ESPECIAL BIOMAS BRASILEIROS: A HISTÓRICA DEVASTAÇÃO DA CAATINGA

A Caatinga ou os Domínios da Caatinga é um imenso mosaico de sistemas vegetais especialmente adaptados para as condições climáticas do chamado Semiárido Brasileiro. É o único bioma totalmente brasileiro e se espalha por todos os Estados do Nordeste, além de ocupar uma faixa no Norte de Minas Gerais. 

A Região do Semiárido Brasileiro compreende 925.043 km², ou seja, 55,6% da área da Região Nordeste. Estima-se que uma população de 23,5 milhões habite a região (dados de 2014).  A vegetação, em função do clima e dos tipos de solo, pode ser dividida, de forma muito rudimentar em três áreas: o agreste, a caatinga e o alto sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos.  

O povoamento da região do semiárido e os problemas ambientais na Caatinga começaram nas primeiras décadas da colonização do Brasil, quando os criadores de bois foram expulsos da região dos canaviais no litoral. Inclusive, uma carta régia, assinada pelo rei de Portugal, previa sérias penalidades à criação de gado a menos de 60 quilômetros dos canaviais.  

Expulsos da faixa costeira, homens e bois foram penetrando nos sertões e descobrindo em poucos anos o vale do Rio São Francisco, que viu suas margens ficarem cheias de fazendas e de boiadas. Nas estradas criadas para levar as boiadas para venda no litoral foram surgindo pequenos povoados e, em poucas décadas, todos os recantos dos sertões estavam cheios de gentes e de rebanhos.  

Os criadores perceberam já nos primeiros anos que os escassos campos entre os caatingais eram insuficientes para suprir a alimentação dos animais e se começou a prática de queimar as árvores para se aumentar, artificialmente, as áreas de campos. Com o crescimento dos rebanhos por toda a região do semiárido, essa prática se generalizou e já provocou alterações em mais de 70% da área da Caatinga. Em diversas regiões estão surgindo manchas de desertificação devido a superexploração dos solos provocada pelo excessivo número de rebanhos. 

A caprino-ovinocultura é a principal atividade agropecuária do sertão nordestino. A produção de caprinos, animais de pequeno porte extremamente adaptáveis às condições mais adversas impostas pelo clima, se moldou perfeitamente aos sertões semiáridos nordestinos, que detém o maior rebanho dessa espécie no Brasil, com aproximadamente 9 milhões de animais, mesmo número do rebanho de ovinos da região.  

O rebanho bovino no Nordeste tem aproximadamente 30 milhões de cabeças, grande parte vivendo em áreas do semiárido. Ainda é preciso incluir neste cálculo um rebanho com, talvez, 700 mil cavalos e de 900 mil asnos, onde estão incluídos os bons e velhos jumentos, burros e mulas que já foram os companheiros de vida e de trabalho de muitos nordestinos. 

Um exemplo dessa superpopulação é o que se vê na região da bacia hidrográfica do rio São Francisco, a mais importante do semiárido brasileiro. Das mais de 15 milhões de pessoas que vivem dentro da região da bacia hidrográfica, pelo menos 30% vivem no semiárido nordestino, o que representa quase o dobro da população que vive no Saara, o maior deserto do mundo, e transforma o nosso semiárido no mais habitado de todo o planeta.  

Todas as práticas de agricultura e pecuária, mineração, extrativismo dos mais diversos, ocupações urbanas de tamanhos diferentes, enfim – todos os usos e abusos ambientais que se desenvolveram por todos os cantos da região do semiárido, são encontradas também nas margens de todos os riachos e rios que alimentam o Velho Chico. 

A exceção de municípios como Petrolina em Pernambuco, com 338 mil habitantes, e Juazeiro e Barreiras na Bahia, com 200 mil e 138 mil habitantes respectivamente, a bacia hidrográfica do Velho Chico nos domínios do semiárido é formada por centenas de municípios com populações abaixo dos 40 mil habitantes, distribuídos em pequenas cidades, vilas e povoados dispersos por uma gigantesca região.  

Por todos os cantos se encontram pequenas propriedades rurais familiares, com seus pequenos roçados de subsistência e suas criações de bois, bodes e ovelhas. Em cada uma dessas pequenas propriedades são feitas queimadas frequentes para a preparação do solo para mais um plantio. Também há coleta de lenha para uso nas cozinhas, muitas vezes sendo necessária a derrubada de árvores.  

Os rebanhos pastam soltos pelos campos comendo tudo o que está disponível para se comer. Para a construção e manutenção das suas casas ou para realizar seus ofícios, os sertanejos usam as matérias primas disponíveis ao seu redor. Somando-se todos os bichos e gentes espalhados por todos os recantos do semiárido, são muitas bocas para se alimentar – bocas de gentes e de bichos, dentro de um ecossistema com tantas limitações. 

Essa superexploração dos recursos naturais do semiárido se refletem no Rio São Francisco – a redução sistemática no volume dos caudais do rio é indicativa do uso intensivo das águas nas centenas de afluentes da bacia hidrográfica. O assoreamento que se vê por todos os recantos ao longo do seu curso mostra que as matas ciliares de todos esses afluentes sofrem com o intenso desmatamento, com práticas agrícolas insustentáveis e com mineração descontrolada nas terras ao longo das suas margens.  

A baixa qualidade das suas águas mostra que cidades e vilas captam grandes volumes de águas frescas e limpas dos rios e devolvem esgotos sem qualquer tipo de tratamento – resíduos sólidos de todos os tipos, despejados por essas vilas e cidades em lixões improvisados, sempre acabam alcançando as águas de algum afluente e chegam por fim na grande calha do São Francisco. 

De acordo com algumas projeções oficiais, cerca de 50% da vegetação da Caatinga Nordestina já foi impactada por atividades humanas, o que colocada o bioma em posição semelhante ao Cerrado e aos Pampas Sulinos em termos de devastação, só ficando atrás da destruição ocorrida na Mata Atlântica. 

Com suas características peculiares de flora e fauna, muitas vezes tratadas como pobres quando comparadas a exuberância da Floresta Amazônica ou ao Pantanal Mato-grossense, a Caatinga tem uma enorme importância dentro do fabuloso conjunto de mosaicos ambientais do Brasil, merecendo toda a nossa atenção e cuidado. 

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