PARAÍBA DO SUL: UM RIO DA MATA ATLÂNTICA

A bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul está totalmente inserida dentro dos domínios da Mata Atlântica e ilustra perfeitamente os impactos da destruição da cobertura florestal por atividades econômicas e suas consequências para as águas. 

Conforme comentamos na postagem anterior, as nascentes do rio Paraíba do Sul ficam na Serra da Bocaina, uma extensão da Serra do Mar e onde encontramos um dos trechos melhor preservados da Mata Atlântica. Essa importante região se estende desde áreas costeiras até as encostas íngremes de morros que superam a marca dos 2 mil metros acima do nível do mar.  

A vegetação inclui áreas de manguezais, brejos e restingas ao longo do litoral, Floresta Ombrófila Densa, que é dividida nos subsistemas Submontana, Montana e Alto Montana; Floresta Ombrófila Mista Alto Montana e Campos de Altitude. O relevo acidentado da região, que impediu o avanço da agricultura e da pecuária, foi uma peça chave para a conservação dessa importante região natural.

A maior parte dessa cobertura vegetal está contida no Parque Nacional da Serra da Bocaina (PNSB), que foi criado em 1971 e ocupa uma área total de 1.040 km².  Cerca de 60% do Parque Nacional fica dentro do Estado do Rio de Janeiro e os 40% restantes ficam dentro do território de São Paulo.

Os principais formadores do rio Paraíba do Sul são os rios paulistas Paraitinga e Paraibuna. As nascentes do rio Paraitinga são consideradas as mais distantes da foz e estão localizadas no município de Areias. Essas nascentes ficam dentro do Parque Nacional da Serra da Bocaina, em uma altitude da ordem de 1.800 metros e seu curso tem aproximadamente 200 km. O rio Paraibuna (vide foto) nasce no município de Cunha, a uma altitude de 1.600 metros e percorre cerca de 114 km até o encontro com o rio Paraitinga – o rio Paraíba do Sul surge a partir da junção das águas desses dois rios. 

Em 1970, a CESP – Companhia Energética de São Paulo, construiu a barragem da Usina Hidrelétrica de Paraibuna no trecho inicial do rio Paraíba do Sul. Com a barragem foi formada a Represa de Paraibuna, um espelho d’água com cerca de 177 km² e cerca de 200 ilhas. As águas dessa represa são consideradas como uma das mais limpas do Brasil. Os gravíssimos problemas ambientais do rio Paraíba do Sul começam a jusante dessa represa. 

As primeiras notícias de ocupação por colonizadores das margens do rio Paraíba do Sul remontam a 1537, quando Pedro de Góis recebeu a doação de um quinhão de terras entre o Norte do atual Estado do Rio de Janeiro e Sul do Espírito Santo, onde seria formada a Capitania de São Tomé. Em 1539 foi fundada a Vila da Rainha, um pequeno povoado próximo da foz do rio Paraíba do Sul. Após um curto período de relativa prosperidade, teve início um conflito de “cinco ou seis anos” com os indígenas das tribos goitacás e puris. O empreendimento colonial foi abandonado em 1548. 

Cerca de 50 anos depois, Gil de Góis, neto e herdeiro de Pedro de Góis, tentou retomar a colonização da região, não conseguindo maiores êxitos devido também a conflitos com as tribos indígenas. Por volta de 1627, o Governador do Rio de Janeiro, Martim Corrêa de Sá, recebeu ordens da Coroa Portuguesa para dividir o território em sesmarias e distribuir as terras entre diversos solicitantes, os chamados “Sete Capitães”.  

Esses homens eram veteranos de lutas contra as nações indígenas dos tupinambás e dos tamoios e, “por suas lutas em prol da Coroa” solicitaram as terras “ao Norte do rio Macaé“. Essa ocupação ocorreu em um momento em que as tribos indígenas enfrentavam epidemias de varíola e outras doenças trazidas pelos “brancos”, não apresentando maiores resistências aos colonizadores.

A região sediou importantes fazendas de criação de gado e produtoras de alimentos básicos, que passaram a responder pelo abastecimento da próspera cidade do Rio de Janeiro, a maior de toda a Colônia. Essa ocupação ficaria concentrada na região do Baixo Paraíba do Sul até o começo do século XIX.

A grande “virada” na história ambiental do rio Paraíba do Sul se dará a partir das últimas décadas do século XVIII com a chegada da cultura do café a terras fluminenses. Planta de origem africana, o café chegou ao Brasil através do Pará. Consta que o sargento-mor Francisco de Melo Palheta, um militar que atuou em serviços de demarcação da fronteira entre a Colônia do Brasil e Guiana Francesa, ganhou algumas mudas de café da esposa do Governador francês.

Essas mudas foram plantadas na cidade de Belém e dali a cultura se espalhou por fazendas de toda a Colônia. A bebida era consumida apenas pelos moradores dessas fazendas. A partir de meados do século XVIII, o café se transformou em uma bebida muito popular na Europa e nos Estados Unidos, o que criou um forte mercado para exportação do grão. Foram feitas diversas tentativas para a formação de grandes plantações em diversos locais nas regiões Norte e Nordeste, sem lograr maiores êxitos.

O café é uma planta bastante exigente em relação à temperatura ambiente, que precisa ficar entre um mínimo de 5° C e um máximo de 35° C. A planta também requer solos com alta fertilidade e abundância de chuvas. O café encontraria as melhores condições de plantio no Rio de Janeiro, onde chegou por volta de 1774

Os primeiros cafezais em terras fluminenses surgiram em áreas rurais ao redor da cidade do Rio de Janeiro e ocupando encostas de morros. Incluem-se na lista os atuais bairros de Jacarepaguá, Campo Grande, Guaratiba, Santa Cruz e Tijuca. Outra região próxima que já foi tomada por cafezais é a Baixada Fluminense, onde os pés de café paulatinamente foram substituindo os antigos canaviais. 

A busca por terras baratas levou a cultura cafeeira na direção do Vale do Paraíba, onde passou a se espalhar por cidades como Vassouras, São João Marcos, Resende, Valença, Paraíba do Sul e Cantagalo. O Médio Vale do rio Paraíba do Sul, ou simplesmente Vale para os fluminenses, apresentava clima, chuvas e altitudes perfeitas para a produção do café. Toda essa região era coberta há época pela densa vegetação da Mata Atlântica, apresentando solos de excepcional fertilidade. 

Grandes extensões de matas passaram a ser derrubadas sistematicamente, sem qualquer critério ou cuidado com a preservação da fertilidade dos solos. A bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul é formada em grande parte por solos gerados a partir de rochas graníticas, basálticas e gnáissicas antigas e altamente fragmentadas, que apresentam uma fertilidade baixíssima.

A aparente fertilidade desses solos vinha da grossa camada de matéria orgânica em decomposição criada pela Mata Atlântica. Era a própria floresta que se alimentava e que alimentava esses solos, num ciclo contínuo. Sem a presença da floresta, essa camada de solo fértil era rapidamente destruída e arrastada pelas chuvas. Em poucos anos os cafezais paravam de produzir

Esse “pequeno” detalhe ambiental não era um problema dos mais graves para os grandes fazendeiros – havia uma enorme disponibilidade de terras baratas com matas virgens ao redor de todo o Vale do rio Paraíba do Sul. Assim que uma fazenda deixava de ser produtiva, suas terras eram abandonadas e imediatamente substituídas por outras recém desmatadas em outra região.  

Essa estratégia insustentável de produção de café devastou a maior parte das florestas de Mata Atlântica ao redor do rio Paraíba do Sul em terras do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e, por fim, em São Paulo. O bioma, que ocupava praticamente a totalidade da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, acabou reduzido a cerca de 15% da área original, resistindo principalmente em terrenos altos e de difícil acesso

A cafeicultura perdeu relevância em todo o Vale do rio Paraíba do Sul nas últimas décadas do século XIX, quando foi sobrepujada pelos cafezais do Oeste paulista. Nos terrenos degradados que ficaram para trás, passou a ser desenvolvida uma pecuária de baixa produtividade e a produção leiteira, além de algumas atividades agrícolas de baixa e média escala de produção.

Muitos fragmentos florestais que haviam resistido ao avanço dos cafezais, desta vez acabaram sucumbindo. A região só voltaria a ganhar relevância econômica em meados do século XX com o advento da industrialização. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

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