Cerrado. 

De acordo com dados do SAD Cerrado – Sistema de Alerta de Desmatamento, os desmatamentos registrados no bioma foram de 815.532 hectares em 2022, um crescimento de 20% em relação ao ano anterior.  

Outra grande ameaça ao bioma, que vem no encalço dos avanços da agricultura e da pecuária, são as grandes queimadas e incêndios florestais – foram 7,4 milhões de hectares queimados em 2022, de acordo com dados do Monitor do Fogo, uma iniciativa do MapBiomas Fogo em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia). 

Além das grandes ameaças a flora e a fauna do Cerrado, esses problemas impactam diretamente nos importantes recursos hídricos da região. Conforme já tratamos em diversas postagens aqui do blog, o Cerrado é o “berço das águas do Brasil” – 8 grandes bacias hidrográficas brasileiras têm nascentes no bioma: Paraguai, Paraná, Parnaíba, São Francisco, Tocantins/Araguaia, Atlântico Leste, Atlântico Nordeste Ocidental e Amazônica (cerca de 4% do total). 

Um único exemplo da importância dos recursos hídricos do bioma: 94% das águas que formam a bacia hidrográfica do rio São Francisco vem de rios com nascentes que ficam dentro de áreas do Cerrado. 

É ou não um excelente motivo para se preocupar com a conservação da biodiversidade desse grande bioma brasileiro?