OS CARAMUJOS DO RIO IPOJUCA, A FALTA DE SANEAMENTO BÁSICO E A ALTA INCIDÊNCIA DA ESQUISTOSSOMOSE EM PERNAMBUCO

Esquistossomose

Nos Banhados do Rio Grande do Sul, conforme apresentamos em postagem anterior, existem muitas preocupações sobre o futuro das pomáceas, uma espécie de caramujo aquático. Esses caramujos costumam invadir as grandes plantações de arroz, onde são combatidos com moluscicidas, pesticidas que matam esses animais. O grande problema é que resíduos desses agrotóxicos são carreados na direção das áreas dos Banhados, onde também eliminam populações de pomáceas desses biomas. Isso compromete a cadeia alimentar de uma série de aves e peixes, prejudicando especialmente o gavião-caramujeiro, espécie que se alimente quase que exclusivamente desse caramujo. 

Em regiões do litoral da Região Nordeste, ao contrário dos Pampas Gaúchos, sobram caramujos nos rios, especialmente das espécies Biomphalaria glabrata (vide foto) e Biomphalaria straminea, e faltam predadores como o gavião-caramujeiro e outras espécies de aves e peixes. Estes caramujos, que vivem nas águas de rios e de açudes, são os hospedeiros das larvas do verme (cercarias) responsáveis pela esquistossomose, também conhecida como doença do caramujo, barriga d’água, xistose ou bilharzíase. A esquistossomose é uma doença parasitária grave e que pode trazer sérias consequências para estas populações.  

Em sua fase crônica, a esquistossomose pode provocar o aumento do fígado e a cirrose hepática, aumento do baço, hemorragias causadas pelo rompimento de veias no esôfago e a dilatação do abdômen (a conhecida “barriga d’água”), devido ao acúmulo do plasma que sai do sangue e vai parar nos tecidos. Diagnosticada adequadamente, a doença pode ser tratada através de medicamentos que neutralizam o parasita. 

Pernambuco é o campeão nacional em mortes por esquistossomose – são cerca de 150 mortes por ano provocadas pela doença no Estado. De acordo com dados oficiais, 101 municípios pernambucanos são classificados como endêmicos para a esquistossomose, o que corresponde a mais de 54% dos municípios de Pernambuco. As áreas com maior incidência da doença são a Região Metropolitana do Recife, a Zona da Mata e parte do Agreste. De acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde, entre 2013 e 2017, foram diagnosticados 33.213 casos positivos de esquistossomose em Pernambuco, sendo que 23.256 pessoas receberam tratamento. Das cinco localidades do Estado com o maior número de infestações, duas se encontram às margens do rio Ipojuca: Escada e Ipojuca. 

O rio Ipojuca tem aproximadamente 320 km de extensão, com nascentes na Serra das Porteiras no município de Arcoverde, no Agreste de Pernambuco, e foz no Oceano Atlântico, no município de Ipojuca. O nome Ipojuca tem origem na antiga língua Tupi, sendo formado a partir da junção das palavras ‘y (água), apó (raiz) e îuka (podre), significando “água das raízes podres”. Algumas fontes afirmam que o significado é um pouco diferente, significando água turva ou barrenta. Os antigos indígenas tiveram suas próprias razões para dar esse nome ao rio; tragicamente, a história só fez por confirmar o acerto na escolha do nome: o Ipojuca é o terceiro rio mais poluído do Brasil, apresentando águas muito turvas e, literalmente, podres em alguns trechos. 

O transmissor da esquistossomose é um verme – Schistosoma mansoni, um platelminto tremátode de origem africana, que chegou em terras brasileiras durante o período Colonial, quando perto de 4 milhões de africanos escravizados chegaram ao país. Como acontece com outros parasitas, quando o Schistosoma mansoni se aloja no corpo humano, ele chega a produzir cerca de 300 ovos por dia ao longo de até 40 anos. Parte desses ovos são eliminados junto com as fezes do doente. Quando em contato com a água, os ovos do verme eclodem e as larvas procuram hospedeiros, especialmente os caramujos. Após quatro semanas em crescimento, as larvas desenvolvidas abandonam o caramujo e passam a nadar livremente nas águas dos rios. A contaminação dos seres humanos se dá através da ingestão da água ou ainda pela penetração das larvas através da pele e das mucosas de pessoas que estejam em contato com as águas. 

No rio Ipojuca, cerca de 60% da poluição das águas tem origem no lançamento de esgotos domésticos sem qualquer tipo de tratamento, num processo que perpetua o ciclo de contaminação das populações – fezes de pessoas contaminadas pelo verme Schistosoma mansoni chegam diariamente as águas do rio, os ovos eclodem e as larvas se alojam nos caramujos, que são espécies silvestres nativas das águas. Apesar de apresentar águas altamente poluídas e degradas, o rio Ipojuca é uma das mais importantes fontes de abastecimento de água do Estado, o que leva a uma contaminação contínua de mais e mais pessoas com a esquistossomose. 

Em ambientes naturais preservados, existe um equilíbrio natural entre as populações de plantas e animais das mais diferentes espécies. Uma forma de entender isso de maneira didática é pensar em cadeias alimentares – plantas servem de alimentos para insetos, que são predados por aves, que são predadas por animais maiores como felinos ou tem seus ovos predados por répteis e outros animais menores. A disponibilidade de alimentos ao longo dessa cadeia alimentar mantém o número de indivíduos de cada grupo em constante equilíbrio. Se as aves, eventualmente, desaparecerem ou tiverem as suas populações diminuídas por alguma interferência externa, as populações de insetos aumentarão muito, destruindo desordenadamente grandes quantidades de plantas; os predadores das aves perderão sua fonte de alimentos e terão suas populações diminuídas. Todo antigo equilíbrio do bioma ficará comprometido. 

Grande parte da degradação ambiental do rio Ipojuca está ligada à destruição do trecho nordestino da Mata Atlântica, um processo que já tratamos inúmeras vezes aqui no blog e que está ligado ao Ciclo do Açúcar em Pernambuco. Com a destruição das matas, inúmeras espécies de aves que se alimentavam dos caramujos aquáticos do rio Ipojuca também desapareceram – sem predadores naturais, as populações de caramujos cresceram. Em outra frente, a poluição das águas por esgotos domésticos, resíduos de agrotóxicos e pesticidas das plantações de cana, efluentes líquidos de matadouros e, mais recentemente, por efluentes químicos gerados pela forte indústria têxtil que se instalou na região do Agreste, se encarregou de dizimar populações de peixes e anfíbios do rio, espécies predadoras que poderiam ajudar no controle das populações de vermes do Schistosoma mansoni. 

A esquistossomose, porém, não fica limitada somente nas áreas da calha do rio Ipojuca. A mesma destruição da Mata Atlântica que reduziu as populações de aves predadoras dos caramujos, também se prestou ao progressivo aumento de grandes enchentes no rio Ipojuca, eventos que ajudaram a espalhar os caramujos para outras localidades, onde destacamos a vila de Porto de Galinhas, um distrito do município de Ipojuca. A vila, que é um dos mais importantes destinos turísticos do Estado de Pernambuco, foi invadida por caramujos das espécies Biomphalaria glabrata e Biomphalaria straminea. Sem contar com uma infraestrutura de saneamento básico minimamente satisfatória, Porto de Galinhas passou a representar um risco para a saúde de dezenas de milhares de turistas que, sem consciência, estão expostos aos riscos de contaminação pela esquistossomose

Uma outra fonte de disseminação da doença é a extração de areia da calha do rio Ipojuca para uso na construção civil – larvas do Schistosoma mansoni conseguem sobreviver por curtos períodos na areia molhada, o que cria a possibilidade de as larvas atingirem outras bacias hidrográficas do Estado, contaminando novas populações de caramujos e de pessoas

Resumindo essa ópera bufa: a degradação da bacia hidrográfica do rio Ipojuca teve impactos positivos nas populações dos caramujos das espécies Biomphalaria glabrata e Biomphalaria straminea, hospedeiro do verme Schistosoma mansoni, responsável pela transmissão da esquistossomose, criando um ciclo contínuo de transmissão da doença.

É como diz um velho ditado: quem planta, um dia colhe… 

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