A DESERTIFICAÇÃO AMEAÇA UM QUARTO DOS SOLOS DO PERU

Ocupando uma área total superior a 1,28 milhão de km², o Peru apresenta três grandes zonas climáticas bem definidas – uma faixa litorânea, os Andes e a Amazônia peruana.

Toda a faixa litorânea é formada por uma planície árida, onde raramente chove e que conta um grande número de rios temporários alimentados pelo degelo de glaciares nas montanhas andinas. A Cordilheira dos Andes atravessa todo o país no sentido Norte/Sul e, com suas diferentes altitudes, cria uma série de padrões climáticos. Por fim, uma área importante do país é ocupada pela Floresta Amazônica e onde predomina o clima equatorial. 

A aridez marcante de toda a faixa costeira do Peru é provocada pela Corrente de Humbolt, um grande fluxo de águas frias que acompanha a costa sul-americana do Oceano Pacífico desde o Sul do Chile até o Peru. A baixa temperatura dessas águas limita muito a evaporação, o que se reflete em raras chuvas nas áreas costeiras. A Cordilheira dos Andes também tem sua cota de responsabilidade na aridez da costa peruana – as montanhas impedem a passagem de massas de chuvas vindas da região da Floresta Amazônica. 

A Corrente de Humbolt se forma na Antártida e é considerada a corrente marítima de superfície com as águas mais frias – em média, as suas temperaturas são 8° C mais baixas que as temperaturas das águas oceânicas nas mesmas latitudes. O Deserto do Atacama no Norte do Chile é um exemplo da influência da Corrente de Humbolt no clima da América do Sul. Um detalhe relevante dessa corrente marítima é a alta concentração de plâncton, animais e plantas microscópicas, o que atrai uma grande quantidade de peixes. O Peru é um grande produtor e exportador de pescados. 

A maior parte da população do país, formada por cerca de 33 milhões de habitantes, vive nas chamadas Serras, uma área de transição entre as planícies áridas do litoral e as montanhas da Cordilheira dos Andes. As Serras tem um clima ameno e uma boa pluviosidade, concentrando a maior parte da produção agropecuária do país. 

Os produtos mais tradicionais da agricultura peruana são o milho e a batata, alimentos que vem sendo produzidos há milhares de anos pelas populações indígenas locais. Também merecem destaque as culturas de café, cacau, algodão, cana de açúcar e de frutas. Outro destaque do país é a produção de carnes, principalmente a de frango, onde o país está entre os vinte maiores produtores mundiais. 

As atividades agropecuárias respondem por aproximadamente 8,5% do PIB – Produto Interno Bruto, do Peru e, empregam 1/3 de toda a mão de obra. A agropecuária e a mineração, que responde por cerca de 14% da produção do país, formam a base da economia exportadora do Peru. 

Em tempos Pré-Colombianos, o Peru foi o centro da civilização Inca, um império que se estendia da Colômbia até o Norte do Chile, tendo como capital a cidade de Cusco. Bastante avançados em inúmeras tecnologias como a arquitetura e a astronomia, os incas deixaram um importante legado na agricultura. 

Para vencer as dificuldades climáticas e os problemas associados aos terrenos íngremes, os incas passaram a construir grandes terraços planos, o que facilitava a produção de alimentos como as batatas e o milho.  Um grande exemplo do uso dessa técnica pode ser visto em Moray, um sítio arqueológico próximo de Cusco (vide foto). Também desenvolveram importantes obras para irrigação desses terraços agrícolas – canais eram escavados nas rochas, permitindo o transporte da água desde o alto das montanhas. Alguns especialistas afirmam que essa antiga produção agrícola era bem maior que a produção atual no Peru. 

A atual agricultura ocupa grandes extensões das encostas das Serras, o que permite usufruir das generosas chuvas que caem nas montanhas dos Andes. Em algumas regiões, o índice pluviométrico é superior aos 3 mil mm. Essa abundância de águas traz alguns problemas – o principal deles são os riscos de erosão dos solos. 

Existe um ditado antigo e muito sábio que diz que “fogo morro acima e água morro abaixo são forças incontroláveis da natureza“. E quando se fala em produção agrícola em terrenos íngremes, essa verdade é incontestável. Nós brasileiros temos um grande exemplo desse problema: a rápida degradação das terras do Vale do rio Paraíba do Sul pela cafeicultura a partir de meados do século XIX. 

Relembrando rapidamente: a densa cobertura de Mata Atlântica dessa região foi derrubada e no seu lugar foram plantados milhares de pés de café. Ao invés de serem plantados em linhas de nível respeitando a declividade dos terrenos, esses cafezais foram plantados em linha das partes altas para as mais baixas. Resultado – em pouco tempo as chuvas “lavavam” os solos e arrastavam toda a camada fértil. Em poucas décadas, a cultura cafeeira do Vale do Paraíba entrou em profunda decadência por falta de fertilidade nos solos. 

No Peru, esse é um problema recorrente e grande parte dos solos férteis do país são vulneráveis. Devido ao mal uso dos solos e a falta de cuidado no plantio em terrenos íngremes, grandes trechos das propriedades sofrem com fortes processos erosivos, o que é o primeiro passo para a desertificação. Conforme comentamos em uma postagem anterior, cada centímetro de solo fértil é resultado de processos centenários ou até milenares de gênese ou formação.

Além dos problemas de degradação de solos provocados pela agricultura, o Peru também sofre com os problemas criados pela mineração. Os solos do país são ricos em minerais nobres como o ouro, a prata e o cobre, entre muitos outros. Além de atrair grandes empresas do setor, a atividade atrai milhares de “mineiros clandestinos”. Dados do Governo afirmam que existem mais de 300 mil trabalhadores envolvidos em mineração clandestina no país. 

Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui no blog, as atividades mineradoras, por melhor gerenciamento e cuidados ambientais empregados, são verdadeiras fontes de problemas para o meio ambiente. São montanhas de rejeitos minerais, grandes trechos de vegetação devastados, rios e fontes de água comprometidas, entre inúmeros outros problemas.

Quando a questão envolve atividades clandestinas, onde não existem quaisquer controles governamentais, trata-se de uma sucessão de pequenos desastres ambientais ao redor de cada uma das áreas de mineração. Segundo o Governo do Peru são mais de 60 mil dessas áreas, grande parte em regiões com forte vocação agrícola. Ou seja – importantes áreas que poderiam ser usadas na produção agrícola e pecuária estão sendo destruídas pela mineração. 

Moral da história: aproximadamente 24% do território peruano enfrenta graves problemas de degradação de solos e riscos de desertificação, uma tragédia que já afeta, direta e indiretamente, cerca de 20 milhões de pessoas. Contando com um sistema de fiscalização precário e dada a difusão do problema por grande parte do território do país, é difícil imaginar uma melhora nessa situação num curto e médio prazo. 

Fica aqui o registro de mais essa tragédia ambiental sul-americana. 

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