OS EXTREMOS CLIMÁTICOS DO BRASIL

Chuva em São Paulo.

Na última semana, acompanhamos fortes tempestades na região Sul do Brasil, inclusive com quedas de granizo em algumas localidades. Em algumas cidades do Rio Grande do Sul, os volumes de chuva registrados, como em Alegrete e Santiago, atingiram altos volumes, com as marcas de 75 e 64 mm, respectivamente. Fortes vendavais, com velocidades superiores aos 85 km/h, causaram prejuízos em várias cidades. Enquanto isso, somente no Estado de Minas Gerais, mais de 100 municípios estão em estado de emergência por causa da seca e da estiagem

De acordo com o último relatório do Ministério da Integração Nacional, publicado em 1° de novembro de 2018, 982 municípios brasileiros contam com o reconhecimento federal de situação de emergência. A maior parte destes municípios está enfrentando problemas relacionados à seca e a estiagem, especialmente na região Nordeste; 50 municípios de 14 Estados estão em situação de emergência por conta de chuvas, inundações, alagamentos, tornados, granizo e vendavais. Esse quadro mostra a diversidade climática de nosso país. 

Com mais de 8,5 milhões de km² de território, o Brasil é um dos maiores países do mundo quando se fala em extensão territorial – não é incomum se ouvir referências como “país de dimensões continentais”. O território brasileiro tem quase o mesmo tamanho do Continente Australiano, formado por Austrália e ilha da Tasmânia, Nova Guiné e outras ilhas menores que ocupam a mesma plataforma continental. Em relação à Europa, o Brasil tem uma área equivalente a 85% daquele território. Vivemos em um país muito grande, onde coexistem diferentes padrões climáticos. 

Se traçarmos uma linha reta entre o Monte Caburaí, ponto extremo ao Norte (que substituiu o Oiapoque), e o Arroio Chuí, extremo Sul do Brasil, encontraremos uma distância de 4.394 km. Se repetirmos a medição entre os extremos Leste-Oeste, considerando o Pontal do Seixas na Paraíba à Leste e as nascentes do rio Moa, na Serra da Contamana no Acre, no Oeste, teremos uma medida bastante próxima – 4.319 km.  

Uma das razões que nos dão a falsa impressão do Brasil não ser um país tão grande é o sistema de registro cartográfico utilizado na confecção dos mapas mundiais mais conhecidos – a chamada Projeção de Mercator. Esse processo de desenho produz uma forte distorção nos territórios localizados mais ao Norte e mais ao Sul do globo terrestre, aumentando consideravelmente suas proporções. Territórios localizados mais próximos da Linha do Equador, como é o caso do Brasil, aparecerão com proporções relativamente menores. Um exemplo é a Groenlândia, ilha localizada no Norte do Oceano Atlântico, que tem uma superfície total de 2,16 milhões de km², mas que nos mapas sempre aparece com um tamanho maior que o Brasil, país que tem uma superfície quatro vezes maior

Todo esse tamanho do território brasileiro produz, às vezes, algumas notícias interessantes em relação ao clima. Cerca de três meses atrás, no auge do inverno na Região Centro-Sul do país, não foram poucas as vezes em que notícias sobre a queda de neve e as temperaturas negativas nas regiões serranas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, contrastavam com temperaturas próximas aos 40° C em capitais das regiões Norte e Nordeste. 

O território brasileiro possui cinco zonas climáticas diferentes, que podem, para fins didáticos, ser divididas em duas macrorregiões: na primeira, que engloba os Estados mais ao Sul do país, as estações do ano são claramente divididas em primavera, verão, outono e inverno. Todo o restante do país, ao Norte dessa macrorregião, onde encontramos os biomas Cerrado, Caatinga e Amazônia, as estações do ano se resumem basicamente ao verão, o período da seca, e ao inverno, período das chuvas. Considerando somente essa divisão, já teremos situações climáticas bastante diferentes ao longo do território brasileiro.

Mas o mosaico de climas do Brasil é bem mais diverso: nos estados da região Sul e em parte do Estado de São Paulo, o clima é Subtropical. Nas regiões serranas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, o padrão climático é o chamado Tropical de Altitude. Na extensa região que ocupa a maior parte das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste o clima é Tropical. Na região Norte o clima predominante é Equatorial. Na faixa Leste do litoral do país encontramos ainda o clima Tropical Atlântico. Além desses padrões climáticos bem definidos, o país possui diversas áreas com climas intermediários, como Tropical Úmido e Tropical Semi-Úmido.

Além de toda essa grande diversidade climática, que estamos apresentando de forma bastante simplificada e pela qual pedimos desculpas antecipadas aos geógrafos e climatologistas, o clima de nosso país ainda sofre interferências de grandes fenômenos globais – El Niño e La Niña. Após observações sistemáticas que se estenderam por várias décadas, os cientistas perceberam mudanças periódicas na temperatura das águas de uma extensa região do Oceano Pacífico, com reflexos no clima mundial. Em alguns anos, as águas apresentam uma temperatura acima do normal – El Niño; em outros, as águas ficam mais frias – La Niña. No Brasil, os anos de El Niño apresentam chuvas mais intensas na região Centro-Sul e secas mais fortes em algumas regiões; nos anos de La Niña, as chuvas caem com maior intensidade na região do Semiárido Nordestino e rareiam em outras regiões.

Com toda essa diversidade climática, sempre teremos notícias das mais diversas sobre chuvas, secas, calor e frio nas diferentes regiões do Brasil. Quando o assunto for clima, sempre haverá alguma novidade em algum lugar do nosso país. 

 

RELATÓRIO DO WWF: POPULAÇÕES ANIMAIS SOFRERAM UMA REDUÇÃO DE 60% EM APENAS 40 ANOS

 Tamanduá-bandeira

Um conjunto de notícias de grande impacto ambiental foram divulgadas nesta semana e merecem alguns comentários. O WWF  World Wide Fund for Nature, ou Fundo Mundial para a Vida Selvagem e Natureza em português, uma das mais importantes organizações não governamentais de proteção ao meio ambiente do mundo, divulgou um relatório alarmante sobre a situação caótica e desesperadora em que se encontra o meio ambiente no planeta. 

De acordo com os dados divulgados, a Terra vive hoje uma das maiores ondas de destruição de ambientes naturais e de perda espécies já vista ao longo da história. Populações de mamíferos, peixes, anfíbios e de aves sofreram reduções de 60% em apenas quatro décadas. Outra gravíssima ameaça detectada foi o aumento do volume de plásticos no oceano, um problema que ameaça as espécies marinhas como um todo. Um exemplo da gravidade desse problema é o aumento de aves com fragmentos de plástico no estômago: na década de 1960, cerca de 5% das aves tinham esses fragmentos em seu trato digestivo; hoje são 90%

Um dos destaques negativos do relatório, como sempre, foi o avanço da destruição da Floresta Amazônica em terras brasileiras. Dados levantados a partir de imagens de satélites mostram que uma área de matas equivalente a 1,4 milhão de campos de futebol desaparecem a cada ano na região e cerca de 20% da área original do bioma já foi devastada. O relatório prossegue com a apresentação de outros inúmeros problemas ambientais em outras partes do mundo. 

É aqui que entro para fazer alguns comentários – a situação da Amazônia é preocupante, especialmente por causa do avanço das frentes agrícolas e da pecuária, que vêm o bioma como uma espécie de “Eldorado” para o crescimento dessas atividades e consolidação definitiva do Brasil como o novo “celeiro do mundo”. Existem, porém, dois biomas brasileiros em situação muito mais dramática que a Amazônia e que não costumam ter a mesma exposição nas mídias mundiais: falo do Cerrado e da Caatinga

O Cerrado, que foi tema de uma série de postagens recentes aqui no blog, é o segundo maior bioma brasileiro, ficando atrás apenas da Amazônia, e ocupa uma área total equivalente a 20% de nosso território. A forte expansão das fronteiras agrícolas nas últimas décadas já devastou cerca de 50% da sua vegetação original. Existe aqui um enorme agravante – o avanço das fronteiras agrícolas no bioma não para de crescer e as expectativas para o Cerrado não são as melhores. 

Um exemplo de fauna carismática (animais que representam um bioma) que vem tendo reduções expressivas em suas populações são os tamanduás. O tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), é o maior da espécie. Um adulto pode atingir o peso de 45 kg e 1,8 metro de comprimento, incluindo a cauda. Pois bem – um animal com todo esse tamanho se alimenta única e exclusivamente de insetos, mais especificamente formigas e cupins: são 30 mil insetos a cada dia (vide foto). Com o avanço da agricultura, os habitas naturais dos tamanduás estão sendo gradativamente destruídos e os animais não estão encontrando seus alimentos na quantidade adequada. O uso de agrotóxicos para o controle de insetos nas plantações reduz ainda mais a disponibilidade dos seus alimentos. 

Outro bioma extremamente importante e que está desaparecendo silenciosamente é a Caatinga Nordestina, assunto que já tema de dezenas de postagens aqui no blog. O bioma já perdeu, pelo menos, metade de sua área original, que vem sucumbindo com o avanço de populações e de gados desde os tempos coloniais. Nos dois primeiros séculos de nossa história, a principal atividade econômica colonial era a produção do açúcar nas regiões litorâneas, especialmente na faixa Nordeste do país. Como já relatamos em outros textos, os grandes senhores dos canaviais entravam em constantes conflitos com os criadores de bois – os animais invadiam as plantações e comiam os brotos açucarados de cana-de-açúcar. Esses constantes embates levaram à decretação de uma Carta Régia por parte do Governo Colonial, proibindo a criação de bois a menos de 60 km dos canaviais.  

Indesejados no litoral, os criadores e suas boiadas iniciaram um processo maciço de penetração na região do Semiárido Nordestino. Áreas de vegetação de caatinga começaram a ser queimadas para a ampliação das áreas de pastagens e a criação de roças para a agricultura de subsistência. Esse processo de ocupação dos sertões do Nordeste por populações humanas e animais prosseguiu ao longo dos séculos e transformou o Semiárido Brasileiro na região semiárida mais habitada do mundo. Hoje, cerca de 23,5 milhões de pessoas vivem na região do Semiárido Brasileiro, uma população que chega a ser dez vezes maior que a de outras áreas semiáridas do mundo. 

Essa superpopulação de gentes e de bichos, termo que eu costumo usar com bastante frequência, estão na raiz da pressão ecológica sobre o bioma Caatinga. Todas essas populações necessitam de alimentos e de água, de materiais para a construção de casas, móveis, cercas e outros utensílios. Também necessitam de lenha para os fogões e de áreas de pastagens para todos os tipos de gados: bois, cabras, ovelhas, equinos e muares – são as áreas de vegetação de Caatinga que fornecem tudo isso. Os animais dos caatingais, que já sofrem com a destruição e fragmentação dos seus habitats, também são caçados e transformados em fontes de proteínas complementares pelas sofridas populações sertanejas. 

Além das preocupações legítimas e necessárias de toda a comunidade científica internacional em relação à contínua e implacável destruição da Floresta amazônica, é preciso também mostrar a situação caótica dos biomas Cerrado e Caatinga que, infelizmente, acabam não tendo maiores destaques aos olhos do mundo.

AINDA FALANDO DE GRANIZO, OU LEMBRANDO DA “PROFECIA DO CAPADÓCIO”

Avião Latam

O mineiro Fernando Sabino (1923-2004), escritor e jornalista de primeira linha, nos legou uma obra fantástica, onde se incluem romances, histórias, contos, artigos, filmes e, especialmente, crônicas. Na crônica “A quem tiver carro”, uma das minhas favoritas, Sabino fala dos dissabores de um motorista com um carro problemático, onde cada mecânico visitado dá um diagnóstico diferente ao problema (bem por acaso, já tive um carro com um “problema” semelhante).  

Ao sair para uma viagem, o carro “morreu” a poucos quilômetros de sua cidade, bem na frente de uma oficina mecânica de beira de estrada. O mecânico, “especialista” em eletricidade de automóveis, rapidamente diagnosticou o problema – o dínamo estava esquentando. Como solução mágica, o mecânico enrolou um pano molhado na peça, informando que o carro iria morrer de novo assim que esse pano secasse. O indignado motorista, que havia decidido voltar para a sua casa, encontrou rapidamente com o seu destino: “À entrada da cidade a profecia do capadócio se realizou: morreu de novo.” 

Sentindo-me um pouco como o capadócio de Fernando Sabino, encontrei entre as notícias publicadas nesta manhã a informação do incidente ocorrido na madrugada de ontem (31/10/2018), com um avião Airbus A-320 da empresa Latam, que sofreu grandes danos por granizo, durante um voo entre as cidades de São Paulo e Santiago do Chile. O avião sobrevoava a região de fronteira entre o Rio Grande do Sul e a Argentina, quando passou a enfrentar uma forte turbulência e os passageiros passaram a ouvir o barulho do granizo batendo contra a fuselagem. A postagem publicada ontem aqui no blog tratou justamente das tempestades no Rio Grande do Sul e dos graves problemas criados pela precipitação de granizo. O avião fez um pouso de emergência em Buenos Aires, na Argentina, e todos os passageiros passam bem. 

Leiam a integra da matéria publicada pelo site de notícias FOLHAPRESS que fala dessa infeliz coincidência: 

“AVIÃO DA LATAM TEM NARIZ E PARA-BRISA DESTRUÍDO POR GRANIZO EM VOO 

Um voo da Latam saído de Guarulhos, com destino a Santiago, no Chile, teve de ser desviado para Buenos Aires na madrugada desta quarta-feira (31), após a aeronave passar por uma tempestade de granizo e sofrer avarias. 

Embora, segundo a Latam, o voo e o desvio para a Argentina tenha ocorrido de maneira segura, nas TVs passageiros dizem ter passado momentos de pânico e “queda livre”. 

Segundo sites de monitoramento de voos, A aeronave A320 (uma das mais usadas no mundo), partiu de Guarulhos à 1h51 (de Brasília) e seguia normalmente seu voo até as 3h11, quando sobrevoava no noroeste do Rio Grande do Sul, fez uma curva atípica para este voo para a direita. Logo depois, já na fronteira com a Argentina, a aeronave ganhou altitude, possivelmente para desviar de uma tempestade. 

Segundo relatos dos passageiros, o piloto anunciou que o voo passaria por uma zona de turbulência e que os passageiros deveriam colocar o cinto de segurança. 

Às 3h23, a aeronave desceu cerca de mil metros em um minuto e meio, segundo os sites de monitoramento. Nesse momento, passageiros relataram pânico no voo. 

“Foi uma turbulência, mas muito violenta. Era como uma espécie de queda livre. E se prolongou no tempo, isso causou pânico entre os passageiros. Se ouviram gritos e choro”, disse a uma TV argentina um dos passageiros. “Em um momento, percebemos o aumento da potência das turbinas. E houve um barulho tremendo do granizo golpeando a fuselagem. Foi bastante impactante”, comentou o passageiro. 

Após o incidente, o piloto teria informado que mudariam o destino do voo para Buenos Aires, por motivos de segurança. O pouso ocorreu às 4h52. 

Nesse momento, o nariz do avião e o vidro que permitiam a visualização da pista pelos pilotos estavam danificados pelo impacto de diversas pedras de granizo. 

Em uma conta no Twitter, o jornalista Diego Dominelli publicou fotos da frente e do interior da cabine do avião. 

Segundo o especialista em segurança aérea Lito de Sousa, apesar do susto dos passageiros, o voo não correu risco. 

“É normal que os passageiros tenham se assustado, pois a turbulência costuma ser bem severa e o barulho é bastante alto, em casos de tempestade com granizo. Mas independente do susto, o avião não corre risco de queda. Existem vários casos já registrados em que granizos que destroem o nariz e o para-brisa. Mas o voo segue com segurança. Não há riscos sobre os motores, por exemplo”, comenta. 

A Latam diz que a aeronave terá de passar por manutenção e que os passageiros receberam assistência da companhia e estão seguindo para Santiago, no Chile. 

A companhia diz que seguiu todos os procedimentos previstos para este tipo de situação, mantendo o controle da aeronave em todos os momentos e resguardando sempre a segurança de seus passageiros. Com informações da Folhapress.”  

 

AS TEMPESTADES NO RIO GRANDE DO SUL COM QUEDA DE GRANIZO

Granizo

O mês de Outubro se encerra no Estado do Rio Grande do Sul com fortes chuvas, ventos e queda de granizo em algumas regiões. Na região da Serra Gaúcha, as precipitações foram acompanhadas de ventos de 90 km/h, o que provocou a queda de árvores e o destelhamento de casas. Os maiores volumes de chuvas foram registrados nas cidades de Alegrete, com um volume acumulado de 75 mm, e em Santiago, onde foram registrados 64 mm. Os fortes ventos causaram prejuízos nas regiões de Tupanciretã e também em Soledade, onde atingiram a velocidade de 86 km/h. 

As tempestades de primavera e de verão são comuns na região Sul, onde as altas temperaturas e a entrada de fortes frentes frias vindas do Sul do continente provocam alterações súbitas no clima. No dia anterior, o INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, já havia emitido um alerta sobre a possibilidade de fortes chuvas com ventos de até 100 km/h em todo o território do Rio Grande do Sul, com a possibilidade de queda de granizo. A Marinha do Brasil também havia emitido um alerta sobre os riscos de ressaca em todo o litoral, com ondas que poderiam chegar aos 2,5 metros. Todas as previsões acabaram confirmadas, inclusive com registros de queda de granizo em cidades da Serra Gaúcha e na região da Campanha. 

Nosso planeta inteiro, conforme já comentamos em postagens anteriores, é uma gigantesca máquina movida a partir da energia do Sol. Entre outras inúmeras aplicações, a energia solar é a responsável pela evaporação de grandes volumes da água do mar – 383 mil km³ de vapor de água ou o equivalente a uma camada com aproximadamente 1,06 metro da água de todos os oceanos do mundo a cada ano. Esse vapor é espalhado pelos ventos por todos os cantos do planeta e é precipitado na forma de chuva, neve e granizo, entre outras, formando a água doce ou potável disponível na superfície dos continentes. De todas essas formas de precipitação da água, o granizo é uma das mais “desagradáveis”

Granizo ou saraiva são pedaços irregulares de gelo que se formam em nuvens densas como as cúmulos-nimbos e que se precipitam na direção dos solos durante as chuvas. Esses pedaços de gelo são compostos por água no estado sólido e têm um diâmetro entre 5 e 200 mm. Os institutos de meteorologia se referem ao evento em seus comunicados como queda de granizo, saraivada ou, simplesmente, queda de gelo. A formação do granizo requer ambientes de forte ascendência de ventos na atmosfera e baixa altitude do nível de congelamento, sendo mais frequentes nas áreas interiores dos continentes, dentro das latitudes médias do planeta. 

Normalmente, os pedaços de gelo têm um diâmetro de pouco mais de 5 mm, porém, conforme o grau de severidade das tempestades, os pedaços de gelo se aglutinam e formam bolas de gelo de grande peso e com alto potencial para causar danos materiais ao atingir o solo. É comum nas reportagens de televisão sobre os estragos causados por quedas de granizo, que moradores das regiões mostrem grandes pedras de gelo ao lado de frutas, como maçãs ou laranjas, ou de ovos, como forma de comparação de tamanho. 

O granizo se forma a partir de gotas de água que congelam ao entrar em contato com os chamados núcleos de condensação das nuvens, onde a temperatura está abaixo dos 0° C. Conforme novas gotas de água entram em contato com esse granizo, elas também se congelam e passam a formar uma estrutura parecida com uma cebola, apresentando várias camadas sucessivas de gelo. A força ascendente dos ventos continuará levando gotas de água e manterá o granizo suspenso até que sua massa atinja um peso que não poderá ser mais suportado pela nuvem – é nesse momento que o granizo cai na direção dos solos. 

As quedas de granizo ou saraivadas costumam causar grandes prejuízos para os agricultores, que muitas vezes têm plantações inteiramente destruídas pelo choque das pedras de gelo. Conforme o tamanho do granizo, esses prejuízos se estenderão a danos em telhados, construções, veículos, trens e aeronaves, além de riscos de ferimentos em pessoas e animais. No ano de 2004, eu tive a infelicidade de, num intervalo de três meses, ter meu carro atingido por duas tempestades com queda de granizo – mais de 50 marcas do choque das pedras de gelo ficaram “registradas” na lataria do veículo. 

Os sistemas de radares meteorológicos mais modernos conseguem detectar rapidamente a formação de granizo nas nuvens de tempestades – o Sistema Meteorológico do Canadá, por exemplo, faz esse tipo de acompanhamento e emite boletins de alertas para as áreas sob risco de queda de granizo, informação que permite que as populações se preparem para o evento climático. Uma outra alternativa que vem sendo usada na prevenção das quedas de granizo são sistemas de foguetes anti-granizantes. Essa tecnologia, de origem russa, permite que nuvens densas onde há probabilidade de formação de granizo sejam bombardeadas por baterias de foguetes, que ao atingirem o seu alvo liberam cargas de iodeto de prata no interior da nuvem, um produto que dissolve o granizo.  

Uma tecnologia brasileira, desenvolvida pela FATEC – Faculdade de Tecnologia de São Paulo, utiliza um sistema que libera o iodeto de prata nas nuvens sem explodir o foguete, que retorna ao solo numa decida controlada por paraquedas e pode ser reutilizado. Esse sistema permite um barateamento da operação e já vem sendo utilizado por cooperativas de produtores de frutas da Serra Gaúcha. 

Para a maioria de nós, pobres mortais que não dispõem desses foguetes anti-granizantes, precisaremos continuar contando com a sorte para fugir das imprevisíveis e problemáticas quedas de granizo. 

OS RAIOS DE OUTUBRO

Raios de Outubro

No último dia 16 de outubro, um avião de passageiros que fazia a rota entre as cidades de Vitória da Conquista, no Centro-Sul da Bahia, e Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, foi atingido por um raio cerca de 40 minutos após a decolagem. De acordo com o relato dos passageiros, foi ouvido um forte estrondo seguido por intensas chamas, vistas através das janelas da aeronave. O incidente, que durou poucos segundos, foi suficiente para provocar pânico entre os passageiros, que só se acalmaram após ouvir um relato do comandante, informando que a aeronave havia sido atingida por um raio, porém, sem causar nenhum problema nos instrumentos eletrônicos e sistemas de voo. Cerca de vinte minutos depois, o avião fez um pouso seguro no aeroporto da cidade de Montes Claros, no Norte de Minas Gerais. Apesar do grande susto, todos os passageiros e tripulantes estavam bem. 

À primeira vista, essa notícia parece não ter nada a ver com a linha editorial do blog, onde falamos de recursos hídricos e de saneamento básico. Uma análise um pouco mais aprofundada do caso, porém, mostra que o incidente está ligado diretamente a esse período do ano, quando as chuvas começam a cair com mais intensidade na região Centro-Sul do país. As mudanças climáticas que ocorrem nos meses de primavera e verão favorecem a entrada de frentes frias, que trazem no seu encalço grandes massas de nuvens, favorecendo a formação de tempestades com raios. Outubro é, estatisticamente falando, o mês de maior incidência de raios no Brasil

De acordo com informações do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Brasil é o país com a maior incidência de raios no mundo, com perto de 80 milhões de ocorrências por ano. Estudos da NASA, órgão do Governo dos Estados Unidos voltado a pesquisas e tecnologia aeroespacial, indicam que esse número de ocorrências é ainda maior, chegando a casa de 110 milhões de raios por ano. O Estado líder no ranking de ocorrências de raios é o Amazonas, com 11 milhões de registros por ano, seguido pelo Pará, com 7,8 milhões de raios e Mato Grosso, onde são registradas mais de 6,8 milhões de ocorrências a cada ano. No outro extremo desse ranking encontra-se Sergipe, Estado com a menor incidência de raios no Brasil. O Nordeste, aliás, é a região brasileira com o menor registro de raios

Esse ranking nacional, porém, não é imutável: de acordo com estudos do INPE, mudanças no padrão climático de São Paulo ao longo dos próximos 30 anos, poderão transformar o Estado mais populoso do país num campeão em incidência de raios. De acordo com os pesquisadores, a incidência de raios em terras paulistas, que já não é baixa, poderá aumentar em até 80%.

Dados oficiais indicam que, entre os anos 2000 e 2017, ocorreram 2.044 mortes de pessoas atingidas por raios no Brasil. Cerca de 25% dos casos registrados envolveram trabalhadores rurais, 15% das vítimas estavam dentro de casas, 10% se encontravam próximas a veículos, 8% embaixo de árvores, 7% jogando futebol, 5% estavam abrigadas sob pequenas coberturas e 4% foram atingidas em praias. Entre as maiores vítimas dos raios destaca-se o gado bovino – esses animais ficam expostos às descargas elétricas enquanto pastam nos campos; quando percebem a chegada das tempestades, esses animais costumam, instintivamente, se reunir em grandes grupos, o que não raras vezes resulta na morte conjunta de dezenas de animais após a queda de um único raio. Não existem estudos detalhados sobre a morte de gado por raios no Brasil – nos Estados Unidos, cerca de 80% dos incidentes que resultam na morte de gado está ligada a incidência de raios. 

Em um artigo publicado em 2016, sob o título “Where are the lightning hotspots on Earth?” (Onde estão os pontos ativos de raios na Terra?), pesquisadores da NASA, de universidades americanas e da USP – Universidade de São Paulo, fizeram um mapeamento dos locais com a maior incidência de raios no planeta. O estudo se estendeu por um período de 16 anos, analisando a incidência dos raios e suas relações com a topografia e a vegetação.

A região do lago Maracaibo, na Venezuela, foi considerada a capital mundial dos raios, colocando o Congo, país da África Central que até então era considerado o campeão mundial de ocorrências, na segunda posição. O estudo criou um ranking com os 500 locais com a maior incidência de raios no mundo – desse total, 283 localidades encontram-se na África. Uma região do rio Negro, a Noroeste da cidade de Manaus, no Estado do Amazonas, coloca o Brasil na 191° posição nesse ranking mundial de raios. 

Apesar de todos os avanços da ciência nos estudos sobre a incidência e a formação dos raios ao redor do mundo, ainda não existem equipamentos ou técnicas que permitam prever com antecedência os locais onde ocorrerão as descargas elétricas, informação que poderia ser usada para alertar as populações. Na falta de mecanismos de alerta, valem as velhas orientações dos especialistas: nessa época de fortes precipitações, evite lugares abertos ou praias durante a ocorrências de chuvas; não se abrigue embaixo de árvores ou construções pequenas como pontos de ônibus, marquises e garagens; e busque sempre a segurança de construções dotadas de sistemas de para-raios. 

Se nada disso for possível, o jeito será contar com a sorte – de acordo com as estatísticas, 70% das pessoas atingidas por raio conseguem sobreviver. 

AS ÁGUAS DE SOBRADINHO

Sobradinho Na foto: Barragem SobradinhoFoto: Roberto Viana em, 08/05/06.

Em meados de dezembro de 2017, em uma postagem aqui no blog, falávamos das fortes chuvas que estavam caindo em Minas Gerais, Goiás e região Oeste da Bahia que, pouco a pouco, estavam chegando na calha do rio São Francisco e iniciaram um lento processo de recuperação da barragem de Sobradinho. Em novembro daquele ano, quase um ano atrás, o nível do reservatório de Sobradinho estava com meros 2,8% de sua capacidade, o menor nível da sua história, num colapso que ameaçava o abastecimento de várias cidades, a irrigação de lavouras e também a manutenção das operações de várias usinas hidrelétricas no médio rio São Francisco

De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o nível do reservatório de Sobradinho está hoje (29/10/2018) com 22,44% de sua capacidade. Comparado com a situação crítica do mesmo período no ano passado, Sobradinho e suas águas vão muito bem, obrigado. 

A barragem de Sobradinho foi planejada na década de 1940 e acabou sendo construída na década de 1970 como uma usina hidrelétrica. Sua principal função seria a regularização do nível das águas do rio São Francisco, mantendo um fluxo de águas constante para as diversas usinas hidrelétricas construídas a montante do rio. Em condições naturais, o leito de um rio apresenta fortes variações em seus caudais ao longo do ano: nos períodos de chuva, com a chegada de grandes volumes de águas pluviais, os rios enchem e, em muitos casos, chegam a transbordar; já na época da seca, o nível dos rios costumam baixar muito. 

Essas bruscas variações no volume de águas de um rio criam problemas para o funcionamento das turbinas das usinas hidrelétricas que, para terem um funcionamento normal, necessitam de um fluxo constante de água. É aqui que entram em cena as represas de regularização do fluxo das águas. Durante o período das chuvas, essas represas armazenam água – na época da seca, a represa passa a liberar água, mantendo assim os caudais do rio dentro dos limites operacionais das turbinas das usinas hidrelétricas. Um grande exemplo deste tipo de obra é a represa Guarapiranga, localizada na Zona Sul de São Paulo, que foi construída no início do século XX para funcionar como regularizadora das inconstantes águas do rio Tietê, que naqueles tempos acionavam as turbinas da usina hidrelétrica de Santana de Paranaíba. 

A situação de relativa comodidade da represa de Sobradinho contrasta com a situação atual das represas da calha do rio Grande, distribuídas entre o Sul do Estado de Minas Gerais e Norte de São Paulo, e também da represa de Serra Mesa, no Estado de Goiás. Esses reservatórios estão sofrendo em consequência da seca e dos baixos volumes de chuvas nas bacias hidrográficas dos seus rios formadores. Já na barragem de Sobradinho, os bons níveis de água armazenada se devem a uma boa temporada de chuvas entre o final de 2017 e início de 2018. Essas chuvas caíram com maior intensidade em áreas do Cerrado em Minas Gerais e em Goiás, em regiões que concentram os principais rios formadores do rio São Francisco. 

O importante rio São Francisco, que tem uma extensão total de 2.830 km, possui uma bacia hidrográfica que ocupa áreas de 521 municípios em 6 estados da Federação – Goiás, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe, Alagoas e também o Distrito Federal. Apesar de ocupar uma área total de quase 640 mil km², 75% dos caudais, ou volumes de água, da bacia hidrográfica do rio São Francisco vêm de áreas de Cerrado em Goiás e Minas Gerais, o que só reforça a importância desse bioma. Foram justamente as chuvas nessas regiões na última temporada as responsáveis pela atual situação da represa de Sobradinho. 

Parte importante das águas pluviais que caem sobre o território de uma bacia hidrográfica escorre diretamente pela superfície dos solos e chega às calhas dos rios. Outra parte dessas águas infiltra nos solos e reabastece os aquíferos e depósitos subterrâneos – serão essas águas as responsáveis pela alimentação das nascentes formadoras dos rios ao longo da maior parte do ano. Em áreas de Cerrado, o processo de infiltração da água nos solos depende da presença das longas raízes da vegetação nativa. Nas áreas onde o avanço da agricultura ocupou antigas áreas de vegetação de Cerrado, esse processo de infiltração de água nos solos é bastante prejudicado, o que tem como reflexo a redução da produção de água nas nascentes e a consequente redução dos caudais dos rios.  

A redução dos caudais é hoje um dos maiores problemas do rio São Francisco, que ano após ano vem apresentando menores volumes de água na sua calha e depende muito da chegada do período das chuvas para regularizar a sua vazão. São necessárias ações ambientais em diversas frentes, focadas na recuperação de áreas florestais nas regiões de recarga do aquíferos, nas nascentes e nas áreas das margens, onde as matas ciliares são fundamentais para conter o assoreamento da calha dos rios,  

Sem esses esforços, a bacia hidrográfica como um todo ficará sempre na dependência de uma boa temporada de chuvas, algo que não acontece com regularidade ao longo dos anos.  

 

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OS BAIXOS NÍVEIS DO RESERVATÓRIO DE SERRA MESA E A QUEDA DO VOLUME DE CHUVAS EM GOIÁS

Serra Mesa

A Usina Hidrelétrica de Serra Mesa, instalada no Alto Rio Tocantins no Estado de Goiás, possui uma potência instalada de 1,785 MW e acaba de completar 20 anos de operação, Seu reservatório possui um espelho d’água que pode atingir a marca de 1.784 km², o que o coloca como o maior depósito artificial de água doce da América Latina. Possui uma capacidade nominal para armazenar 54,4 bilhões de m³ de água, porém, há muitos anos que o nível das águas não consegue chegar nem perto dessa marca. De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, a represa de Serra Mesa está hoje (28/10/2018) em 12,46%. Ao lado das represas do Rio Grande, sobre as quais falamos em postagem recente, Serra Mesa está no grupo de reservatórios com os mais baixos níveis de água armazenada de todo o sistema elétrico do país.

Todo o Centro-Oeste do país está passando por um período de forte seca nesses últimos meses e as populações da região esperam ansiosamente pela chegada de chuvas em volumes maiores e com melhor distribuição geográfica. As projeções da meteorologia, infelizmente, não são as mais animadoras – as chuvas previstas para os últimos meses deste ano ficarão abaixo da média histórica por conta da presença do fenômeno El Niño. As projeções indicam que o fenômeno climático deverá provocar áreas com chuva mais intensas nas regiões Sudeste e Sul

De acordo com estudos da SECIMA – Secretaria Estadual de Cidade, Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás, foi observada uma redução de 10% nos volumes de chuva no Estado desde 2008 – a partir de 2016, a redução foi ainda maior, chegando aos 25%. Neste período, o fenômeno El Niño  se fez presente em 4 anos, tendo  provocado redução nas chuvas em pelo menos 3 anos. Apesar dos números encontrados, os dados do estudo não permitem nenhuma conclusão sobre o assunto. Na década de 1960 também foi observado um período de 4 anos com redução contínua das chuvas no Estado, porém, as chuvas voltaram aos níveis históricos nos anos seguintes.

Entre janeiro e julho desse ano, o volume de chuvas acumulado no Estado de Goiás chegou à marca de 6.710 mm, o menor volume registrado desde de 1994, quando registrados 6.017 mm no mesmo período. Historicamente, o volume médio de chuvas nesse período é de 8.400 mm. É esse déficit hídrico que está se refletindo nas águas do reservatório de Serra Mesa e também na produção agrícola do Estado, onde afeta a produtividade das culturas de grãos e provoca atrasos no plantio de novas safras.

No último mês de março, quando o nível do reservatório de Serra Mesa apresentava um nível de 14,34%, o CNRH – Conselho Nacional de Recursos Hídricos, reduziu a vazão da usina hidrelétrica 300 m³/s para 100 m³/s, com o objetivo de recuperar o volume de água da represa. A medida foi definida como um teste, com duração de 50 dias, objetivando a garantia de um nível mínimo de água no rio Tocantins e nas represas das usinas hidrelétricas a jusante – a situação do reservatório poderia estar bem pior hoje caso essa decisão não tivesse sido tomada naquele momento. As chuvas em toda a bacia hidrográfica do rio Tocantins estão abaixo da média desde 2015, prejudicando a geração de energia elétrica, os transportes hidroviários e o abastecimento de água de várias cidades.

O baixo nível de rios e reservatórios em todo o Estado já causa preocupações em diversas cidades goianas, que ainda se recuperam da forte crise hídrica vivida em 2017. Apesar das autoridades descartarem a necessidade de medidas mais enérgicas para o controle do consumo, várias cidades já discutem a necessidade de impor um racionamento no abastecimento de água para evitar problemas maiores. Foi o que decidiu, para citar um exemplo, o Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Meia Ponte que abastece, entre outras cidades, a Região Metropolitana de Goiânia, onde o rio é responsável por mais da metade da água fornecida para a população. No início de agosto, o Comitê decidiu pela redução dos volumes de captação de água para o abastecimento de indústrias e populações.

A chegada das chuvas nesse começo de primavera traz alguma esperança para as populações e produtores rurais do Estado de Goiás, mas a luz amarela de atenção deve se manter acesa – é preciso racionalizar ao máximo o uso de cada litro de água a fim de se evitar uma crise hídrica de consequências muito mais graves para todos. Aliás, o uso racional da água deve ser incorporado na vida e no dia a dia de todos nós brasileiros.

A SECA QUE ASSOLA DIVERSAS REGIÕES DO ESTADO DE MINAS GERAIS

Seca em Minas Gerais

Na última postagem falamos dos problemas na bacia hidrográfica do rio Grande, localizada entre o Sul de Minas Gerais e o Norte do Estado de São Paulo, onde as populações esperam ansiosamente pela chegada das chuvas mais intensas a partir desse início de primavera. A seca, porém, está causando imensas preocupações em outras regiões do Brasil, especialmente em Minas Gerais, onde a falta de chuvas já colocou mais de 100 municípios em situação de emergência. Diversos outros municípios  do Estado também anunciaram dificuldades no abastecimento devido ao baixo nível dos reservatórios. 

Nas regiões Norte, parte do Noroeste e no Vale do Jequitinhonha, regiões que estão dentro do chamado Polígono das Secas, a situação é considerada mais crítica e cerca de 78% das cidades da região estão enfrentando problemas com a seca. Segundo a EMATER-MG – Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais, cerca de 70% dos rios e córregos da região estão secos ou com níveis extremamente baixos. As chuvas nos últimos seis anos têm caído em volumes abaixo da média, não conseguindo repor os estoques hídricos da região. 

As consequências econômicas da estiagem estão sendo devastadoras para os produtores rurais da região: o número de cabeças de gado já caiu 25% desde 2012 e a área de pastagens degradadas na região já chega a marca de 87,6%. A perda de grãos na última safra foi de 85,4% e a de leite de 62%. Para piorar a situação, a falta de dinheiro tem levado o Governo Federal e Estadual a reduzir obras e serviços emergenciais de combate à seca na região. 

Os serviços de distribuição de água através de caminhões-pipa, essenciais para o abastecimento das populações, estão entre os mais prejudicados. As obras para a construção de diversas barragens, que neste momento de forte estiagem poderiam estar garantindo o abastecimento de inúmeras cidades, também sofreram interrupção por falta de verbas nos últimos anos. A represa de Jequitaí, com obras paralisadas desde 2015, é um exemplo. Projetada para armazenar até 800 milhões de metros cúbicos de água, a barragem poderia hoje estar socorrendo inúmeras cidades da região, entre elas Montes Claros, a maior cidade do Norte de Minas Gerais. 

Outra região do Estado que está sofrendo com a falta de chuvas é o Triângulo Mineiro. Em Uberlândia, a segunda cidade mais populosa de Minas Gerais, a queda do nível dos reservatórios está forçando a população a mudar seus hábitos de consumo de água – de acordo com os registros da empresa local de águas, o consumo per capita no último mês de agosto foi de 237 litros, cerca de 15 litros a menos do que a média histórica. Em Uberaba, outra importante cidade da região, o problema maior é a queda do nível do rio Uberaba, principal manancial de abastecimento. Com as dificuldades de captação no rio, o abastecimento da cidade tem sido reforçado com a transferência de águas do rio Claro, que está sendo feita através de um sistema de bombeamento recém instalado. 

Na cidade de Formiga, no Centro-Oeste do Estado, a empresa de abastecimento do município já emitiu um comunicado para que a população economize, deixando claro que a adoção de um sistema de racionamento não está descartada. Em uma outra cidade da região, Pequi, algumas residências e pontos comerciais já chegaram a ficar 3 semanas sem o abastecimento de água feito pelo serviço municipal sem maiores explicações. 

A falta de chuvas em Minas Gerais também mostra seus reflexos na queda do nível do rio São Francisco, cujas águas são responsáveis pelo abastecimento de dezenas de cidades no Estado e na região Nordeste. A vazão média do rio, que já foi de 600 m³ por segundo, atualmente mal chega aos 270 m³. Em Pirapora, um importante destino turístico as margens do rio São Francisco, o baixo nível do rio e o alto grau de assoreamento do leito tem prejudicado a captação de água pelo serviço municipal de águas e esgotos. Bairros mais distantes da área central da cidade ou em áreas mais altas sofrem com a baixa pressão da água nas tubulações. Nas áreas rurais do município, o abastecimento da população está dependendo do uso de caminhões-pipa e de poços artesianos. 

Infelizmente, as previsões da meteorologia para Minas Gerais não são as melhores neste momento: a primavera deste ano, estação que marca o início das chuvas na maior parte do Estado, terá poucas chuvas e calor acima da média. O principal responsável por essa previsão desanimadora para os mineiros é o fenômeno climático El Niño que este ano, apesar da fraca intensidade, deverá causar uma série de distorções no clima mundial. Além de reduzir a quantidade de chuvas, o El Niño poderá provocar uma má distribuição das precipitações, o que poderá agravar ainda mais os problemas provocados pela seca em várias regiões de Minas Gerais. 

Além de esperar pela chegada das chuvas, as autoridades dos diversos níveis do Governo precisam concentrar esforços para que se consiga, ao menos, regularizar os serviços de distribuição de água nas regiões em situação mais crítica, além de retomar e acelerar obras de combate à seca. Uma outra frente importante de ações tem relação com a recomposição de matas em áreas de nascentes e nas margens dos rios – a presença dessas vegetações é fundamental para a recarga dos aquíferos e das nascentes de água, além de evitar o agravamento do assoreamento das calhas de importantes rios do Estado, como o São Francisco. 

Nesses novos tempos em que alterações nos padrões climáticos do planeta estão provocando mudanças e surpresas que a ciência ainda não compreende perfeitamente, precisamos nos esforçar ao máximo para recuperar parte dos estragos que já fizemos ao meio ambiente. A intensificação da seca já observada em várias partes do mundo, inclusive aqui no Brasil, é um sinal de alerta do que ainda poderá acontecer a todos nós. 

A SECA NO ”MAR DE MINAS”, OU FALANDO DO RIO GRANDE

Furnas

O reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas é o maior espelho de águas de Minas Gerais, um dos muitos Estados brasileiros que não possui fachada oceânica. Ocupando uma superfície total de 1.400 km², mais de três vezes maior do que a área da Baía da Guanabara, e com um perímetro de mais de 3 mil km, o lago de Furnas passou a ser considerado como o “Mar de Minas”. Banhando terras de 34 municípios mineiros, o lago começou a sair do papel em 1957, após o início das obras de construção da Usina Hidrelétrica de Furnas (vide foto), inaugurada 6 anos depois.

Rapidamente, o Lago de Furnas se tornou um dos grandes destinos turísticos do Estado, apresentando águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons (cuja palavra equivalente em português é canhão), grutas e cachoeiras. Furnas é, na fala popular do povo mineiro, “tudo de bão“. 

Infelizmente, desde o ano 2000, o lago de Furnas vem enfrentando sistemáticos períodos de seca, com a queda do nível de suas águas batendo recordes sucessivos de baixa. Neste ano de 2018, a situação não tem sido diferente – hoje (24/10/2018), segundo dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, o nível do lago de Furnas está com 15% da sua capacidade. O lago de Furnas não está enfrentando sozinho esta situação crítica – outros reservatórios de usinas hidrelétricas do Rio Grande também estão com níveis extremamente baixos: Marimbondo está com menos de 20% de sua capacidade; Mascarenhas de Moraes está com 13% e Água Vermelha com pouco mais de 10%

O rio Grande tem 1.360 km de extensão desde de suas nascentes na Serra da Mantiqueira até a foz no Paranaíba, rio com o qual se junta para formar o rio Paraná. Suas águas movimentam as turbinas geradoras de 12 usinas hidrelétricas, que juntas respondem por 25% da capacidade instalada do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. A bacia hidrográfica do rio Grande ocupa uma área total de 143 mil km², englobando áreas dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais – o rio, inclusive, marca um longo trecho da divisa entre esses dois Estados. 

Os volumes de águas armazenadas nos reservatórios do rio Grande, em valores percentuais, estão entre os mais baixos de todo o Sistema Elétrico Brasileiro, uma fonte de preocupação para as autoridades do setor neste período de volta das chuvas. Seria necessária a chegada de um período de chuvas excepcionalmente acima da média para garantir a recuperação do nível dos reservatórios a valores considerados seguros, uma previsão que até agora não foi confirmada pelos meteorologistas. Os baixos caudais do rio Grande, entretanto, não preocupam apenas as autoridades do setor energético do país – essas águas também são fundamentais para o abastecimento de dezenas de cidades, indústrias e importantes regiões de produção agrícola e agropecuária. 

Nos municípios da região de entorno do lago de Furnas, o baixo nível das águas afeta com extrema gravidade um importante setor econômico: o turismo. Dados não oficiais chegam a falar de quedas que beiram a casa dos 50% em atividades ligadas ao setor em alguns municípios. Essas perdas se concentram nos segmentos de hotelaria e hospedagem, alimentação, comércio, prestação de serviços em áreas ligadas ao turismo, entre outras.  

Uma outra área que está sofrendo bastante com a situação do lago é o setor de navegação. Após o enchimento de Furnas, diversas estradas vicinais da região ficaram submersas e a interligação entre muitas cidades passou a ser feita através de balsas. Com a baixa das águas do reservatório e com o recuo das margens, diversos trechos navegáveis deixarem de ser operacionais e a comunicação entre essas cidades passou a ser feita por via terrestre, através de caminhos muito mais longos, com viagens muito mais demoradas. 

Os problemas enfrentados por outras duas atividades, que normalmente não são lembradas nesses momentos de crise, resumem a situação do lago de Furnas: a venda de imóveis e a piscicultura. Após a formação do grande lago, as terras de suas margens sofreram uma grande valorização – muita gente dessa região interiorana passou a sonhar com a construção de uma bela casa ou de uma pousada com vistas para o reservatório e também com o lazer em atividades esportivas nos clubes náuticos que surgiram por toda a orla do lago de Furnas. Com as sucessivas secas no lago, esses imóveis e terras chegaram a perder metade do seu valor de mercado.  

No caso da piscicultura, os problemas estão ligados ao recuo contínuo das águas, que faz com que os cercados dos peixes fiquem secos e precisem ser reconstruídos em outros locais, onde o nível da água ainda esteja alto. A produção de peixes no lago de Furnas, que já atingiu a marca de 1,6 mil toneladas ao ano, não para de cair. Em maior ou menor escala, os problemas vividos pelo lago de Furnas se repetem ao longo de todo o curso do rio Grande e em seus diversos reservatórios. A esperança de todos se resume à expectativa de uma boa temporada de chuvas

Um lembrete final: a maior parte da bacia hidrográfica do rio Grande se encontra em antigas áreas de domínio do Cerrado que, conforme apresentamos em uma série de postagens anteriores, é um dos biomas mais devastados de nosso país. Além da falta de chuvas, parte dos problemas do rio Grande pode ser creditado a essa destruição – o Cerrado é considerado o “berço das águas do Brasil“;

 

AS HIDROVIAS, AS CHUVAS E OUTROS PROBLEMAS PARA A NAVEGAÇÃO

Obras na Hidrovia Tietê-Paraná

Como é clichê em textos que falam da importância dos recursos hídricos, inclusive nos meus, “a água é uma das substâncias mais importantes do planeta e é um elemento essencial para a existência de todas as formas de vida”. Se você fizer uma pesquisa nas publicações deste blog, vai encontrar textos que falam do abastecimento de cidades e populações, poluição das águas, agricultura, geração de energia, secas e enchentes, transportes hidroviários, meteorologia entre muitos outros. O tema rende muitos tipos de assuntos diferentes. 

Na última postagem falamos rapidamente sobre a queda do nível do rio Tietê neste período de seca e dos riscos de paralisação da hidrovia Tietê-ParanáDurante a crise hídrica que assolou o Estado de São Paulo e parte da região Sudeste entre 2014 e 2015, a queda no nível do rio Tietê e de outros rios da região levou à paralisação dessa hidrovia por cerca de 20 meses, causando prejuízos da ordem de R$ 1 bilhão para as empresas de transporte; cerca de 1.600 profissionais ligados a essas empresas perderam seus empregos, além de outros milhares de profissionais ligados aos diversos segmentos produtivos que se utilizavam na época dessa via de transporte e que reduziram suas atividades.

A utilização do modal de transportes hidroviários no Brasil ainda está engatinhando no país – menos de 2% das nossas cargas são transportes pelos rios. Além da falta de obras de infraestrutura de todo o tipo, que vão desde portos e terminais de carga a sistemas de sinalização dos canais navegáveis, a operação das hidrovias sempre terá uma imensa dependência das condições climáticas – chuvas na época certa e em bons volumes sempre serão essenciais; a depender da região do mundo onde se encontra essa hidrovia, ao invés de chuva falaríamos de neve: a chuva e a neve são as duas principais formas de precipitação da água sobre a superfície do planeta. Se você ainda se lembra do Ciclo das Águas ensinado ainda nos primeiros anos escolares, é a energia do sol que provoca a evaporação de grandes volumes de água dos oceanos (esse volume é calculado em 383.000 km³ a cada ano) – esse vapor é espalhado por toda a superfície do planeta pelos ventos e cai sobre os solos na forma de chuva, neve, granizo, neblina, orvalho etc. 

Devido às mudanças nas estações do ano, onde se alternam épocas de seca e de chuvas (ou de calor e de frio com neve dependendo da região), os rios irão apresentar variações consideráveis em seus níveis. O Amazonas, o maior rio do mundo em volume de água, é um grande exemplo dessas mudanças: entre os períodos de cheia e de vazante, o nível das águas poderá sofrer variações médias de mais de 15 metros. Em 2005, quando toda a região Amazônica passou por uma seca anormal, alguns trechos do rio atingiram a inacreditável profundidade de 0,3 metro. Em situações extremas como essa, não há nada que se possa fazer para garantir as operações de navegação hidroviária. Além das essenciais chuvas, existem muitos casos onde realização de obras de infraestrutura podem ajudar a manter a segurança e as operações de navegação em momentos críticos. Vamos citar alguns exemplos: 

Na hidrovia Tietê-Paraná em São Paulo, existem vários trechos onde o canal de navegação apresenta profundidades máximas de 5,5 metros. Em épocas de forte estiagem, com a queda do volume de água no rio Tietê, muitos desses trechos passam a apresentar profundidades extremamente reduzidas, expondo as barcaças de transporte de cargas a riscos de encalhe. Além desse problema, existem várias formações rochosas no fundo do rio que “afloram” nos períodos de seca e que podem provocar acidentes mais graves com as embarcações. Para minimizar os riscos para a navegação, o Departamento Hidroviário de São Paulo está realizando obras que permitirão o aumento da profundidade nesses trechos críticos para 7,5 metros (vide foto). As obras deverão estar concluídas no final de 2019, com um custo estimado em R$ 203 milhões. 

Uma outra importante hidrovia que tem problemas sérios com afloramentos rochosos e baixa profundidade em um dos seus trechos é a Tocantins-Araguaia. No Sul do Estado do Pará, nas proximidades da cidade de Itupiranga, existe uma grande formação geológica que se estende por um trecho de 43 km do rio Tocantins. Conhecida popularmente como o Pedral do Lourenço, essa formação é um dos principais obstáculos para o pleno funcionamento da hidrovia Tocantins-Araguaia. Mesmo durante o período das chuvas, quando o nível das águas fica muito alto, algumas pedras ficam acima da superfície das águas e somente embarcações pequenas e com tripulações experientes se arriscam a atravessar esse trecho. Há vários anos, o Governo do Estado do Pará e órgãos do Governo Federal vêm tentando viabilizar a contratação de empresas de engenharia para a realização de obras para a construção de um canal de navegação nesse trecho do rio, porém, várias irregularidades levaram ao cancelamento de sucessivas licitações públicas. 

Problemas desse tipo não são uma exclusividade do Brasil – a hidrovia do rio Reno, uma das mais importantes e movimentadas da Europa, durante séculos apresentou problemas de navegação em um trecho do rio no Sul da Alemanha. Um grande afloramento rochoso em uma curva do rio Reno reduzia o canal de navegação nos períodos de seca para menos de 20 metros de largura. Inúmeros naufrágios e mortes de marinheiros foram registrados no local ao longo da história. No folclore popular da Alemanha, surgiu a lenda de uma sereia, Die Lorelai, que morava nessas rochas e que hipnotizava os barqueiros com seu canto. O problema só foi solucionado às vésperas do início da II Guerra Mundial, quando engenheiros do exército alemão realizaram sucessivas detonações das rochas, liberando o canal de navegação para o transporte de suprimentos e materiais militares durante todo o ano. 

Se até na organizada Alemanha problemas nas hidrovias demoraram a ser resolvidos, quem dirá em terras brasileiras…