OS ATAQUES DE TUBARÕES NA PRAIA DA BOA VIAGEM

Praia de Boa Viagem

A bela praia de Boa Viagem tem uma extensão total de 8 km, sendo considerada a principal praia urbana da Região Metropolitana do Recife e a mais frequentada pela população. A beleza natural da praia resultou na consolidação do bairro de Boa Viagem, um dos mais nobres e com a maior densidade populacional por metro quadrado da cidade do Recife. O bairro de Boa Viagem possui o segundo melhor IDH da cidade – 0,974, sendo superado apenas pelo bairro da Jaqueira.

Diferente da maioria das praias urbanas do Brasil, a praia de Boa Viagem não apresenta problemas generalizados de lançamentos irregulares de esgotos; os problemas neste quesito costumam ser pontuais, colocando a praia na lista das melhores praias urbanas do Brasil. Um fato curioso, que vale a pena comentar, é que uma pesquisa feita em 2014 por estudantes dos cursos de química industrial e de farmácia da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco, revelou que a grande fonte de águas poluídas na Praia de Boa Viagem eram os chuveirões, instalados ao longo da praia para uso pelos frequentadores. Análises feitas em amostras de águas destes chuveirões encontraram altas concentrações de substâncias tóxicas como nitratos e fósforos, além de coliformes fecais (o que indica que os poços que alimentam estes chuveirões estavam contaminados por esgotos), em taxas acima das recomendações do Conama – Conselho Nacional do Meio Ambiente. O Ministério Público de Pernambuco solicitou a retirada de 78 chuveirões da praia, o que criou uma enorme polêmica com os comerciantes e frequentadores da Praia de Boa Viagem.

Uma outra fonte importante de poluição em Boa Viagem pode ser encontrada nas areias: de acordo com EMLURB – Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização, 20 toneladas de resíduos sólidos são retiradas diariamente da praia, o que corresponde a um volume total de 600 toneladas a cada mês. Parte destes resíduos têm origem nas águas do mar, para onde são carregados pelas águas de diversos córregos e rios, sendo depois lançados na praia pelas ondas do mar. A maior parte dos resíduos, porém, está ligada aos descartes feitos pelos visitantes e vendedores ambulantes que frequentam a praia. Entre os resíduos mais comuns encontramos as bitucas ou guimbas de cigarro, embalagens de produtos alimentícios, copos e talheres plásticos, palitos de picolés e de sorvetes, garrafas plásticas e latas de bebidas. Aproximadamente 43% dos resíduos encontrados na praia de Boa Viagem são formados por materiais plásticos, sendo importante lembrar que o plástico é o grande vilão dos mares (eu já escrevi diversas postagens falando de ilhas de plástico flutuante nos oceanos e problemas com sacolas e resíduos plásticos nas águas).

Mas o verdadeiro “problema”, metaforicamente falando, encontrado nas águas de Boa Viagem atende pelo nome de tubarão. Nos últimos 25 anos já foram registrados mais de 60 ataques de tubarão na costa do Estado de Pernambuco, sendo que 24 destes ataques foram fatais. Este grande número de incidentes estigmatizou fortemente as praias da Região Metropolitana de Recife, até então um dos seus principais atrativos turísticos, que ficaram famosas em todo o mundo por causa dos ataques tubarões.

Apesar da má fama, as praias da Grande Recife não são as únicas com a ocorrência de ataques de tubarão. Dados levantados a partir de uma pesquisa feita pela UFRPE – Universidade Federal Rural de Pernambuco, indicam que, dos 17 Estados brasileiros com fachada oceânica, em 11 foram registrados ataques de tubarões. Foram registrados mais de 100 casos, com os Estados de Pernambuco, São Paulo e Maranhão liderando o número total de ataques. Apesar do litoral de Pernambuco ser relativamente pequeno, seus 187 km correspondem a 2,5% da extensão total do litoral do Brasil, ele concentra mais de 60% de todos os ataques de tubarão já registrados no país.

Ao longo dos últimos anos surgiram diversas teorias, todas tentando explicar de alguma forma as razões para um número tão significativo de ataques em Pernambuco. Vejam algumas delas:

Em 2005, uma equipe de cientistas pernambucanos anunciou que a poluição das águas era a principal causa da presença de tubarões das espécies tubarão-tigre e tubarão-cabeça-chata nas praias urbanas do Recife. De acordo com os estudos desta equipe, os resíduos de sangue e de gordura animal despejados por matadouros localizados nas margens do rio Jaboatão chegam até o mar – os tubarões, que têm sentidos altamente desenvolvidos e conseguem perceber uma gota de sangue diluída em 1000 litros de água, seriam assim atraídos para as praias da Região Metropolitana do Recife;

Uma outra hipótese que ajudaria a explicar os diversos ataques de tubarão está ligada à existência de um canal paralelo à praia, com cerca de 1 km de extensão e 8 metros de profundidade. Em alguns trechos, este canal fica a apenas 20 metros da praia. Este canal é uma formação natural e faz parte de uma rota de alimentação dos tubarões, que se estende desde a orla de Candeias, em Jaboatão de Guararapes, até a Praia do Pina. De acordo com dados estatísticos do CEMIT – Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões, 70% dos ataques de tubarão registrados ocorreram neste trecho, numa média de dois ataques por ano;

A construção do Complexo Portuário e Industrial de Suape, no município de Ipojuca, também costuma ser incluída no rol de explicações para os ataques de tubarão em praias da Região Metropolitana do Recife. Extensos trechos de manguezais na região da foz do rio Ipojuca foram aterrados durante a construção do Porto, destruindo antigos refúgios utilizados por diversas espécies de animais marinhos para a desova e reprodução – na lista destes animais encontramos algumas espécies de tubarões. Obras na barra do rio e dragagens para a abertura do canal de navegação também poderiam estar criando mudanças nas correntes marinhas, que mais fortes, estariam desorientando e levando tubarões rumo ao Norte, na direção da praia de Boa Viagem e arredores.

Da mesma forma que não existe um consenso sobre as causas do problema, também não há acordo quanto às possíveis soluções. As autoridades locais espalharam placas ao longo da orla de Boa Viagem, informando sobre a possível presença de tubarões na água e orientando a população a evitar o banho de mar em alguns trechos – como já comentamos em postagem anterior, nem sempre a população costuma obedecer a este tipo de orientação. Alguns grupos mais radicais defendem a caça e o abate de qualquer tubarão avistado nas proximidades das praias – grupos de ecologistas, é claro, são absolutamente contra este tipo de proposta, ensinando que os animais não podem ser responsabilizados pelas interferências humanas em seu habitat. Há ainda aqueles que afirmam que a instalação de uma longa rede de proteção conteria a aproximação dos tubarões; grupos de ecologistas também são contra esta ideia, afirmando que os tubarões, além de tartarugas e golfinhos, ficariam presos nesta rede e morreriam asfixiados.

Em meio a esta verdadeira guerra sobre as causas e as possíveis soluções para os problemas de tubarões nas praias da Região Metropolitana do Recife, os pernambucanos continuam dando o seu jeitinho e frequentando Boa Viagem e outras excelentes praias da região.

Que todos os deuses dos mares continuem e protege-los!

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