A INTERLIGAÇÃO DAS HIDROVIAS TIETÊ-PARANÁ E PARAGUAI-PARANÁ

Itaipu

Ao longo de várias semanas, as páginas deste blog vêm apresentando postagens sucessivas sobre o uso de hidrovias para o transporte de cargas e de passageiros. Começamos por apresentar alguns exemplos mundo afora, com sistemas hidroviários em plena operação na Europa, na América do Norte e na China – depois, passamos a mostrar exemplos aqui no Brasil e em países vizinhos, onde existe um enorme potencial para o desenvolvimento deste importante modal de transporte. Chegou a hora de unir duas pontas, que hoje estão separadas, mas que têm um enorme potencial de se complementarem: estamos falando da interligação das Hidrovias Tietê-Paraná e Paraguai-Paraná

A Hidrovia Tietê-Paraná engloba 2.400 km de águas navegáveis nos rios Tietê, com cerca de 800 km, e Paraná, com cerca de 1.600 km, atendendo regiões dos Estados de Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná, além de cidades do vizinho Paraguai. A Hidrovia Paraguai-Paraná, por sua vez, abrange uma área bem mais ampla, atendendo regiões dos Estados brasileiros de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai, com quase 3.500 km de águas navegáveis. Entre as duas Hidrovias, existe hoje um grande obstáculo que impede a interligação da navegação fluvial nos dois sistemas: a barragem da Usina Hidrelétrica de Itaipu (vide foto), na divisa entre o Brasil e o Paraguai e ponto de separação entre o alto e médio rio Paraná. 

A separação entre o alto e médio rio Paraná é muito antiga e bem anterior à construção da barragem de Itaipu. A grande barreira natural do rio Paraná eram as Sete Quedas, conjunto de cachoeiras que ficavam nas proximidades da cidade de Guaíra e que foram encobertas pelo enchimento do lago de Itaipu. Os saltos de Sete Quedas, assim como as Cataratas do Iguaçu, são resquícios do chamado Derrame de Trapp, um grande derramamento vulcânico de basalto, uma rocha ígnea resultante do esfriamento da lava vulcânica.  

Até 200 milhões de anos atrás, a América do Sul, a África, a Antártida, a Índia e a Austrália formavam um único super continente – a Pangeia. Foi então que poderosas forças geológicas provocaram a ruptura dos continentes e o deslocamento das placas tectônicas, reconfigurando todo o mapa do planeta. No território brasileiro, a movimentação da placa tectônica Sul-americana foi acompanhada de uma intensa atividade vulcânica e de grandes derramamentos de lava, especialmente nas regiões Cento-Oeste, Sudeste e Sul – as rochas de basalto que formaram tanto as Sete Quedas quanto as Cataratas de Foz do Iguaçu foram resultado desses derramamentos vulcânicos. E será justamente a união dessas duas regiões separadas a tantas eras uma das futuras consequências da interligação das Hidrovias Tietê-Paraná e Paraguai-Paraná. 

A barragem da represa de Itaipu impõe um desnível de aproximadamente 196 metros entre a superfície das águas do médio e alto rio Paraná e só poderá ser superada com a construção de um sistema da canais e de eclusas. Conforme já comentado em postagem anterior, foi anunciado a poucos meses atrás a contratação de uma empresa francesa, especializada em sistemas de navegação fluviais, para estudar um projeto técnico para resolver este problema. 

O trecho do rio Paraná entre a Usina Hidrelétrica de Itaipu e a confluência dos rios Paraná e Paraguai, no município de Corrientes na Argentina, é de aproximadamente 680 km. Este trecho apresenta alguns pontos com correnteza forte e afloramentos rochosos, o que, sem a realização de obras específicas, criam dificuldades para a navegação, especialmente nos períodos da seca, quando as águas do rio baixam. As profundidades mínimas variam entre 2,5 e 3 metros em alguns pontos até 20 metros em alguns trechos. 

A aproximadamente 400 km a jusante (rio abaixo) da barragem de Itaipu, encontra-se a barragem de Yacyretá, uma obra conjunta da Argentina com o Paraguai, concluída em 1979. A construção dessa barragem incluiu a instalação de uma eclusa, já visando a melhoria da navegação neste trecho do rio Paraná. A barragem da represa, que tem uma altura de 26 metros, também proporcionou uma melhoria considerável na navegação, criando um espelho d’água com 98 km de extensão, atingindo as cidades de Posadas, na Argentina e Encarnación, no Paraguai. Dois trechos problemáticos, onde existiam as corredeiras de Apipé Carayá, formam encobertos após a formação do lago dessa represa. Dados de 2016 do Ministério de Obras Públicas e Comunicações do Paraguai, mostram que cerca de 1 milhão de toneladas de soja produzidas no país passaram pela eclusa da represa de Yacyretá nos últimos 5 anos, transportadas em comboios com seis barcaças e capacidade para até 6.6 mil toneladas de carga

De um modo geral, esse trecho da Hidrovia Paraguai-Paraná apresenta uma série de dificuldades decorrentes da falta de infraestrutura, o que inclui a existência de rodovias sem pavimentação, o que causa atrasos e congestionamentos nos períodos de chuva, falta ou precariedade de instalações portuárias e terminais de carga e descarga, além dos problemas criados pelas variações naturais do nível do rio entre os períodos de chuva e de estiagem. Todos esses problemas só serão resolvidos com investimentos conjuntos de todos os países operadores da Hidrovia. 

A integração entre as Hidrovias Tietê-Paraná e Paraguai-Paraná criará uma extensão de águas navegáveis de quase 6 mil km de extensão, o que criará imensas oportunidades para a integração econômica cada vez maior de importantes regiões produtoras no Brasil, Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai.

Um comboio de barcaças carregadas com a soja colhida na região Centro-Oeste, citando um exemplo, poderá sair da cidade de São Simão, no Estado de Goiás, e ser transportada até o porto da cidade Rosário na Argentina, onde poderá ser embarcada em navios cargueiros e despachada para qualquer cidade portuária do mundo. Na viagem de volta, este comboio poderá transportar trigo argentino ou ainda carnes e produtos lácteos do Uruguai para consumo aqui no Brasil. Uma outra possibilidade, que se tornará comum, será o transporte de produtos do Mato Grosso pelos rios Paraguai e médio Paraná, passando para o alto Paraná até chegar ao interior do Estado de São Paulo via rio Tietê.

Existem, é claro, enormes problemas de infraestrutura de importantes trechos da Hidrovia e de logística nos demais sistemas de transportes intermodais, porém, os ganhos econômicos que esse imenso sistema de transportes trará a todos os envolvidos também serão gigantescos. 

Esperemos, todos, que o bom senso entre as diferentes nações prevaleça, e que eventuais intrigas e rixas históricas sejam deixadas de lado. Com todos as preocupações ambientais e responsabilidades sociais possíveis, a integração econômica que será gerada pelas Hidrovias Tietê-Paraná e Paraguai-Paraná são fundamentais para todos nós. 

Avante hermanos!

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