OS IMPACTOS AMBIENTAIS PROVOCADOS PELAS USINAS HIDRELÉTRICAS CONSTRUÍDAS NO RIO TIETÊ

Desmatamento para formação de lagos de hidrelétricas

Na última postagem falamos da utilização do grande potencial hidrelétrico do Tietê, o maior e mais importante rio paulista. A primeira hidrelétrica instalada no rio foi a Usina de Parnahyba (Parnaíba na grafia atual) em 1901. A partir da década de 1950, visando atender a uma imensa demanda reprimida por energia elétrica no Estado de São Paulo, foram iniciados grandes projetos para a implantação de 6 grandes usinas hidrelétricas, que mudaram radicalmente um grande trecho do rio. 

As primeiras notícias que temos do rio, que era chamado de Anhembi pelos indígenas do Planalto de Piratininga, remontam à época dos primeiros jesuítas, que conseguiram vencer as fortes escarpas da Serra do Mar. Comandados pelos padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, esses jesuítas fundaram alguns aldeamentos na região e, entre eles, a Vila de São Paulo de Piratininga. O local escolhido foi uma pequena elevação entre dois afluentes do rio Tietê – o Anhangabaú e o Tamanduateí. A partir daí, o rio Tietê foi transformado no principal caminho de acesso aos sertões do interior do Brasil. 

Nas sucessivas expedições que partiram de São Paulo em direção aos sertões, vilas e cidades foram sendo fundadas ao longo dos caminhos. Como uma das principais vias utilizadas por estes expedicionários, as margens do rio Tietê passaram a abrigar inúmeros desses assentamentos, muitos dos quais acabaram transformados em importantes cidades como Itu, Porto Feliz, Tietê e Laranjal Paulista. Surgiram também inúmeras fazendas dedicadas à produção agrícola e a criação de animais, além de uma das mais tradicionais indústrias paulistas – as olarias produtoras da famosa cerâmica vermelha, com seus tijolos, telhas, lajotas e manilhas. 

Apesar dessa intensa ocupação das margens do rio Tietê, grandes extensões de matas e áreas naturais resistiram ao avanço humano. Um destaque especial eram as áreas de várzeas, formadas por terrenos baixos, que eram alagados nos períodos de chuvas. Essas regiões se apresentavam com uma vegetação e animais bastante similares aos encontrados no Pantanal Mato-grossense, entre esses jacarés-de-papo-amarelo, capivaras, antas, veados-pantaneiros, lontras, entre outros. Nesses locais também eram encontrados os “barreiros”, grandes depósitos de argila, fonte de matéria prima para as olarias. 

A construção de barragens de usinas hidrelétricas e a posterior formação dos seus respectivos lagos tem como principal impacto a inundação das áreas agricultáveis, várzeas e áreas de matas ciliares localizadas ao longo das margens dos rios. Moradores e proprietários de terras nessas regiões são forçados, compulsoriamente, a abandonar suas propriedades, muitas vezes recebendo indenizações muito abaixo dos valores reais. Não raras as vezes, quando se tratam de pequenos produtores que ocupam áreas públicas, eles são obrigados a desocupar suas terras sem receber qualquer tipo de indenização. 

Além do valor material dessas propriedades, existem valores históricos e culturais, que nem sempre recebem a devida avaliação. São casos de construções históricas multicentenárias, verdadeiros testemunhos da história da ocupação humana nessas regiões. Também se incluem nesta lista sítios arqueológicos e paleontológicos, que muitas vezes acabam desaparecendo sob as águas sem que os estudos científicos tenham sido feitos, com perdas irreparáveis para toda a humanidade. Existem também locais considerados sagrados ou mágicos pelas populações locais, especialmente as indígenas, valores imateriais que sequer são considerados pelos planejadores dessas obras. 

A vida natural também é diretamente impactada. As áreas passíveis de alagamento têm sua vegetação suprimida antes do enchimento dos lagos, destruindo o habitat de inúmeras espécies animais, que de uma hora para outra perdem suas fontes de alimento e seus abrigos (vide foto). Muitos desses animais simplesmente não conseguem fugir para outros locais e acabam morrendo, seja de fome ou atropelados em estradas, seja vítima da caça predatória. Do lado vegetal, faixas de matas ciliares, de extrema importância para a proteção dos corpos d’água, também desaparecem e, muitas vezes, não são replantadas nas novas margens que surgirão após o enchimento dos lagos. Além de proteger os solos contra os processos erosivos, essas faixas de matas funcionam como corredores de biodiversidade, permitindo a livre circulação de espécies animais entre diferentes fragmentos florestais. Esses animais dispersam frutos e sementes das espécies vegetais, garantindo assim a preservação da própria mata. 

Há aqui um detalhe importante – desde 1986, quando foi publicada a Resolução CONAMA 001, qualquer atividade ou obra que tenha potencial significativo de impacto ao meio ambiente, necessitará de um EIA – Estudo de Impacto Ambiental, como parte do processo de licenciamento ambiental para a autorização da atividade ou obra. Nesse estudo, serão avaliados todos os possíveis impactos positivos e negativos na área de influência, que tendem a afetar populações e atividades humanas, além de plantas e animais, corpos d’água, solos, climas, entre outros. Medidas mitigadoras desses impactos devem ser incluídas nesse estudo

No caso do rio Tietê, somente a Usina Hidrelétrica de Três Irmãos, inaugurada em 1993, passou pelo devido processo de licenciamento ambiental – todas as demais obras são anteriores a essa legislação, construídas numa época de “progresso a qualquer custo”. As Usinas Hidrelétricas de Ibitinga e de Bariri foram projetadas e tiveram suas obras iniciadas na década de 1950, período de forte apelo desenvolvimentista, que teve o Presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961) como sua maior expressão. As Usinas Hidrelétricas de Barra Bonita, Promissão e Nova Avanhandava, inauguradas entre 1973 e 1982, remontam ao chamado período dos Regimes Militares, época em que os planejadores de Brasília centralizavam o projeto e a execução das obras de infraestrutura do país. Nesse período, de forte repressão política, não se admitiam “vozes dissonantes” ao regime. 

Assim, sem maiores preocupações com os impactos sociais e ambientais, essas Usinas foram sendo construídas “na marra”. Calcula-se que 80% das margens do rio Tietê entre a cidade de Tietê e a foz no rio Paraná foram impactadas pela formação dos lagos das usinas hidrelétricas. Dezenas de milhares de famílias foram removidas e suas propriedades foram inundadas, sem que houvesse qualquer margem de negociação ou estâncias superiores para receber suas reclamações. Extensas áreas de matas foram suprimidas e inúmeras espécies animais e vegetais desapareceram. Muitos patrimônios históricos e culturais acabaram encobertos pelas águas das represas. E como não foram feitos estudos prévios dessas áreas, essas perdas são escassamente documentadas. 

Um dos poucos vestígios dessa época, documentados em reportagens de jornais dessas cidades, foram os impactos sentidos pelas olarias, que foram obrigadas a abandonar suas instalações e, muito pior, perderam os barreiros, as áreas de retirada de sua matéria prima. Cidades como Barra Bonita, Igaraçu do Tietê, Macatuba, Pederneiras e Bariri, que tinham uma forte produção de cerâmica vermelha, foram as que sofreram os maiores impactos e milhares de trabalhadores perderam os seus empregos. De acordo com essas reportagens, somente no município de Barra Bonita, 150 olarias foram fechadas

O Estado de São Paulo conseguiu gerar a energia elétrica, tão necessária para impulsionar sua forte base industrial e as suas cidades sedentas por energia elétrica. Porém, todos nós saímos perdendo – na cultura, no patrimônio histórico e cultural, na produção agrícola e, principalmente, na biodiversidade. E o pior de tudo – não sabemos ao certo quais foram essas perdas. 

A única certeza que temos, é que essas perdas são irreparáveis. 

AS USINAS HIDRELÉTRICAS DO RIO TIETÊ

Barra Bonita

O Tietê é o maior e mais importante rio paulista. 

Quem não conhece o blog e não está acostumado com o jeito às vezes provocativo dos meus textos, pode até achar que essa afirmação é um tanto exagerada. Para a maioria da população da Região Metropolitana de São Paulo e, especialmente, para quem não é do Estado, o rio Tietê, que é mostrado frequentemente nos noticiários, nada mais é do que um enorme canal de esgotos a céu aberto e principal responsável pelas gigantescas enchentes de verão na cidade. Essa percepção é parcialmente verdadeira e corresponde a um trecho do rio com pouco mais de 300 km. Ao atravessar a Região Metropolitana, o rio Tietê recebe imensas quantidades de esgotos in natura e muito lixo, uma poluição que, literalmente, mata o rio. 

“Milagrosamente”, no trecho entre a cidade de Barra Bonita e sua foz no rio Paraná, conhecido com Baixo Tietê, o rio volta a ser um curso de águas limpas e muito piscoso, exatamente como no trecho inicial do rio, conhecido como Alto Tietê, entre a nascente em Salesópolis (muitas fontes afirmam que fica em Guararema) e a chegada na Região Metropolitana. O Baixo Tietê é um rio repleto de opções de passeios turísticos e, pasmem – dezenas de cidades do interior de São Paulo usam a água do rio para o seu abastecimento. A natureza realiza alguns milagres, apesar de tudo que a humanidade faz contra ela – no caso dos rios, existem processos naturais de depuração que conseguem resolver até os estragos causados por uma intensa poluição nas águas. Entre a sua nascente na Serra do Mar e a sua foz no rio Paraná, o Tietê percorre mais de 1.200 km dentro do Estado de São Paulo

Esse é o lado ambiental do rio Tietê, que tratamos frequentemente em postagens aqui no blog. Mas existe um outro lado do rio que é fundamental para a economia de todo o Estado de São Paulo – o potencial de geração de energia hidrelétrica. Vamos falar um pouco sobre isso. 

Conforme comentamos em uma postagem anterior, a primeira hidrelétrica a ser instalada no rio Tietê foi a Usina de Parnahyba, inaugurada em 1901 e com uma potência instalada de 2 MW. Pouco mais de 10 anos depois, a empresa Light aumentou a capacidade dessa usina para 12,8 MW. Passados cerca de 50 anos após a conclusão dessa Usina, o Governo do Estado de São Paulo voltou novamente a sua atenção para o Tietê e teve início um processo de construção de 6 usinas hidrelétricas nesse rio. 

Iniciada em 1958 e concluída em 1965, a Usina Hidrelétrica de Bariri possui uma barragem com 856 metros de extensão e uma altura máxima de 32,5 metros, possuindo ainda uma ponte sobre a barragem. A Usina conta com 3 conjuntos geradores, com uma capacidade de geração máxima de 136,8 MW. Sua barragem forma um reservatório com  63 km². 

A próxima Usina a ser construída foi Ibitinga, que é considerada uma usina hidrelétrica a fio d’água, ou seja, que não possui um reservatório de armazenamento de água muito grande e que depende da vazão do rio para funcionar. Essa Usina começou a operar em 1969, possuindo três unidades geradoras, com potência máxima de 131,49 MW. O reservatório dessa Usina forma um espelho d’água com 114 km². 

A Usina Hidrelétrica de Barra Bonita (vide foto) foi inaugurada em 1973, contando com 4 conjuntos geradores e com uma potência total de 140 MW. Essa Usina tem uma barragem com apenas 287 de extensão, que forma um reservatório com 310 km². Um fato interessante dessa Usina é que ela foi construída na divisa entre os municípios de Barra Bonita e Igaraçu do Tietê. Sob a alegação que as unidades geradoras estão localizadas no território de Barra Bonita, somente essa cidade recebe parte do ICMS gerado pela Usina – o município de Igaraçu do Tietê vem lutando há vários anos para receber uma parte deste imposto. 

A Usina Hidrelétrica de Promissão teve suas obras civis iniciadas em 1966, tendo a primeira unidade geradora inaugurada em 1975. A usina foi totalmente concluída em 1977. Com 3 grupos geradores e potência instalada de 264 MW, a Usina de Promissão é a segunda maior hidrelétrica do rio Tietê em capacidade de geração. Sua barragem tem uma extensão total de 3,6 km e foram um reservatório com 530 km². 

Na sequência, foi a vez da Usina Hidrelétrica de Nova Avanhandava, que foi inaugurada em 1982. Essa usina possui 3 grupos geradores com capacidade de geração de até 347 MW. Sua barragem tem uma extensão total de 2 mil metros, formando um reservatório com 210 km². 

Por fim, a mais nova e mais potente usina hidrelétrica do rio Tietê – Três Irmãos, localizada a cerca de 28 da foz do rio Tietê no rio Paraná. A primeira unidade geradora dessa Usina entrou em operação em 1993 e a última em 1999. Os 5 grupos geradores geram até 807,5 MW. O reservatório da Usina Hidrelétrica de Três Irmãos inunda uma área de 785 km². 

Além da importante contribuição econômica para todo o Estado de São Paulo proporcionada pela geração de energia elétrica, as usinas hidrelétricas instaladas ao longo do rio Tietê criaram um “subproduto” extremamente relevante – a Hidrovia do rio Tietê. A navegação através do rio Tietê teve início XVII, quando as primeiras expedições exploratórias dos antigos paulistas passaram a usar o rio para atingir os desconhecidos sertões. Com um curso de difícil navegação e repleto de corredeiras e quedas d’água, o Tietê sempre foi uma benção e um verdadeiro inferno para as antigas populações. 

Com a construção de sucessivas barragens ao longo do seu curso, os reservatórios que foram formados encobriram a maior parte desses obstáculos do rio Tietê. Um dos mais temidos obstáculos naturais do rio era o Salto do Avanhandava na região de Penápolis, a aproximadamente 490 km da cidade de São Paulo. Quando se atingia este ponto do rio, os monçoeiros, nome dados aos antigos exploradores, eram obrigados a desembarcar de suas canoas e a descarregar toda a sua carga. Cargas e canoas tinham de ser transportados por terra por um percurso de aproximadamente 700 metros, isso para se vencer um desnível do rio com apenas 12 metros. 

Após a conclusão das obras de todo um conjunto de eclusas nas barragens das usinas hidrelétricas, passou a ser possível a navegação de barcaças de cargas por uma extensão total de 800 km nas águas do rio Tietê e em parte do rio Piracicaba. A partir da interligação com o rio Paraná, a extensão total de águas navegáveis chega a 2.400 km. A chamada Hidrovia Tietê-Paraná é uma das mais importantes vias de navegação fluvial do Brasil e permite o transporte de cargas entre os Estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás. Perto de 9 milhões de toneladas de cargas circulam anualmente na hidrovia, porém, há potencial para se atingir em poucos anos um volume de 20 milhões de toneladas. 

Como demonstrado, o sujo e poluído rio Tietê da Região Metropolitana de São Paulo é na verdade um rio com enorme potencial hidrelétrico e uma excelente via fluvial para o escoamento da produção agrícola e industrial de uma extensa região do país. 

Nada mal para um “patinho feio”. 

VEJA NOSSO CANAL NO YOUTUBE – CLIQUE AQUI

O COMPLEXO ENERGÉTICO DA REPRESA BILLINGS / USINA HIDRELÉTRICA DE CUBATÃO

Usina Henry Borden

Na última postagem, falamos da construção da Usina de Parnahyba, na grafia da época, inaugurada em 1901 e que foi uma das primeiras unidades de geração hidrelétrica da Região Metropolitana de São Paulo. Além de todos os impactos que a chegada da eletricidade provocou na vida e na economia da cidade, houve também uma importante mudança na geografia da Pauliceia – para regularizar as vazões do rio Tietê e garantir a operação da Usina de Parnahyba nos meses de seca, foi necessária a construção de uma grande represa na região de Santo Amaro. Essa represa, concluída em 1908 e que depois passou a ser chamada de Guarapiranga, foi transformada em uma importante área de lazer dos paulistanos e levaria a uma expansão da mancha urbana da cidade rumo ao Sul, na direção da represa. 

Uma outra grande obra construída para fins de geração de energia elétrica e que causou uma grande mudança na geografia da Região Metropolitana de São Paulo foi o complexo energético da Represa Billings / Usina Hidrelétrica de Cubatão. Vamos conhecer um pouco dessa história: 

A Usina de Parnahyba foi o primeiro projeto implantado pela Light and Power Company, a empresa canadense que se tornou concessionária de energia elétrica na cidade de São Paulo e Região em 1899. Na sua  inauguração em 1901, Parnahyba produzia 2 MW de energia elétrica – pouco mais de 10 anos depois, essa potência já tinha sido aumentada para 12,8 MW, atendendo a uma demanda cada vez maior da população e das indústrias por energia elétrica. Gradativamente, a Light passou a construir novas pequenas usinas hidrelétricas, aumentando a sua capacidade de geração de energia.

Na década de 1920, os engenheiros da Light desenvolveram o projeto de uma usina hidrelétrica revolucionária para os padrões da época. Essa usina seria construída em Cubatão, município da Baixada Santista, e utilizaria o desnível de mais de 750 metros da Serra do Mar para potencializar a força das águas lançadas a partir de uma represa construída no Planalto de Piratininga. Esse projeto foi apresentado para as autoridades do Governo Federal e em 1922, um decreto Presidencial autorizou a construção da Represa do Alto da Serra, que depois passou a ser chamada de Billings, da Usina Hidrelétrica de Cubatão, do sistema de tubulações para a descida da água até Cubatão (vide foto), além da implantação de um sistema para a transposição de águas da bacia hidrográfica do rio Tietê para a Represa Billings

As obras foram iniciadas em 1925 e é interessante ressaltar que, como era normal na época, todo esse complexo de obras não teve nenhum estudo de impacto ambiental, que aliás foram muitos. Um dos maiores símbolos da cidade de São Paulo, a famosa garôa paulistana, começou logo após a construção da Represa Guarapiranga e aumentou muito após a conclusão da Represa Billings

Um argumento interessante que foi usado para justificar a construção desse complexo energético foi o auxílio no controle das cheias anuais do rio Tietê, responsáveis por enchentes e alagamentos catastróficos nas partes baixas de São Paulo. No projeto criado pela Light, essas águas excedentes do período das chuvas seriam bombeadas através do canal do rio Pinheiros na direção da Represa Billings, ajudando a reforçar os estoques de água. Para realizar esse bombeamento, duas estações elevatórias seriam construídas no rio Pinheiros, sendo uma na região da Vila Olímpia e a outra no bairro da Pedreira. Para viabilizar essa parte do projeto, o sinuoso canal do rio Pinheiros foi completamente retificado, com trabalhadores escavando a terra com pás e picaretas e grandes volumes de terra sendo carregados por carroças puxadas por burros. 

Além de preparar o rio Pinheiros para a futura função de transposição das águas para a represa Billings, estas obras transformariam antigas várzeas alagáveis da região em “terras secas”. Um dos exemplos é uma região do bairro de Pinheiros, que anos depois foi loteada pela Companhia City, uma subsidiária da Light and Power Company, especializada no desenvolvimento imobiliário e, por acaso, a mesma empresa responsável pela construção do Complexo Billings. A região foi transformada no elegante e sofisticado bairro do Alto de Pinheiros, ainda hoje uma referência em alto padrão imobiliário na cidade de São Paulo. Além do planejamento impecável, com ruas elegantes, praças e todo equipamento urbano necessário, o bairro receberia as linhas de bonde operadas pela empresa Light, um diferencial em tanto numa cidade que sempre teve, e continua tendo, problemas de transporte. Como dizia a minha mãe: “esses estrangeiros sabiam como ganhar muito dinheiro! ” 

A represa Billings foi formada a partir do represamento dos rios Grande, Pequeno, Capivari, Pedra Branca, Taquacetuba, Alvarengas, Bororé, Cocaia e outros rios menores, perfazendo cerca de 560 km² de área de drenagem, com uma vazão somada total de 16,5 m³/s. O espelho d’água da Represa ocuparia uma área inundada de aproximadamente 172 km² e teria capacidade para armazenar 1,2 bilhões de metros cúbicos de água. Mesmo nos dias atuais, quando se segue pelas Rodovias Anchieta e Imigrantes ou pelo Trecho Sul do Rodoanel, a visão do grande reservatório ainda é impressionante. O Complexo Billings foi concluído em 1937; o sistema de transposição das águas do rio Tietê para a represa Billings só passou a operar integralmente a partir de 1950. 

A Usina Hidrelétrica de Cubatão, que depois teve seu nome mudado para Usina Hidrelétrica Henry Borden, teve seu primeiro grupo gerador inaugurado em 1926. A capacidade geradora da Usina foi sendo ampliada até 1950, quando o 14° grupo gerador entrou em funcionamento, atingindo uma capacidade total instalada de 889 MW. Os grupos geradores da Usina Henry Borden eram acionados por turbinas Pelton, que eram movidas pelos fortíssimos jatos de água que desciam do alto da Serra do Mar. 

O fantástico complexo Represa Billings / Usina Henry Borden foi fundamental para o desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo. A farta disponibilidade de energia elétrica na região foi um dos critérios usados na escolha da Região do ABC Paulista (sigla para os municípios de Santo André, São Bernardo e São Caetano) como sede das primeiras indústrias automobilísticas do Brasil na década de 1950. 

Infelizmente, o grande crescimento populacional da Região Metropolitana de São Paulo acabou decretando o “fim” da geração no complexo Billings – toda a poluição das águas do rio Tietê acabava sendo transferida para a represa Billings através do sistema de bombeamento do rio Pinheiros. A Constituição Paulista de 1992 proibiu essa transferência de águas, exceto em situações de emergência nos casos de chuva forte. Desde então, a geração na Usina Hidrelétrica Henry Borden foi reduzida em 75% e a produção atual está na casa de 200 MW. 

Apesar de não receber mais águas do poluído rio Tietê, a Represa Billings continua sofrendo com a poluição – perto de 1 milhão de pessoas vivem nas áreas de mananciais ao redor do reservatório e a maior parte dos seus esgotos acabam sendo lançados nas águas da Represa. Ironicamente, mais de 1,5 milhão de pessoas dependem das águas da Represa Billings para o seu abastecimento diário – uma barragem foi construída em um dos braços da Represa, evitando assim o contato com as águas poluídas do resto do reservatório.

USINA DE PARNAHYBA – A PRIMEIRA HIDRELÉTRICA COM BARRAGEM DO BRASIL

Usina Edgard de Souza

Na última postagem falamos das importantes relações entre água e geração de energia elétrica aqui no Brasil. A matriz elétrica brasileira é a que mais utiliza fontes renováveis do mundo – cerca de 82% da energia elétrica do país vem dessas fontes. A geração através de usinas hidrelétricas é um dos destaques e corresponde a 65% do total das fontes renováveis. Uma das mais antigas usinas hidrelétricas do Brasil foi a Usina de Parnahyba (a escrita de Parnaíba era assim na época), inaugurada em 1901. Vamos conhecer um pouco da sua história e algumas das mudanças que ela provocou na cidade de São Paulo. 

Nas últimas décadas do século XIX, a cidade de São Paulo passou a sofrer um processo de crescimento nunca visto antes na história do país. Localizada no entroncamento de diversas linhas férreas que ligavam as zonas produtoras de café do interior do Estado ao Porto de Santos, a pequena cidadezinha de 30 mil habitantes na década de 1860, foi transformada num importante entreposto comercial, industrial e financeiro, atingindo a marca de 240 mil habitantes em 1900. 

Todo esse crescimento econômico, criado a partir dos lucros da produção e exportação do café, passou a chamar a atenção de importantes empresas e bancos internacionais, que passaram a se instalar na pulsante cidade de São Paulo. Uma dessas empresas foi a canadense Light and Power Company, uma empresa especializada na geração e distribuição de energia elétrica, além de transportes públicos através de bondes elétricos. A Light obteve a concessão desses serviços junto ao Governo local e se instalou na cidade de São Paulo em 1899. 

Um dos primeiros projetos da empresa no Brasil foi a construção de uma usina hidrelétrica nas cercanias da cidade de São Paulo. O local escolhido foi Santana de Paranaíba, uma cidade localizada a cerca de 60 km do centro da capital paulista e que é cortada pelo importante rio Tietê. No local escolhido para a obra, foi construída uma barragem com mais de 15 metros de altura, a primeira do tipo para uso na geração de energia elétrica no país. Há época da sua inauguração, a Usina de Parnahyba tinha uma capacidade de geração de 2 MW – em 1912, pouco mais de 10 anos depois, a capacidade de geração teria de ser ampliada para 12,8 MW, de forma a atender uma população sedenta por energia elétrica. 

Apesar de ser o maior e mais importante rio da região do Planalto de Piratininga, o Tietê apresenta vazões muito irregulares, alternando grandes cheias nos períodos de chuva e baixíssimas vazões nos períodos de seca. Como a represa da Usina de Parnahyba era muito pequena, essa vazão irregular passou a comprometer a produção de geração de energia elétrica. Para solucionar o problema, a Light decidiu construir uma represa para regularizar a vazão de águas do rio Tietê. O local escolhido foi Santo Amaro, que na época era uma pequena cidade localizada a cerca de 15 km do centro de São Paulo. 

A opção pela região de Santo Amaro deveu-se ao relevo dos acentuados contra fortes da Serra do Mar, com grande precipitação de chuvas e garantia de boa vazão nos rios da região, especialmente nos cursos do Guarapiranga, nome de origem tupi que significa “guará vermelho”, Embu-Guaçu e Embu-Mirim, nomes também de origem tupi que significam “cobra grande” e “cobra pequena”, respectivamente. Santo Amaro era, na época, uma pequena cidade fortemente rural, o que barateou imensamente os custos de desapropriação das chácaras na região de formação da represa. 

A represa foi responsável pelo início das acentuadas transformações que a região de Santo Amaro viria a sofrer nas décadas seguintes. A primeira destas mudanças foi no microclima local – de acordo com relatos orais de famílias que moram na região desde aquela época, foi logo após a construção da Guarapiranga que teve início o famoso fenômeno da garôa paulistana, que foi ampliado para o resto da cidade após a implantação da represa do complexo Billings anos depois. A Represa de Guarapiranga entrou em operação em 1908. Vinte anos depois, devido ao contínuo crescimento da população da cidade de São Paulo e da necessidade de garantir o abastecimento urbano, a Guarapiranga foi promovida a manancial de abastecimento de água e a função de regularização do fluxo do rio Tietê passou a ser cada vez mais restrita.

Em 1949, a Usina de Parnaíba passou a ser chamada de Usina Edgard de Souza e em 1952, essa pequena hidrelétrica do rio Tietê perdeu relevância e deixou de gerar energia elétrica. A usina passou por uma série de transformações e voltou a funcionar anos depois como uma usina elevatória, que tinha a função de inverter o curso das águas do rio Tietê para a direção da Represa Billings, responsável pela alimentação da Usina Hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão.  

A Usina Edgard de Souza deixou de operar como usina elevatória em 1982. A barragem recebeu comportas e passou a ser usada no controle do escoamento das águas do rio Tietê (vide foto), ajudando a controlar as famosas enchentes que assolam a cidade de São Paulo nos períodos de verão. 

Para os padrões atuais de nosso parque de geração de energia elétrica, que conta com usinas hidrelétricas gigantescas como Itaipu e Tucuruí, uma usina hidrelétrica com potência instalada de apenas 2 MW, como foi no início a Usina de Parnahyba, teria muito pouca importância no país. Porém, nos primórdios da industrialização de São Paulo, essa pequena hidrelétrica fez toda a diferença e foi decisiva para o início das operações de um sem número de fábricas em toda a Região Metropolitana de São Paulo. 

Com o passar dos anos, a Light passou a construir uma série de pequenas usinas hidrelétricas, aumentando gradativamente a potencia elétrica instalada em São Paulo. Na década de 1920, a empresa decidiu mudar de patamar e começou a planejar um complexo sistema de geração elétrica de grande porte – o Sistema Billings

Na nossa próxima postagem, vamos falar desse importante complexo de geração de energia elétrica, que foi fundamental para a região por mais de meio século e que, entre outros feitos, foi um dos principais responsáveis pela instalação das indústrias automobilísticas na Região do ABC Paulista na década de 1950.

ÁGUA E GERAÇÃO DE ENERGIA

Itaipu

Em uma postagem recente, quando apresentamos um balanço sobre as chuvas de verão em São Paulo, falamos rapidamente sobre o baixo nível de parte dos reservatórios das usinas hidrelétricas, um problema que pode ameaçar o abastecimento de energia elétrica no Brasil. Como é do conhecimento de todos, a maior parte da energia elétrica usada no país vem das usinas hidrelétricas e dependemos sempre de boas temporadas de chuvas para encher esses reservatórios e garantir a geração contínua de energia. 

Nos últimos anos, entretanto, vem sendo difícil manter um adequado equilíbrio entre a oferta e a demanda de energia elétrica – o consumo de eletricidade pelos brasileiros não para de crescer, enquanto que a oferta de energia elétrica a partir de fontes hidráulicas se mantém estagnada. Para conseguir atender a toda essa demanda, as usinas hidrelétricas precisam trabalhar a pleno vapor, “gastando” grande parte da água dos seus reservatórios. Nos períodos de seca, as autoridades do setor elétrico são obrigadas a ligar todo um conjunto de usinas termelétricas, alimentadas a carvão, gás e óleo combustível, para conseguir manter a produção de eletricidade no país até a chegada de um novo período de chuvas e o início do processo de enchimento dos reservatórios. 

O problema é que, de alguns anos para cá, o período anual de chuvas não tem sido suficiente para conseguir recuperar os níveis de grande parte dos reservatórios das usinas hidrelétricas. E como a geração de energia elétrica por outras fontes renováveis como a solar e a eólica ainda são muito pequenas no país, o Brasil tem ficado cada vez mais refém das usinas termelétricas, uma fonte de geração cara e muito poluente. Para completar o quadro, as restrições ambientais e as dificuldades para se conseguir o licenciamento de grandes usinas hidrelétricas com formação de lagos não é nada fácil. Esse é um assunto muito importante e vale a pena dedicarmos algumas postagens a esta questão. 

Vamos começar falando de Itaipu, a maior usina hidrelétrica do Brasil, responsável pela geração de, aproximadamente, 15% de toda a energia elétrica consumida no país e por 90% do consumo do Paraguai, nosso vizinho e sócio no empreendimento. A energia de Itaipu é lançada no Sistema Interligado Brasileiro, sendo distribuída para todo o país através das empresas Furnas Centrais Elétricas e COPEL – Companhia Paranaense de Energia, sob coordenação do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico. 

Itaipu iniciou suas operações em maio de 1984 e, em quase 35 anos de operação, já gerou mais de 2,6 bilhões de MWh, emergia que seria suficiente para iluminar todo o mundo por cerca de 40 dias. A produção anual média de Itaipu nos últimos anos está na casa de 98,5 milhões MWh – em 2016, a hidrelétrica atingiu a marca histórica de 103,1 MWh. A única outra usina hidrelétrica do mundo que consegue chegar próxima desses volumes de produção é a chinesa Três Gargantas, que ainda não está em plena operação. Quando estiver em pleno funcionamento, Três Gargantas terá uma produção de energia elétrica 60% maior que Itaipu.

A decisão para a construção de Itaipu se deu nos gabinetes de Brasília na década de 1970, no auge do chamado Período Militar. Preocupados com a demanda de energia do país na época e no futuro, os tecnocratas do Governo convenceram os Generais da viabilidade da construção de uma gigantesca barragem no rio Paraná, na divisa entre o Brasil e o Paraguai. Naquela época, questionar uma decisão com esta envergadura representava, no mínimo, uma longa estadia numa das muitas prisões nos chamados “porões da ditadura”. Falar em impactos e danos ao meio ambiente então, seria algo criminoso pelos padrões da época. 

A negociação com o Paraguai, país que compartilha com o Brasil as águas do rio Paraná no trecho da obra, foi um dos únicos obstáculos ao avanço do empreendimento. Também governado por uma ditadura militar e “dono” de uma eloquente pobreza, o Paraguai rapidamente foi dominado pelo “canto da sereia” dos brasileiros. O Brasil se comprometeu a pagar a conta da construção de Itaipu e, em troca da sessão de suas águas e território, o Paraguai se transformaria em “sócio”, com direito a 50% da usina hidrelétrica, o que foi um excelente negócio para os nossos vizinhos.  

Um dos momentos mais marcantes e dramáticos da história do rio Paraná, que foi justamente quando ele passou a ser conhecido brevemente por todo o mundo, se deu quando as comportas da Usina Hidrelétrica de Itaipu foram fechadas em 27 de outubro de 1982 e o enchimento do lago da represa encobriu o Salto das Sete Quedas após 14 dias. Consideradas as maiores cachoeiras do mundo em volume d’água, com o dobro do volume das Cachoeiras do Niágara na divisa dos Estados Unidos e Canadá, e com dez vezes o volume das Cachoeiras de Vitória, na Zâmbia, as Sete Quedas desapareceram sob as águas barrentas do lago.  

A comoção nacional criada pelo fim das Sete Quedas na época acabou resultando em um número crescente de visitantes ao Parque Nacional localizado na cidade de Guaíra. O público correu em massa para o rio Paraná para se despedir das famosas e inigualáveis cachoeiras. No dia 17 de janeiro de 1982, a superlotação de uma passarela de acesso a uma das quedas d’água, resultou na ruptura da estrutura de concreto e centenas de pessoas caíram nas águas – 32 pessoas morreram no acidente. A tragédia teve grande repercussão nos meios de comunicação, mas pouca coisa agregou ao inevitável drama final das Sete Quedas. 

O lago que foi formado com a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu tem espelho máximo de 1.350 km², mais que 3 vezes maior do que a Baía da Guanabara. Esse lago abrange áreas de quinze municípios paranaenses e um sul-mato-grossense, além de diversas cidades no lado paraguaio. O lago de Itaipu mudou radicalmente a geografia humana e econômica de uma extensa região. Infelizmente, a construção da barragem não inclui uma eclusa, algo que possibilitaria a interligação fluvial das hidrovias Tietê-Paraná e Paraguai-Paraná, algo que teria um profundo impacto econômico regional. Recentemente, a Itaipu Binacional contratou uma empresa francesa para realizar estudos para a construção dessa eclusa. 

Diferente da maioria das usinas hidrelétricas brasileiras, Itaipu é alimentada pelas águas do poderoso rio Paraná, um rio que tem grandes afluentes com nascentes em diferentes regiões brasileiras. A extensa área de drenagem envolvida garante que sempre haja grandes volumes de água chegando até as turbinas geradoras.

A grandiosidade de Itaipu contrasta com a situação de inúmeras pequenas e médias usinas hidrelétricas espalhadas pelos mais diferentes rios do Brasil. A partir da próxima postagem, vamos contar as histórias, desafios e os problemas de muitas delas.

O CRESCIMENTO DOS CASOS DE DENGUE NO BRASIL EM 2019

Aedes Aegypti

O ano de 2019 começou com uma enxurrada de más notícias: foram enchentes catastróficas em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o rompimento da barragem de rejeitos em Brumadinho, o ataque a tiros na escola Raul Brasil em Suzano, a prisão do ex-presidente Michel Temer, entre outras. A divulgação e os desdobramentos dessas notícias nos meios de comunicação ocuparam muito tempo e monopolizaram a atenção do grande público. Outras notícias importantes, mas não tão impactantes, acabaram esquecidas. 

A Dengue, com suas causas e consequências, foi uma dessas pautas deixadas em segundo plano pela grande imprensa. Como o mosquito transmissor da doença, o Aedes Aegypti, parece não ligar para o que é transmitido pelos telejornais, os casos de Dengue apresentaram um crescimento de 149% no mês de janeiro de 2019 quando comparado com os casos de janeiro de 2018. De acordo com o Ministério da Saúde, até o último dia 2 de fevereiro, foram reportados 54.777 casos prováveis de dengue em 2019 – uma incidência de 26,3 casos por 100 mil habitantes. Em janeiro de 2018, o número de casos prováveis foi de 21.992

De acordo com o relatório divulgado pelas autoridades, foram registradas 5 mortes provocadas pela doença em todo o país apenas em janeiro de 2019. Uma das mortes ocorreu em Tocantins, uma em São Paulo, duas em Goiás e uma no Distrito Federal. Em todo o ano de 2018, foram registradas 23 mortes associados a casos de Dengue. 

A Região Sudeste lidera em número de casos, concentrando 60% das notificações – foram 32.821 casos registrados. Na sequência aparecem as Regiões Centro-Oeste, com 10.827, a Região Norte, com 5.224 casos, o Nordeste, com 4.105 casos e, por fim, a Região Sul, com 1.800 casos de Dengue. Quando se considera a incidência da doença pela população de cada Região, o Centro-Oeste e o Sudeste se destacam, com 67,3 e 37,4 casos por 100 mil habitantes, respectivamente. 

Outro dado preocupante desse relatório são as taxas de crescimento dos casos de Dengue por Região entre 2018 e 2019. O destaque é a Região Sul, que apresentou um crescimento de 597,7%, passando de 258 para 1.800 casos. No Sudeste, houve um aumento de 472,6%, passando de 5.732 para 32.821 casos. Na Região, o crescimento foi de 233%, saindo de 1.569 para 5.224 casos. No Nordeste, esse crescimento foi bem menor: 37,6%, passando de 2.983 para 4.105 casos. A única Região brasileira que apresentou uma redução no número de casos de Dengue foi o Centro-Oeste – de 11.450 casos em 2018 para 10.827 casos prováveis em 2019, uma redução de 5,4%. 

Em dois Estados, Tocantins e São Paulo, as taxas de crescimento do número de casos de Dengue podem ser consideradas como “explosivas”. No Tocantins houve um aumento de 1.369%, com as notificações saltando de 210 para 3.085 casos prováveis. Em São Paulo, o Estado mais rico e populoso do país, o crescimento foi de 1.072%, passando de 1.450 para 17.004 casos prováveis. Aqui precisamos destacar a grande incidência de casos de Dengue na região de Bauru, uma importante cidade do interior de São Paulo, onde a Dengue praticamente virou uma epidemia

O levantamento do Ministério da Saúde também chama atenção para dois Estados da Região Sul, onde o crescimento do número de casos da doença foi muito grande – Paraná e Santa Catarina. No caso do Paraná, o aumento do número de casos sofreu um incremento de 648,6%, passando de 214 para 1.602 casos. Em Santa Catarina, o salto foi de 644%, saindo de 18 para 134 casos. Apesar de, em números absolutos, não serem tantos casos notificados, a alta taxa de crescimento é muito preocupante. 

Além da Dengue, o mosquito Aedes Aegypti também transmite outras doenças graves como a Zika e a Chikungunya. De acordo com os dados divulgados, foram notificados 630 casos de infecção pelo vírus da Zika em todo o país até o dia 2 de janeiro. Em relação aos casos ocorridos no mesmo período em 2018, 776 notificações, houve uma redução de 18%. Em termos regionais, a Região Norte liderou em número de casos, com 410 notificações. Na sequência aparecem a Região Sudeste, com 119 casos, o Nordeste, com 49 casos, o Centro-Oeste com 43 casos e o Sul, com apenas 9 notificações. 

No caso da Chikungunya, houve uma redução de 51%. Foram notificados 4.149 casos prováveis da doença até o dia 2 de fevereiro. No mesmo período de 2018, foram notificados 8.508 casos. A liderança em número de casos de Chikungunya também está na Região Norte, com 2.730 notificações. Na sequência aparece a Região Sudeste, com 789 casos, o Nordeste, com 446 casos, o Sul, com 94 casos, e a região Centro-Oeste, com 90 casos. 

Como já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, os casos de Dengue sempre estão associados aos criadouros de mosquitos que surgem ao redor de nossas casas e cidades. A fêmea do mosquito Aedes Aegypti busca locais com água limpa para depositar seus ovos. Entulhos da construção civil, restos de embalagens e recipientes plásticos, pneus velhos, entre outros resíduos, são descartados inadequadamente pelas populações em terrenos baldios, calçadas e ruas das nossas cidades. Com a chegada do verão e de suas abençoadas chuvas, esses resíduos passam a acumular água e se tornam locais ideais para a procriação dos mosquitos transmissores da doença. 

Além dos resíduos domésticos e da construção civil, vasos de plantas, calhas, caixas d’água e outros recipientes utilizados para o armazenamento de água nas residências, também tem grande potencial para serem transformados em “maternidade” para os mosquitos. A fêmea do Aedes Aegypti faz a postura dos ovos nas paredes do recipiente, exatamente na linha da água. Em cerca de 2 dois, esses ovos eclodem e as larvas do mosquito passam a viver na água. Em poucos dias, a pupa (forma larval do inseto) sofre uma metamorfose e surge o mosquito em sua forma adulta. Os ovos do mosquito são extremamente resistentes e podem sobreviver até dois anos longe da presença da água – basta chegar o período das chuvas para o ciclo ser reiniciado. 

Como ainda não existe uma vacina contra a Dengue, medidas preventivas de saneamento básico são fundamentais para o controle da doença. A correta coleta e destinação dos resíduos domésticos e da construção civil são a base do controle dos focos de reprodução dos mosquitos. A educação da população no sentido de dar uma destinação correta de seus resíduos domésticos e também em ações de limpeza e manutenção do espaço das suas casas também são fundamentais. Sem esses esforços de todos, basta chegar o período das chuvas para assistirmos essas explosões nos casos de Dengue.  

A Dengue e outras doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti somente serão erradicadas de nosso país com o esforço de todo. Faça a sua parte! 

IBA, UM QUASE “FURACÃO” BRASILEIRO

Iba

Nos últimos dias, o ciclone tropical Iba tem ocupado bastante espaço nos telejornais brasileiros. Localizado a cerca de 200 km da costa brasileira entre o Sul da Bahia e o Norte do Espírito Santo, o Iba, nome dado pela Marinha e que significa “ruim” em tupi-guarani, ficou um passo de atingir a classificação de furacão – felizmente, ele perdeu força e entrou para a classificação de tempestade tropical. 

Os ciclones são sistemas onde a pressão do ar é menor em relação a áreas próximas. Nessas regiões, o ar quente, que é mais leve, tende a subir na atmosfera, gerando a formação de nuvens carregadas de unidade. Dependendo da região do globo terrestre onde os ciclones se formam, eles podem ser chamados de tropicais, subtropicais e extratropicais. Antes de atingir a classificação de ciclone, esses sistemas passam pela fase de depressão tropical, onde os ventos podem atingir uma velocidade de até 62 km/h, e de tempestade tropical, onde os ventos tem velocidade entre 62 e 117 km/h. 

A Marinha do Brasil, que é a responsável pelo monitoramento climático da área marítima do país, já trabalhava com a perspectiva de formação de um ciclone tropical nessa região neste início de outono. A Marinha possui uma lista de nomes para batizar os possíveis ciclones que se formem em águas marítimas brasileiras. Esses nomes, todos em tupi-guarani, incluem Jaguar (onça), Kurumi (menino), Mani (deusa indígena), Oquira (broto de folhagem) e Potira (flor). O nome Iba era o primeiro dessa lista e foi usado para batizar esse ciclone tropical.

Iba se formou no último sábado, dia 23, a cerca de 150 km da cidade de Porto Seguro, no Estado da Bahia, e começou a mostrar seus primeiros efeitos na costa na segunda-feira, dia 25, quando os ventos atingiram velocidade próxima dos 60 km/h na costa e superiores a 100 km/h em alto-mar. Esses ventos podem provocar ondas de até 4 metros de altura nas proximidades do litoral Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo, o que levou a uma série de alertas da Marinha e da Defesa Civil para as embarcações, banhistas e populações das áreas costeiras

Em cidades do extremo Sul a Bahia, como em Mucuri e Nova Viçosa, as aulas foram suspensas preventivamente. A energia dos sistemas de iluminação pública dessas cidades também foi desligada, de forma a se evitar acidentes com eventuais quedas de fios e com curtos-circuitos. Esses tipos de medidas preventivas não são usuais aqui no Brasil, porém são praticadas adotadas em vários países em situações semelhantes e precisam passar a fazer parte dos protocolos de segurança de nossas cidades. 

Ciclones e tempestades tropicais que se formam em alto-mar podem ser devastadoras caso se desloquem em direção da costa. O ciclone Idai, que devastou extensas áreas de Moçambique, Botswana Malawi no último dia 15, fez exatamente isso e avançou por cerca de 500 km continente adentro. O nosso Iba manteve a sua posição em relação à costa e passou a se deslocar lentamente rumo ao Leste. 

A formação de ciclones tropicais e subtropicais no Oceano Atlântico Sul são fenômenos extremamente raros. A região possui forte ventos alísios, que impedem a formação desses sistemas, além de não existir perturbações tropicais ou uma zona convergência intertropical ao Sul da Linha do Equador. Outra característica dessa região é a presença de águas frias vindas do Sul do continente. Existem muitas divergências entre os meteorologistas quanto ao número exato, mas se considera que apenas 5 ciclones tropicais foram registrados no Atlântico Sul. O período de maior probabilidade para a ocorrência de um ciclone nessa região será no verão, quando as águas do Oceano estiverem mais quentes. 

Um desses raríssimos eventos foi o Furacão Catarina, um sistema que atingiu a região Sul do Brasil no final de março de 2004. O fenômeno climático teve início a partir do desenvolvimento de um ciclone extratropical de núcleo-frio em 12 de março. Cerca de uma semana depois, o sistema seguiu na direção Leste-Sudeste, até se estacionar no dia 22. Com a ação dos ventos e com a temperatura da água do mar acima da média, o sistema gradualmente passou a ganhar força, passando da classificação de ciclone extratropical para ciclone subtropical em 24 de março. Mantidas as mesmas condições ambientais, o sistema evolui para a classificação de ciclone tropical em 25 de março, com ventos bastante intensos. 

No dia 26 de março, o sistema passou a apresentar ventos de até 180 km/h e atingiu a categoria (ou tipo) 2 na escala de furacões Saffir-Simpson, ganhando o nome de Catarina, o primeiro registro de um ciclone tropical no Atlântico Sul. De acordo com análises de meteorologistas dos Estados Unidos, o Catarina foi na verdade um furacão, uma conclusão que não foi aceita pelos profissionais da área aqui no Brasil. 

O Catarina atingiu seu pico de intensidade no dia 28, data em que a tormenta atingiu a costa brasileira entre as cidades de Passo de Torres e Balneário Gaivota, em Santa Catarina. Cerca de 1.500 residências foram destruídas e outras 40 mil sofreram danos. O rastro de destruição deixou 11 mortos e 518 pessoas feridas. O Catarina também causou grandes prejuízos nas áreas rurais da região, destruindo cerca de 85% das plantações de banana e 40% dos campos de cultivo de arroz. Mais de 14 municípios da região decretaram situação de calamidade pública após a passagem do furacão/ciclone Catarina

Nos países mais desenvolvidos, as regiões propensas a riscos de furacões (denominação dada no Oceano Atlântico) e tufões (nome dado no Oceano Pacífico), contam com sofisticados sistemas de alerta que, conforme a gravidade da situação, permitem evacuar as áreas de riscos com antecedência, minimizando os riscos para as populações. Mesmo quando não há espaço para a evacuação, a população tem tempo de comprar mantimentos e água, além de conseguir reforçar portas e janelas com placas de madeira. São esses sistemas de alerta e toda uma infraestrutura de apoio que permitem minimizar os estragos e as vítimas dessas tragédias ambientais. E mesmo com tudo isso, tragédias como a que se seguiu ao furacão Katrina, que devastou a cidade de Nova Orleans em 2005, ainda podem acontecer. 

Uma das prováveis consequências do Aquecimento Global será um aumento da temperatura das águas dos oceanos, algo que já pode ser observado no Oceano Índico. Esse eventual aumento na temperatura das águas do Oceano Atlântico Sul poderá tornar mais frequentes a ocorrência de ciclones como o Iba, aumentando consideravelmente a possibilidade de ocorrência de novos “furacões” como o Catarina. Vale lembrar que grande parte da população brasileira vive numa faixa estreita ao longo do litoral, em cidades que não estão preparadas para eventos climáticos dessa magnitude. 

Grandes cidades brasileiras como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, que fica a pouco mais de 60 km do litoral, mal conseguem conviver com as fortes chuvas de verão, quiçá à passagem de um furacão… 

Que os céus celestiais nos ajudem!

UM BALANÇO DAS CHUVAS DE VERÃO 2018/2019 EM SÃO PAULO

Enchente em São Paulo

Na última postagem, falamos do drama vivido por populações de Moçambique, Botswana e Malawi após a passagem do ciclone tropical Idai. Regiões inteiras desses países ainda se encontram completamente inundadas, mesmo passados 10 dias desde a catástrofe natural. Mudanças climáticas regionais, observadas em toda a região do Oceano Índico, podem ser as responsáveis pela extrema violência desse fenômeno climático. Ciclones tropicais são comuns no Oceano Índico durante os meses de verão, porém, tanto a violência quanto o avanço do Idai contra o Sudeste do continente africano são incomuns.  

Mudanças climáticas localizadas estão sendo sentidas em diversas regiões do mundo e servem como um sinal de alerta de grandes alterações nos padrões climáticos mundiais. No Estado de São Paulo e, especialmente, na grande Região Metropolitana de São Paulo, muitas dessas mudanças são facilmente perceptíveis.  

Qualquer paulistano com mais de 40 anos se lembra dos invernos rigorosos de um passado recente – em algumas regiões nos extremos da cidade as temperaturas em alguns momentos do inverno chegavam bem próximas de 0° C. Atualmente, na maior parte dos nossos invernos, é possível ir até a Baixada Santista para pegar uma praia. 

Outra mudança bastante visível nos padrões climáticos locais são as chuvas e as temperaturas acima da média no período do verão. De acordo com dados do balanço oficial divulgado pelo INM –Instituto Nacional de Meteorologia, a cidade de São Paulo teve chuvas em 54 dos 90 dias do verão. Essas medições foram feitas na estação de medição oficial da cidade, no Mirante de Santana

Outros dados interessantes desse relatório oficial: 

Choveu acima da média histórica em janeiro e em fevereiro, e em março, o total de chuva em 20 dias já estava próximo da média histórica

Um dos fatos mais marcantes do verão de 2019 foi o calor de janeiro, que em relação à média das temperaturas máximas foi considerado o janeiro mais quente em 76 anos de medições, igualando com janeiro de 2014

Fevereiro de 2019 também merece destaque, pois foi o fevereiro mais chuvoso em 15 anos

Com acumulado de 884,5 mm, o verão 2018/2019 ficou em 9º lugar na lista dos verões mais chuvosos na capital paulista; 

A média da temperatura máxima deste verão foi de 30,0°C, igualando ao ano de 2001, e ficou em 5º lugar no ranking do histórico de 1961 a 2018. O calor intenso que predominou em janeiro foi determinante para chegar a esta posição; 

A média da temperatura mínima do verão 2018/2019 foi de 20,3°C, empatando com os anos de 2003 e 2010 na 4ª posição dos verões mais quentes do histórico de 1961 a 2018; 

chuva de janeiro foi irregular e deficiente em grande parte do estado de São Paulo. A falta de chuva justifica o calor excessivo observado em janeiro de 2019. A chuva de fevereiro foi melhor distribuída pelo estado; 

Os acumulados de precipitação no estado de São Paulo no verão 2018/2019 variaram, em média, entre 500 mm e 800 mm. Os maiores volumes ocorreram na faixa leste, especialmente entre Planalto Paulistano e o litoral, com volumes até acima dos 1200 mm. Aqui merecem destaques algumas chuvas torrenciais que caíram em Bertioga, Iguape e São Sebastião, cidades do litoral de São Paulo, onde os volumes acumulados atingiram, respectivamente, 178,0 mm, 153,3 mm e 124,2 mm em um único dia; 

Antes de qualquer outro comentário, precisamos destacar que todo esse volume de chuvas, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo, teve como consequências grandes enchentes (vide foto), alagamentos localizados de grandes proporções, desmoronamento de encostas e destruição de inúmeras casas. Infelizmente, esses eventos extremos resultaram na perda de inúmeras vidas humanas. Nossas cidades não estão preparadas para suportar os grandes volumes das chuvas de verão, um problema que não para de se agravar.

A combinação de chuvas e temperaturas acima da média combinadas com uma má distribuição territorial das chuvas no Estado de São Paulo gerou uma consequência preocupante – os níveis de água em dois importantes conjuntos de reservatórios estão ligeiramente abaixo da média, o que causa muita preocupação. O Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, está com apenas 55% do seu nível (dado de 26/03/2019). Nessa mesma data, no ano de 2009, o Sistema Cantareira apresentava um nível de 85% – de lá para cá, os níveis máximos dos reservatórios vêm apresentando níveis cada vez menores, lembrando que entre os anos de 2014 e 2015, o Sistema entrou em colapso

Outro conjunto de reservatórios importantes estão localizados na Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Além de sua importância no abastecimento de cidades e populações dentro do Estado de São Paulo, as águas do rio Paraíba do Sul são essenciais para o abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e municípios da Baixada Fluminense. Um complexo sistema de transposição entre bacias hidrográficas desvia até 60% das águas do rio Paraíba do Sul na direção da bacia hidrográfica do rio Guandu – 80% da água usada no abastecimento da cidade do Rio de Janeiro e de parte da Baixada Fluminense vem desse sistema. 

O volume útil do Reservatório Equivalente, que corresponde à soma dos volumes dos reservatórios de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil, está com 55,3% do nível máximo. De acordo com dados da Ana – Agência Nacional de Águas, esse nível corresponde ao oitavo menor resultado desde 1998 e está abaixo dos níveis do Reservatório Equivalente nos dois últimos anos

A situação dos reservatórios da Região Centro-Sul do país, que tem seu período de chuvas no verão, apresentam problemas semelhantes aos observados nestes reservatórios do Estado de São Paulo – os níveis estão abaixo da média histórica. Aqui, as preocupações vão além das necessidades de água para o abastecimento de populações: parte considerável da energia elétrica consumida no Brasil vem de fontes hidrelétricas. Sem contar com níveis seguros para a geração da energia elétrica necessária ao funcionamento do país, as autoridades do setor elétrico serão obrigadas a acionar as poluentes usinas de geração termelétricas a carvão, gás e óleo combustível. 

Apesar dos insistentes alertas dos cientistas, que afirmam que essas e outras mudanças já observadas nos padrões climáticos de muitas regiões não podem ser debitadas somente na conta das mudanças climáticas globais, eu acho bastante improvável que não sejam. Nós, caipiras aqui do Estado de São Paulo, costumamos falar que quando se vê só o rabo do gato, é quase certeza que o que se vê é um gato inteiro – na pior das hipóteses, é um filhote de onça ou de jaguatirica. 

É preciso ficar em alerta e começar a planejar uma vida em um mundo novo, com padrões climáticos diferentes em todo o planeta. Isto é inadiável.

IDAI, O CICLONE QUE DEVASTOU REGIÕES DE MOÇAMBIQUE, ZIMBABWE E MALAWI

Idai Moçambique

Desde o último dia 15 de março, quando o ciclone Idai atingiu Moçambique, o Zimbabwe e o Malawi, o mundo inteiro tem se surpreendido com o número cada vez maior de vítimas dessa tragédia. O Idai é o ciclone tropical mais forte a ser registrado desde o ano 2000, quando a tempestade Eline passou por Moçambique e deixou um rastro de destruição, matando mais de 800 pessoas. Conforme as informações divulgadas, o número total de vítimas fatais do Idai já passa de 700. 

Essa região, conhecida entre os meteorologistas como Bacia Ciclônica do Sudoeste do Oceano Índico, é famosa por apresentar uma forte temporada de ciclones tropicais no período do verão. Nessa temporada, já foram registrados 7 ciclones na região e existe uma nova tormenta em formação. Normalmente, os ciclones se formam em uma extensa área do Oceano Índico ao largo da Ilha de Madagáscar – o Idai surpreendeu a todos ao avançar violentamente contra o continente, com ventos superiores aos 200 km por hora, velocidade que o coloca na categoria 3 da escala dos ciclones.  

Um exemplo da violência extrema desse ciclone foi a devastação deixada em Beira, a segunda maior cidade de Moçambique com 500 mil habitantes, que ficou totalmente destruída. Os ventos devastadores avançaram por cerca de 500 km continente adentro, atingindo regiões do Zimbabwe e do Malawi, completando o rastro de destruição. Essa é uma região extremamente pobre do continente africano, onde as populações vivem em habitações construídas com os materiais mais precários e sem infraestrutura básica, o que dificulta a chegada das equipes de resgate e dos carregamentos com alimentos e remédios. 

Equipes da Organização Médicos sem Fronteiras, citando um exemplo, só conseguiram chegar aos locais atingidos pelo Idai no dia 19, o que mostra as dificuldades de acesso. Segundo os relatos dessas equipes, os hospitais e unidades de saúde que encontraram estavam sem energia elétrica e com telhados destruídos, problemas que só fizeram aumentar as dificuldades no atendimento das vítimas. Extensas áreas do interior dos países atingidos ainda se encontram alagadas, com dezenas de milhares de casas destruídas e com muitas comunidades e vilas ainda isoladas.  

A FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, que tem forte atuação nessa região, calcula entre 500 e 600 mil o número de pessoas diretamente afetadas pela catástrofe. Já para o UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância, as consequências são ainda mais catastróficas – a entidade calcula que 1 milhão de crianças e adolescentes estão sendo diretamente afetadas. Só o tempo mostrará as reais dimensões dessa grande tragédia climática. 

Os cientistas têm sido muito cautelosos em associar a violência do ciclone Idai a todo um conjunto de mudanças climáticas que vem sendo observadas em todo o Oceano Índico, que tem resultado em fortes secas no Sul e no Leste do continente africano. Estudos conduzidos desde 1980 demonstram que o volume de chuvas em toda esta extensa região diminuiu em, pelo menos, 15%, ao mesmo tempo que o número de pessoas subalimentadas mais do que duplicou – em algumas regiões, a redução no volume de chuvas pode chegar a 48%. E a origem desta redução das chuvas está ligada ao aumento da temperatura das águas do Oceano Índico, problema que não se limita ao continente africano, mas a todos os países asiáticos localizados ao longo da extensa orla deste oceano.  

Conforme tratamos em uma postagem anterior, grande parte da África vem passando por fortíssimos ciclos de seca. Esses eventos climáticos, considerados como um dos piores dos últimos 35 anos, estão atingindo mais de 50 milhões de habitantes em áreas no Chifre da África, onde se encontram países como Somália, Etiópia, Quênia, Uganda e Djibuti. Mais ao Sul, estão sofrendo com a seca o Malawi, Moçambique, Zimbabwe, Madagáscar e África do Sul, além dos enclaves em território sul-africano do Lesoto e Suazilândia.  

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm apresentado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento  foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016.  Um evento que pode estar diretamente associado a toda essa elevação de temperatura nas águas do Oceano Índico é o desaparecimento da Ilha New Moore, no Golfo de Bengala, que mostra a extensão e a complexidade do problema.

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O derretimento de grandes massas de gelo no Pólo Sul tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico que, combinadas com o aumento da temperatura das águas, tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica.  

Além de comprometer a dinâmica de distribuição de chuvas por uma extensa área da África e da Ásia, esse aumento das temperaturas das águas do Oceano Índico também pode resultar em um aumento da intensidade e do poder de destruição dos ciclones tropicais que se formam na região e, não só isso – catástrofes ambientais como o ciclone Idai podem se tornar cada vez mais frequentes por todo o Sul e Sudeste da África, ameaçando a vida de milhões de pessoas. 

As perspectivas para o futuro nessa região não são nada animadoras – os estudos indicam que essa tendência de redução ou aumento das chuvas persistirá e até se intensificará, uma vez que o aquecimento das águas do Oceano Índico é um fenômeno que está ligado diretamente ao aquecimento global, que tende a aumentar cada vez mais. E na esteira das mudanças dos ciclos de chuva, existem perspectivas de ciclones cada vez mais devastadores. Como diz um velho ditado popular – se correr a seca ou chuva pegam, se ficar o ciclone come… 

As mudanças climáticas regionais, já em andamento por todo o planeta, forçarão os países a investir cada vez mais em sistemas alternativos de produção de água como a transposição entre diferentes bacias hidrográficas, em sistemas de dessalinização da água do mar e também em sistemas de água de reuso – depender exclusivamente das chuvas será uma aposta cada vez mais arriscada. Também serão necessárias várias medidas em sistemas de defesa civil e em forças de resgate para situações de emergências. 

O grande problema é que os países que mais poluem o meio ambiente e que provocam as grandes mudanças climáticas no planeta são as nações ricas do Hemisfério Norte. E quem mais está sofrendo com os efeitos dessas mudanças climáticas são países miseráveis do Sudeste da África. 

A EXPLORAÇÃO DA CASSITERITA EM RONDÔNIA E SEUS MUITOS PROBLEMAS SOCIAIS E AMBIENTAIS

Cassiterita

A cassiterita é um minério de nome estranho para a maioria dos leitores, porém, ela está na origem de um metal indispensável no seu dia a dia – o estanho. Conhecido por ser um dos metais mais antigos utilizados pela humanidade, o estanho tem como principais características um baixo ponto de fusão e uma alta resistência contra a corrosão e a oxidação. Uma das mais importantes aplicações do estanho é a soldagem de componentes eletrônicos em produtos como smartphones, televisores, computadores, receptores de rádio, entre outros equipamentos eletro-eletrônicos presentes na sua vida cotidiana

Uma outra aplicação bastante popular do estanho é o tratamento superficial de peças metálicas como postes, tubulações e telas. Esse tratamento protege os metais dos efeitos da corrosão (ferrugem), especialmente em peças que ficam expostas a intempéries e ao contato frequente com a água. O estanho também tem largas aplicações industriais na produção de ligas metálicas, especialmente com o chumbo e o cobre. 

A cassiterita (vide foto) é um dióxido natural e principal minério do estanho. Como é comum na natureza em relação aos metais, o estanho ocorre sempre combinado com outros minerais como quartzo, feldspato, muscovita, estanita, topázio, volfranita, turmalina, entre outros. O Brasil possui, aproximadamente, 7,5% das reservas mundiais de estanho, concentradas na Região Amazônica. De acordo com dados da ANM – Agência Nacional de Mineração, os Estados de Rondônia e do Amazonas concentram, respectivamente, 47% e 50% da produção nacional de estanho, que é estimada em cerca de 14 mil toneladas anuais

Em Rondônia, as reservas do metal estão concentradas na região central do Estado, na chamada Província Estanífera, distante cerca de 220 km da cidade de Porto Velho. A mineração da cassiterita no Estado foi iniciada em 1952, quando pequenas empresas de mineração se instalaram na região e levaram à formação de diversos núcleos populacionais como a Vila Massangana, no município de Monte Negro. Esse assentamento cresceu e se consolidou em função das atividades mineradoras da cassiterita e do beneficiamento e produção do estanho. 

Os grandes resultados econômicos dessa produção do estanho, infelizmente, não se traduzem em ganhos sociais para a população e, muito pior, geram gravíssimos problemas ambientais na região. Além de todos os problemas tradicionais da mineração, que incluem a supressão da vegetação, destruição e contaminação dos corpos d’água, além da produção de grandes volumes de rejeitos minerais, a exploração da cassiterita em Rondônia tem algumas particularidades que merecem destaque. 

A mineração da cassiterita em Rondônia é feita a céu aberto, o que expõe os trabalhadores ao fortíssimo sol equatorial e tem como resultado inúmeras lesões na pele e riscos de desenvolvimento de câncer de pele. A proximidade das cavas de mineração de áreas florestais também expões esses trabalhadores a todo um conjunto de doenças infecciosas e parasitárias típicas das áreas florestais da Amazônia, especialmente a malária, o cólera e a leishmaniose. Outra fonte de insalubridade é o contato frequente dos trabalhadores com grandes volumes de água, que é utilizada para desmoronar os barrancos e assim facilitar a extração da cassiterita. Essa água sofre contaminação com diversos metais pesados que ocorrem junto com a cassiterita, metais esses que podem contaminar, direta e indiretamente, os trabalhadores, gerando uma série de doenças. 

As condições precárias dessas cavas expõem os trabalhadores a uma série de riscos a acidentes de trabalho, particularmente a desabamentos de barrancos e soterramento. Também há notícias de trabalhadores sem vínculos formais de trabalho e registro em carteira, jornadas de trabalho excessivas e curtos períodos de descanso semanal, excesso de esforços físicos e exposição a altos níveis de ruído, baixos salários, falta de água potável e fornecimento de alimentação de baixa qualidade, entre outros problemas. Os dramas vividos pelos trabalhadores nas áreas de mineração têm reflexos nas suas vidas nos assentamentos urbanos. 

Os efluentes contaminados por metais pesados nas cavas de mineração afetam os mananciais e poços usados pela população das vilas no seu abastecimento, um problema que expõe essas pessoas à contaminação com metais pesados. Essas vilas, formadas por habitações precárias construídas com folhas de babaçu e lonas plásticas, não possuem as mais precárias obras de infraestrutura como calçamento de ruas e redes coletoras de esgotos. Serviços básicos como coleta de lixo, transportes, educação e saúde, quando existentes, são os mais precários possíveis. Há inúmeros relatos de problemas fundiários, onde propriedades particulares foram invadidas pelas empresas de mineração sem qualquer tipo de autorização. Também são frequentes as acusações de obras para o represamento e desvios de corpos d’água, procedimentos que não podem ser feitos sem estudos de impacto ambiental e aprovação dos órgãos governamentais. 

O estanho e seus compostos, assim como acontece com a contaminação com outros metais pesados, podem causar uma série de problemas de saúde, especialmente no sistema imunológico, neurológico e hematológico, além de causar danos em órgãos como o fígado e rins. Os resíduos desse metal podem entrar no organismo humano por ingestão de alimentos contaminados, especialmente através do consumo de carnes e peixes. Outra fonte de contaminação se dá através da inalação – nesse caso, trata-se de trabalhadores que ficam expostos aos vapores gerados durante os processos de beneficiamento e fundição do metal. Todos esses problemas de saúde pública exigiriam a criação e implantação de uma série de programas e ações preventivas por parte das autoridades locais, com vistas à melhoria das condições de vida e de saúde da população. Desgraçadamente, tudo isso está muito longe da realidade dessas comunidades rondonienses. 

O principal destino do estanho processado e semiprocessado da Região Amazônica é São Paulo, o Estado mais industrializado do país. Nas indústrias paulistas, o estanho é utilizado como matéria prima de uma série de produtos com alto valor agregado, destinados ao mercado interno e também para exportação. Outro grande consumidor do estanho é o Pólo Industrial de Manaus, que concentra um grande número de indústrias elétricas e eletrônicas. Ou seja, enquanto as regiões produtoras arcam com os altíssimos custos ambientais e sociais criados pela extração, beneficiamento e produção do estanho, um grupo pequeno de empresas, produtoras e consumidoras finais do metal, são as que lucram de verdade. 

Infelizmente, essa é uma realidade da mineração – alguns ganham muito dinheiro e o resto do mundo “paga a conta”.