“VAZAMENTO DE CAULIM INUNDOU IGARAPÉ”

igarape

O título deste post reproduz uma das muitas manchetes publicadas pelo jornal Diário do Pará referentes aos sucessivos vazamentos de caulim no município de Barcarena – do ano 2000 até hoje foram sete “acidentes” ambientais similares. A informação parece não ter nada a ver com a temática dos resíduos sólidos – lido engano. Explico:

O caulim é um minério composto de silicatos hidratados de alumínio, como a caulinita e a haloisita, e possui larga utilização nas indústrias de cerâmica, de tintas e de papel. A produção de papel responde por 45% do consumo mundial de caulim, que é usado para dar maior alvura, maior durabilidade, maior brilho e melhor resultado na impressão de todo o tipo de documentos. Do total de rejeitos da fabricação do papel, os resíduos de caulim respondem por 22% do volume. As maiores reservas e minas para a exploração do caulim no Brasil são encontradas nos Estados do Amapá e do Pará.

A região amazônica, como todos devem lembrar, concentra a maior rede hidrográfica do mundo – 70% das reservas superficiais de água doce do Brasil estão na região. Apesar da aparente farta disponibilidade, a água usada diariamente pelas famílias ribeirinhas não vem dos grandes e famosos rios, que carreiam grandes quantidades de argila e precisam passar por tratamento antes do seu uso para o abastecimento – é a água limpa e clara dos igarapés que abastece essa população. Quando a população pobre da Amazônia não dispõe de um igarapé nas proximidades de suas casas, é preciso recorrer a um poço para o abastecimento de água. Os igarapés são afloramentos das águas subterrâneas dos lençóis freáticos e aquíferos, e são contados aos milhares em toda a Amazônia.

No início deste mês (01/11/2016) houve um novo vazamento de caulim, atingindo os igarapés Dendê, Curuperé e São João, todos em Barcarena. Centenas de famílias da região, que são abastecidas com a águas desses igarapés, estão tendo de buscar fontes alternativas para o abastecimento de suas casas. Uma nota publicada pelo Ministério Público informou:  “Há fortes indícios de contaminação das águas por substâncias poluentes, cujo consumo pelo ser humano pode ocasionar danos irreversíveis a saúde, por isso, há necessidade de confirmação técnica de tais fatos danosos ao meio ambiente”.

Observem que uma simples e inocente folha de papel branco que você vai utilizar no seu dia a dia, já carrega em seu “DNA” toda uma carga de agressões ambientais, seja nas plantações de eucalipto em larga escala, seja no uso desta matéria prima nas fábricas produtoras de celulose e papel ou ainda na produção dos insumos como o caulim que serão usados no beneficiamento do papel. Essa pequena incursão em um acidente ambiental num igarapé nos confins da Amazônia mostra que os problemas da produção do papel são bem mais profundos do que se pode imaginar e começam bem antes do início da produção do papel propriamente dita.

A reciclagem e reutilização dos papéis são atividades fundamentais para a redução do volume de resíduos que seriam destinados aos lixões e aterros sanitários, temas que ainda trataremos nesta série de posts. Porém é fundamental reduzir sempre que possível o uso do papel, especialmente nos dias atuais em que as mensagens podem ser transmitidas exclusivamente através de meio eletrônico com leitura em tela. Lembro do início da era dos computadores pessoais na década de 1980 (quando meu departamento recebeu um “poderosíssimo” computador Apple II Plus para automatizar todo o controle do estoque de peças da empresa) – os gurus da época falavam que os computadores iriam acabar com o uso do papel nas empresas: em realidade aconteceu justamente o contrário e o uso do papel no mundo não parou de crescer, inclusive nos escritórios.

Ao repensar se é realmente necessário usar alguma folha de papel para uma determinada atividade, você estará contribuindo tanto para a redução dos resíduos sólidos na sua cidade quanto para a redução da poluição de caulim em um pequeno igarapé na Amazônia e ajudando uma família a garantir o seu abastecimento diário de água.

Que mundo maluco e complexo é esse nosso…

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