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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

O DESAPARECIMENTO DE ESPÉCIES DE ANFÍBIOS EM TODO O MUNDO

Sapo

Vamos começar a postagem de hoje com um pouco de poesia: 

Enfunando os papos,  
Saem da penumbra,  
Aos pulos, os sapos.  
A luz os deslumbra.  
 
Em ronco que aterra,  
Berra o sapo-boi:  
– “Meu pai foi à guerra!”  
– “Não foi!” – “Foi!” – “Não foi!”. 

Esses são os versos iniciais da antológica poesia Os Sapos, uma das obras primas do pernambucano Manoel Bandeira, um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos. A poesia foi escrita em 1919 e foi lida num das sessões da Semana de Arte Moderna de 1922. Manoel Bandeira foi convidado a participar do evento, mas não pode comparecer devido a problemas de saúde. Com uma linguagem bem popular e muita ironia, o modernista Bandeira se opôs ao rigor gramatical e ao preciosismo linguístico dos poetas tradicionalistas – os parnasianos. Vale a pena ler a poesia completa. 

Começamos com essa alegre poesia como uma introdução a um tema árido – anfíbios de todo o mundo, como nenhuma outra classe animal, são os que mais estão sofrendo com os efeitos do aquecimento global e da degradação da qualidade das águas. A classe dos Anfíbios inclui animais vertebrados como sapos (vide foto), rãs, pererecas, salamandras e cobras-cegas, que vivem entre o meio aquático e o ambiente terrestre. Geralmente, esses animais nascem e passam sua fase inicial da vida dentro da água, passando depois a viver em ambientes terrestres próximos aos corpos d’água. Esses animais normalmente têm uma pele sensível, que precisa ser mantida constantemente úmida. Os sapos costumam ter uma pele mais resistente e seca, o que lhes dá uma maior autonomia em ambientes terrestres. 

Os anfíbios foram os primeiros animais terrestres, tendo evoluído a partir de peixes pulmonados há cerca de 350 milhões de anos atrás. Como herança dessa história evolutiva, os anfíbios tem o seu ciclo de vida dividido em duas fases – uma fase inicial aquática e uma fase terrestre quando adultos. Uma das formas mais comuns de reprodução dos anfíbios (existem cerca de 6 mil espécies de anfíbios com 39 formas diferentes de reprodução), as fêmeas depositam os seus ovos em ambientes aquáticos lênticos (de águas paradas em rios e lagoas), sobre plantas e pedras. Esses ovos são protegidos por uma camada de material gelatinoso. A fecundação dos ovos é feita por jatos de esperma lançados pelos machos. Após o período de incubação, os filhotes eclodem na forma de girinos, formas de vida completamente adaptadas para uma vida aquática, dotadas de guelras e nadadeiras. 

Conforme esses animais vão crescendo, seus corpos passam por um processo de metamorfose, onde surgem as mudanças físicas que determinarão os ambientes onde viverão em sua fase adulta. Sapos e rãs, que pertencem à ordem Anura (sem cauda), desenvolverão patas e pulmões; já as salamandras (ordem Urodela), desenvolverão um corpo com cauda semelhante ao dos lagartos. Os anfíbios da ordem Gymnophiora não possuem patas, como é o caso das chamadas cobras-cegas. Os anfíbios estão presentes nos mais diferentes tipos de ambientes terrestres, inclusive com algumas espécies adaptadas para a vida em regiões desérticas como o sapo do rio Colorado (Bufo Alvarius), uma espécie que vive no Deserto de Sonora, entre os Estados Unidos e o México. A maioria dos anfíbios, entretanto, prefere ambientes chuvosos e úmidos como as florestas. 

Os anfíbios são extremamente sensíveis às mudanças ambientais e são considerados importantes bioindicadores das condições físicas de um ecossistema. Com a destruição de áreas florestais e/ou a partir da elevação da temperatura de uma região, os anfíbios são o primeiro grupo de animais a ser impactados, apresentando redução ou extinção de populações. Com a intensa derrubada de florestas em todo o mundo e com os efeitos do aquecimento global, centenas de espécies de anfíbios correm sérios riscos de extinção. A situação desses animais fica ainda mais crítica devido a intensa poluição e degradação de rios, lagos e represas. 

Os anfíbios desempenham um importante papel dentro da cadeia alimentar de um ecossistema. Esses animais tem nos insetos uma importante fonte de alimentação, ajudando a controlar suas populações. Um destaque importante aqui se dá no controle das populações de mosquitos, insetos transmissores de uma série de doenças aos seres humanos – destacamos aqui o mosquito Aedes Aegypt, transmissor de doenças como a Dengue, a Zica e a Chikungunya. A predação aqui começa com os anfíbios na fase aquática, quando as pupas dos mosquitos são uma ótima fonte de proteína para os jovens.  

Na sua fase adulta, sapos, rãs e pererecas usam a sua língua pegajosa para capturar os mosquitos em voo. Os anfíbios também fazem o papel de presas para uma infinidade de répteis, mamíferos e aves. O súbito desaparecimento ou a redução da população de uma espécie de anfíbios provoca um efeito cascata nas populações de presas como os insetos, que podem aumentar exponencialmente, e também no grupo dos predadores, que perdem uma importante fonte de alimentos. 

Muitas das espécies de anfíbios produzem substâncias venenosas, usadas pelos animais na sua defesa contra predadores. Os seres humanos descobriram a importância de muitas dessas substâncias desde a antiguidade – esses venenos eram usados em pontas de flechas e de lanças, atiradas contra presas e inimigos. Muitas tribos indígenas de todo o mundo ainda se valem dessas substâncias. Em nossos tempos, muitas dessas substâncias têm demonstrado uma grande importância na indústria química-farmacêutica, que tem desenvolvido uma enorme gama de medicamentos derivados dessas substâncias naturais. A extinção em massa de anfíbios em todo o mundo poderá representar uma enorme perda nesses esforços de busca por novos medicamentos e cura de muitas doenças que assolam a humanidade. 

Muitos dos leitores talvez tenham lembranças de tempos antigos, onde era fácil encontrar córregos e pequenos cursos d’água nas cidades, cheios de girinos e pequenos peixes. Na minha infância aqui na cidade de São Paulo, caçar esses pequenos animais era uma das diversões das crianças do meu bairro – existiam dezenas de “minas” e córregos com águas limpas por todos os lados. Com o crescimento da cidade, com a sistemática canalização de cursos d’água e com o aumento da poluição das águas, esses animais simplesmente desapareceram da mancha urbana. A última vez que vi um sapo perdido andando nas ruas da vizinhança foi há mais de 30 anos – em fragmentos de mata que sobraram em algumas regiões e em parques da cidade ainda é possível encontrar alguns remanescentes dessas antigas populações de anfíbios paulistanos. 

Além de todo o empobrecimento ambiental direto, a redução ou desaparecimento dos anfíbios também empobrece a vida de todos nós – a sinfonia noturna feita por esses animais nos rios e lagoas sempre foi um elemento importante na vida das populações humanas de todo o mundo, com forte prença na cultura e no folclore. Manuel Bandeira e seus Sapos que o digam…

O AMEAÇADO PEIXE-BOI DA AMAZÔNIA

Peixe-boi

Essa série de postagens sobre os impactos da degradação das águas sobre a biodiversidade aquática e semiaquática não ficaria completa sem falarmos dos peixes-boi da Amazônia, uma das espécies animais mais ameaçadas do Brasil. Juntamente com seus primos marinhos, os peixes-boi amazônicos sempre foram intensamente caçados por causa da sua saborosa carne vermelha, do forte couro e também pela sua gordura, matéria prima usada para a fabricação de um óleo usado para iluminação pública em séculos passados. 

Eu tenho lembranças de peixes-boi desde a minha mais tenra infância na cidade de São Paulo – no caminho que eu fazia até a escola havia um camelô que vendia uma pomada milagrosa feita com a “autêntica gordura do peixe-boi da Amazônia”. O homem fazia uma interessante performance teatral, apresentando em detalhes as características “mágicas” do produto, que curava de dor de dente a “mau-olhado”. A apresentação era concluída com uma luta entre uma cobra e um lagarto, algo muito tradicional entre os camelôs de São Paulo. Se a pomada milagrosa funcionava ou não, tenho minhas dúvidas – sei que esse homem passou décadas vendendo esse produto no Largo 13 de Maio, em Santo Amaro. 

Os peixes-boi pertencem a ordem dos Sirênios ou Sirenia, uma grande família de mamíferos que sofreu um longo processo evolutivo para uma vida totalmente aquática. Existem registros fósseis de dezenas de espécies desses animais, que viveram em épocas e lugares diferentes em todo o mundo. De todas essas espécies, 5 chegaram aos tempos modernos e 4 ainda sobrevivem em mares e rios

O peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis) é a menor entre as espécies existentes atualmente, podendo chegar até 2,5 metros de comprimento e a um peso de até 300 kg. É encontrada nos rios da Bacia Amazônica e também na Bacia do rio Orenoco, a principal da Venezuela. Entre as espécies marinhas, o peixe-boi-marinho ou manatee (Trichetus manatus)  é a espécie encontrada ao longo da costa do Oceano Atlântico desde a Flórida, no Sul dos Estados Unidos, até a Região Nordeste do Brasil. Uma outra espécie, o peixe-boi-africano (Trichetus senegalensis) vive ao longo da costa africana do Oceano Atlântico. Essas espécies podem atingir até 4 metros de comprimento e um peso superior a 800 kg. 

Uma espécie extinta, a vaca-marinha-de-steller (Hydrodamalis gigas), também conhecida como dugongo-de-steller e vaca-marinha-de-bering, habitava uma extensa faixa do Oceano Pacífico entre o Norte do Japão e a costa da Califórnia, nos Estados Unidos. Esses animais atingiam mais de 8 metros de comprimento e até 11 toneladas de peso. A espécie foi descrita pela primeira vez em 1741 pelo naturalista alemão Georg Steller, num momento em que já estava seriamente ameaçada pela intensa caça – em 1768 foi capturado o último exemplar da espécie. 

O quarto e último membro da ordem dos Sirênios ainda vivos é o dugongo (Dugong dugon), que já foi encontrado em uma extensa área de mares tropicais dos Oceanos Índico e Pacífico, mas que atualmente está restrito ao Estreito de Torres, entre o Norte da Austrália e a Nova Guiné, e a região da Grande Barreira de Coral Australiana. Esses animais podem atingir 3 metros de comprimento e mais de 500 kg de peso. Diferente dos seus primos peixes-boi, os dugongos possuem dentes, o que lhes permite comer, além de plantas, pequenos peixes e crustáceos. O nome da espécie vem da palavra malaia duyung, que significa sereia. 

Os primeiros avistamentos de peixes-boi amazônicos por europeus se deram nos primeiros anos do século XVI, quando cartógrafos e exploradores a serviço das Coroas de Espanha e Portugal passaram a vasculhar as extensas terras recém descobertas nas Américas. Nesses primeiros encontros, esses exploradores supersticiosos imaginavam se tratar das mitológicas sereias, criaturas que hipnotizavam os marinheiros com seu canto mágico. Logo depois, descobriram que a carne desses animais era muito semelhante à carne do boi e que sua densa gordura produzia um óleo semelhante ao óleo de baleia, um produto muito valorizado na época medieval e que era usado em lamparinas para a iluminação de casas e ruas. Começou assim a superexploração da espécie.

A caça dos peixes-boi em larga escala teve início em meados do século XVII, quando os padres Jesuítas instalaram as suas primeiras missões na região Amazônica. Esses religiosos chegaram junto com os primeiros contingentes militares de Portugal, que receberam a missão de construir fortificações e assentamentos que garantiriam a posse das terras. Pelo Tratado de Tordesilhas, assinado entre Portugal e Espanha em 1494, todas as terras localizadas a Leste de um meridiano imaginário pertenceriam a Portugal – esse meridiano cruzava o território brasileiro nas proximidades da cidade de Belém do Pará, ao Norte, e da Ilha de Santa Catarina, ao Sul. O Forte Presépio, que foi o embrião da cidade de Belém do Pará, foi uma dessas primeiras construções na região Amazônica. 

A missão principal dos Jesuítas era o contato com os indígenas com o objetivo de convertê-los à fé cristã. Devido aos intensos embates que passaram a ser frequentes entre os militares portugueses e as tribos indígenas, os Jesuítas decidiram criar grandes fazendas para abrigar os índios – esse processo ficou conhecido na história como os “descimentos”. Dentro da filosofia de trabalho dos religiosos, separar os indígenas da floresta e das suas tradições culturais era o caminho mais fácil para civilizá-los e convertê-los ao cristianismo. 

Além de todos os esforços civilizatórios e de educação religiosa, os Jesuítas passaram a treinar os indígenas nas mais diferentes artes e ofícios. Não tardou muito para as fazendas dos Jesuítas se transformarem em grandes centros de produção e exportação dos mais diferentes produtos, indo de móveis e instrumentos musicais fabricados com as excelentes madeiras de lei da Amazônia, tecidos, cestarias, drogas do sertão (especiarias e temperos similares aos produzidos no Extremo Oriente), peixes e carnes salgadas – incluindo aqui o pirarucu, peixe amazônico que era exportado para Portugal com o rótulo de bacalhau, entre outros produtos. 

Um dos destaques da pauta de produtos das fazendas Jesuítas era o óleo feito com a gordura do peixe-boi. Na época do período Colonial brasileiro, a principal fonte de óleo para iluminação eram as baleias, animais caçados impiedosamente em mares de todo o mundo. No Oceano Atlântico Sul, baleeiros ingleses se instalaram nas Ilhas Falkland (as famosas Ilhas Malvinas pleiteadas pela Argentina) ainda no século XVII. Esses baleeiros passaram a capturar as baleias que migravam das águas da Antártida rumo as costas do Brasil, restando poucos animais para serem caçados por baleeiros brasileiros. Com a pouca oferta de óleo de baleia, o produto feito com a gordura dos peixes-boi, amazônicos e também marinhos, passaram a suprir as necessidades das cidades brasileiras e também da Metrópole em Portugal. 

Essa caça intensa se manteve até o final do século XVIII, quando os Jesuítas foram expulsos de todos os territórios de Portugal por ordem do Marques de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), um dos mais importantes e controversos políticos da história portuguesa. A partir de meados do século XIX, quando teve início o Ciclo da Borracha na Amazônia, os peixes-boi se transformaram numa importante fonte de proteína animal e de couro para o imenso contingente de seringueiros espalhados pela floresta. Com o colapso da produção do látex a partir de 1910, os seringueiros acabaram transformados em caçadores de animais silvestres, que tinham seus couros e peles altamente valorizados no mercado internacional. 

De acordo com estudos de pesquisadores brasileiros, cerca de 110 mil peixes-boi foram mortos entre 1904 e 1967, quando a caça de animais silvestres foi proibida no Brasil. Isso se refere apenas ao número oficial de animais abatidos para aproveitamento do couro, que foi exportado legalmente no período. A esses números precisam ser somados os animais caçados ilegalmente, especialmente após 1967, e também os animais que foram capturados para consumo da carne pelas populações locais. Mesmo tendo a sua caça proibida, a carne de peixe-boi é muito apreciada pelos “amazônidas” e não é difícil encontrar o produto nos mercados populares. 

Além da caça predatória, o peixe-boi é vítima frequente das redes dos pescadores, onde muitos animais ficam presos e acabam morrendo por afogamento. Um outro problema sério da espécie é o baixo número de filhotes que nascem – a gestação do peixe-boi dura 13 meses, nascendo normalmente um filhote de cada vez, que será cuidado pela mãe ao longo de pelo menos 4 anos até uma nova gestação. Esse baixo crescimento da população de peixes-boi é uma grande ameaça para a sobrevivência de uma espécie com população declinante. Existem atualmente diversos projetos de conservação e institutos de pesquisa que lutam para manter esses simpáticos animais vivendo livres nos rios da Bacia Amazônica. 

A luta pela sobrevivência dos peixes-boi é insana, mas, felizmente, ela agrega um número cada vez maior de pessoas motivadas e instituições de pesquisa. Que continue assim…

AS POUCO CONHECIDAS LONTRAS BRASILEIRAS

Lontra

Na nossa última postagem falamos dos ratões-do-banhado, um grande roedor que já foi muito comum em rios da Região Sul do Brasil e de parte do Estado de São Paulo. Essa espécie foi muito perseguida em décadas passadas por caçadores para o aproveitamento da sua vistosa e macia pelagem. Em nossos dias, os ratões-do-banhado sofrem com a destruição dos seus habitats devido a intensa poluição dos rios e supressão das matas ciliares, locais onde a espécie costuma construir suas tocas. Para piorar a situação dos ratões, a espécie apresenta uma incômoda semelhança com os ratos cinzentos, chamados de ratazanas e gabirus em outras regiões, especialmente pela presença de um grande rabo sem pelos – filhotes de ratões-do-banhado são confundidos com ratos cinzentos e acabam sendo mortos pelas populações. 

A triste situação dos ratões-do-banhado lembra a situação das lontras, uma espécie semiaquática com ocorrência em rios da maioria das regiões brasileiras, que sofre de alguns males parecidos, especialmente a destruição de habitats e a caça predatória para a retirada da sua pelagem. Animais semiaquáticos como as lontras, os ratões-do-banhado, ariranhas e capivaras possuem uma pelagem dupla muito espessa, adaptada para proteger e manter seus corpos aquecidos em suas longas horas passadas em águas frias. Essas peles sempre foram muito procuradas para a confecção de botas, próprias para países com invernos muitos rigorosos.  

No Hemisfério Norte, onde sempre foi comum a caça de animais com características similares como castores, focas e lontras marinhas, a demanda por essas botas “quentes” sempre foi muito grande. A caça de animais silvestres aqui no Brasil era permitida até 1967 e centenas de milhares de animais eram abatidos todos os anos para remoção dos seus couros e peles para exportação. Na lista das espécies mais caçadas encontravam-se as lontras, o que fez a espécie sumir de muitos rios do país. O avistamento de lontras na natureza, que já era muito raro devido aos hábitos noturnos dos animais, ficou ainda mais difícil. 

A lontra é um mamífero carnívoro que pertence à família dos mustelídeos e que é encontrada na Europa, Ásia, África, no Sul da América do Norte e em toda a América do Sul. Existem 13 espécies no total, divididas em 7 gêneros, com inúmeras espécies vivendo em rios e lagos, além de espécies totalmente adaptadas para uma vida em águas marinhas. São exímias nadadoras, com dedos dotados de membranas interdigitais, com capacidade para mergulhos de até 6 minutos e que podem atingir uma velocidade de até 12 km/h. Sua alimentação consiste de peixes, crustáceos, moluscos e répteis, além de aves e pequenos mamíferos com menor frequência. O nome do animal deriva do latim lutra, um epiteto (nome utilizado para qualificar algo) que indica “que tem cauda longa”. 

A lontra neotropical (Lontra longicaudis), que por aqui é conhecida como lontra brasileira, ocupa um extenso território que vai do México até a Argentina e ocorre em praticamente todo o território brasileiro, a exceção das regiões semiáridas do Nordeste. A espécie vive em ambientes aquáticos como rios, lagoas e represas, dependendo da existência de matas ciliares próximas, onde constrói as suas tocas em buracos cavados nos barrancos. Essas tocas costumam ficar a cerca de 150 metros das margens dos rios, o que facilita o acesso fácil à água ao mesmo tempo em que garante uma relativa segurança aos filhotes em momentos de enchentes. 

As lontras podem atingir um comprimento de mais de 1,3 metro de comprimento, incluindo nesse tamanho a sua longa cauda. O peso pode variar entre 5 e 12 kg. Para efeito de comparação, a ariranha (Pteronura brasiliensis), que é um membro gigante da família das lontras, pode atingir até 2 metros de comprimento e um peso entre 25 e 45 kg. Diferente de outros membros da sua grande família que costumam viver em grupos entre 10 e 15 indivíduos, nossas lontras costumam viver solitárias ou em casais somente na época do acasalamento. Geralmente, as lontras apresentam hábitos noturnos, período em que saem das suas tocas para caçar, característica que faz com que os animais raramente sejam avistados na natureza. 

Essa raridade de avistamentos de lontras em rios e corpos d’água aqui no Brasil faz com que a maioria das pessoas não saiba que ela é uma animal típico da fauna brasileira. Eu mesmo sou obrigado a dar a mão à palmatória – em diversos livros e materiais pedagógicos que escrevi e ilustrei, sempre fiz questão de colocar animais típicos de nossa fauna silvestre entre os personagens. Macacos, capivaras, jabutis, jacarés-do-papo-amarelo, gatos-maracajás e papagaios-do-peito-roxo são frequentes nas minhas historinhas – já as simpáticas lontras, não sei por que, nunca sequer foram cogitadas. 

As perseguidas lontras agora estão enfrentando um novo desafio – em diversos países do Extremo Oriente, em especial Japão, Indonésia, Tailândia e Malásia, os animais passaram a ser adotados como animais de estimação. Está se tornando cada vez mais comum se verem pessoas andando em centros comerciais e cafés com lontras no colo – as selfies com a espécie também estão sendo muito frequentes nas redes sociais. A espécie que está abastecendo a maior parte desse mercado é a lontra-de-garras-pequenas, encontrada em rios da China e de países do Sudeste Asiático. Em menor escala, estão sendo vendidas as espécies lontra-eurasiática, lontra-sul-indiana e lontra-de-nariz-peludo. Cada exemplar desses animais é vendidos por milhares de dólares, o que estimula a caça ilegal e o contrabando.

A lontra-de-garras-pequenas é uma das menores espécies da família dos mustelídeos, com carinha rechonchuda, pelos macios e olhos grandes e muito brilhantes, e que está fazendo a alegria de muita gente nesses países. Apesar de estar concentrada hoje no outro lado do mundo, essa moda tem grande chance de se espalhar por outros países e passar a pressionar a nossa espécie local. Apesar da caça de animais silvestres ser proibida aqui no Brasil, nada impede que caçadores de países vizinhos invadam o nosso território para capturar filhotes de lontras brasileiras, que depois serão vendidas como “autênticas” lontras paraguaias ou bolivianas. A caça dos jacarés-do-pantanal, que quase levou a espécie a extinção décadas atrás, é um grande exemplo da facilidade dessa modalidade de caça.

A moda com esses animais silvestres tem tudo para dar errado – filhotinhos fofinhos que são comprados com um comprimento de 30 ou 35 cm e um peso de pouco mais de 4 kg, um dia vão crescer e ficar com mais de 1,3 metro e mais de 12 kg de peso. E assim como aconteceu com muitas outras espécies silvestres como iguanas, cobras, aranhas caranguejeiras e “mini” porcos, esses animais crescem demais e perdem a graça – muitos acabarão sendo abandonados em matas, o que pode criar uma competição predatória com as espécies nativas da região. 

Uma característica dos mustelídeos que também poderá comprometer essa moda das lontras de estimação é o cheiro forte dos animais. Como é comum em espécies semiaquáticas, as lontras possuem uma glândula que libera uma gordura, que o animal espalha sobre os pelos com as patas. Essa gordura deixa os pelos brilhantes e impermeáveis a ação da água – porém, essa gordura também possui um odor forte, que é usado pelos animais para a demarcação dos territórios. Conviver com esses animais fofinhos e “fididinhos” em casas e apartamentos fechados pode se transformar em um grande problema a longo prazo, o que poderá levar muita gente a sair desovando lontras exóticas em habitats selvagens alheios. 

Perseguidas ao longo dos séculos por causa da sua pelagem, sofrendo com a devastação e perda dos seus habitats naturais e poluição dos rios e lagos, as lontras agora são vítimas dessa moda dos “pets” exóticos. Vida de lontra nunca foi fácil… 

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OS RATÕES E OS GABIRUS

Ratão-do-banhado

Há uns bons tempos atrás, eu voltava à noite para minha casa num ônibus urbano. Numa poltrona próxima, duas senhoras com um forte sotaque nordestino falavam sobre os problemas de sua comunidade. Eu não tenho o hábito de ficar escutando as conversas alheias, mas, naquele caso, era bastante difícil não acompanhar o curso do diálogo. A uma certa altura, uma das mulheres começou a falar sobre o tamanho dos gabirus que circulavam pelas vielas do bairro – alguns chegavam a ter “dois palmos de comprimento”, segundo a descrição. Gabiru, para quem não conhece, é o nome dado aos ratos de esgoto em alguns lugares da Região Nordeste. 

Nos meios urbanos encontramos, normalmente, três espécies de ratos: o rato preto ou de telhado (Rattus rattus), que se alimenta de restos de comida que são jogados no lixo e também de alimentos e rações servidas aos animais domésticos como cães e gatos; o rato cinza (Rattus norvegicus)também conhecido como ratazana e gabiru, que vive em esgotos e ao longo de córregos; e os camundongos (Mus domesticus), espécie de ratos pequenos, que vivem em residências e são oportunistas quanto a alimentação, atacando despensas, armários e latas de lixo. As três espécies são transmissoras de doenças e seres humanos tem, normalmente, aversão aos ratos. 

Os ratos cinzas ou gabirus são originários das estepes da Ásia Central e foram “domesticados” há milhares de anos pelos seres humanos. Os animais aprenderam a viver nas proximidades das vilas e fazendas, onde conseguiam encontrar restos de comidas e depósitos de grãos. As migrações humanas por todo o mundo antigo foram acompanhadas bem de perto pelos ratos, que passaram a viver nas valas de esgotos e canais de água das cidades.  Com o passar do tempo, outras espécies de ratos silvestres também passaram a viver nas cidades e encontraram seus respectivos nichos ecológicos. Com o início da era das grandes navegações, os ratos passaram a invadir os porões dos navios em busca de alimentos e assim foram espalhados por todo o mundo. 

Com a nossa precária infraestrutura de saneamento básico, onde grandes volumes de esgotos e lixo são lançados em rios e córregos, além de entulhos e resíduos sólidos de todo o tipo sendo descartados de forma irregular em terrenos baldios, nossas cidades acabaram sendo transformadas em verdadeiros paraísos para todas essas espécies de ratos e criaram fontes potenciais para a transmissão de inúmeras doenças. A leptospirose, citando um exemplo, é uma doença infecciosa transmitida pela bactéria do tipo Leptospira presente na urina de ratos, que encontra as condições ideais de propagação nos períodos de fortes chuvas, quando a população entra em contato com as águas de enxurradas e pontos de alagamentos. 

A bactéria Leptospira entra no corpo humano através da pele, pela boca e pelos olhos. Nos casos mais graves, a leptospirose provoca falência renal, meningite, falência hepática e deficiência respiratória, podendo até levar a morte. As enchentes também forçam os ratos a abandonar suas tocas, aumentando a possibilidade de aproximação com os seres humanos, o que pode resultar em ataques e mordidas. No passado, doenças transmitidas por ratos provocaram grandes epidemias e milhões de pessoas acabaram morrendo. Um grande exemplo foi a famosa Peste Negra, conhecida atualmente como peste bubônica, matou entre 75 e 200 milhões de pessoas (conforme a fonte consultada) na Ásia e Europa no século XIV. 

Na conversa que citei no início da postagem existe um detalhe importante, que muda um pouco o ritmo da “prosa” – uma das mulheres falou que em sua comunidade se avistavam “gabirus com dois palmos de comprimento”, um tamanho exagerado para um rato cinza, mas adequado para um ratão-do-banhado jovem. Essa é uma espécie de mamífero roedor da fauna brasileira, que era encontrada com abundância em rios de toda a Região Sul, além das regiões Sul e Leste do Estado de São Paulo. Os animais também são encontrados no Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai. 

O ratão-do-banhado (Myocastor coypus), também conhecido como caxingui, ratão-d’água e nútria, é um grande roedor da família dos miocastorídeos, que pode atingir até 1 metro de comprimento, onde se inclui a grande cauda. Possui uma grossa pelagem castanho-avermelhada, uma característica que tornou a espécie alvo de caçadores de peles, quase levando os ratões à extinção. São animais de hábitos noturnos e que se alimentam normalmente de capim, raízes e plantas aquáticas, não dispensando, conforme a oportunidade, carne, peixe e grãos. 

Os ratões-do-banhado são animais semiaquáticos, dotados de patas com membranas interdigitais, característica que torna a espécie uma grande nadadora. Em terra, os ratões-do-banhado caminham devagar e com bastante dificuldade. Os animais constroem suas tocas em matas nas beiras dos rios, onde se escondem e dormem durante a maior parte do dia. Esses animais possuem uma glândula no canto da boca que libera uma substância gordurosa, que é esfregada com as patas em todo o corpo – essa gordura deixa os pelos impermeáveis e permitem que o animal permaneça por longos períodos na água. Além dos seres humanos, os maiores predadores dos ratões na natureza são as onças e os jacarés. 

Uma característica marcante dos ratões-do-banhado é a cauda grossa e despida de pelagem, muito parecida com a cauda dos ratos cinza ou gabirus. Essa semelhança entre os ratões-do-banhado e os ratos de esgotos faz com que a espécie seja perseguida e morta por muita gente – filhotes desses ratões são confundidos com os ratos de esgotos e muitos acabam sendo mortos pelas populações ao andaram nas proximidades de núcleos habitacionais. Na cidade de São Paulo, citando um exemplo, ratões-do-banhado são encontrados vivendo nas margens dos poluídos rios Tietê e Pinheiros, e também ao longo das margens das represas Guarapiranga e Billings, áreas densamente povoadas da cidade e que colocam os animais frequentemente em contato com seres humanos e a riscos. 

A poluição das águas de rios e córregos e a destruição de habitats estão entre as principais causas da redução das populações, e até mesmo da extinção regional dos ratões em muitos lugares. Apesar de proibido, muitos ratões-do-banhado ainda são caçados por causa de sua vistosa pele e também para o consumo da carne, que muitos consideram uma iguaria. Décadas atrás, quando o uso de peles de animais pela indústria da moda estava em alta, ratões-do-banhado capturados vivos foram levados para países como Estados Unidos e Europa para tentativas de criação da espécie em cativeiro, como é feito com as chinchilas originárias dos Andes. Essa experiência acabou não sendo muito bem-sucedida e muitos ratões-do-banhado acabaram fugindo desses criatórios, invadindo florestas e rios desses países, e passando a competir com espécie locais como os castores norte-americanos e lontras europeias. 

Ao contrário do que pode sugerir o nome ou a semelhança com os ratos de esgoto, os ratões-do-banhado são animais bastante inofensivos, altamente sociáveis e conseguem conviver tranquilamente com os seres humanos e com animais domésticos, a exemplo de outros animais silvestres como as capivaras. Infelizmente, a vida desses animais, assim como de outras espécies aquáticas e semiaquáticas, não está sendo nada fácil. É preciso uma maior divulgação da espécie e de bons projetos de educação ambiental junto às populações. 

OS JACARÉS, A DEGRADAÇÃO DAS ÁGUAS E A BUSCA POR LUCRO FÁCIL

Jacaré

Na série de postagens que estamos publicando, temos mostrado o impacto dos diversos tipos de agressões ambientais nas comunidades de animais aquáticos e semiaquáticos. Essas agressões incluem a poluição das águas por efluentes líquidos e resíduos sólidos, a urbanização, a agricultura e os resíduos de fertilizantes e agrotóxicos, a construção de barragens dos mais diferentes tipos, entre outras. Esses impactos alteram dramaticamente os habitats, podendo levar espécies à extinção. 

Entretanto, as agressões ambientais não são as únicas responsáveis pela destruição de habitats e comunidades de animais aquáticos e semiaquáticos: fatores exclusivamente econômicos também podem ser fatais para muitas espécies. A caça de animais silvestres para aproveitamento do couro e peles já se mostrou quase mortal para inúmeras espécies. Um grande exemplo desse impacto pode ser verificado na sina de várias espécies de jacarés. Acompanhem: 

Existem atualmente 23 espécies de crocodilianos em todo o mundo e 6 dessas espécies são encontradas aqui no Brasil: jacaretinga (Caiman crocodilus), jacaré-do-papo-amarelo (Caiman latirostris), Jacaré-do-pantanal (Caiman yacare), jacaré-açu (Melanosuchus niger), jacaré-anão (Palesuchus palpebrosus) e jacaré-corôa (Paleosuchus trigonatus). Em postagens anteriores, nós falamos de três dessas espécies e dos seus respectivos problemas: jacaré-do-papo-amarelo, jacaré-do-pantanaljacaré-açú

O jacaré-do-papo-amarelo é a espécie brasileira mais impactada pela perda de habitas e degradação das águas. Os antigos domínios desses animais se sobrepõem às áreas mais populosas do país, especialmente na região dos domínios da Mata Atlântica e bacia hidrográfica do rio Paraná. Alguns dos grandes impactos que a espécie vem sofrendo foram mostrados em uma postagem onde contamos a história do Teimoso, um jacaré-do-papo-amarelo que foi encontrado nadando nas águas poluídas do rio Tietê no início da década de 1990; em outra postagem, falamos da situação caótica dos jacarés que vivem no Sistema Lagunar de Jacarepaguá, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. 

A bacia hidrográfica do rio Tietê é a principal rede de drenagem de águas da Região Metropolitana de São Paulo. Em tempos passados, os rios, riachos e córregos dominavam as paisagens do Planalto de Piratininga e toda a região apresentava uma exuberante vida animal e vegetal. Ponto de encontro dos biomas Cerrado, Mata Atlântica e Mata das Araucárias, as águas do Planalto apresentavam grandes populações de jacarés. Com o crescimento desordenado das cidades, canalização de córregos e riachos e extrema poluição das águas, esses animais simplesmente desapareceram. O avistamento do jacaré Teimoso nas águas do Tietê, simplesmente o rio mais poluído do Brasil, funcionou como um grito de alerta sobre a degradação ambiental das águas e desencadeou uma série de movimentos populares que pediam mudanças na política ambiental do Estado de São Paulo. 

A situação dos répteis das lagoas da cidade do Rio de Janeiro é praticamente a mesma – a intensa especulação imobiliária na região da Barra da Tijuca e o crescimento desordenado da cidade ilharam grandes populações de jacarés-do-papo-amarelo em espaços cada vez menores. Os impactos ambientais foram agravados pelos problemas de infraestrutura típicos das cidades brasileiras – o esgoto lançado nas águas sem qualquer tratamento transformou a vida dos animais num verdadeiro calvário, reduzindo a oferta de alimentos e criando dúvidas sobre o futuro da espécie na região.  A trágica situação dos animais ganhou recentemente as manchetes do país após uma forte ressaca atingir a orla do Rio de Janeiro – dezenas de jacarés foram arrastados na direção das praias do Recreio dos Bandeirantes. 

No caso dos jacarés-do-pantanal, a situação atual é completamente adversa – esse é o bioma menos degradado e em melhor situação ambiental do Brasil. A população atual de jacarés é calculada na casa de 10 milhões de animais, que contam com fartura de alimentos e águas de ótima qualidade. Porém, entre as décadas de 1970 e 1980, esses animais foram caçados intensamente por coureiros brasileiros, bolivianos e paraguaios – o mercado internacional de couros de crocodilianos estava aquecido, com uma alta demanda do produto pela indústria da moda. Jacarés e crocodilos foram caçados impiedosamente em várias partes do mundo – somente no Pantanal Mato-grossense, calcula-se que 5 milhões de animais foram abatidos ilegalmente (a caça de animais silvestres é proibida no Brasil desde 1967)

O Pantanal Mato-grossense fica localizado numa região isolada do país, ocupando áreas do Sudoeste do Estado de Mato Grosso e Leste do Mato Grosso do Sul. O bioma também ocupa áreas da Bolívia e do Paraguai, uma característica que sempre facilitou a entrada de caçadores vindos desses países vizinhos, assim como o contrabando dos couros. Curtumes instalados nesses países compravam os couros de qualquer vendedor que aparecesse com o produto nas mãos e sem fazer qualquer pergunta. Essa facilidade “logística” para o escoamento dos couros, a grande abundância de animais numa região relativamente pequena, falta de policiamento ambiental e fiscalização das fronteiras, quase foram fatais para a espécie. Felizmente, o couro de jacarés e crocodilos saiu da moda, o que reduziu imensamente a demanda e praticamente acabou com a caça ilegal. 

Um outro caso onde as razões econômicas estavam por trás da intensa caça de animais para a venda dos couros é o dos jacarés-açú da Amazônia. Maior representante da família dos jacarés do mundo, o açú, palavra de origem indígena que quer dizer “grande”, pode passar de 6 metros de comprimento e mais de 300 kg de peso. Uma peça de couro vinda de um animal desse tamanho era uma espécie de “sonho de consumo” para as indústrias da moda, permitindo a confecção de grandes peças de vestuário como casacos longos e vestidos sem a necessidade de costurar peças pequenas de couro. Essa era uma das razões para o couro escuro dos jacarés-açú ser tão valorizado no mercado internacional. 

De acordo com um detalhado estudo publicado por cientistas brasileiros na renomada revista Science Advances em 2016, entre 1904 e 1969, foram abatidos mais de 4,4 milhões de jacarés-açú em toda a Amazônia brasileira para aproveitamento do couro. Esses números dizem respeito ao volume total de couros exportados legalmente nesse período e lembrando que até 1967 a caça de animais silvestres era legalizada. Se considerarmos as exportações ilegais e o total de animais batidos após a proibição da caça, o número de jacarés-açú abatidos foi muito maior. 

Observem que a exemplo da Região do Pantanal Mato-grossense, a região Amazônica estava praticamente intacta até a década de 1960, época em que a caça de animais silvestres foi proibida. Mesmo nos dias atuais, quando a tão falada destruição da Floresta Amazônica preocupa muita gente no mundo, mais de 80% da área florestal original ainda está de pé. Mesmo com essas condições ambientais praticamente perfeitas, os jacarés-açú desapareceram dos principais rios da Bacia Amazônica e hoje estão restritos a áreas protegidas de parques nacionais e Terras Indígenas. Isso mostra que não é apenas a degradação dos habitats e a poluição das águas que dizimam as espécies aquáticas e semiaquáticas de animais pelo mundo afora – a busca pelo dinheiro fácil também. 

Esses rápidos exemplos mostrando a história dessas três espécies de jacarés aqui do Brasil ajudam a reforçar o importante e moderno conceito da Sustentabilidade – é preciso que encontremos um ponto de equilíbrio entre o Meio Ambiente, a Economia e as nossas Sociedades Humanas. Sem entendermos tudo isso, não teremos futuro garantido nesse nosso Planeta Azul. 

JACARÉ-AÇÚ: O GIGANTE AMEAÇADO DOS RIOS DA AMAZÔNIA

Jacaré-açú

No ano de 2010, eu acompanhei uma história assustadora que aconteceu na cidade de Guajará-Mirim, no interior do Estado de Rondônia: um imenso jacaré-açú atacou uma menina de 11 anos na beira de um igarapé e, em seguida, mergulhou e desapareceu com a vítima. O local, uma área de banho, estava lotado e diversas testemunhas acompanharam o ataque do jacaré. Eu morava em Porto Velho há época e acompanhei apreensivo pelos telejornais locais, que apresentavam reportagens ao vivo a cada meia hora. 

Grupos de moradores da cidade, pescadores, ribeirinhos e bombeiros iniciaram buscas nas margens dos rios da região, que fica na fronteira do Brasil com a Bolívia e marca o ponto de encontro entre os rios Mamoré, Guaporé e Beni, formadores do rio Madeira. Depois de um dia de buscas, as equipes localizaram o corpo da menina – esses animais arrastam o corpo de suas vítimas para um esconderijo, onde poderão comê-las aos poucos, ao longo de vários dias. O jacaré foi localizado e abatido logo depois – o animal tinha 4,2 metros de comprimento e um peso calculado em 350 kg.  

O jacaré-açú (Melanosuchus niger), também conhecido como jacaré-negro, caimão-preto, jacaré-aruana e jacaré-gigante, é uma espécie exclusiva da América do Sul e que já foi muito abundante nos rios da Bacia Amazônica. É o maior membro da família dos jacarés, podendo atingir um comprimento de 4,5 metros e um peso da ordem de 300 kg. Existem relatos bastante consistentes de exploradores e cientistas de tempos passados que falavam de exemplares capturados que tinham mais de 6 metros de comprimento e peso da ordem de 500 kg. O jacaré-açu é um predador de topo de cadeia alimentar, atacando praticamente tudo o que encontrar em seu caminho, o que inclui peixes, anfíbios, aves, répteis (inclusive jiboias e sucuris), mamíferos de grande porte como onças, capivaras e antas, e, é claro, seres humanos. 

Um animal silvestre desse porte não fugiria do folclore das populações ribeirinhas e é personagem em uma infinidade de histórias fantásticas, que vão de barcas despedaçadas por golpes da cauda de um jacaré-açú à pescadores engolidos com canoa e tudo por espécimes exageradamente grandes. Um exemplo dos exageros dessas “histórias verídicas verdadeiras” é uma fake news que circulou nas redes sociais meses atrás, mostrando a suposta carcaça de um jacaré-açú, com cerca de 14 metros de comprimento, que foi encontrado morto na Ilha de Marajó, no Pará. A notícia afirmava que o animal tinha perto de 170 anos de idade e estaria envolvido no naufrágio de uma grande barca da região há cerca de 40 anos atrás. Um detalhe interessante da suposta “notícia” é que o animal que aparecia na foto, que tinha proporções bem avantajadas, era na verdade um crocodilo africano, um primo distante do jacaré-açú. 

Histórias e causos à parte, o tamanho dos jacarés-açú foi um dos principais responsáveis pelo desaparecimento da espécie em grande parte dos rios da Amazônia. Conforme comentamos na postagem anterior, a intensa caça de animais silvestres em todo o Brasil até poucas décadas atrás para obtenção de peles e couros para a exportação, levou diversas espécies à beira da extinção. Essa triste lista inclui felinos como onças-pintadas, jaguatiricas e gatos maracajás; veados, capivaras e antas, além de espécies aquáticas e semiaquáticas como peixes-boi, ariranhas, lontras, jiboias, sucuris e jacarés de diversas espécies. O couro escuro do jacaré-açu, que podia cobrir uma área com até 10 m² de superfície, estava entre as mais valorizadas do mercado mundial

De acordo com um detalhado estudo publicado por cientistas brasileiros na renomada revista Science Advances em 2016, entre 1904 e 1969, foram abatidos mais de 4,4 milhões de jacarés-açú em toda a Amazônia brasileira para aproveitamento do couro. Aqui, é importante lembrar que, até 1967, a caça de animais silvestres era legal no Brasil e os números apresentados se referem às quantidades de couro de jacaré exportados legalmente pelo país. Considerando-se os famosos descaminhos e jeitinhos, tão comuns em nosso dia a dia, é possível que os números reais sejam ainda maiores e mais dramáticos. 

Os rios e igarapés da Amazônia sempre foram os principais caminhos para o transporte de pessoas e cargas por toda a floresta e, por essa razão, os animais aquáticos e semiaquáticos sempre foram os mais perseguidos pelos caçadores. Aos números dramáticos de jacarés-açu abatidos nesse período, podemos acrescentar 100 mil peixes-boi, 386 mil ariranhas e 400 mil capivaras. Da fauna terrestre, foram 5,4 milhões de catetos, uma espécie de porco selvagem, 4 milhões de veados-mateiros, entre outras vítimas. Os números totais oficiais contabilizam 23 milhões de mamíferos e répteis silvestres abatidos entre 1904 e 1969, cujas peles e couros foram exportados

A origem dessa verdadeira carnificina animal foi o Ciclo da Borracha, que teve início em meados do século XIX e se estendeu até o início do século XX. O látex é uma seiva natural produzida pela seringueira ou árvore-da-borracha (Hevea brasiliensis), uma espécie típica da Floresta Amazônica, sendo um produto conhecido e utilizado pelos índios da região há milhares de anos. Em 1839, o inventor americano Charles Goodyear desenvolveu o processo conhecido como vulcanização, onde calor e pressão são aplicados em um composto a base de látex natural, que se transforma na borracha, um produto com inúmeras aplicações industriais. Essa invenção criou um gigantesco mercado para o látex – como detentor da maior reserva natural de seringueiras do mundo, o Brasil rapidamente passou a monopolizar a produção e exportação do produto, fazendo a fortuna de muita gente. 

Ao longo de várias décadas, dezenas de milhares de trabalhadores de todas as regiões do Brasil, especialmente de Estados da Região Nordeste, foram recrutados para trabalhar na exploração do látex na Floresta Amazônica. Os contratos de trabalho falavam de altos ganhos financeiros e inúmeros “benefícios”, que nunca chegaram nem perto de serem cumpridos – tratamos dessa trágica página de nossa história em uma série de postagens anteriores. A partir de 1912, o látex produzido em plantações de seringueiras do Sudeste Asiático passou a ser vendido no mercado mundial, derrubando o preço do produto Amazônico. Essas plantações foram formadas por empresários ingleses em territórios do antigo Império Britânico, onde foram usadas sementes de seringueira contrabandeadas da Floresta Amazônica. 

Com a decadência da indústria do látex, centenas de milhares de seringueiros passaram a ser aliciados por comerciantes de couros e peles, sendo rapidamente transformados em mortais caçadores. O conhecimento adquirido ao longo de vários anos em caminhadas pelo meio da floresta em busca das seringueiras foi fundamental na busca e abate dos animais em seus habitats naturais. As mesmas redes de navegação que eram usadas para o escoamento das pélas de borracha, passaram a ser usadas para a venda dos couros e peles, assim como para o transporte dos produtos para as grandes cidades da Amazônia, onde se encontravam os depósitos dos grandes comerciantes internacionais.

Cálculos atualizados afirmam que esse comércio internacional de couros e peles de animais silvestres da Amazônia movimentou aproximadamente US$ 500 milhões entre 1904 e 1969. É claro que a imensa maioria dessa fabulosa massa de recursos ficou na mão dos grandes comerciantes e intermediários – os caçadores, que faziam o trabalho sujo e insano nos confins da Floresta, ficaram com as migalhas. Passadas várias décadas dessa fase negra de nossa história, muitas das populações animais ainda não recuperaram suas antigas populações, especialmente as espécies aquáticas e semiaquáticas. 

Para sorte dos animais, o couro de jacaré saiu de moda no mercado internacional, o que desestimulou a caça. Grupos ambientalistas passaram a lutar nas últimas décadas contra o uso de peles de animais, o que está garantindo a sobrevivência de várias outras espécies caçadas. 

Os jacarés-açu, felizmente, já saíram da lista de espécies ameaçadas e, ao menos por enquanto, sobrevivem em recantos isolados da Floresta Amazônica. 

A QUASE EXTINÇÃO DO JACARÉ-DO-PANTANAL

Jacaré-do-Pantanal

Revi estes dias alguns desenhos animados antigos do hilário Wally Gator, personagem que representa uma espécie de jacaré norte americana – o Alligator mississipiensis. Essa espécie vive nas áreas pantanosas da bacia hidrográfica do rio Mississipi, no Sul do país. Wally vivia fugindo do jardim zoológico onde morava e, de vez em quando, acabava sendo perseguido por caçadores, que cobiçavam o seu valioso couro. Explico: entre as décadas de 1940 e final da década de 1980 (essa animação é do início da década de 1960), o couro de jacarés e de crocodilos era muito valorizado no mercado da moda – as peças e acessórios feitos com esse material eram artigos de alto luxo. Milhões de animais dessas espécies foram impiedosamente caçados em todo o mundo para abastecer esse mercado com seu exótico couro enrugado. 

O Brasil não passou incólume por esse período de caça aos jacarés, que até 1967 era considerada legal e depois passou a ser clandestina, quase levando a extinção de algumas espécies brasileiras como o jacaré-do-pantanal, nativo da região do Pantanal Mato-grossense, e do jacaré-açu e o jacaretinga, espécies que já foram muito comuns nos rios da Amazônia. Entre 1904 e 1967, quando a caça foi proibida no Brasil, cerca de 23 milhões de peles e couros de animais silvestres foram exportados oficialmente pelo país Além dos jacarés, a lista das espécies incluía onças-pintadas, gatos-maracajás, veados, lontras, ariranhas, peixes-boi, capivaras, antas, sucuris, jiboias, entre outras espécies com couros e pelagens consideradas exóticas e altamente valorizadas no mercado internacional. Mesmo após a proibição oficial, a caça desses animais continuou clandestinamente. 

O Pantanal Mato-grossense é uma das maiores planícies alagáveis do mundo – em anos de cheias excepcionais, a área alagada se aproxima dos 250 mil km², o que equivale a 3% do território brasileiro ou a uma área equivalente ao Estado de São Paulo. Esse imenso “território das águas” se estende pelo Sudoeste do Estado de Mato Grosso e Oeste do Mato Grosso do Sul, englobando também áreas no Paraguai e na Bolívia. Pela sua importância ecológica, a região foi elevada a Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. Esse é o habitat do jacaré-do-pantanal, uma espécie que foi impiedosamente caçada por coureiros brasileiros, bolivianos e paraguaios entre as décadas de 1970 e 1980, quase levando a espécie para o caminho da extinção. Calcula-se que 5 milhões de jacarés foram mortos ilegalmente ao longo de uma década

O jacaré-do-pantanal (Caiman yacare), também conhecido como jacaré-do-paraguai e yacaré-negro em castelhano, é uma espécie que habita a região central da América do Sul, em especial na bacia hidrográfica do rio Paraguai e num grande bioma conhecido como Gran Chaco, que engloba áreas do Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina. Esse bioma apresenta paisagens das mais variadas – áreas alagadas, florestas, pampas e vegetação de semiárido. O jacaré-do-pantanal atinge até 3 metros de comprimento e tem sua dieta constituída basicamente por peixes, moluscos e crustáceos. Aves, ovos e pequenos mamíferos, sempre que surge a oportunidade, acabam entrando na dieta desses animais. A coloração do jacaré-do-pantanal é bastante variada, com o dorso em tons escuros e faixas transversais amarelas nas laterais, especialmente na região da cauda. 

O território do Pantanal tem altitudes médias da ordem de 100 metros, com uma baixíssima declividade, uma alta pluviosidade e centenas de rios e lagos. Todo esse grande volume de águas corre muito lentamente em direção ao Sul, onde existe um verdadeiro afunilamento, conhecido como Fecho dos Morros do Sul. Esta característica física da região resulta em uma grande concentração de animais, um fator que facilitava a vida dos coureiros e quase foi fatal para os jacarés-do-pantanal. Navegando silenciosamente durante as noites e usando o facho de uma lanterna, um grupo de coureiros conseguia capturar uma grande quantidade de animais em um pequeno trecho de um rio.  

Classificados como animais de sangue frio (a temperatura corporal de um jacaré-do-pantanal oscila entre 25 e 30° C), esses répteis precisam se aquecer ao sol durante o dia para acelerar e regularizar o metabolismo. Durante o período da noite, quando a temperatura do ambiente cai, esses animais ficam altamente vulneráveis, uma fraqueza que sempre foi muito explorada pelos caçadores. Sob o facho das lanternas, os olhos dos jacarés refletem fortemente a luz, indicando a localização dos animais, que eram facilmente abatidos a bala e arrastados para as margens, onde o couro era rapidamente arrancado. Quando o dia amanhecia, era comum se encontrar centenas de carcaças de jacarés abandonadas nas margens dos rios ou boiando aleatoriamente nas águas. Curtumes clandestinos, especialmente do Paraguai e da Bolívia, compravam todo esse couro, que era processado e exportado para países da Europa, América do Norte e Ásia. 

A ação dos coureiros era muito facilitada pelo isolamento da região em relação ao restante do país e, particularmente, pela facilidade de se atravessar facilmente as fronteiras entre os países. Diferente de muitas fronteiras internacionais onde existem cercas e há um forte policiamento (a exemplo da fronteira entre os Estados Unidos e o México, e também as fronteiras do Estado de Israel), as fronteiras do Brasil são, literalmente, “portas abertas” – pessoas e produtos circulam praticamente sem qualquer controle, o que sempre facilitou todos os tipos de contrabandos, de entorpecentes a produtos eletrônicos, de armas de fogo a couros de jacarés. Para completar o quadro caótico, o número de policiais florestais trabalhando no Pantanal Mato-grossense sempre foi muito pequeno – enquanto houve uma forte demanda no mercado internacional pelo couro dos jacarés, coureiros de plantão vasculhavam todos os rios e recantos do bioma caçando os animais. 

Para a sorte de jacarés e crocodilos de todo o mundo, esse tipo de couro saiu de moda no final da década de 1980, o que reduziu imensamente a demanda e, consequentemente, a caça ilegal. Movimentos ambientalistas e de proteção à vida animal começaram a ganhar força em todo, impondo forte pressão na indústria da moda e lutando bravamente contra o uso de peles de animais no vestuário, o que também ajudou a salvar inúmeras outras espécies que vinham sendo caçadas por causa dos seus couros e peles. Os couros de espécies criadas comercialmente, como bovinos, caprinos e ovinos, passaram a receber estampas e texturas que imitavam os padrões de animais silvestres, sendo adotadas com “alegria” por indústrias engajadas com as novas tendências de um “mundo ambientalmente engajado”. 

Uma outra tendência que passou a ganhar espaço no mercado mundial foi a criação de espécies silvestres em cativeiro para o aproveitamento da carne e peles/couro. No Brasil, o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, vem autorizando a criação em cativeiro de algumas espécies silvestres desde a década de 1990. Um desses casos de grande sucesso é a criação de jacarés-do-pantanal em cativeiro. Existem hoje diversas “fazendas” e frigoríficos autorizados pelo Ibama para fazer o manejo e o abate da espécie, onde as empresas são obrigadas a seguir um rigoroso conjunto de normas ambientais. 

O processo começa com a coleta de ovos em ninhos dentro das propriedades, um procedimento que é controlado por softwares de georreferenciamento. Antes de se fazer essa coleta, são feitos estudos para se determinar a população local de jacarés – a coleta de ovos pode ocorrer no máximo em 5% dos ninhos dessa região, onde apenas 40% dos ovos podem ser coletados. Uma parte dos filhotes que nasce nas fazendas é devolvida ao meio ambiente. Graças à redução da caça e ao manejo dos animais nesses criadouros, a população de jacarés-do-pantanal voltou a crescer e está estimada atualmente em 10 milhões de animais. Além de couro processado, o Brasil também exporta legalmente carne de jacaré para vários países. 

Graças a grandes esforços internacionais, podemos afirmar que o jacaré-do-pantanal está, temporariamente, salvo da extinção. Porém todo o cuidado é pouco – sabe-se lá o que o futuro e a moda nos reservam. 

O SURURU DAS ALAGOAS E A DEGRADAÇÃO DA QUALIDADE DAS ÁGUAS

Sururu

A degradação ambiental das águas do baixo curso do rio São Francisco, conforme comentamos em nossa última postagem, está provocando profundos impactos biológicos nessa região de limite entre os Estados de Alagoas e Sergipe. A salinização das águas do rio está provocando uma intensa colonização de um longo trecho nas proximidades da foz por espécies marinhas, onde destacamos a presença cada vez mais constante dos tubarões da espécie cabeça-chata. Não muito distante dali, é a degradação ambiental das lagoas da faixa litorânea do Estado de Alagoas que está causando profundos impactos em uma espécie de molusco fundamental para a alimentação e a renda de milhares de famílias – o sururu

O sururu (Mytella charruana) é um molusco bivalve, aparentado com os mexilhões, que é muito comum na culinária regional do Nordeste, especialmente nos Estados do Maranhão, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Um dos pratos feitos com a iguaria e um dos mais conhecidos é o caldo de sururu, onde o molusco é preparado com leite de coco e azeite de dendê. No Estado de Alagoas, uma das mais tradicionais áreas de coleta do sururu é o Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba. A intensa degradação ambiental e poluição das águas dessas lagunas está reduzindo sistematicamente a produção do sururu, asssim como as populações de peixes, crustáceos e moluscos.  

A história do povoamento do Estado de Alagoas está diretamente ligada às lagoas ou lagunas de Manguaba e Mundaú – a partir do século XVI, surgiram os povoados de Alagoa do Norte e Alagoa do Sul. Com o passar do tempo, esses povoados e outros que foram surgindo na região passaram a ser chamados genericamente de “as Alagoas”, nome que acabou sendo adotado para o Estado. As margens das lagoas também abrigam extensos manguezais, áreas que sempre garantiram bons estoques de peixes, crustáceos e moluscos como o sururu para o sustento das populuções da região. 

A Lagoa Manguaba é a maior do Estado, ocupando uma área com cerca de 42 km² entre os municípios de Pilar e Marechal Deodoro. Os principais formadores dessa lagoa são os rios Paraíba do Meio e Sumaúna. A Lagoa Mundaú se estende por uma área de 27 km² entre os municípios de Maceió, Santa Luzia do Norte e Coqueiro Seco. O principal formador da lagoa é o rio Mundaú. Essas duas importantes lagoas, entre outras menores ao longo do litoral, sofrem de problemas comuns, onde se destacam a intensa poluição das águas e as mudanças dos padrões de circulação das águas, o que têm reflexos nos níveis de salinidade das águas e afeta as comunidades de animais aquáticos. 

O crescimento das cidades sem uma infraestrutura adequada para a coleta e o tratamento dos esgotos, problema comum em todo o país, se configura como uma das principais ameaças à qualidade das águas das lagoas. Se juntam a esse problema os efluentes lançados por indústrias e por atividades agrícolas, especialmente do setor sucroalcooleiro, corte e aterro de áreas de manguezais, supressão de vegetação nativa, ocupação das encostas dos tabuleiros e construções irregulares nas orlas das lagoas. Além da poluição, essas agressões ambientais resultam em um intenso assoreamento das águas, o que, entre outros problemas, compromete os canais de ligação entre as lagoas e o oceano.  

A circulação de água marinha nas lagoas é fundamental para a manutenção dos níveis ideais de salinidade, essencial para a sobrevivência de espécies animais como o sururu. O molusco depende de águas com um nível de salinidade superior a 2 PSU (Practical Salinity Units ou Unidades Práticas de Salinidade). Estudos científicos comprovam que o sururu não consegue sobreviver por mais de sete dias em águas com salinidade inferior a este índice, algo que tem acontecido com muita frequência nas lagunas alagoanas. A quantidade excessiva de água doce nas lagoas tem provocado uma massiva mortandade de animais aquáticos como o sururu, o que pode ser comprovado através da redução sistemática na produção do molusco ao longo dos anos. 

De acordo com dados do extinto Departamento Estadual de Estatística de Alagoas, compilados em pesquisa pelo professor Carlos Ruberto, autor de um importante estudo sobre as lagoas do Estado, a produção média anual de sururu durante o período de 1954 e 1964 era de 2.725 toneladas, com um pico de produção de 5.500 toneladas em 1959. No final da década de 1980, essa produção já havia caído para 2.500 toneladas/ano e em 1997, a produção registrada foi de apenas 1.500 toneladas. Estimativas indicam que, nos últimos 20 anos, a produção de sururu caiu em, pelo menos, 25% (não existem registros oficiais para esse período)

O estudo também indica que em anos de fortes cheias nas bacias hidrográficas dos principais rios formadores das lagoas, quando as águas das chuvas saturam os ambientes lagunares, há uma forte redução na produtividade do sururu. Nos anos de 2010 e 2017, quando ocorreram fortes enchentes na região, foi observada uma redução média de 20% na produção anual do molusco.  

Os períodos de estiagem, épocas em que a salinidade das águas aumenta fortemente, também afetam a produtividade do sururu. Níveis de salinidade acima de 16 PSU diminuem as taxas de crescimento e aumentam a mortalidade da espécie. Em casos extremos, quando a salinidade supera o índice de 25 PSU, as larvas do sururu não conseguem se fixar no substrato e há uma forte redução da população dessa espécie nas lagoas. Mesmo depois da normalização dos níveis de salinidade nas águas, o processo de recolonização e recuperação das populações de sururu pode levar vários anos. 

Além dos profundos impactos ao meio ambiente, todas essas agressões desencadeiam uma série de problemas sociais e econômicos regionais: as lagoas possuem mais de 5.500 pescadores, que vem testemunhando uma redução contínua dos estoques de peixes nessas águas. Também existem dezenas de milhares de marisqueiras, que tiram o sustento de suas famílias da coleta, limpeza e venda do sururu. Também não é nada desprezível o número de famílias que sobrevive graças a coleta de caranguejos, para consumo ou venda, nas áreas de manguezais. Calcula-se que cerca de 300 mil pessoas que vivem nas áreas de entorno das lagoas dependem, direta e indiretamente, dos recursos naturais dessas águas para se alimentar ou ganhar o seu sustento

A faixa litorânea da Região Nordeste, especialmente no trecho entre o Recôncavo Baiano e o Rio Grande do Norte, é uma das regiões brasileiras mais impactadas e degradadas do ponto de vista ambiental. A vegetação nativa dessa região, a Mata Atlântica, foi praticamente dizimada para a implantação dos gigantescos canaviais nos tempos do Brasil Colônia, uma prática que ainda se mantém em nossos dias. A grossa camada de solos de massapê da região foi levada gradualmente pelas chuvas para as calhas de rios, lagoas e estuários da região, o que comprometeu a fertilidade dos solos, além da qualidade e quantidade das águas. Os imensos coqueirais da região são um testemunho dessa degradação – a planta, de origem asiática, ocupou os grandes trechos de terra desnuda abandonados após a decadência da indústria açucareira. 

O quadro da degradação ambiental foi completado com o crescimento da população na faixa litorânea de Alagoas. Muitas famílias, que foram expulsas de áreas do sertão pela seca, migraram para a faixa da costa e passaram a ocupar desordenadamente as áreas de entorno das lagoas e as periferias de grandes cidades como Maceió, contribuindo para aumentar a geração de esgotos e resíduos que são carreados para as águas das lagoas. Atividades de matadouros, plantações, olarias, pedreiras e de indústrias também deram a sua colaboração para se chegar a atual degradação ambiental desses importantes sistemas lagunares. 

O desaparecimento do sururu é apenas um dos sintomas mais visíveis de todo esse conjunto de agressões ambientais. 

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OS TUBARÕES DO RIO SÃO FRANCISCO

Tubarão cabeça-chata

O título da postagem de hoje se parece com as manchetes de alguns jornais e tabloides sensacionalistas, que fazem jogos de palavras para chamar a atenção do público e vender mais exemplares nas bancas. Apesar de, aparentemente, parecer absurdo, as águas do baixo curso do rio São Francisco estão sendo visitadas por tubarões numa frequência cada vez mais alta. Deixem-me explicar o que está acontecendo: 

Consta nos livros de história que a descoberta da foz do Rio São Francisco se deu no dia 4 de outubro do ano de 1501, quando uma expedição exploratória comandada pelo navegador Américo Vespúcio fazia o primeiro mapeamento da costa brasileira. O rio foi batizado em homenagem à São Francisco de Assis, santo homenageado nesta data pelo calendário da Igreja Católica. Segundo o relato desses primeiros exploradores, a força da correnteza do rio era tão intensa que suas águas doces avançavam até 4 quilômetros mar adentro. Esse fato também é relatado por antigos capitães de navios mercantes, que entravam pelo canal do Rio São Francisco em direção da cidade de Penedo, no Estado de Alagoas, distante cerca de 40 km da foz. Os indígenas que habitavam essa região chamavam o rio de Pará, palavra que em tupi-guarani significa “rio-mar” ou “rio do tamanho do mar”, o que confirma essa percepção da grandeza do rio São Francisco. 

Em décadas mais recentes, após a construção de grandes barragens como a de Sobradinho e a de Xingó, a força dos caudais do rio São Francisco diminuiu de forma exponencial, mostrando toda a fragilidade ambiental da região. Essa redução dos caudais na direção da foz minou as forças do Velho Chico, deixando-o cada vez mais vulnerável ao avanço das águas do mar terras a dentro. Hoje, a salinização das águas do Baixo São Francisco é um dos maiores problemas regionais, afetando desde a pesca e a agricultura até a saúde das populações, cada vez mais exposta ao consumo de água com altos níveis de sal. Para ter acesso a água potável, moradores das margens do Baixo São Francisco precisam, muitas vezes, viajar vários quilômetros em busca de nascentes dos pequenos afluentes do rio ou de cacimbas, onde a água ainda não está contaminada com altos níveis de sal. 

A alta salinidade da água consumida por essas populações é fatal para a saúde dos seres humanos. A água doce ou potável que todos nós consumimos diariamente é aquela que apresenta uma concentração máxima de sal de 0,5 gramas por litro. Já a água salgada ou dos oceanos, apresenta níveis de concentração de sal superiores a 30 gramas por litro. As águas que apresentam níveis de sal intermediários, acima de 0,5 gramas/litro e abaixo de 30 gramas/litro, são chamadas de águas salobras, justamente a classificação em que se encontram as águas do rio São Francisco em trechos próximos da foz. O consumo de água salobra pelos habitantes da região tem afetado a saúde de muita gente. Em algumas cidades e vilarejos próximos da foz está acontecendo uma verdadeira epidemia de moradores com hipertensão arterial, entre outros problemas de saúde. 

Um dos sintomas mais visíveis dessa salinização das águas do baixo São Francisco é uma verdadeira invasão de espécies marinhas, que estão colonizando trechos do rio cada vez mais distantes da foz. A lista inclui diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos. Outra evidência do avanço das águas salinas são as formações de mangue, espécies de plantas adaptadas a áreas de águas salobras, que cada vez mais avançam continente a dentro. Também estão se tornando frequentes os relatos feitos por ribeirinhos e pescadores, que tratam do avistamento e captura de tubarões na calha do Baixo São Francisco. 

Os tubarões da espécie cabeça-chata (Carcharhinus leucaslideram as ocorrências de avistamento e captura no Baixo São Francisco. Os cabeças-chatas são uma das espécies de tubarões que mais se envolvem em ataques a pessoas em todo o mundo. A espécie é muito comum em águas tropicais e, por esta razão, é frequentemente avistada nas águas do litoral da Região Nordeste. Numa extensa lista de ataques de tubarões a banhistas na Região, especialmente nas praias do Estado de Pernambuco, os cabeças-chata são os agressores mais citados pelas autoridades. 

A espécie, que também é conhecida como tubarão-touro, possui um corpo avantajado e uma boca desproporcionalmente grande para o seu tamanho. Possui dentes serrilhados e uma mordida muito forte, o que torna seus ataques quase sempre fatais paras as presas, incluindo-se aqui banhistas. Os animais tem uma tonalidade cinza escura, uma camuflagem que torna a sua visualização no momento dos ataques bastante difícil para as presas. As fêmeas da espécie, que são maiores que os machos, podem atingir até 3,5 metros de comprimento. 

Uma característica dos tubarões cabeça-chata é a sua capacidade de sobreviver por longos períodos em águas salobras e doces. Há relatos de espécimes que foram capturados no rio Amazonas, nas proximidades de Manaus, cidade que fica a mais de 1.500 km das águas do Oceano Atlântico. Com a redução dos caudais do São Francisco e com o avanço das águas salinas para o interior da calha do rio, os tubarões cabeça-chata passaram a se sentir praticamente em casa. Essa mudança na fauna aquática, que seria equivalente a uma raposa passar a morar no galinheiro, está alterando toda a cadeia trófica ou alimentar, onde os tubarões passaram a ocupar o posto de principal predador. 

Vivendo em seu habitat marinho natural, os tubarões cabeça-chata enfrentam uma competição ferrenha por alimentos com outras espécies de tubarões, como o tubarão-tigre, uma outra espécie bastante comum nas costas do Nordeste. Como os estoques de alimentos, apesar de muito grandes, são limitados, as populações das espécies animais encontram um ponto de equilíbrio. Aqui é importante lembrar que, dentro desse ambiente de intensa competição por alimentos, os filhotes dos temidos cabeças-chatas também se tornam presas de outras espécies, um outro fator que limita o crescimento da população dessa espécie. 

Com a colonização de um novo ambiente, onde o tubarão cabeça-chata passa a ocupar o topo da cadeia alimentar, há uma tendência de um aumento progressivo da sua população e um avanço da espécie na predação dos peixes de água doce, animais que sempre habitaram a calha do Baixo São Francisco. Essa competição “quase” natural pelos peixes vai afetar um outro grande predador que, até bem pouco tempo atrás, ocupava o topo da cadeia alimentar local: o homem. E essa não é uma das melhores notícias para os pescadores locais – os estoques pesqueiros do rio, há muito tempo, já não são os mesmos de décadas atrás devido à grande degradação das águas do São Francisco. 

A colonização da região da foz do São Francisco por tubarões cabeça-chata pode trazer no seu encalço os riscos de ataques a banhistas, pescadores, ribeirinhos e lavadeiras, mulheres que, tradicionalmente, se reúnem em grupos para lavar roupas na beira do rio. Sem nunca ter se preocupado com a presença desse feroz predador em suas “vizinhanças”, qualquer uma dessas pessoas pode ser surpreendida com uma grande sombra avançando na sua direção através das águas do rio. Na última década, foram registrados mais de 40 ataques de tubarão nas praias do Estado de Pernambuco e, pelo menos, 13 pessoas morreram – a maioria desses ataques foi de tubarões da espécie cabeça-chata. Esse é o risco a que as populações da região podem estar expostas

E se as águas são boas para a vida dos cabeça-chatas, nada impede que outras espécies comuns na região como o tubarão-tigre e o tubarão-galha-preta também queiram desfrutar das oportunidades e recursos desse novo habitat. 

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ACONTECEU MAIS UMA VEZ: UMA BARRAGEM SE ROMPEU NO NORTE DO ESTADO DA BAHIA

Rompimento de Barragem na Bahia

No início da tarde de hoje (11/07/2019), como parece estar se tornando rotina em nosso país, começaram a ser divulgadas notícias sobre o rompimento de uma barragem no rio do Peixe, localizado na região Nordeste do Estado da Bahia, próximo da divisa com Sergipe. De acordo com as informações divulgadas, a Barragem do Quati apresenta duas rachaduras e a forte inundação atingiu o povoado de Pedro Alexandre (vide foto), localizado a cerca de 430 km de Salvador, e também bairros do município vizinho, Coronel João de Sá, localizado a 30 km a jusante da barragem. Até o momento não há notícias de vítimas. 

De acordo com informações do superintendente da Defesa Civil da Bahia, Pedro Luz, publicada em reportagem da EBC – Empresa Brasil de Comunicação, “de ontem para hoje a região foi afetada por chuva de mais de 100 mililitros. Isso causou rompimentos de pequenas barragens que acabaram por afetar a Barragem do Quati”. Segundo o que já foi possível se apurar sobre o acidente, o grande volume de água no reservatório provocou uma rachadura no sangradouro e uma outra na extremidade da barragem. A Defesa Civil está trabalhando na remoção das famílias das áreas mais próximas da barragem, uma vez que existe o risco da ruptura total da estrutura. 

As Autoridades do Estado da Bahia estão preocupadas com o risco de rompimento da Barragem do Gasparino, localizada a jusante no mesmo rio do Peixe. O reservatório de água, que já está no seu nível máximo e com todas as comportas abertas, poderá apresentar riscos de colapso com a chegada do grande volume de água que está vazando da Barragem do Quati. Populações que vivem nas proximidades da calha do rio do Peixe nesse trecho estão sendo alertadas e removidas para abrigos em terrenos mais altos. 

Em meio aos esforços da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros e Prefeituras locais no atendimento da população atingida pelo rompimento da estrutura, a ANA – Agência Nacional de Águas, não perdeu tempo e emitiu uma nota, onde informa que a “barragem é de usos múltiplos de água, e que o açude e a represa estão sob responsabilidade de fiscalização do INEMA – Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Governo da Bahia.” Ou seja, a tragédia ainda está em andamento (a ruptura da barragem é parcial até o momento) e o tão conhecido jogo de empurra-empurra entre os órgãos que, legalmente, teriam a responsabilidade pela fiscalização já começou. 

Como é do conhecimento de todos e já tratamos do assunto em diversas postagens aqui no blog, os acidentes e/ou quase acidentes com barragens estão se tornando perigosamente frequentes aqui no Brasil. Há pouco mais de 5 meses, uma barragem de rejeitos de mineração se rompeu em Brumadinho, no Estado de Minas Gerais. Até o momento, já foram confirmadas 247 vítimas fatais e ainda existem 23 desaparecidos. A empresa responsável pela barragem, a Vale do Rio Doce, que já recebeu uma primeira condenação por causa dessa tragédia, ainda não apresentou uma resposta convincente sobre o que causou o colapso da barragem.  

Uma das linhas de investigação das autoridades é o relato de alguns prestadores de serviço da empresa, que estavam próximos da barragem, e afirmam que houve uma explosão momentos antes do colapso. Funcionários da Vale do Rio Doce confirmam que houve uma detonação de explosivos em um paredão rochoso, porém, cerca de 1 hora e meia após o rompimento da barragem. 

Um outro caso que vem ocupando as manchetes dos telejornais e que tem tirado o sono de muita gente é de uma outra barragem de rejeitos de mineração, também de propriedade da Vale do Rio Doce, na cidade de Barão de Cocais, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Desde o mês de fevereiro, um talude rochoso da mina vem se movimentando e há riscos de um grande desmoronamento. A eventual onda de choque provocada pela queda desse paredão rochoso poderá levar a barragem de rejeitos ao colapso. Inclusive, um pequeno pedaço do talude já caiu, sem provocar maiores problemas. 

As autoridades locais – Prefeitura, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, em parceria com a Vale do Rio Doce, já removeram e realocaram milhares de pessoas que viviam em áreas próximas e que poderiam ser atingidas por uma eventual onda de lama e de rejeitos minerais. A espera por essa tragédia iminente, que já dura meses, paralisou toda a economia da cidade de Barão de Cocais e vem causando inúmeros problemas de saúde na população. Os atendimentos médicos com casos de ansiedade, hipertensão e problemas com o sono, aumentaram muito no hospital municipal e nos diversos postos médicos da cidade. 

Um outro caso que não pode faltar nesse texto é o do rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, também no Estado de Minas Gerais, ocorrido em 2015. Nesse acidente, cerca de 62 milhões de m³ de lama e rejeitos minerais foram liberados, comprometendo praticamente toda a extensa calha do Rio Doce. Morreram, entre funcionários da mina e moradores, 19 pessoas. Por uma “estranha coincidência”, os proprietários dessa mina são a Vale do Rio Doce e a empresa australiana BHP Billiton Brasil LTDA. 

De acordo com dados da ANA – Agência Nacional de Águas, existem aproximadamente 24 mil barragens em todo o Brasil. Desse total, cerca de 10 mil são barragens para uso em irrigação, 780 são barragens de rejeitos de mineração e as demais se distribuem em represas para o abastecimento de água, controle de cheias, geração de energia elétrica, entre outros usos. Para fiscalizar todo esse universo de estruturas, existem 43 órgãos de fiscalização, sendo 4 federais e 39 estaduais. E a grande preocupação que fica é – esse pessoal todo está fazendo um bom trabalho de fiscalização? 

No final da tarde, surpreendentemente, informações divulgadas pelo Governo do Estado da Bahia passaram a negar o rompimento da barragem e informavam que as enchentes  nas cidades e povoados estavam sendo provocadas pelo excesso de água no reservatório, que está escapando por cima da barragem. Essa nova versão deixa a situação mais preocupante ainda, uma vez que mostra nitidamente que as “otoridades” locais não sabem exatamente o que está acontecendo.

Esse novo “acidente” de hoje, com todos esses desdobramentos e versões, deixa todos nós com uma enorme pulga atrás da orelha. 

 

PS: Na manhã do dia 12/07/2019, técnicos da Defesa Civil do Estado da Bahia sobrevoaram a Barragem do Quati e confirmaram a ruptura da barragem.