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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

A MORTE DE 130 TONELADAS DE PEIXES NO LAGO DE FURNAS 

O Lago de Furnas, carinhosamente conhecido como o “Mar de Minas”, é notícia frequente aqui nas páginas do nosso blog. Recentemente, falamos sobre a surpreendente recuperação do nível do corpo d`água após uma fase prolongada de seca. 

A notícia da vez, infelizmente, não é das melhores: milhares de peixes – principalmente tilápias, criadas em cativeiros no Lago apareceram mortos na região de Alfenas. De acordo com os criadores, as perdas foram da ordem de 130 toneladas. A Polícia Militar Ambiental está investigando o caso. Amostras da água e dos animais mortos foram enviados para análise em laboratórios e os laudos deverão sair em 20 dias. 

De acordo com informações de alguns criadores, peixes da ictiofauna nativa também foram afetados. Segundo os relatos, os peixes primeiro agonizaram como se estivessem tendo dificuldades para respirar, começando a morrer em seguida. 

A situação de um dos produtores nos dá uma ideia do tamanho da tragédia – cerca de 100 mil peixes dos seus tanques morreram. Os animais estavam na fase final da engorda e seriam enviados para a venda dentro de 15 dias. O prejuízo do piscicultor deverá superar a cifra de R$ 1 milhão. 

De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 9 de maio, o nível do Lago de Furnas está próximo de 86% de sua capacidade máxima. No final de setembro de 2021, conforme publicamos em postagem aqui no blog, o nível do reservatório estava em parcos 14% do seu volume útil. 

Naquele momento toda a Região Central do Brasil atravessava uma fortíssima estiagem, com importantes reservatórios de usinas hidrelétricas apresentando baixíssimos níveis. O Governo Federal chegou a anunciar que existiam riscos para o fornecimento de energia elétrica no país e que um racionamento não estava sendo descartado. 

Felizmente, a temporada das chuvas de verão foi acima da média e os níveis dos principais reservatórios de usinas hidrelétricas entraram num processo de forte recuperação, afastando o risco de racionamento de energia elétrica. Recentemente, foi anunciado o fim da Bandeira Vermelha nas contas de energia elétrica, o que vai significar uma redução nos custos para muita gente. As coisas pareciam estar voltando à normalidade em Furnas.

O aproveitamento energético em larga escala das águas do rio Grande começou no início da década de 1950, período em que o Brasil experimentava um forte ciclo de desenvolvimento industrial, especialmente após a instalação das empresas do setor automobilístico. A forte demanda por energia elétrica, que ameaçava levar o país a um colapso energético, resultou na construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, uma das maiores da América Latina na época. 

Até o início da década de 1950, o setor elétrico era controlado por inúmeras empresas estrangeiras como a Light & Power Company, que detinha concessões nos Estados de São Paulo e no Rio de Janeiro. Durante os anos do Governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), cujo slogan era “50 anos em 5”, o Governo Federal criou diversas empresas públicas para atuar no setor elétrico e o país iniciou uma fase de grandes investimentos na produção de energia elétrica.  

Entre estas empresas, destaca-se a Central Hidrelétrica Furnas, que foi criada em 1957, com o claro objetivo de estimular o desenvolvimento do Estado de Minas Gerais, terra natal do Presidente. Também é importante destacar que nessa mesma época começou a construção de Brasília, cidade que seria transformada na nova Capital Federal do país, e já se projetava um aumento do consumo de eletricidade na Região Centro-Oeste. 

A construção de uma usina hidrelétrica com um lago com área superior a 1.400 km2 é sempre problemática e o caso de Furnas não foi uma exceção. De acordo com as estimativas dos projetistas, cerca de 35 mil pessoas precisariam ser removidas das áreas que seriam alagadas pela represa e isso causou uma enorme convulsão social. O início do enchimento do lago estava previsto para 1961. 

As áreas sujeitas a alagamento envolviam tanto trechos urbanos de cidades e vilas quanto propriedades rurais. Muita gente resistiu até o último momento, se recusando a abandonar suas casas e terras. Existem muitas fotos de época que mostram moradores nos telhados de casas cercadas pelas águas do reservatório. O Governo Federal precisou convocar as Forças Armadas para ajudar na remoção dessas pessoas inconformadas com a obra. 

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica de Furnas entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, levando a potência total para 1.216 MW.   

Apesar dos problemas iniciais e da desconfiança da população das cidades do entorno, o surgimento de um grande lago acabou afetando positivamente toda a região. O lago de Furnas passou a ocupar uma área mais de três vezes maior que a Baía da Guanabara, com um perímetro superior a 3 mil km. O indesejado lago conquistou os corações dos locais e foi se transformando no “Mar de Minas”, uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado. 

Sem contar com uma fachada oceânica, Minas Gerais ganhou um grande corpo de águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons, grutas e cachoeiras. O turismo se transformou numa das principais atividades econômicas da região.  

O lago também passou a representar uma oportunidade excelente para a prática da piscicultura, especialmente a criação de tilápias em tanques flutuantes. Apesar de promissora, a atividade passou a sofrer com as grandes oscilações do nível do lago devido a fortes períodos de estiagem nos últimos anos. 

Após a mais recente e catastrófica seca no lago, os produtores estavam animados com a perspectiva de uma boa “safra” de peixes nessa temporada. A grande mortandade de peixes nos últimos dias frustrou todas as expectativas e os grandes prejuízos decorrentes do evento estão tirando o sono de muitos produtores. 

Vamos aguardar o resultado dos laudos para podermos entender exatamente o que aconteceu. O mínimo que podemos falar desse evento é que ele é muito estranho, especialmente num momento em que o Lago de Furnas estava bem cheio. 

A MINERAÇÃO NA SERRA DO CURRAL E OS RISCOS PARA O ABASTECIMENTO DE ÁGUA EM BELO HORIZONTE 

A história e os problemas ambientais do Estado de Minas Gerais se confundem com a mineração. Essa saga teve início em 1693, quando um grupo de bandeirantes paulistas encontrou ouro em grande quantidade na Serra do Sabarabuçu, na região que passou a ser conhecida como as Geraes – a notícia da descoberta do ouro mudaria os rumos e destinos do Brasil. 

A colônia do Brasil era até então um grande canavial concentrado no litoral da Região Nordeste, onde todos os esforços estavam concentrados na produção e exportação do açúcar, o produto agrícola mais valioso da Idade Moderna. A notícia dos achados auríferos mudaria toda a economia da grande colônia portuguesa em poucas décadas, levando, inclusive, a produção do açúcar à decadência. 

Calcula-se que 70% da escassa população brasileira, estimada em 500 mil habitantes no início do século XVII, abandonou a cultura da cana de açúcar no litoral, especialmente na região Nordeste, e seguiu rumo aos sertões das Geraes para se aventurar como garimpeiros. Na busca alucinada pelo valioso ouro, pode-se dizer que, cada pedra das margens dos rios foi revirada e cada barranco escavado. 

O mais recente capítulo dessa história começou a ser escrito há poucos dias atrás na Serra do Curral, uma das paisagens mais marcantes de Belo Horizonte. Na madrugada do último dia 30 de abril, o Governo de Minas Gerais autorizou um projeto de mineração na região da divisa entre as cidades de Belo Horizonte, Nova Lima e Sabará. O projeto é chamado de Complexo Minerário Serra do Taquaril. 

De acordo com o MP-MG – Ministério Público de Minas Gerais, trata-se de uma área de preservação ambiental, onde esse tipo de atividade é proibida. As cidades de Belo Horizonte e de Sabará afirmam que não foram consultadas. Já a prefeitura de Nova Lima nega que a área seja de preservação ambiental e apoia o projeto. 

A Prefeitura de Belo Horizonte, inclusive, entrou com uma ação na justiça pedindo a suspensão do licenciamento ambiental do projeto. A Serra do Curral abriga importantes nascentes de água que são utilizadas para o abastecimento da população da cidade e atividades de mineração podem comprometer essa fonte do recurso. 

Os questionamentos começam na forma como a reunião do COPAM – Conselho Estadual de Política Ambiental, transcorreu. Segundo consta, a reunião que tratou da questão se estendeu até as 18 horas, quando foi interrompida. Cerca de 280 pessoas haviam se inscrito para falar, porém não foram ouvidas. Estranhamente, a decisão de aprovação do projeto foi tomada as 4 horas da madrugada seguinte a portas fechadas. 

Segundo informações do IEPHA – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, a Serra do Curral possui um projeto de tombamento em andamento. A área já é tombada dentro do município de Belo Horizonte e os seus picos são tombados pelo Governo Federal. 

O Governo do Estado, entretanto, afirma que não existe tombamento provisório e, portanto, o processo de licenciamento ambiental do projeto de mineração é legal. Segundo informações divulgadas pela imprensa, um dos sócios da mineradora que ganhou a concessão é correligionário do Governador de Minas Gerais, o que torna o processo ainda mais suspeito. 

A área liberada para mineração na Serra do Curral, estranhamente, é a mesma que havia sido designada para a perfuração de poços para o abastecimento de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte, num processo de reparação ambiental assinado com a mineradora Vale do Rio Doce. Esse processo surgiu em decorrência do acidente com a barragem de rejeitos da Mina do Córrego do Feijão em Brumadinho em 2019. 

Com o acidente, a qualidade das águas do rio Paraopebas ficou comprometida, o que afetou parte importante do abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte. A perfuração de poços na Serra do Curral forneceria um volume água que atenderia até 70% das necessidades de consumo de Belo Horizonte e até 40% dos demais municípios da Região Metropolitana. 

A surreal aprovação do projeto de mineração também não considerou as possíveis interferências em instalações e áreas próximas. Um exemplo é o Hospital da Baleia, uma entidade especializada no tratamento de câncer oncológico e que fica a menos de 2 km da área de mineração. 

Também pode ser citado o Parque das Mangabeiras, integrante da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço. O limite desse Parque fica a apenas 500 metros da Cava Norte do empreendimento. Também existem riscos geológicos de erosão para o Pico Belo Horizonte, área tombada e localizada muito próxima das futuras cavas de mineração. 

Minerais como o ferro, o aço e o cobre são fundamentais para a vida moderna. Eles estão presentes em praticamente todos os produtos que usamos em nosso dia a dia. Na estrutura de eletrodomésticos como geladeiras e fogões; nos carros, ônibus e trens que usamos nos nossos deslocamentos; na estrutura de concreto de nossas casas e apartamentos. 

Na energia elétrica que move nossas vidas e nos fios que fazem trafegar as nossas comunicações. Até mesmo dentro de nossos corpos na forma de próteses dentárias e pinos cirúrgicos usados para corrigir fraturas ósseas. Sem os metais voltaríamos, literalmente, para a idade da pedra. 

A mineração, entretanto, é uma das atividades humanas mais agressivas ao meio ambiente. Matas precisam ser suprimidas para permitir que os solos sejam escavados. Milhões de toneladas de rochas são removidas e processadas para a retiradas dos metais importantes – grandes volumes de rejeitos minerais são gerados nesse processo. 

Lençóis freáticos e reservas subterrâneas de águas são destruídas e/ou contaminadas, prejudicando o abastecimento de populações. Quando os recursos minerais se esgotam ou sua exploração deixa de ser viável economicamente, essas áreas costumam ser abandonadas a própria sorte. Essa é mais ou menos a história de Minas Gerais. 

Um outro “legado” da mineração no Estado foi a destruição da maior parte da cobertura florestal nativa. O processamento dos minérios requer energia térmica, cuja principal fonte é o carvão. Sem contar com reservas de carvão mineral, fabulosos volumes de madeira e lenha foram transformados em carvão vegetal para uso nos altos-fornos mineiros – cerca de 70% da Mata Atlântica no território das Geraes foi transformada em carvão ao longo da história. 

Esse novo capítulo na mineração do Estado começou de forma estranha, mas todos sabemos como deverá acabar… 

AS FORTES CHUVAS E A SITUAÇÃO DE EMERGÊNCIA EM SANTA CATARINA

O Estado de Santa Catarina continua sofrendo com as fortes chuvas e já são 27 os municípios que decretaram Situação de Emergência. O número de municípios que registraram ocorrências como alagamentos, deslizamentos de terra, quedas de árvores entre outros transtornos causados pelas chuvas subiu para 121. 

A lista de municípios em Situação de Emergência inclui Tubarão, Orleans, Forquilhinha, Urubici, Maracajá, Araranguá, São Joaquim, Lages, Laurentino, Alfredo Wagner, Rio Rufino, Taió, Anitápolis, Monte Carlo, Videira, Macieira, Rio das Antas, Tangará, Rio do Oeste, Alfredo Wagner e Lauro Muller. 

De acordo com informações da Defesa Civil estadual deste último sábado, dia 7 de maio, foram confirmadas três mortes, duas em São Joaquim e uma em Ubirici. Os mortos, segundo o informe, ocupavam veículos que foram arrastados por fortes correntezas (vide foto). São mais de 7 mil pessoas desalojadas e 518 desabrigadas no Estado – mais de 44 mil pessoas já foram afetadas pelas chuvas. 

O responsável por essas fortes chuvas foi um ciclone extra tropical que se formou no litoral do Rio Grande do Sul na última segunda-feira e que passou a se deslocar rumo ao Norte rumo ao litoral de São Paulo. O fenômeno foi potencializado pela chegada de uma frente fria. 

O volume médio de chuvas acumuladas em Santa Catarina para o mês de maio é de 90 mm. Entretanto, em muitas cidades esse volume superou a marca dos 300 mm como foram os casos de Santa Rosa de Lima, Orleans e Rio Fortuna. Em Florianópolis, capital do Estado, o volume de chuvas acumuladas nas últimas 72 horas está na marca de 248,4 mm. 

A cidade de Tubarão, no Sul do Estado, foi uma das mais fortemente atingidas pelas chuvas. O Rio Tubarão chegou a subir 7 metros acima do seu nível normal, provocando alagamentos em 22 bairros da cidade. Também foram registrados deslizamentos de encostas, quedas de árvores e de muros. Cerca de 10 mil pessoas foram afetadas pelas chuvas na cidade. 

Outra região crítica do Estado que sofreu com as fortes chuvas foi o Vale do Rio Itajaí-Açu, frequentemente assolado por fortes enchentes. Na cidade de Rio do Sul o nível do rio superou a marca de 8,18 metros acima do nível normal, o que levou muitas famílias a abandonar suas casas. Em Itajaí, o porto precisou ser fechado devido a força da correnteza, que chegar a romper os cabos de atracação de muitas embarcações. 

Até o final do mês de fevereiro, 125 cidades catarinenses se encontravam em situação de emergência por causa da forte seca, segundo dados da Defesa Civil. Esse número corresponde a 42% dos municípios do Estado. Até aquela data, as perdas na agricultura já atingiam a marca de R$ 4 bilhões. 

Entre os meses de dezembro de 2021 e fevereiro de 2022, os volumes acumulados de chuva no Estado ficaram entre 30 e 40 mm. Para que todos tenham uma ideia do que isso significa, a média histórica para o período é de 150 mm. Somente nessa última semana, muitas cidades receberam o dobro desse volume de chuvas, especialmente nas áreas Central e Leste de Santa Catarina. 

Desde 2019, Santa Catarina vinha sofrendo com secas e/ou chuvas abaixo da média histórica. Em 2020, aliás, a seca se igualou a de 1957, considerada a maior seca já registrada no Estado. 

De acordo com a EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural, as maiores perdas na agricultura neste ano foram no milho e no feijão, com quebras de 34,5% e 22,4%, respectivamente. A primeira safra de soja também foi muito prejudicada e as perdas superam R$ 1,5 bilhão. Também sofreram fortemente a produção de hortaliças, frutas – especialmente as maçãs, de leite e de carnes. 

Na cidade de São Joaquim, que hoje vive em situação de emergência por causa das chuvas, muitos produtores de maçãs tiveram a perda total de sua produção nas últimas safras. Outros produtores colheram frutos muito pequenos e de baixo valor de comercialização. Para se prevenir contra as secas, muitos dos produtores da região fizeram pesados investimentos em sistemas de irrigação. 

A falta de chuvas também estava prejudicando o abastecimento de água das populações de muitas cidades. Um exemplo é Chapecó, no Oeste catarinense, onde a companhia local de águas vinha adotando um sistema de rodízio entre os bairros. Reservatórios de muitas cidades ficaram praticamente secos e com o fundo esturricado, imagem que fazia lembrar imagens do Semiárido Nordestino. 

A cidade de Chapadão do Lajeado, no Vale do Itajaí, chegou a entrar em Estado de Emergência por causa dos baixíssimos níveis dos seus reservatórios de água, que chegaram a ficar 36 cm abaixo do nível mínimo. Na metade dessa última semana, o nível do rio Itajaí-Açu, o principal da região, chegou a ultrapassar em 8 metros o nível máximo por causa das fortes chuvas. 

A situação vivida por Santa Catarina nos últimos anos ilustra bem os efeitos dos extremos climáticos que estão sendo provocados pelo aquecimento global. Em alguns anos as chuvas tem ficado muito abaixo da média histórica e em outros essas chuvas vem em excesso, como está ocorrendo nos últimos dias. 

Essa imprevisibilidade climática vai forçar cidades, produtores rurais e industrias, entre outros agentes, a investir cada vez mais na construção de reservatórios de água, além de promover ações para o reuso e aproveitamento cada vez mais racional do recurso. A forma como a água ainda é usada precisará ser cada vez mais repensada e racionalizada. 

São novos e complicados tempos. 

AS FLORESTAS QUE SÓ EXISTEM NO PAPEL E NOS PLANOS DE COMUNICAÇÃO E MARKETING 

Em 2010, época em que eu ainda trabalhava nas obras de implantação da rede de coleta e de tratamento de esgotos na cidade de Porto Velho, no Estado de Rondônia, acompanhei um evento “ambiental” organizado por uma engarrafadora de água mineral da região. 

Em comemoração ao Dia do Meio Ambiente daquele ano, a empresa convocou os moradores da cidade para plantar mudas de árvore no canteiro central da avenida de acesso ao aeroporto da cidade. A ideia era plantar a maior quantidade de mudas em uma hora. Salvo alguma falha de minha memória, o evento terminou com o plantio de mais de 7 mil mudas de árvores. 

Cerca de duas semanas depois, enquanto eu seguia para o aeroporto para uma viagem de trabalho, observei que a imensa maioria das mudas de árvores plantadas no canteiro da avenida havia morrido sob o impiedoso calor da Amazônia. A empresa que organizou o evento não se preocupou em criar uma rotina de regas periódicas das mudas. 

Essa minha memória está longe de ser um caso isolado. Já faz muito tempo que as empresas descobriram uma oportunidade de divulgar suas marcas e lucrar com a ideia do “marketing ecológico”. Surgiram slogans valorizando a responsabilidade social e ambiental das empresas, criaram-se produtos “amigos” da natureza, entre outras coisas do tipo. No fundo no fundo, essas empresas estão muito mais preocupadas com o lucro do que com a natureza. 

Esse uso abusivo de ferramentas de comunicação e marketing por parte das empresas acabou por contaminar, muitas vezes por razões políticas, projetos muito bem intencionados de reflorestamento em todo o mundo. Um exemplo foi o que ocorreu em um evento na Turquia em 2019.  

Em comemoração ao Dia Nacional das Florestas no país, foi organizado um mega plantio de mudas de árvores, com direito a muitas propagandas nos meios de comunicação locais bancadas pelo Governo. Foram plantadas cerca de 11 milhões de árvores naquele dia e, a exemplo do caso que citei em Rondônia, a imensa maioria dessas mudas de árvores morreu poucos meses depois por falta de cuidados básicos. 

Um caso bastante parecido aconteceu nas Filipinas em 2016. O Governo do país lançou naquele ano o Programa Nacional de Esverdeamento. Conforme já tratamos em postagem aqui no blog, as Filipinas encabeçam a lista dos países com a maior devastação florestal do mundo – calcula-se que 2/3 das florestas nativas do país já desaparecem; alguns autores afirmam que restam menos de 8% das matas nativas do país. 

O programa filipino tinha como meta recuperar 1,5 milhão de hectares de florestas e manguezais entre os anos de 2011 e 2019. Um relatório preparado pelo órgão de auditoria do país (uma versão local do nosso TCU – Tribunal de Contas da União), indicou que 88% das metas para os primeiros 5 anos do programa não foram atingidas. 

Pois bem: parte dos esforços desse Programa visava recuperar os manguezais desmatados. Gastaram-se rios de dinheiro, especialmente em propagandas e projetos de marketing, porém, os resultados práticos nos manguezais foram pífios. Segundo relatos de pesquisadores filipinos, foram usadas espécies de árvores inadequadas aos manguezais locais e perto de 90% das mudas morreram. 

Uma interessante reportagem publicada há poucos dias listou diversos projetos ambiciosos de recuperação de áreas florestais e os resultados decepcionantes de muitos deles. Vejam: 

Bonn Challenge – Lançada em 2011, essa iniciativa previa a restauração de 210 mil hectares de florestas em todo o mundo até 2020, chegando até 350 mil hectares até 2030. Dados de 2020 indicam que apenas 27 mil hectares de matas foram recuperados; 

Trillion Trees – Restaurar, conservar e plantar 1 trilhão de árvores até 2030. Lançada com muito alarde em 2016, essa ambiciosa iniciativa atingiu a modesta marca de 38,6 bilhões de árvores em 2020; 

Iniciativa 20 x 20 – Lançada em 2011, visava restaurar e conservar 50 mil hectares de terras degradadas no Caribe e na América Latina até 2030. Segundo dados de 2020, a iniciativa atingiu pouco menos da metade dessa meta: 22,6 mil hectares; 

Grande Muralha Verde do Sahel – Conforme apresentamos em uma postagem aqui do blog, essa iniciativa visa o plantio de uma faixa de floresta com 8 mil km de extensão ao Sul do Deserto do Saara, indo da costa do Oceano Atlântico, no Oeste, ao Mar Vermelho, no Leste africano. Dados divulgados em setembro de 2020, indicam que apenas 4% da iniciativa havia sido implementada. 

A mesma reportagem apresenta uma lista de justificativas dos dirigentes das organizações e de Governos que estão por trás dessas inciativas para o não atingimentos das metas. São as mais diferentes e criativas desculpas.

Para muitos especialistas o que aconteceu mesmo foi um excesso de investimento em comunicação e marketing e uma destinação de poucos recursos para a atividade fim dessas iniciativas, que é basicamente o plantio e a conservação de matas e florestas. Também faltou uma atenção com a fase seguinte ao plantio dos “zilhões” de mudas de árvores anunciadas, ou seja, a rega e a adubagem, entre outros cuidados básicos. 

Resumindo: por trás de anúncios emocionantes, de musiquinhas empolgantes e de vídeos com belas imagens de plantas e animais, onde muitas dessas iniciativas são vendidas como a salvação do planeta, existe mesmo é muita propaganda enganosa. 

AS “QUEIMADAS DO BEM” NO CERRADO BRASILEIRO 

Quem acompanha o blog deve ter percebido que dedicamos as últimas postagens a temas ligadas aos incêndios florestais. O mês de maio marca o início da temporada seca no Cerrado Brasileiro, época em as queimadas se multiplicam no bioma e rendem manchetes em todo o mundo. Em julho tem início o chamado verão amazônico, a época da seca na região, e das já tradicionais notícias sobre a destruição do “pulmão do mundo” pelo fogo. 

Um conceito que foi repetido diversas vezes nessas postagens é o uso controlado do fogo no combate aos incêndios florestais. Por mais que essa ideia assuste os ecologistas de “ar condicionado”, imagem que gosto de usar para falar daqueles que se imaginam defendendo o meio ambiente a partir de suas casas e escritórios confortáveis nas grandes cidades, ela funciona perfeitamente. 

De acordo com a química, o fogo é uma reação que depende de três elementos básicos: combustível, oxigênio e de uma fonte de energia para ativação ou ignição. Esse é o chamado “triangulo do fogo”. Com as queimadas controladas, o material combustível excedente das áreas florestais – galhos, folhas secas, árvores mortas, entre outros materiais, é queimado de forma segura por pessoas especializadas. Reduzindo a quantidade de material combustível nas matas, o risco de grandes incêndios florestais fica reduzido. 

Uma ideia que segue nessa direção e que faz muita gente “especializada” torcer o nariz é a pastagem de animais domésticos dentro de áreas florestadas com o objetivo de reduzir o volume de material combustível. Citamos o exemplo das “cabras-bombeiras” que estão sendo usadas em algumas regiões da Califórnia, nos Estados Unidos, e nas cercanias de Dublin, capital da Irlanda. Os animais comem a vegetação rasteira e arbustiva, deixando os solos das matas “limpos”.

Em 2021, durante uma temporada de fortes queimadas no Pantanal Mato-grossense, algumas autoridades do Governo Federal afirmaram que a criação de gado na região, atividade que foi reduzida devido a restrições ambientais, poderia ter contribuído na prevenção desses incêndios. Essa ideia foi rechaçada há época por muitos “especialistas”. 

Fugindo das discussões entre os diferentes grupos, o fogo faz parte das paisagens naturais de nosso planeta há muitos milhões de anos e muitos os biomas que foram, literalmente, modelados pelas chamas ao longo do tempo. Um grande exemplo aqui no território brasileiro é o Cerrado. 

De acordo com um estudo feito por pesquisadores da UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana e da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, “o fogo teve papel importante na formação da flora do cerrado brasileiro“. Segundo os pesquisadores, mudanças climáticas ocorridas há 10 milhões de anos favoreceram a expansão de áreas de savanas em todo o mundo, vegetação que se torna muito inflamável em certas épocas do ano e sujeitas a ação do fogo. 

As novas condições ambientais passaram a favorecer espécies vegetais com uma maior resistência as chamas. São plantas que possuem uma casca bem mais grossa que espécies semelhantes encontradas em outros biomas – essas cascas protegem as plantas durante os incêndios, ou ainda de rápida regeneração. Muitas espécies vegetais, inclusive, passaram a depender das chamas para quebrar a dormência de suas sementes. A flora do Cerrado que conhecemos hoje começou a se formar há cerca de 4 milhões de anos. 

Um exemplo da extrema adaptação das espécies vegetais do Cerrado ao fogo é a Bulbostylis paradoxa, uma erva conhecida popularmente como cabelo-de-índio. Um estudo liderado pela pesquisadora Alexandra Fidelis da UNESP – Universidade Estadual Paulista, e publicado na revista Ecology em 2019, mostrou que essa planta começa a florescer apenas 24 horas depois de ser queimada. 

De acordo com informações do ICMBIO – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o MIF – Manejo Integrado do Fogo, é usado em 37 unidade de conservação federais, especialmente no bioma Cerrado. No total, 15 unidades de conservação nesse bioma usam as queimadas controladas ou proscritas, termo técnico mais utilizado. 

De acordo com o ICMBIO, essa prática vem sendo usada no Cerrado desde 2014, e foi fundamental na redução da incidência de grandes queimadas na Serra Geral no Tocantins, na Serra da Canastra em Minas Gerais, na Chapada dos Guimarães em Mato Grosso e também na Chapada das Mesas no Maranhão. 

Desde 2017, as queimadas proscritas passaram a ser usadas em unidades de conservação com vegetação de savana da região Amazônica. Exemplos são o Parque Nacional do Viruá em Roraima, a Reserva Biológica do Guaporé em Rondônia, e também no Parque Nacional dos Campos Amazônicos, que se estende entre os Estados de Roraima e do Amazonas. 

Mais recentemente, em 2021, as autoridades ambientais passaram a usar de forma experimental as queimadas proscritas no Pantanal Mato-grossense, bioma que sofreu fortemente com as queimadas naquele ano. Segundo o ICMBIO, cerca de 2/3 das espécies vegetais do Pantanal são similares a espécies do Cerrado

A área escolhida para esses testes fica dentro do SESC Pantanal, a maior RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural, do Brasil. Os resultados do uso das queimadas controladas nessa área serão avaliados ainda no final deste ano e, conforme o resultado, o ICMBIO poderá aplicar a técnica no Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense, no Estado do Mato Grosso.

O ICMBIO também tem feito convênios com órgão ambientais estaduais visando a popularização dessa técnica. Um exemplo é o Parque Estadual do Juquery, a última área protegida de Cerrado na Região Metropolitana de São Paulo. Para quem não sabe, essa região foi no passado uma grande mancha de Cerrado cercada pela Mata Atlântica. Em 2021, essa área sofreu um grande incêndio florestal. As autoridades ambientais paulistas devem iniciar as queimadas controladas no parque ainda neste ano. 

Áreas de conservação dentro dos Pampas Sulinos e da Caatinga Nordestina, biomas que também ficam sujeitos a ocorrência de grandes incêndios florestais, deverão utilizar a técnicas das queimadas controladas num futuro próximo segundo o ICMBIO. Em áreas florestais da Mata Atlântica e da Amazônia essa técnica não pode ser utilizada

Cenas de incêndio em áreas florestais causam um forte impacto visual nas pessoas, principalmente quando as imagens mostram animais mortos pelo fogo. De acordo com os especialistas, as queimadas controladas são feitas de forma propiciar as rotas de fuga para os animais silvestres. As chamas não seguem numa linha reta, o que dá tempo para os animais terrestres se entocarem e para as aves voarem. É importante lembrar que a fauna do Cerrado é perfeitamente adaptada para essas situações. 

Os próximos meses e as inevitáveis manchetes sobre as queimadas no Cerrado e no Pantanal Mato-grossense vão sinalizar o quanto o uso das queimadas controladas tem sido benéfico para o meio ambiente. Torçamos por bons resultados. 

AS “QUEIMADAS CULTURAIS” DOS ABORÍGENES AUSTRALIANOS 

O povoamento da Austrália é bastante antigo e os especialistas ainda divergem sobre as datas. A corrente mais tradicional fala que a chegada dos primeiros aborígenes ao continente se deu a cerca de 70 mil anos. Novas linhas de pesquisa trabalham com uma data mais recente, entre 40 e 42 mil anos. Existem alguns poucos cientistas que acreditam que essa história deveria retroagir para cerca de 120 mil anos. 

Há um consenso entre a maioria dos cientistas em se afirmar que esses povoadores primitivos pertenceram a uma das primeiras correntes migratórias de Homo Sapiens, a nossa espécie, a sair da África em busca de novas oportunidades de vida. Essas pessoas seguiram através de franjas florestais ao longo das margens do Oceano Índico até atingirem o Sudeste Asiático. Navegando de ilha em ilha, essas populações chegaram na Austrália. 

Quando os primeiros navegadores europeus atingiram o continente australiano ainda no século XVI, encontraram uma enorme população nativa ali estabelecida há milhares de anos. Estimativas da época do início da colonização europeia falam de uma população entre 318 mil e 1 milhão de aborígenes, falantes de cerca de 300 línguas e 600 dialetos, e divididos em inúmeros grupos tribais. 

Como se viu em outros projetos de colonização aqui nas Américas, na África e mesmo no Sul e Sudeste Asiático, os recém chegados impuseram aos nativos suas crenças e seus valores. Tudo o que fazia parte da cultura aborígene foi relegado a um plano muito secundário, sendo que muito cultos religiosos passaram a ser proibidos. 

Uma das tradições multimilenárias dos aborígenes que foi proibida logo no início da colonização inglesa foram as “queimadas culturais“. Os nativos se valiam do fogo para limpar o excesso de matéria combustível em suas matas tais como gravetos, restos de folhas, troncos caídos entre outros. Essas queimadas controladas faziam parte de todo um contexto cerimonial e religioso. 

Segundo as crenças dos aborígenes, a “mata precisa queimar” para preservar a sua saúde. Essa máxima foi recuperada pela pesquisadora Shannon Foster, professora de cultura aborígene da Universidade de Tecnologia de Sydney. Ela se tornou uma guardiã dos conhecimentos do povo d`harawal. Sem contar com escrita, esses conhecimentos tradicionais são passados por via oral de uma geração para outra. A interessante foto que ilustra essa postagem mostra o bisavó e o avó da pesquisadora tomando “lições” com aborígenes na década de 1940.

De acordo com a pesquisadora, a preservação da terra é a parte central da cultura dos aborígenes australianos. Na crença desses povos, é fundamental se pensar no que se pode fazer para retribuir à terra tudo o que ela nos dá. E foi na base da experimentação que esses povos descobriram que as queimadas controladas eram uma ferramenta eficiente para se evitar a ocorrência de grandes incêndios florestais. 

Os nativos ensinam que essas queimadas seguem o ritmo da natureza e ajudam a atrair os animais que esses povos caçam. As cinzas fertilizam os solos e o potássio liberado é essencial para a floração das plantas. Isso melhora o mosaico da vegetação, além de gerar microclimas. 

Os aborígenes acreditam, o que conta inclusive com o aval de alguns pesquisadores, que essas queimadas suaves incentivam as chuvas. A atmosfera aquece até um nível atmosférico onde o calor e o frio provocam a condensação da água, formando assim as chuvas. 

Esse tipo de queimada realizada pelos antigos aborígenes é o que os especialistas chamam de “queimadas frias” (cool burning em inglês). Trata-se de um fogo extremamente controlado com chamas que atingem, no máximo, a altura dos joelhos. A técnica foi criada com o objetivo de queimar as áreas de forma contínua e acompanhando a paisagem. 

É interessante notar que essa antiga prática, abolida pelos colonizadores ainda no final do século XVII, está em perfeita sintonia com uma resolução recente do Governo dos Estados Unidos – a Estratégia de Crise de Incêndios Florestais, conjunto de medidas que prevê tornar as florestas do país mais saudáveis e resistentes a esses eventos ao longo dos próximos 10 anos.  

Um dos mais importantes itens da resolução são os trabalhos de poda da vegetação e corte de árvores mortas, materiais que deverão ser queimados de forma controlada pelas autoridades florestais do país. A ideia é exatamente a mesma das antigas práticas aborígenes – reduzir a quantidade de material combustível nas florestas para evitar a ocorrência de grandes incêndios florestais. 

Os aborígenes australianos não estão sozinhos nisso – a prática da “ecologia do fogo” vem fazendo parte da história de inúmeros povos tradicionais em todo o mundo. Aqui nas Américas, por exemplo, há registros históricos e geológicos de grandes queimadas realizadas por povos indígenas – do Alasca, ao Norte, até a Terra do Fogo, ao Sul do continente. Essas queimadas eram sistemáticas e tinham como objetivo a abertura de campos agrícolas e criação de áreas para caça de animais silvestres. 

Existem abundantes testemunhos de pioneiros da colonização dos Estados Unidos que falam de grandes incêndios florestais provocados propositalmente pelos indígenas do Nordeste norte-americano no início do século XVII. Segundo o que essas testemunhas apuraram diretamente com os índios, a queima da floresta era fundamental para dar espaço aos grandes rebanhos de animais que os nativos caçavam, além de liberar áreas para a agricultura. 

Aqui na Amazônia brasileira encontramos as chamadas “terras pretas de índio”, solos que foram fertilizados artificialmente pelos indígenas para fins agrícolas a centenas, quiçá milhares de anos. A maior parte das terras amazônicas, conforme já apresentamos em postagens aqui no blog, são de baixíssima fertilidade – os indígenas desenvolveram técnicas de queimar restos de vegetação de forma controlada para adubar os solos. Isso criou uma grossa camada de terra preta e de excepcional fertilidade, ainda hoje utilizadas por indígenas e caboclos para a formação de seus roçados. 

Ainda falando dos nossos indígenas não podemos deixar de falar da coivara, uma técnica de plantio agrícola que os colonizadores europeus acabaram absorvendo. A mata é derrubada e os restos florestais são deixados a secar por algumas semanas, quando então o material é incendiado. Além de limpar os solos, as cinzas resultantes da queima fertilizam a área para uso em uma ou duas colheitas. 

Com a Austrália sofrendo sistematicamente com grandes incêndios florestais nas últimas décadas, existem muitos grupos que estão defendendo um retorno a essas antigas práticas culturais e religiosas dos antigos aborígenes. O que durante muito tempo foi considerado paganismo e culto ao demônio pelos antigos líderes religiosos agora está sendo visto como um canal de ligação com a natureza. 

Lembrando que os aborígenes vivem nessas terras há dezenas de milhares de anos e que conseguiram preservar adequadamente o meio ambiente durante esse tempo, não deixa de ser uma ação inteligente buscar absorver alguma coisa de sua cultura ancestral em prol da sofrida natureza da Austrália. 

AS “CABRAS-BOMBEIRAS” DA CALIFÓRNIA, OU AINDA FALANDO DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NOS ESTADOS UNIDOS

No ano passado, em consequência da fortíssima estiagem que atingiu toda a região Central do Brasil, as queimadas na região do Pantanal Mato-grossense foram enormes. Entre as inúmeras análises feitas sobre a origem do problema, houve quem citasse a redução da pecuária na região por causa de restrições ambientais. 

De acordo com esse ponto de vista, os animais comem a vegetação rasteira e arbustiva, reduzindo assim o volume de matéria orgânica combustível que poderia arder em um incêndio florestal. Surgiu na época o conceito do “boi-bombeiro”, uma ideia que foi rechaçada por um sem número de “especialistas”. Aliás, nessas horas, “brotam” especialistas como cogumelos após uma chuva. 

Na nossa última postagem, onde falamos das preocupações do Governo dos Estados Unidos em relação ao início de mais uma temporada de incêndios florestais no país, citamos que existe um plano para reduzir o volume de matéria orgânica combustível nas florestas através de podas e cortes de galhos de árvores. Esse material seria queimado posteriormente de forma controlada. A lógica por trás disso – sem combustível no chão das florestas, os incêndios seriam bem menos agressivos

Uma outra afirmação feita na postagem foi sobre o uso de cabras e bodes soltos nas matas – esses animais comem a vegetação rasteira e também resolvem o problema do excesso de combustível para os incêndios. As “cabras-bombeiras” (e os bodes por extensão) norte-americanas conseguem realizar um trabalho preventivo a incêndios florestais por lá, coisa que os “bois bombeiros” brazucas, de acordo com os nossos especialistas, não conseguiriam fazer por aqui. Vamos entender essa história. 

Cabras e bodes, como nós brasileiros sabemos muito bem, são animais de um apetite insaciável e que conseguem comer praticamente tudo. Os maiores rebanhos desses animais aqui no Brasil estão concentrados na Região Nordeste – particularmente no Semiárido. Esses rebanhos, aliás, são extremamente danosos para o meio ambiente local. 

Em épocas de seca, enquanto bovinos, equinos e muares padecem pela falta de pastagem, as cabras e bodes dão o seu jeito para sobreviver. Esses animais escalam os galhos de árvores em busca das folhas e galhos mais altos. Também conseguem comer plantas espinhosas como as coroas-de-frade, os xique-xiques e outras cactáceas do sertão. Quando todas as fontes de alimentos se esgotam, os animais conseguem cavar o solo em busca de raízes. 

A grande quantidade de cabras e bodes que são criados soltos nos sertões nordestinos vem ajudando a aumentar o problema da desertificação, um fenômeno facilmente observado em várias regiões do Semiárido. O botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, já alertava sobre esse problema ainda no final do século XIX. 

Foi se valendo justamente dessa capacidade das cabras e bodes de comeram praticamente qualquer tipo de vegetação, que muitos agricultores dos Estados Unidos passaram a soltar esses animais em matas sujeitas aos temidos incêndios florestais anuais daquele país. Aliás, essa é uma ideia que vem sendo usada há muito tempo em diversos países da Europa – a Irlanda é um desses casos

No subúrbio de Howth ao Norte de Dublin, capital do país, o Conselho Local autorizou que um rebanho de 25 cabras passasse a pastar nas colinas próximas, uma região propensa a fortes queimadas. As cabras são de uma antiga raça local, a Old Irish Goat, espécie que tem uma predileção pela vegetação típica dessas colinas. Essa espécie, inclusive, estava ameaçada de extinção – a iniciativa acabou também ajudando a resolver esse problema. 

Um Estado norte-americano onde as “cabras-bombeiras” tem se tornado bastante populares é a California, um dos mais afetados pelos sucessivos incêndios florestais. A fama dos animais cresceu muito após um feito histórico – um rebanho de cabras ajudou a salvar a Biblioteca Presidencial Ronald Reagan, que fica nas cercanias de Los Angeles, em 2019. 

Em maio daquele ano, quando a intensidade dos incêndios florestais na Califórnia já estava assustando muita gente, os administradores da Biblioteca contataram uma empresa e “contrataram” um rebanho de 500 cabras para consumir a vegetação excedente nas matas ao redor da instituição. 

Em poucos dias os animais concluíram seu trabalho e comeram toda a vegetação rasteira e arbustiva do local. Essa área limpa atuou como uma barreira contra o avanço das chamas que tomaram conta desta floresta logo depois, e criou condições para que os bombeiros conseguissem trabalhar com maior tranquilidade. Ou seja: os animais salvaram a Biblioteca. 

Desde então surgiram inúmeras empresas especializadas na locação de rebanhos de cabras e bodes. Em função do tamanho da área a ser limpa é determinado o número de animais que serão necessários para a “realização do serviço”. Os animais são transportados em caminhões especiais até o local, onde são soltos e iniciam imediatamente a sua missão – comer a maior quantidade possível de vegetação. 

Fazendas e comunidades que usaram os serviços ficaram muito satisfeitas com os resultados. O custo fica muito próximo do que seria dispendido com a contratação de trabalhadores. Aliás, o que se comenta é que os animais trabalham sem reclamar e não geram custos trabalhistas adicionais. 

Os bombeiros também tem elogiado bastante o serviço feito pelas cabras e bodes. Incêndios em matas que foram limpas pelos animais são bem mais fáceis de controlar e os riscos para os bombeiros são bem menores. E a ideia, que até bem pouco tempo atrás era vista como um experimento de empreendedores, já está sendo vista como um ótimo negócio para muitas empresas. 

Além do excelente serviço na limpeza de áreas florestais, esses animais também fornecem carne, leite e derivados, além do couro (o melhor e mais macio é o couro das cabras), produtos que amplificam as possibilidades de ganhos das empresas. Com as mudanças climáticas e com uma redução gradual dos recursos hídricos em todo o Oeste e Meio-Oeste dos Estados Unidos, o negócio das “cabras-bombeiras” deverá prosperar muito nos próximos anos. 

Voltando a falar do caso do Pantanal Mato-grossense. Rebanhos bovinos consomem grandes quantidades de forragem, mas não tem o apetite eclético das cabras e dos bodes. Apesar de menos eficientes na limpeza das matas, esses animais poderiam sim ajudar a minimizar os riscos de grandes incêndios nas matas da região. 

Um outro detalhe importante – muitas fazendas de criação de gado estão estabelecidas na região há mais de 200 anos e o Pantanal continua sendo o bioma mais preservado do país, apesar dos inúmeros problemas ambientais que possui. 

Chega uma hora em que é preciso deixar ideologias de lado e agir com pragmatismo. O que os norte-americanos estão fazendo com as “cabras-bombeiras” é um exemplo disso. 

A TEMPORADA 2022 DOS INCÊNDIOS FLORESTAIS NOS ESTADOS UNIDOS

A temporada das queimadas aqui no Brasil está começando. O mês de maio marca o início do período de seca no Cerrado Brasileiro, que deve se estender até o mês de setembro. Na Amazônia, o verão começa em julho e seguirá até o final do ano. 

Aqui é importante lembrar que esses dois grandes biomas brasileiros apresentam apenas duas estações climáticas bem definidas – o verão, época com clima quente e seco, e o inverno, época das chuvas. A vegetação seca, principalmente em áreas do Cerrado, e as altas temperaturas formam as condições ideais para a ocorrência de grandes queimadas e também para a publicação de grandes manchetes na imprensa internacional falando das queimadas na Floresta Amazônica. 

Hoje, entretanto, vamos falar da temporada de incêndios florestais nos Estados Unidos, que esse ano começou mais cedo. Com o final do inverno e com o tempo seco, já foram registrados mais de 20 mil focos de incêndio em áreas de florestas por todo o país nos primeiros messes de 2022, o que já consumiu cerca de 400 mil hectares de vegetação

As regiões em situação mais crítica estão nos Estados do Meio-Oeste, especialmente no Arkansas, no Colorado e no Novo México, onde a situação é particularmente grave – metade dos 33 condados do Estado já registraram focos de incêndios nas últimas semanas. Na região de Denver, a capital do Colorado, as autoridades estão em alerta máximo. As matas locais estão extremamente secas, com muitos ventos e calor forte e fora de época. Além disso, há mais de uma década que a região é vítima de grandes incêndios florestais nessa época. 

Outro Estado norte-americano que se prepara para uma temporada de fortes incêndios é a Califórnia. Segundo um balanço das autoridades locais, 93% da área do Estado está enfrentando uma seca severa, uma situação que tende a se agravar nos próximos meses. Em 2021, os incêndios destruíram mais de 1 milhão de hectares de florestas na Califórnia, uma área equivalente à do Estado de Connecticut. 

Um sintoma da escassez hídrica na Califórnia pode ser visto nos reservatórios de água – a maior represa de abastecimento do Estado, Shasta, está com apenas 38% da sua capacidade máxima. A média histórica nesse período de seca é de 48%, o que sinaliza que também que haverá problemas para o abastecimento de água da população nos próximos meses

As mudanças climáticas vêm provocando uma redução sistemática das chuvas e das precipitações de neve nos últimos anos em toda a região Oeste e Central dos Estados Unidos. O rio Colorado, que é um dos mais importantes dessas regiões, vem sofrendo com a redução sistemática dos seus caudais, o que se reflete em prejuízos para a agricultura irrigada de diversos Estados. 

A falta de chuvas também está prejudicando o crescimento da vegetação de altitude e a formação do manto de neve nas Montanhas Rochosas. Quando ocorre uma nevasca, a poeira e a vegetação seca estão se misturando com a neve, que fica com um aspecto barrento. Isso prejudica o efeito albedo, que é a reflexão de grande parte da energia da luz solar sol.  

Cores claras, como o branco da neve no alto das montanhas, refletem a maior parte da radiação solar. Numa neve com aspecto barrento, essa reflexão fica prejudicada e a neve acaba absorvendo calor e derrete rapidamente. Sem a camada de neve, as rochas no topo das montanhas acabam absorvendo quantidades cada vez maiores de calor e acelerando cada vez mais o derretimento da neve.  

É sempre importante lembrar que a neve acumulada no alto de cadeias montanhosas costuma derreter gradativamente ao longo do ano e essa água alimenta as nascentes de muitos rios. Muitos dos afluentes do rio Colorado são alimentados a partir de nascentes no alto das Montanhas Rochosas, nascentes essas que estão ficando cada vez mais comprometidas pela falta de neve. 

O Governo dos Estados Unidos já havia divulgado em janeiro um grande plano para o combate aos incêndios florestais nos próximos 10 anos. Esse plano, batizado de Estratégia de Crise de Incêndios Florestais, prevê tornar as florestas mais saudáveis e resistentes a esses eventos. 

Um dos pontos chaves dessa estratégia é a redução do volume de matéria combustível nessas florestas. Galhos e árvores caídas no chão da floresta, vegetação rasteira e árvores velhas, entre outros elementos, são reservas de material combustível a espera de uma pequena chama para entrar em combustão. Reduzir a quantidade desses materiais é fundamental para evitar tais situações. 

Esse controle pode ser feito com a poda sistemática e o corte de árvores, culminando com queimadas controladas desses materiais. Em algumas regiões da Califórnia, citando um exemplo, os fazendeiros conseguem fazer esse controle com o uso de rebanhos de cabras soltas no meio da mata – os vorazes animais comem todos os arbustos e vegetação rasteira, deixando muito pouco combustível para os incêndios. 

Atualmente, o Serviço Florestal dos Estados Unidos realiza esse tipo de ação preventiva em cerca de 800 mil hectares de florestas no Oeste norte-americano. Com a adoção do novo plano, O Serviço Florestal, o Departamento do Interior e outros parceiros estimam limpar cerca de 8 milhões de hectares, além de outros 12 milhões de hectares em parcerias com estados, municípios e empresas privadas nos próximos 10 anos. 

Entre as regiões prioritárias para a implantação desse plano estão o Arizona, Colorado, Califórnia, Oregon e Washington, justamente os Estados que mais vem sofrendo com os grandes incêndios florestais nos últimos anos. 

A questão dos incêndios florestais está ficando tão séria nos Estados Unidos que até a produção agrícola está sendo prejudicado. Muito produtores do Meio-Oeste, onde se concentra a maior parte da produção de grãos do país, já anunciaram que vão adiar o início do plantio do milho e do trigo esse ano por causa do medo desses incêndios. 

Em uma época de escassez de alimentos por causa da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, essa é uma notícia que preocupa muitos governos pelo mundo afora. Isso poderá, inclusive, criar uma pressão sobre áreas florestais remanescentes de outros países produtores de grãos como é o caso do Brasil. 

Seria importante de políticos, artistas, celebridades e famosos internacionais parassem de falar tanto das queimadas e da “destruição” da Floresta Amazônica e que passassem a prestar um pouco mais de atenção em tudo o que está acontecendo no resto do mundo e, particularmente, nas florestas dos Estados Unidos. 

Como sempre repetimos aqui no blog, a preservação da Amazônia é importante, porém, todas as florestas do planeta são fundamentais para a estabilidade do clima mundial. Infelizmente, muita gente acaba esquecendo disso 

ÍNDIA ENFRENTA UMA ONDA DE CALOR EXTREMO, OU FALANDO DO INCÊNDIO EM UM ATERRO SANITÁRIO EM NOVA DÉLHI 

Na série televisiva indiana Jogos Sagrados (Sacred Games), de 2018, uma disputa entre facções criminosas resulta num grande incêndio no aterro sanitário de Mumbai. Um dos grupos controlava esse aterro e faturava milhões de rupias, a moeda local, cobrando uma participação nos ganhos das milhares de pessoas que garimpavam resíduos recicláveis no local.  

Um grupo rival comandado por Ganesh Gaitonde, nome inspirado em um personagem real do submundo local, ateou fogo no aterro buscando reduzir o poder econômico do outro grupo. Segundo a narrativa da produção, o fabuloso incêndio iluminou as paisagens noturnas da cidade de Mumbai por quase uma semana. 

Parte da narrativa da ficção se tornou realidade nos últimos dias: um grande incêndio está devastando um dos aterros sanitários de Nova Délhi, a capital do país. Porém, ao que tudo indica, as chamas foram provocadas por uma forte onda de calor que se abateu sobre o Norte da Índia. Segundo informações dos meteorologistas, as temperaturas locais poderão atingir a marca de 46° C nesta quinta-feira, dia 28 de abril

A maior parte do território da Índia tem um clima Tropical de Monção, que é muito parecido com o da nossa Região Amazônica. São meses com tempo extremamente seco e quente, seguido por uma forte temperada de chuvas. Temperaturas acima dos 40° C não são nenhuma novidade no país. 

O que chama a atenção na notícia é que Nova Délhi fica na faixa Norte do país onde predomina um clima subtropical com estações bem definidas. Os invernos são rigorosos, inclusive com eventuais quedas de neve e muitas ondas de frio vindas da Cordilheira do Himalaia, e os verões são bem quentes, com fortes ondas de calor vindas das regiões desérticas e semiáridas do Rajastão. Nesse momento, a região vive a primavera e uma onda de calor tão intensa é absolutamente anormal. 

Nova Délhi é a segunda maior cidade da Índia, com uma população de cerca de 11 milhões de habitantes, praticamente a mesma da cidade de São Paulo. Porém, quando consideramos a região metropolitana expandida, essa população supera a casa dos 24 milhões de habitantes. E como toda grande metrópole, Nova Délhi é um caldeirão de problemas.  

Comecemos falando da poluição do ar – a cidade tem uma das piores atmosferas do mundo. Aliás, 14 das 15 cidades mais poluídas do mundo estão na Índia. A maior parte dessa poluição vem dos escapamentos da gigantesca frota de veículos da cidade, que vai das dezenas de milhares de riquixás, pequenos veículos de três rodas que funcionam como taxis, até grandes ônibus e caminhões com motores a diesel antigos e altamente poluentes. 

Outra grande fonte de poluição são as usinas termelétricas a carvão responsáveis por parte importante do abastecimento de energia da população. Nos meses de inverno, a cidade costuma ficar escondida sob uma nuvem tóxica de fumaça. De acordo com estudos realizados pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, um indiano médio que vive na região metropolitana de Nova Délhi, e também de outras grandes cidades do país, terá uma expectativa de vida 10,2 anos menor do que uma pessoa que vive em ambientes com uma atmosfera mais saudável. 

Na temporada da Monção, época de fortes chuvas que caem no Sul e Sudeste da Ásia no verão, os problemas são as enchentes e os alagamentos, nada muito diferente que os brasileiros que vivem em grandes e médias cidades conhecem. Nos últimos anos, devido as mudanças climáticas globais, essas chuvas ficaram mais irregulares, com volumes muito acima da média em alguns anos, e de chuvas mais fracas em outros. 

De acordo com estimativas de 2018, a região metropolitana de Nova Délhi produz cerca de 12 mil toneladas de resíduos a cada dia. Para efeito de comparação, a região metropolitana de São Paulo produz cerca de 27 mil toneladas a cada dia. Enquanto os resíduos dos paulistas apresentam uma grande quantidade de embalagens de produtos industrializados e restos de comida, os dos indianos é formado basicamente por resíduos de produtos e objetos absolutamente inservíveis, o que nos dá uma ideia da pobreza extrema no país. 

Apesar de gerar menos da metade dos resíduos que a maior região metropolitana brasileira produz, os serviços de coleta de resíduos de Nova Délhi são bem mais precários – simplesmente se recolhem os materiais descartados nas residências e os que são coletados nas ruas e os jogam em um grande lixão a céu aberto. Os moradores locais costumam chamar esses locais de “Montanhas da Morte”. Um dos maiores “lixões” da região é o de Ghazipur, onde as montanhas de resíduos superam a marca dos 65 metros. 

Uma cena comum nesses locais, e que nós brasileiros conhecemos muito bem, são as centenas de catadores de resíduos que se amontoam ao redor das pilhas de materiais despejadas pelos caminhões de transporte. São homens, mulheres e muitas crianças – famílias inteiras trabalham e, literalmente, moram nesses locais. Muitas chegam a trabalhar 15 horas por dia simplesmente para ganhar o suficiente para comprar alimentos. 

Cercados de materiais inflamáveis e se valendo do uso de pequenas fogueiras para preparar seus alimentos, não são incomuns os incêndios provocados por esses catadores. O problema é que, com uma temperatura ambiente tão alta, esses materiais estão muito secos, o que facilita a propagação das chamas. 

Dezenas de bombeiros estão lutando há três dias na tentativa de conter as chamas, porém sofrem com a dificuldade de acesso e falta de água. Segundo as informações das autoridades locais, esse é o terceiro incêndio em um depósito de resíduos apenas nesse último mês na região, o que mostra a gravidade do problema. 

Os problemas ambientais criados por esse descarte inadequado de resíduos sólidos são enormes. Eles incluem a proliferação de vetores como insetos e ratos, poluição de corpos de água, mal cheiro e liberação de gases tóxicos, entre muitos outros problemas. Com os incêndios, as populações que moram nas áreas circunvizinhas ficam expostas a grandes volumes de fumaça altamente tóxica. 

Há também um problema sócio econômico importante – milhares de pessoas extremamente pobres (e sempre que se fala em Índia trata-se de pobreza absolutamente extrema) perderam a sua única fonte de renda e de acesso a alimentação. Esses pobres pertencem majoritariamente a casta dos Dalits ou dos intocáveis e moram nas ruas da cidade. 

Apesar da Constituição da Índia proibir a divisão da população por castas, rígidos grupos hierárquicos baseados em seu karma (trabalho) e dharma (a palavra hindu para religião), essa prática ainda ocorre no país. Os Dalits formam a casta mais baixa entre os indianos e representam cerca de 15% da população do país. E sempre que uma tragédia como essa ocorre, são essas pessoas as que mais sofrem. 

Normalmente, problemas ambientais e sociais caminham lado a lado. E esse caso em Nova Délhi é um exemplo vivo disso. 

FALANDO EM CETÁCEOS AMEAÇADOS, COMO ESTÃO AS TONINHAS DO LITORAL BRASILEIRO? 

Na nossa última postagem falamos da dramática situação das vaquitas (Phocoena sinus), um pequeno cetáceo que habita as águas do Norte do Golfo da Califórnia, no México. Segundo relatos recentes dos pesquisadores, a população atual desses animais é inferior a 20 espécimes – há quem afirme que restam apenas 6 vaquitas vivendo no habitat

Considerado o cetáceo mais ameaçado do mundo, esses animais ganharam um fio de esperança no último mês de fevereiro – o Governo dos Estados Unidos, se valendo de cláusulas de proteção ambiental integrantes do T-MEC, um acordo comercial assinado entre os Estados Unidos, o Canadá e o México, passou a cobrar uma atitude mais proativa dos mexicanos em relação ao estado crítico das populações de vaquitas. Ainda há um fio de esperança para se tentar salvar a espécie. 

Aproveitando o gancho, vamos falar um pouco das toninhas (Pontoporia blainvillei), uma prima distante das vaquitas que habita um trecho da costa do Brasil. As toninhas são cetáceos com parentesco próximo com os golfinhos e os botos. A espécie também é conhecida como franciscana, boto-amarelo, boto-cachimbo, boto-garrafa, manico e golfinho-do-rio-da-Prata. O animal pode atingir um comprimento máximo de 1,8 metro e um peso entre 36 e 50 kg. 

As toninhas tem um “bico” longo e fino, nadadeiras peitorais curtas e largas, além de uma nadadeira dorsal pequena e triangular. Diferente dos golfinhos e dos botos, que adoram dar saltos e fazer piruetas acrobáticas, as toninhas são tímidas e discretas, subindo à superfície apenas para respirar. Esses animais tem seu habitat numa faixa costeira que vai do Espírito Santo até o rio da Prata, na divisa entre o Uruguai e a Argentina.  

Diferente dos seus primos, cetáceos que habitam as águas do mar aberto, as toninhas preferem as águas costeiras com profundidades entre 30 e 50 metros, uma característica que transformou a espécie numa vítima fácil das redes de pesca. De acordo com informações do Ministério do Meio Ambiente, perto de 1.500 toninhas morrem todos os anos presas em redes de pesca no Brasil. Como a espécie tem uma taxa de reprodução muito baixa – as fêmeas têm apenas um filhote a cada um ou dois anos, a espécie está classificada como “criticamente em perigo”. É a espécie de cetáceo mais ameaçada do Brasil e, possivelmente, da América do Sul.  

As toninhas costumam viver em grupos familiares entre 2 e 5 indivíduos e, em muitos casos, vivem solitárias. Sua alimentação é constituída por peixes, crustáceos e, principalmente, camarões, o seu “prato predileto”. Há cerca de dois anos, publicamos uma postagem falando das ameaças vividas por uma população de toninhas que vive nas proximidades da foz do rio Doce. 

Além da brutal redução dos estoques de alimentos criada pela acumulação de sedimentos carreados pelas águas do rio depois do fatídico acidente com a barragem de rejeitos de Mariana em 2015, as espécies sobreviventes apresentam altos níveis de contaminação por metais pesados. Ao se alimentarem dessas espécies menores encontradas nessa região, as toninhas passam a sofrer com a bioacumulação de metais pesados.  

Estudos realizados em corpos de toninhas encontradas mortas em redes de pesca ou em praias têm constatado a presença de elevados níveis de substâncias organocloradas, que têm origem em resíduos de pesticidas e fertilizantes carreados pelas chuvas para as calhas dos rios, além de grandes níveis de metais pesados como mercúrio, zinco, cádmio e cobre. 

Isso demonstra como a espécie já é naturalmente sensível a esses poluentes. No caso do rio Doce, onde estudos já demonstraram que os níveis atuais de metais pesados nas águas estão, em alguns casos, até 200 vezes superiores aos níveis observados antes do rompimento da Barragem de Fundão, a situação das toninhas é preocupante.  

Além da redução dos estoques e da contaminação das suas fontes de alimentos, as toninhas também estão sofrendo com a poluição das águas por resíduos sólidos, principalmente plásticos. As análises do conteúdo estomacal de toninhas mortas têm encontrado volumes cada vez maiores de detritos de todos os tipos. 

Com a turbidez das águas devido à presença de grandes quantidades de sedimentos em suspensão, as toninhas podem estar confundindo facilmente pedaços de plásticos com peixes e crustáceos, um problema que tem afetado outras espécies da região da foz do rio Doce, em especial as ameaçadas tartarugas-de-couro.  

Como é bem fácil de observar, os problemas criados pelo grande vazamento de rejeitos de mineração e de lama extrapolam os limites geográficos da bacia hidrográfica do rio Doce e invadem os domínios do Oceano Atlântico. O risco de desaparecimento da população de toninhas da região da foz do rio poderá aumentar ainda mais a quantidade de problemas já enfrentados pelos pescadores da região, que já ressentem de uma grande redução dos estoques pesqueiros.   

Infelizmente, os problemas da espécie não ficam restritos a esse trecho do Norte do Espírito Santo – em toda a área de ocorrência da espécie ao longo do litoral das regiões Sudeste e Sul, as toninhas vem sendo vítimas das redes dos pescadores. O habitat da espécie se mistura com as principais áreas de pesca dessas regiões e os acidentes são comuns.  

Lembramos aqui que, apesar desses animais possuírem um corpo com formas hidrodinâmicas de um peixe, eles são mamíferos e respiram o oxigênio da atmosfera como nós humanos e outros animais terrestres. As toninhas precisam subir periodicamente até a superfície para respirar – se ficam presas nas redes de pesca, elas morrem afogadas, um problema que também afeta as tartarugas marinhas. 

No início de outubro do ano passado, um conjunto de instituições de pesquisa – onde se incluiu a UFPR – Universidade Federal do Paraná, e o IFPR – Instituto Federal do Paraná, organizaram o evento Toninhathon. O principal objetivo foi atrair estudantes, pesquisadores, pescadores, gestores públicos e a sociedade em geral para uma luta conjunta pela preservação dessa e de outras espécies marinhas. 

Com mais de 350 participantes, o encontro buscou compartilhar conhecimentos e buscar soluções conjuntas para a preservação das toninhas. Entre as discussões se destacaram a busca de mecanismo que permitam a redução da captura acidental, o desenvolvimento econômico sustentável, além da comunicação e governança participativa. 

A triste saga das vaquitas mexicanas mostra que as sociedades não podem ficar de braços cruzados vendo uma espécie animal caminhar para a extinção devido a ações humanas. Cada espécie viva é o resultado de processos evolutivos que se desenrolaram por milhões de anos – o desaparecimento de qualquer espécie é uma perda irreparável para toda a vida no planeta. 

Então – salvem as toninhas!