SISTEMA CANTAREIRA ESTÁ EM “NÍVEL DE ALERTA” 

O Sistema Cantareira, maior manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo e responsável pela água servida a milhões de pessoas, entrou em “nível de alerta“. De acordo com orientação da ANA – Agencia Nacional de Águas, sempre que o volume dos reservatórios do Sistema atingir um volume inferior a 40%, esse alerta é “ligado”. 

Entre outras medidas, o baixo nível dos reservatórios obriga a SABESP – Companhia de Saneamento Básico de São Paulo, a reduzir o volume de água captado no Sistema. Em condições normais, a empresa pode retirar um volume de água de até 33 metros cúbicos por segundo – com o nível de alerta, essa captação fica limitada a 27 metros cúbicos por segundo. 

A situação atual está muito longe da gravíssima crise hídrica vivida na Região Metropolitana entre os anos de 2014 e 2015, quando uma forte seca nas cabeceiras dos rios formadores dos reservatórios levou o Sistema Cantareira a operar no volume morto e forçou um drástico racionamento de água por parte da população. 

O Sistema Cantareira fica localizado na Região Entre Serras e Águas, uma faixa do Nordeste do Estado de São Paulo que se espreme entre a Serra da Cantareira e a Serra da Mantiqueira. O Sistema possui cinco reservatórios: Jaguari, Jacareí, Cachoeira e Atibainha (na Bacia do Rio Piracicaba) e Paiva Castro (na bacia do Alto Tietê), além de uma pequena represa no alto da Serra da Cantareira, a Águas Claras.  

O Sistema foi projetado com as represas em altitudes diferentes em função da topografia da região. Graças a essas diferenças de altitude, o Sistema Cantareira utiliza a força da gravidade para conduzir as águas desde as represas de Jaguari e Jacareí, na região de Bragança Paulista, passando para as represas de Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro.  

Um sistema de túneis conduz a água até Estação Elevatória Santa Inês, que bombeia as águas para a represa de Águas Claras na Serra da Cantareira. De Águas Claras a água é enviada para a Estação de Tratamento do Guaraú, na Zona Norte da cidade de São Paulo. Após o tratamento, a preciosa água chega aos lares, indústrias, escritórios e comércios de grande parte da Região Metropolitana.  

Esse grande sistema de abastecimento começou a ser gestado nos gabinetes da Secretaria de Planejamento do Estado de São Paulo na década de 1960. Até então, a água usada no abastecimento da população vinha de sistemas menores como o Sistema Cantareira Velho, inaugurado nas últimas décadas do século XIX. Durante as primeiras décadas do século XX, tanto a cidade de São Paulo quanto as cidades vizinhas passaram por um intenso crescimento populacional. 

Entre as principais alternativas para a ampliação da oferta de água potável para a Região Metropolitana de São Paulo, foram apresentados os projetos do Sistema Cantareira, com um custo estimado há época em US$ 1 bilhão, e o Sistema Juquiá, que utilizaria como fonte de água rios da bacia hidrográfica do rio Ribeira de Iguape no Sul do Estado de São Paulo. Apesar dessa segunda opção oferecer um volume de água duas vezes maior que o Sistema Cantareira, seu custo foi orçado em US$ 6 bilhões. 

A construção do Sistema Cantareira foi iniciada nos últimos anos da década de 1960, época em que nosso país já vivia no chamado ciclo dos Governos Militares. Naqueles tempos, as grandes decisões eram tomadas nos gabinetes de militares estrelados (quanto mais alta a posição na hierarquia oficial, mais estrelas nos ombros). Quando uma dessas “otoridades” apontava o dedo para um mapa e afirmava que ali seria construída uma represa ou uma rodovia, não havia qualquer questionamento. 

Outra característica daqueles tempos era possibilidade de realizar qualquer obra de grande porte sem a necessidade de qualquer tipo de estudo de impacto ao meio ambiente ou na vida das populações que viviam na região – centenas de famílias foram, literalmente, expulsas de suas casas e terras, sem qualquer chance de reclamar ou de cobrar valores de indenização mais altos. A construção do Sistema Cantareira foi tema da minha monografia do curso de Educação Ambiental, onde me aprofundei bastante nos impactos criados pelas obras. 

Entre outros problemas, não houve preocupações maiores das autoridades há época para a preservação da cobertura vegetal nas bacias hidrográficas dos rios formadores dos reservatórios. Muitas das antigas áreas de florestas, que eram fragmentos remanescentes da Mata Atlântica, desapareceram ao longo dos anos, o que vem contribuindo para a redução dos caudais que chegam até as represas do Sistema Cantareira. Existe também uma visível redução nos volumes de chuvas na região, o que também contribui para uma menor disponibilidade de água nas represas.

Há detalhe importante aqui – grande parte dos rios formadores do Sistema Cantareira tem nascentes na Serra da Mantiqueira dentro do território de Minas Gerais. A palavra Mantiqueira vem da antiga língua dos índios Tupi –amantikir, palavra que significa, literalmente, “a montanha que chora“. Isso nos dá uma ideia da quantidade de nascentes e de afloramentos de água que existiam nas encostas dessa serra. 

Os desmatamentos nessa importante região começaram em meados do século XIX, época da chegada dos cafezais ao trecho paulista do Vale do rio Paraíba. Devido à topografia acidentada das encostas da Mantiqueira e ao plantio dos cafeeiros em linha reta desde o topo até a base dos morros, uma configuração que facilitava a visão dos escravos que trabalhavam nas plantações e ao mesmo tempo favorecia a erosão dos solos, a cultura mal durou 25 anos. 

Conforme as terras e as matas do Vale do Paraíba iam se esgotando, os grandes fazendeiros partiam em busca de terras com matas virgens, onde encontrariam solos férteis para prosseguir com a produção do valioso café. Foi assim que os cafezais avançaram na direção da Região Entre Serras e Águas, iniciando o ciclo de problemas ambientais que existem hoje na Região. 

Desde os tempos da grande crise hídrica do biênio 2014/2015, muitas mudanças aconteceram no sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana de São Paulo. Diversos mananciais foram interligados, tubulações antigas foram trocadas e as perdas de água foram sensivelmente reduzidas. Houve um grande impulso na reutilização da água (a famosa água de reuso) e, principalmente, foram concluídos novos sistemas de produção de água. 

O mais importante desses novos sistemas é o São Lourenco, que agregou uma oferta de 6,4 m³/s de água tratada por segundo ao sistema. Cerca de 1,4 milhão de moradores em municípios da Região Oeste da mancha Metropolitana são abastecidos com essas águas. Graças a todos esses melhoramentos no sistema, as autoridades afirmam que não existe risco de um novo racionamento de água em São Paulo e cidades vizinhas. 

Mas sabem como é: cachorro que foi mordido por cobra tem medo de linguiça… 

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