A MORTE DE 130 TONELADAS DE PEIXES NO LAGO DE FURNAS 

O Lago de Furnas, carinhosamente conhecido como o “Mar de Minas”, é notícia frequente aqui nas páginas do nosso blog. Recentemente, falamos sobre a surpreendente recuperação do nível do corpo d`água após uma fase prolongada de seca. 

A notícia da vez, infelizmente, não é das melhores: milhares de peixes – principalmente tilápias, criadas em cativeiros no Lago apareceram mortos na região de Alfenas. De acordo com os criadores, as perdas foram da ordem de 130 toneladas. A Polícia Militar Ambiental está investigando o caso. Amostras da água e dos animais mortos foram enviados para análise em laboratórios e os laudos deverão sair em 20 dias. 

De acordo com informações de alguns criadores, peixes da ictiofauna nativa também foram afetados. Segundo os relatos, os peixes primeiro agonizaram como se estivessem tendo dificuldades para respirar, começando a morrer em seguida. 

A situação de um dos produtores nos dá uma ideia do tamanho da tragédia – cerca de 100 mil peixes dos seus tanques morreram. Os animais estavam na fase final da engorda e seriam enviados para a venda dentro de 15 dias. O prejuízo do piscicultor deverá superar a cifra de R$ 1 milhão. 

De acordo com dados do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, do dia 9 de maio, o nível do Lago de Furnas está próximo de 86% de sua capacidade máxima. No final de setembro de 2021, conforme publicamos em postagem aqui no blog, o nível do reservatório estava em parcos 14% do seu volume útil. 

Naquele momento toda a Região Central do Brasil atravessava uma fortíssima estiagem, com importantes reservatórios de usinas hidrelétricas apresentando baixíssimos níveis. O Governo Federal chegou a anunciar que existiam riscos para o fornecimento de energia elétrica no país e que um racionamento não estava sendo descartado. 

Felizmente, a temporada das chuvas de verão foi acima da média e os níveis dos principais reservatórios de usinas hidrelétricas entraram num processo de forte recuperação, afastando o risco de racionamento de energia elétrica. Recentemente, foi anunciado o fim da Bandeira Vermelha nas contas de energia elétrica, o que vai significar uma redução nos custos para muita gente. As coisas pareciam estar voltando à normalidade em Furnas.

O aproveitamento energético em larga escala das águas do rio Grande começou no início da década de 1950, período em que o Brasil experimentava um forte ciclo de desenvolvimento industrial, especialmente após a instalação das empresas do setor automobilístico. A forte demanda por energia elétrica, que ameaçava levar o país a um colapso energético, resultou na construção da Usina Hidrelétrica de Furnas, uma das maiores da América Latina na época. 

Até o início da década de 1950, o setor elétrico era controlado por inúmeras empresas estrangeiras como a Light & Power Company, que detinha concessões nos Estados de São Paulo e no Rio de Janeiro. Durante os anos do Governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), cujo slogan era “50 anos em 5”, o Governo Federal criou diversas empresas públicas para atuar no setor elétrico e o país iniciou uma fase de grandes investimentos na produção de energia elétrica.  

Entre estas empresas, destaca-se a Central Hidrelétrica Furnas, que foi criada em 1957, com o claro objetivo de estimular o desenvolvimento do Estado de Minas Gerais, terra natal do Presidente. Também é importante destacar que nessa mesma época começou a construção de Brasília, cidade que seria transformada na nova Capital Federal do país, e já se projetava um aumento do consumo de eletricidade na Região Centro-Oeste. 

A construção de uma usina hidrelétrica com um lago com área superior a 1.400 km2 é sempre problemática e o caso de Furnas não foi uma exceção. De acordo com as estimativas dos projetistas, cerca de 35 mil pessoas precisariam ser removidas das áreas que seriam alagadas pela represa e isso causou uma enorme convulsão social. O início do enchimento do lago estava previsto para 1961. 

As áreas sujeitas a alagamento envolviam tanto trechos urbanos de cidades e vilas quanto propriedades rurais. Muita gente resistiu até o último momento, se recusando a abandonar suas casas e terras. Existem muitas fotos de época que mostram moradores nos telhados de casas cercadas pelas águas do reservatório. O Governo Federal precisou convocar as Forças Armadas para ajudar na remoção dessas pessoas inconformadas com a obra. 

O primeiro grupo gerador da hidrelétrica de Furnas entrou em operação em 1963. A inauguração oficial da usina ocorreu em maio de 1965, já no Governo Castelo Branco, o primeiro presidente do ciclo de Governos Militares, que dirigiu o país entre 1964 e 1985. Nessa época, a Usina Hidrelétrica de Furnas já operava com 6 grupos geradores. No início da década de 1970, foram instalados os dois últimos grupos geradores dos 8 previstos no projeto, levando a potência total para 1.216 MW.   

Apesar dos problemas iniciais e da desconfiança da população das cidades do entorno, o surgimento de um grande lago acabou afetando positivamente toda a região. O lago de Furnas passou a ocupar uma área mais de três vezes maior que a Baía da Guanabara, com um perímetro superior a 3 mil km. O indesejado lago conquistou os corações dos locais e foi se transformando no “Mar de Minas”, uma das mais disputadas atrações turísticas do Estado. 

Sem contar com uma fachada oceânica, Minas Gerais ganhou um grande corpo de águas tranquilas para o banho, prática de esportes, pesca e navegação. Como se tudo isso ainda fosse pouco, as margens do lago apresentam inúmeros canyons, grutas e cachoeiras. O turismo se transformou numa das principais atividades econômicas da região.  

O lago também passou a representar uma oportunidade excelente para a prática da piscicultura, especialmente a criação de tilápias em tanques flutuantes. Apesar de promissora, a atividade passou a sofrer com as grandes oscilações do nível do lago devido a fortes períodos de estiagem nos últimos anos. 

Após a mais recente e catastrófica seca no lago, os produtores estavam animados com a perspectiva de uma boa “safra” de peixes nessa temporada. A grande mortandade de peixes nos últimos dias frustrou todas as expectativas e os grandes prejuízos decorrentes do evento estão tirando o sono de muitos produtores. 

Vamos aguardar o resultado dos laudos para podermos entender exatamente o que aconteceu. O mínimo que podemos falar desse evento é que ele é muito estranho, especialmente num momento em que o Lago de Furnas estava bem cheio. 

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