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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

USINA HIDRELÉTRICA DE ITAIPU FECHA AS COMPORTAS DEPOIS DE 80 DIAS 

A boa temporada de chuvas em grandes áreas do país ajudou na recuperação do nível de importantes reservatórios de usinas hidrelétricas e também de açudes e represas destinadas ao abastecimento de populações. Em nossa última postagem falamos de um desses casos – o açude de Quixeramobim no Ceará

As chuvas intensas em toda a alta bacia hidrográfica do rio Paraná também se refletiram nos excelentes níveis da represa da Usina Hidrelétrica de Itaipu, a segunda maior geradora de energia elétrica do mundo. Desde o dia 14 de janeiro, as comportas da barragem estavam abertas a fim de controlar os grandes volumes de água. 

Nesta segunda-feira, dia 3 de abril, depois de 80 dias, a Hidrelétrica voltou a fechar as comportas. Esse foi o maior período em que as comportas da represa ficaram abertas por motivo de segurança desde 2011. 

Ao longo desse período a vazão dos vertedouros da represa chegou a atingir a impressionante marca de 1,7 milhão de litros de água por segundo. Para que todos tenham uma ideia do que isso representa, a vazão média das Cataratas do Iguaçu, localizadas bem próxima da Hidrelétrica de Itaipu, é de 1,5 milhão de metros cúbicos por segundo. 

A Itaipu Binacional é a maior usina hidrelétrica do Brasil e foi, durante muito tempo, a maior geradora de energia elétrica do mundo, posição que foi perdida recentemente para a Usina de Três Gargantas da China. A hidrelétrica responde pelo fornecimento de mais de 75% da energia elétrica consumida no Paraguai e chegou a gerar ¼ de todo o consumo no Brasil.  

Atualmente, após a entrada em serviço de outras geradoras de energia elétrica como as fontes eólicas e fotovoltaicas, Itaipu responde por pouco mais de 8% da geração de energia elétrica do Brasil. Apesar dessa relativa perda de importância, é fundamental saber que o país pode contar com toda a capacidade de geração de Itaipu para os casos de seca em outras regiões do país. 

Os primeiros estudos técnicos que foram realizados na região propunham a construção de uma grande usina hidrelétrica dentro do território brasileiro, com a formação de um lago que se estenderia até as proximidades do Salto das Sete Quedas.  

Assim que o Governo do Paraguai ficou sabendo desses estudos, se desencadearam fortes protestos – o país perderia uma grande faixa do seu território, encoberta pelas águas da represa, e não ganharia nada em troca. Como se costuma dizer no popular, a “chapa esquentou” entre os dois países, inclusive com alguns militares mais radicais falando em guerra. Felizmente, a diplomacia falou mais alto.  

Em 1965, foi inaugurada finalmente a Ponte da Amizade, que ligava as cidades de Foz do Iguaçu, no Brasil, a Porto Stroessner, no Paraguai. Costuma-se dizer que “o Brasil entrou com a ponte e o pobre Paraguai entrou com a amizade”. A obra, que se arrastava desde 1959, foi um marco nas relações diplomáticas entre os dois países e abriu caminho para a assinatura da Ata do Iguaçu, um protocolo que tinha como objetivo o estudo do aproveitamento conjunto das águas do rio Paraná para a produção da energia elétrica. Foram esses estudos e outros acordos firmados entre os dois países que possibilitaram a construção de uma grande usina hidrelétrica binacional. 

A Usina Hidrelétrica de Itaipu iniciou suas operações em maio de 1984. A hidrelétrica conta com um total de 20 grupos geradores, com uma capacidade total instalada de 14.000 MW. Porém, como a potência real dos grupos geradores é um pouco maior (cerca de 750 MW), a Usina Hidrelétrica de Itaipu pode, em caso de necessidade, se dar “luxo” operar com 18 grupos geradores em potência máxima e manter 2 grupos geradores em manutenção.   

Os bons volumes de chuva no alto da bacia hidrográfica do rio Paraná também foram de importância ímpar para a recuperação dos caudais do rio dentro do território da Argentina. Lembrando, o rio Paraná é o principal formador da bacia hidrográfica do rio da Prata, a segunda maior da América do Sul e a maior da Argentina, ficando atrás apenas da gigantesca Bacia Amazônica. 

O rio Paraná tem 4.880 km de extensão e se forma a partir da junção das águas do rio Grande e do rio Paranaíba na divisa dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Seus principais afluentes dentro do território brasileiro são os rios Tietê, Paranapanema, Iguaçu e Paraguai, lembrando que a bacia hidrográfica desse rio também engloba regiões da Bolívia, do Paraguai e da Argentina. 

Dentro da Argentina, os principais afluentes são os rios SaladoPilcomayo e Bermejo. Também entram nessa lista os importantes rios Uruguai e Negro, que tem nascentes no Sul do Brasil e que despejam suas águas na região do delta do rio Paraná. As águas de todos esses grandes rios e de uma infinidade de rios menores se juntam para formar o grandioso rio da Prata, um verdadeiro “mar” de águas doces entre o Uruguai e a Argentina.   

Grande parte da Argentina, especialmente a região Centro-Norte do país, vem enfrentando uma grave seca, problema que vem criando enormes dificuldades para o país vizinho. Esse é o terceiro ano consecutivo de chuvas abaixo da média no país. 

Em 2021, a situação foi bastante agravada pelos baixos níveis do rio Paraná no seu baixo curso, o que prejudicou muito o transporte dos grãos colhidos. Devido à grande profundidade desse trecho do rio Paraná, navios graneleiros marítimos sobem o rio a partir do rio da Prata e recebem suas cargas em portos muito próximos das áreas produtoras. Com os baixos caudais do rio, parte do transporte dos grãos precisou ser feito por caminhões, o que encareceu o preço final. 

Além das boas chuvas nas regiões lindeiras do alto curso do rio Paraná, a bacia hidrográfica do rio Paraguai também recebeu bons volumes de chuva, o que está contribuindo para excelentes níveis atuais do rio Paraná na Argentina. 

Conforme costumamos citar em nossas postagens, rios são artérias e veias que irrigam a vida em extensas regiões de nosso planeta. Toda a vida vegetal e animal, onde está inserida a espécie humana, dependem das águas desses rios. É sempre bom recebermos ótimas notícias de chuvas e de bons caudais nesses rios. 

FESTA NO SEMIÁRIDO: AÇUDE DE QUIXERAMOBIM ESTÁ “SANGRANDO” E POPULAÇÃO COMEMORA

Um blog especializado em temas ambientais e recursos hídricos não poderia deixar de comentar essa notícia: 

Depois de 12 anos sem atingir a sua capacidade de armazenamento, a barragem da cidade cearense de Quixeramobim, localizada a pouco mais de 200 km de Fortaleza, atingiu 100% de sua capacidade e começou a verter água ou “sangrar” como dizem os sertanejos. 

A população da cidade, emocionada com o momento, que costuma ser raro no sertão, se reunião junto a barragem para acompanhar o momento em que a água começou a passar pelo vertedouro exatamente às 18 horas.  

No início do último mês de março, esse açude estava no volume morto, uma situação que estava tirando o sono dos mais de 80 mil habitantes de Quixeramobim. Segundo a FUNCEME – Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, o volume de chuvas na cidade foi 132,8% acima da média histórica, o que recuperou rapidamente o volume de água armazenada no açude. 

Segundo este órgão, essa água será suficiente para o abastecimento da população por até dois anos. Isso ajuda a explicar a emoção dos moradores no momento em que a barragem começou a “sangrar”.  

Esse açude foi construído entre os anos de 1958 e 1960, pelo DNOCS – Departamento Nacional de Obras contra a Seca. Ele fica no leito do rio Quixeramobim, corpo de água que está inserido na bacia hidrográfica do rio Banabuíú e pode armazenar 54 milhões de m³ de água. 

O rio Quixeramobim nasce na Serra das Matas em Monsenhor Tabosa e banha os municípios de Boa Viagem, Quixeramobim e Banabuiú, onde encontra sua foz no Rio Banabuiú. Como acontece com todos os rios do semiárido, o Quixeramobim sofre grandes variações nos seus caudais entre o período das chuvas e da seca. 

Cerca de 90% dessa bacia hidrográfica fica inserida na Caatinga, bioma que já perdeu metade de sua área vegetal original. As principais causas do desmatamento desse bioma é a extração de madeira para uso como combustível pela população e produção de carvão, além da derrubada de matas para a formação de pastagens para o gado. 

Repetindo “uma ladainha” exaustivamente tratada aqui nas postagens do blog, os criadores de gado das regiões litorâneas do Nordeste foram expulsos para o interior do semiárido durante o Ciclo da Cana-de-açúcar. Inclusive, foi publicada uma Carta Régia assinada pelo Rei de Portugal em 1701, proibindo a criação de gado a menos de 60 km do litoral. 

A origem das brigas entre os produtores de açúcar e os criadores eram as constantes invasões das plantações pelos animais, que não resistiam à visão de grandes extensões de campos cobertos com brotos tenros e adocicados de cana-de-açúcar. 

Gradualmente, os criadores começaram a levar suas boiadas na direção da região do Semiárido, um bioma nada adequado para suportar essa atividade. Encontrando poucas áreas de campo, esses criadores passaram a queimar grandes extensões de caatingais, aumentando as áreas de campos. 

Essa solução era sempre temporária e a vegetação rasteira dos campos durava poucos meses, o que forçava os criadores a queimar sistematicamente novas áreas de caatingais. Os animais foram se adaptando ao consumo de várias espécies de vegetais que cresciam nesses campos e caatingais, 

É sempre oportuno lembrar que essas boiadas não eram formadas exclusivamente por bovinos. Esses rebanhos também incluíam cabras, bodes, ovelhas e toda espécie de equinos e muares.  Esses rebanhos foram, gradativamente, se afastando cada vez mais do litoral. 

A vegetação do Semiárido, em função do clima e dos tipos de solo, pode ser dividida, de forma muito rudimentar em três áreas: o Agreste, a Caatinga e o Alto Sertão. Cada uma destas áreas possui uma quantidade imensa de subdivisões dos tipos de vegetação, formando biomas independentes e completos.  

Pela sua maior extensão e importância, a Caatinga é sempre o tipo de vegetação mais citada. Ao contrário da imagem estereotipada de árvores eternamente secas e retorcidas, a vegetação do sertão é altamente especializada em função do clima e acompanha a disponibilidade da água. 

Quando chove, a vegetação se apresenta verdejante – já em épocas de seca, as folhas das árvores caem como forma de conservar a energia das plantas e se sobressaem as cactáceas como o mandacaru, o xiquexique e a coroa-de-frade. Um exemplo da adaptação da vegetação do sertão é a babugem, uma vegetação rasteira de rápido crescimento, que em poucos dias pinta o chão da caatinga de verde, a cor da esperança – o sertão renasce das cinzas tal qual a mitológica fênix.  

De acordo com informações da SEMA – Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima, do Ceará, a Caatinga cobre 90% do território cearense, característica que explica a frequência e a grande intensidade dos ciclos de seca no Estado. 

O grande botânico Alberto Loefgren (1854-1918), sueco de nascimento e depois radicado no Brasil, estudando a devastação das árvores e das matas nas terras do Ceará, colocou essa questão em perspectiva e atribuiu um papel importante aos rebanhos animais criados soltos na região, especialmente os caprinos: 

“Outro fator não desprezível na devastação das matas, ou pelo menos para conservar a vegetação em estado de capoeira, são as cabras. Sabe-se quanto este animal é daninho para a vegetação arborescente e arbustiva e como a criação de cabras soltas no Ceará é, talvez, maior que a do gado, sendo fácil imaginar-se o dano que causa à vegetação alta”. 

Felizmente, a temporada das chuvas este ano no Ceará está sendo muito acima da média histórica e um grande número de açudes estão sangrando. Todos esses problemas e lembranças associadas a devastação ambiental e à seca deverão ficar em segundo plano por enquanto. 

É hora de festejar! 

RESERVATÓRIOS DE HIDRELÉTRICAS DAS REGIÕES SUDESTE E CENTRO-OESTE ESTÃO COM EXCELENTES NÍVEIS DE ARMAZENAMENTO 

Até o final do mês de abril, quando se encerrará a temporada das chuvas na Região Centro-Sul do país, os reservatórios das usinas hidrelétricas que formam o Subsistema Sudeste/Centro-Oeste deverão atingir a marca de 85,7% de sua capacidade, o maior nível de armazenamento dos últimos 12 anos. 

Essa é a expectativa do ONS – Operador Nacional do Sistema Elétrico, já comemorando a melhor temporada de chuvas dessas regiões dos últimos anos. De acordo com o órgão, choveu na hora certa e nos lugares certos, o que garantirá o pleno funcionamento das usinas hidrelétricas e o abastecimento de energia elétrica da população com folga até a chegada da nova temporada de chuvas. 

O nível do reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas, citando um exemplo, apresentava 99,2% de sua capacidade no dia 2 de abril. Outro importante reservatório da região, o da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira apresentava no mesmo dia o nível de 90,74%. 

Outro caso bastante significativo é o do reservatório de Serra Mesa, no rio Tocantins, que atingiu a marca de 79,47% no dia 2 de abril. Essa é a primeira vez desde a conclusão das obras desse reservatório em 1998, que o seu nível de armazenamento atinge um nível tão alto. 

As boas chuvas no Centro-Sul também se refletem em outras regiões, como é o que está acontecendo no rio São Francisco. Os principais rios formadores do Velho Chico ficam em áreas de Cerrado nos Estados de Minas Gerais e Goiás. No baixo curso do rio, o Reservatório de Três Marias está com 94,55%, praticamente o mesmo volume armazenado em Sobradinho, em pleno Semiárido Nordestino. 

É importante lembrar que há exatos dois anos atrás o país enfrentou uma grave crise hídrica nessas regiões e os níveis desses mesmos reservatórios estava com menos da metade do volume de armazenamento de hoje. Naquele momento, a grande maioria das centrais termelétricas do país estavam operando a plena carga para evitar a todo custo um racionamento de energia elétrica. 

De acordo com informações da CEEE – Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, mais de 62% da energia elétrica produzida no Brasil vem de fontes hidráulicas. De acordo com dados de 2020, eram 875 usinas hidrelétricas, CGH – Centrais Geradoras Hidrelétricas e PCH – Pequenas Centrais Hidrelétricas. 

A segunda maior fonte geradora de energia elétrica do país são as centrais eólicas, que já respondem por mais de 800 parques em operação, especialmente nas Regiões Nordeste e Sul. Também é importante citar que 12% da geração de energia elétrica no país vem de fontes fotovoltaicas. Essas três fontes respondem por mais de 83% de toda a energia elétrica gerada no Brasil, uma das matrizes mais sustentáveis de todo o mundo. 

Esse sistema é complementado por um conjunto de mais de 400 usinas termelétricas, unidades que são acionadas em situações emergenciais. Esse sistema passou a ser implementado depois do famigerado “Apagão” de 2001. 

Quem é um pouco mais velho vai se lembrar desse momento de nossa história, quando uma seca descomunal atingiu grande área do país, o que afetou mortalmente o nível dos reservatórios das mais importantes usinas hidrelétricas e afetou fortemente a geração. Sem contar com fontes alternativas para a geração de eletricidade, foi decretado um “draconiano” racionamento de energia elétrica no país, uma medida que causou enormes problemas econômicos e que resultou em mudanças políticas no país. 

Além da falta de chuvas, a geração de energia elétrica no Brasil amargava àquela altura mais de uma década de falta de investimentos em geração e distribuição de energia elétrica. Um plano de racionamento de energia elétrica precisou ser elaborado às pressas e impôs uma redução obrigatória de 20% no consumo de energia para quase todas as regiões brasileiras.  

A única exceção foi Região Sul, que contava com reservatórios cheios, porém, não existiam linhas de transmissão que permitissem a distribuição dos excedentes de energia gerados para o restante do país.  

Para conseguir apoio da população às medidas de racionamento, o Governo Federal estipulou uma série de benefícios para os consumidores que conseguissem cumprir a meta e também se especulou criar punições para quem não conseguisse, o que, felizmente, acabou não sendo implementado. No dia 7 de dezembro de 2001 choveu fortemente em grande parte do país, o que contribuiu para uma sensível alta no nível de vários reservatórios.   

Em 19 de fevereiro de 2002 o racionamento de energia elétrica foi suspenso, mas não os estragos políticos e econômicos. De acordo com uma auditoria realizada pelo TCU – Tribunal de Contas da União, em 2009, o “apagão” do Sistema Elétrico Brasileiro causou um prejuízo ao Tesouro de R$ 45,2 bilhões em valores há época. Alguns cálculos indicam que essas perdas foram de R$ 320,00 para cada brasileiro. 

Desde aqueles tempos complicados desse racionamento de energia elétrica, notícias sobre as altas e baixas nos níveis dos reservatórios das usinas hidrelétricas passaram a ser relevantes para a maioria dos brasileiros. Esse ano, felizmente, as notícias são ótimas e, pelo menos até o final do ano, ninguém precisará ficar preocupado com o fornecimento de energia elétrica. 

Outro motivo para se comemorar é que não existem maiores riscos de vermos as bandeiras tarifárias nas contas de energia elétrica deste ano. Para quem nunca reparou, as concessionárias de energia elétrica incluem nas contas de energia essas bandeiras (vermelha e amarela), que nada mais são que tarifas extras, para forçar a redução do consumo de energia elétrica em períodos de reservatórios de usinas hidrelétricas com baixos níveis. 

Em meio a tantas incertezas econômicas nos tempos em que estamos vivendo, quando muito de fala em uma grande recessão econômica mundial, essa é uma notícia que nós brasileiros temos que comemorar muito! 

A POLÊMICA BARRAGEM DE ILISU NA TURQUIA 

Grandes extensões dos chamados Pântanos da Mesopotâmia, uma área com mais de 300 mil km² do Sul do Iraque e de parte do Sudoeste do Irã, estão secando. Essa região corresponde ao trecho final da bacia hidrográfica dos rios Tigre e Eufrates, dois dos mais importantes rios do Oriente Médio. 

Só para relembrar, esses dois rios formam a Mesopotâmia, um dos sítios históricos mais importantes de nossa civilização. Essa palavra, que é de origem grega, significa “terra entre dois rios”. A extensa planície de inundação permitiu o desenvolvimento de uma agricultura em larga escala e o surgimento de inúmeros povos como sumérios, acadianos, caldeus, babilônicos e assírios. Grandes impérios como o dos medos, dos persas e os antigos gregos se esforçaram para conquistar essa região. 

As grandes cheias anuais e os volumosos caudais dos rios Tigre e Eufrates, as grandes propulsoras do desenvovimento desses antigos povos, agora são coisa do passado e sua lembrança se junta aos vestígios e ruinas dessas antigas civilizações. 

Grandes projetos de barragens de usinas hidrelétricas e sistemas de irrigação no Irã e, especialmente, na Turquia estão retendo parte considerável das águas desses rios e de importantes tributários da bacia hidrográfica, o que está prejudicando fortemente as populações que vivem a jusante – principalmente no Iraque. 

Um empreendimento que representa como nenhum outro essa situação é a grande barragem de Ilisu na Turquia, que foi concluída em 2018. Essa barragem foi construída no rio Tigre, contando com uma largura máxima de 1.820 metros e uma altura de parede de 135 metros, resultando numa capacidade para armazenar 10 bilhões de metros cúbicos de água. 

O parque de geração hidrelétrica conta com 6 turbinas e possui uma capacidade de geração elétrica da ordem de 3,8 GWh. Esse empreendimento faz parte do Projeto Sudeste da Anatólia, que inclui 22 barragens destinadas a geração de energia elétrica, controle de enchentes e armazenamento de água. 

Apesar de ser estratégico para a Turquia, esse Projeto pecou em um ponto muito importante – faltou “combinar com os russos”, ou melhor, com os sírios e iraquianos, povos que compartilham com os turcos e iraquianos as águas da bacia hidrográfica do Tigre e do Eufrates. Com o desequilíbrio na oferta de água, parte dessas populações estão sofrendo muito.   

Os estudos técnicos para a construção de uma grande barragem destinada a geração de energia elétrica na bacia hidrográfica do rio Tigre foram iniciados em 1954, pela Administração de Levantamento e de Desenvolvimento de Recursos de Energia Elétrica da Turquia. Um total de dez localidades com grande potencial foram identificadas a partir desse estudo. 

Em 1975, esse mesmo órgão selecionou a região de Ilusu afirmando que era a localidade que apresentava as melhores condições geológicas para receber uma obra desse porte. Estudos de viabilidade técnica e econômica, realizados por consultores internacionais entre 1980 e 1982, confirmaram essa conclusão inicial. 

O projeto só começou a sair do papel em 2006, ano em que o governo da Turquia lançou a pedra fundamental e deu início à construção. O cronograma inicial previa a conclusão da barragem em 2014, porém, a conclusão se deu apenas em 2018. Além de problemas financeiros e administrativos, o canteiro de obras da barragem virou algo da guerrilha curda, que fez diversos ataques armados. 

A Turquia é um verdadeiro caldeirão étnico – de acordo com alguns estudos, apenas 20% da sua população é formada por turcos étnicos verdadeiros. Essa “minoria” se soma a árabes originários de vários dos países vizinhos, gregos, iranianos, búlgaros e armênios, entre muitos outros grupos. O mais problemático desses grupos são os curdos

Os curdos têm suas raízes ligadas a povos que viviam no Irã e formam o maior grupo étnico do mundo que não tem um país próprio. Estimativas populacionais não muito precisas estimam o tamanho dessa população entre 35 e 45 milhões de pessoas, distribuídas em áreas do Iraque, Turquia, Síria, Irã e Armênia, entre outros países. 

Na Turquia, os curdos representam 20% da população do país, ocupando uma área expressiva do Sul e do Leste do país. Os curdos lutam há várias décadas pela criação do seu próprio país -o Curdistão. Na Turquia, a luta é pela independência do seu território, um anseio que, frequentemente, se transforma em uma luta armada e em atentados terroristas. 

A barragem de Ilisu está localizada dentro do território reivindicado pelos curdos. As lideranças curdas afirmam que não foram consultadas sobre a obra, algo que não é uma novidade na Turquia, país que vive há muitos anos com uma ditadura “disfarçada”. Entre as reclamações dos curdos estão a desapropriação de grandes extensões de terra do seu povo, além do deslocamento forçado de dezenas de vilas que ficavam às margens do rio Tigre. Muito mais que uma questão técnica da obra, isso é visto como uma provocação pelos líderes curdos.

Quem lidera a fila de reclamações, entretanto, são os iraquianos. Conforme comentamos em postagem anterior, os rios Tigre e Eufrates, ambos com suas nascentes dentro do território da Turquia, sempre foram as principais fontes de água do país. Nos últimos anos, desgraçadamente, essas fontes estão secando.

Vivendo um verdadeiro caos político e administrativo desde o final da coalisão militar internacional que derrubou o ditador Saddam Hussein em 2003, as lideranças políticas do Iraque nunca tiveram a capacidade de assumir efetivamente a liderança do país. A Síria, país vizinho e que também abriga parte importante da bacia hidrográfica dos rios Tigre e Eufrates, também não foi consultada pelo Governo turco. A Síria convive com uma guerra civil há mais de 10 anos. 

De acordo com informações do Governo do Iraque, o volume de caudais do rio Tigre que está chegando ao seu território caiu de históricos 21 bilhões de metros cúbicos de água/ano para apenas 9 bilhões após o fechamento das comportas da represa. 

A situação está mais crítica no Sul país, especialmente na região dos Pântanos da Mesopotâmia, que estão secando a olhos vistos. Essa região abriga uma importante área agrícola do país com grande produção de arroz, milho, gergelim, sementes de girassol e algodão. Essa região também é usada para a criação de búfalos. Sem água suficiente, as culturas e as criações de animais estão entrando em colapso.

Recentemente, o famoso Lago Sawa, um corpo de águas salgadas que era alimentado de forma subterrânea pelas águas do rio Eufrates, secou. Esse é um claro sinal de como andam as coisas na região. 

Apesar da evidente responsabilidade da Turquia no problema, o Governo iraquiano não tem “forças” para brigar por seus interesses. Lamentável… 

O DESAPARECIMENTO DAS ÁREAS PANTANOSAS DO SUL DO IRAQUE 

Em nossa última postagem falamos do “súbito” desaparecimento do Lago Sawa, um pequeno e famoso lago de águas salgadas no Sul do Iraque. Com águas consideradas medicinais e ricas em minerais como sódio, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, cloro e carbonatos, esse lago costumava atrair verdadeiras multidões. 

Toda a região da antiga Mesopotâmia, uma grande extensão de terrenos alagáveis entre os rios Tigre e Eufrates, vem sofrendo com a falta de chuvas e com a forte seca nos últimos anos. Parte da culpa pelo desaparecimento do Lago Dawa pode ser creditado a esse fenômeno. 

Entretanto, a questão dos recursos hídricos nessa antiga e importante região vai muito além disso. Uma verdadeira guerra pela posse das águas dos grandes rios da Mesopotâmia vem se desenrolando há vários anos e o enfraquecido Iraque está sendo o maior perdedor até o momento. 

De acordo com a tradição judaico-cristã a que nós ocidentais estamos mais acostumados, logo depois de criar o homem e a mulher, Deus fez um “paraíso na terra” para que eles pudessem habitar: o Jardim do Éden. E a descrição dos livros sagrados dessas religiões deixa muito clara a localização desse paraíso: uma terra entre as águas dos rios Tigre e Eufrates.  

Nos séculos seguintes, essa região passou a ser conhecida no Ocidente com o nome de Mesopotâmia, palavra composta de origem grega que significa, literalmente, “terra entre rios“. 

Segundo evidências arqueológicas, os primeiros grupos humanos “civilizados” ocuparam essa região por volta do 7° milênio a.C. As linhas de pesquisa apontam que a agricultura em larga escala começou a ser desenvolvida nas terras férteis do Sul a partir do 5° milênio a.C., inclusive com o uso de sistemas de irrigação.  

Com a fartura de água oferecida pelos rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia rapidamente se transformou num dos celeiros do mundo antigo, recebendo, em conjunto com o Vale do rio Nilo, o nome de Crescente Fértil. Sucessivas civilizações floresceram nessas terras: sumérios, acadianos, caldeus, babilônicos e assírios. Grandes impérios como o dos medos, dos persas e os antigos gregos, entre outros, não pouparam esforços para conquistar a região. A Mesopotâmia sempre foi uma região rica, disputada e instável. 

A maior parte da Mesopotâmia fica dentro do território onde encontramos hoje o Iraque. A bacia hidrográfica dos rios Tigre e Eufrates ocupa uma área bem maior, englobando territórios da Síria, da Turquia e do Irã. As nascentes dos rios formadores da bacia hidrográfica ficam em regiões montanhosas desses dois últimos países. 

O Iraque, como deve ser do conhecimento de todos, vive um caos político há décadas. O país fez parte do Império Otomano até 1919, quando então passou para a administração do Império Britânico. Em 1932, o Iraque se tornou “independente” e experimentou diversos regimes políticos: monarquia, presidencialismo e um sem número de ditaduras. 

O último “grande líder do país”, um jeito irônico de citar um ditador, foi Saddam Hussein, que governou entre 1979 e 2003, ano em que foi retirado do poder por uma coalisão militar de diversos países liderados pelos Estados Unidos. Desde então, diversos Governos vêm tentando administrar o país sem maiores sucessos. 

O desgoverno no Iraque e também na Síria, país que convive há mais de 10 anos com uma sangrenta guerra civil, abriu espaço para que os demais países formadores da grande bacia hidrográfica dos rios Tigre e Eufrates desenvolvessem seus próprios projetos de aproveitamento das águas sem que precisassem dar maiores satisfações aos demais países. 

Aqui é importante lembrar que as águas de um rio ou de uma grande bacia hidrográfica são um bem comum de todas as populações que vivem em suas margens ou áreas da bacia hidrográfica. O aproveitamento das águas por um grupo ou por um país deve sempre respeitar os interesses dos demais grupos e/ou países. 

É bem verdade que os interesses de alguns costumam desrespeitar os interesses dos demais, como é o caso do Rio Nilo. Interesses coloniais do Reino Unido estabeleceram, ainda na década de 1950, que o Egito e o Sudão teriam direito a 80% das águas do rio Nilo.  

Os demais países da bacia hidrográfica – Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda foram obrigados a se contentar com os 20% restantes. Essa situação causa enormes descontentamentos e há, inclusive, risco da disputa pelas águas se transformar em um conflito armado num futuro não muito distante. 

Usando como desculpa os problemas internos do Iraque e também da Síria, a Turquia e o Irã passaram a construir diversas represas em importantes rios formadores da bacia hidrográfica com vistas ao aproveitamento das águas para usos agrícolas, para o abastecimento de cidade e também para a geração de energia elétrica. 

Essas represas têm provocado uma redução sistemática do volume dos caudais desses rios, o que está criando enormes problemas para as populações, especialmente no baixo curso da bacia hidrográfica no Sul do Iraque e parte do Sudoeste do Irã, uma área úmida que ocupava aproximadamente 300 mil km².  

Para permitir o aumento da produção agrícola no Iraque, um país que tem grande parte do seu território formado por solos desérticos, o Governo iniciou um grande programa de dragagem dessas áreas para a formação de terrenos agrícolas na década de 1970, o que reduziu as antigas paisagens naturais para cerca de 10% da área original. 

Esses pântanos remanescentes vinham abrigando dezenas de pequenas vilas, onde as populações se dedicavam à criação de búfalos. A redução drástica do volume de águas que chega até essa região provocou a morte de milhares de búfalos e o deslocamento de grande parte dos habitantes nos últimos anos. 

A redução do volume de águas também está impactando a agricultura irrigada da região, que definha ano após ano. E, como sempre acontece em regiões deltaicas e de foz de rios junto ao oceano, a redução dos caudais de água doce provocam o avanço das águas salgadas do mar e a salinização dos solos, aumentando ainda mais o tamanho do problema. 

Na falta de Governos com forte representatividade tanto no Iraque quanto na Síria, caberia a organismos internacionais como a ONU – Organização das Nações Unidas, e seus diversos órgãos associados, uma intervenção mais forte nessa questão. 

Do jeito que as coisas andam, os cursos médio e baixo dos rios Tigre e Eufrates vão se transformas em leitos secos dentro de bem pouco tempo. 

O SÚBITO DESAPARECIMENTO DO LAGO SAWA NO IRAQUE

Na nossa última postagem falamos do interessante caso do Lago Tulare, na Califórnia. Esse lago secou completamente há época da Segunda Grande Guerra Mundial e hoje, graças a uma excepcional temporada de chuvas em toda a Califórnia, o lago está ensaiando um ressurgimento. 

Esse lago ficava em uma grande depressão no Vale Central e era alimentado tanto por águas das chuvas quanto por caudais originados no derretimento de neves das montanhas de Sierra Nevada. O grande volume de águas captadas para usos em sistemas de irrigação agrícola é apontado como uma das principais causas para o desaparecimento do lago. 

Um outro caso interessante e exatamente oposto ao do Lago Tulare é o Lago Sawa, do Sul do Iraque, que simplesmente desapareceu em 2022. Esse lago era conhecido entre os iraquianos como a “Pérola do Sul” e tinha a fama de possuir águas minerais salgadas com propriedades terapêuticas.  

Esse lago possui inúmeras citações históricas e religiosas dentro da cultura do Iraque. Uma delas diz que as águas do lago se agitaram no dia do nascimento do profeta Maomé, fundador do islamismo. 

O Lago Sawa ficava na província de Muthanna, a cerca de 23 km da cidade de Al-Samawa. Tratava-se de um lago pequeno, com cerca de 4,5 km de comprimento e 1,7 km de largura. As supostas qualidades medicinais de suas águas,a exemplo doque ocorre no Mar Morto, transformaram o lago em uma importante atração turística da região. Essas águas eram ricas em sódio, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, cloro e carbonatos. 

Uma das principais características do Lago Sawa era a “origem misteriosa” de suas águas. Não existe nenhum rio ou canal superficial para o transporte das águas – elas correm desde o rio Eufrates a partir de canais subterrâneos ao longo de falhas entre as camadas de rocha. 

Especialistas em recursos hídricos do país vinham observando que o lago vinha diminuindo de tamanho a muitos anos. A forte seca que assolava grande parte da bacia hidrográfica dos rios Tigre e Eufrates era vista como uma das possíveis causas do problema. Mudanças climáticas regionais também podem estar ligadas ao fenômeno. 

Entretanto, existem evidências que sugerem que projetos de agricultura irrigada na região podem estar por trás do desaparecimento do lago. De acordo com informações do Ministério da Agricultura do Iraque, projetos de agricultura na região perfuraram mais de mil poços para captação de águas subterrâneas sem maiores preocupações ambientais. 

Essa questão mostra o verdadeiro caos administrativo que o país está vivendo. Projetos de agricultura irrigada precisam ser aprovados tanto pelo Ministério da Agricultura quanto pelo Ministérios dos Recursos Hídricos e pelo Governo das províncias. Na prática, infelizmente, esses órgãos trabalham sem qualquer tipo de coordenação. 

De acordo com uma reportagem publicada pelo portal de notícias do Oriente Médio Al-Monitor, o lago está reduzido a uma nascente com cerca de 20 metros quadrados (vide foto). As perdas de água por evaporação devido ao forte calor do deserto impedem uma recuperação mais expressiva do volume de água do lago. 

Como é usual no “dia seguinte” desse tipo de tragédia ambiental, surgiu um enorme debate no país em busca do responsável ou dos responsáveis pela má administração dos escassos recursos hídricos e pela política de agricultura que resultaram no desaparecimento do lago. Essa é uma tarefa bastante difícil num país que há várias décadas vem sendo marcado pelo caos administrativo. 

Falando apenas da história recente do país nos últimos cem anos, o Iraque moderno nasceu em 1919, ano em que o Império Otomano foi desmembrado. O país passou a ser administrado pelo Reino Unido, que manteve sua estrutura colonial até 1932. 

Após a “independência” em 1932, o Iraque passou a ser governado pelo Rei Faiçal (1932-1933) e depois por seus descendentes. Em 1940, um golpe de estado passou o comando do país para as mãos de Rashid Ali al-Gailani, um nacionalista radical que se opôs à cooperação com os britânicos. Em 1941, forças militares britânicas tomaram o país e reestabeleceram o poder à família Faiçal

A história política do Iraque foi bastante tumultuada entre os anos de 1959 e 1979, período em que ocorreram diversos golpes de estado no país e que levaria a ascensão do ditador Saddam Hussein, que governaria o Iraque até a invasão norte-americana em 2003. Desde então, diversos grupos têm se alternado no governo sem conseguir, efetivamente, dirigir o país. 

Entre os maiores problemas do Iraque destaco a total incompatibilidade dos três principais grupos étnicos que formam a população: sunitas, xiitas e os curdos. Os dois primeiros grupos possuem visões religiosas bastante distintas do islamismo. Os xiitas, inclusive, têm fortes ligações com o Irã, país que travou uma sangrenta guerra com o Iraque entre os anos de 1980 e 1988. 

A questão dos curdos é bem mais delicada. Esse povo não possui qualquer tipo de ligação com os demais iraquianos e se espalha pela região Norte do país, além de ocupar territórios na Síria, Turquia, Armênia e Irã. Os curdos têm língua e cultura próprias e lutam há várias décadas pelo reconhecimento internacional e criação do seu próprio território. 

Um exemplo que mostra a fragilidade política e administrativa do Iraque foi a decisão da Turquia de construir diversas represas nos rios Tigre e Eufrates dentro do seu território e sem dar qualquer tipo de satisfação aos iraquianos. Essas obras impactaram, e muito, nesses dois rios que são as principais fontes de água do Iraque

Dentro desse verdadeiro “balaio de gatos” que atende pelo nome de Iraque seria bastante difícil esperar qualquer medida, presente e futura, que venha salvar ou ao menos amenizar o desaparecimento do Lago Sawa. Uma grande pena! 

O RESSURGIMENTO DE UM LAGO QUE SECOU HÁ 80 ANOS NA CALIFÓRNIA 

Até meados do século XX. O Lago Tulare era o maior lago de água doce da Costa Oeste dos Estados Unidos. Localizado no vale Central da Califórnia, esse lago era alimentado pelo derretimento da neve das montanhas de Sierra Nevada

Com o grande desenvolvimento da agricultura no Estado, grandes volumes de água que alimentavam o lago passaram a ser desviados para uso em sistemas de irrigação. E, repetindo uma história tantas vezes vista em grandes lagos pelo mundo a fora, o Lago Tulare começou a encolher até secar completamente. 

De tempos em tempos, como ocorreu em 1983, ano em que a Califórnia sofreu com fortes precipitações de neve, o lago inicia um efêmero ressurgimento. Porém, nunca passa de uma rápida enchente. 

Esse ano, mais uma vez, parece que o Lago Tulare vai voltar a ressurgir. A Califórnia vem enfrentando uma temporada de fortes chuvas e também a segunda temporada com a maior quantidade de nevascas em 77 anos. De acordo com o NWS – Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos, na sigla em inglês, esse é um “inverno que simplesmente não quer acabar”.  

Os rios da Califórnia estão apresentando volumes expressivos a tal ponto de as autoridades estaduais passarem a se preocupar com a evacuação de comunidades que vivem ao largo de margens de rios e em vales. A depressão onde ficava o Lago Talure também está recebendo grandes volumes de água como nos velhos tempos. 

Conforme já tratamos em diversas postagens anteriores, a Califórnia enfrentou uma forte e persistente seca ao longo dos últimos anos. Um dos sintomas mais evidentes de situação são os grandes incêndios florestais que vem se repetindo ano após ano. 

Esse ano, as coisas estão bem diferentes – o Estado experimentou um inverno excepcionalmente úmido. Fortes correntes de ar carregadas de umidade vindas do Oceano Pacífico tem atingido todo o Estado, o que tem provocado fortes chuvas. Solos que passaram anos ressecados agora estão saturados de água. 

Com as fortes chuvas, grandes extensões de terras no Estado estão cobertas com gramíneas e arbustos, um sinal claro de que os solos estão com mais umidade e que as possibilidades de ocorrência dos grandes incêndios florestais serão bem menores ao longo deste ano. 

De acordo com o monitor de secas dos Estados Unidos, essa é a primeira vez desde 2020 que a Califórnia está sendo considerada livre de secas, principalmente na importante região agrícola do Vale Central da Califórnia. A exceção são as regiões desérticas e semiáridas do Estado onde se apresentam situações de secas severas e moderadas. 

De acordo com o pesquisador Thomas Harter, da Universidade da Califórnia, o Estado costumava apresentar um equilíbrio entre o número de anos secos e úmidos. A cada 20 anos, a Califórnia apresentava 10 anos secos e 10 anos úmidos, uma proporção que era considerada sustentável. 

Nos últimos 25 anos, entretanto, o Estado apresentou 16 anos secos e apenas 9 anos úmidos, um preocupante desequilíbrio climático. E as perspectivas futuras não são nada boas devido às mudanças climáticas – se preveem anos cada vez mais quentes e um clima cada vez mais seco para a Califórnia. 

A Califórnia entrou para o imaginário popular do norte-americano médio em meados do século XIX, época em que o Estado viveu a famosa “corrida do Ouro”. Em 1848, foi descoberto ouro em Sutter’s Mill, uma notícia que se espalhou rapidamente por todo o país. Entre 1848 e 1855, a Califórnia atraiu mais de 300 mil pessoas. 

Aqui é importante lembrar que pouco antes desse evento, entre 1846 e 1848, os Estados Unidos e o México se envolveram numa guerra por causa da disputa de territórios, conflito que foi vencido pelos norte-americanos. Além da Califórnia, a disputa envolveu os territórios de Nevada, Arizona e Utah, além de partes do território do Wyoming, Colorado e Novo México. 

Durante todo o século XX, a Califórnia experimentou um forte e consistente crescimento econômico, o que transformou o Estado num dos mais ricos e mais populosos dos Estados Unidos. O estilo de vida dos californianos se transformou numa referência para todos os norte-americanos, que costumam se referir a Califórnia como “Estado Dourado”. 

Nas últimas décadas, entretanto, todo o Oeste do país – com forte destaque para a Califórnia, vem sofrendo bastante com as mudanças climáticas. A redução do volume de chuvas e da precipitação de neve são visíveis na redução dos caudais de rios como o Colorado, o mais importante do Sudoeste dos Estados Unidos. 

Na Califórnia, essas mudanças climáticas têm se mostrado na forma de problemas para o abastecimento de água para a população de grandes cidades, em grandes incêndios florestais e, mais recentemente, em problemas para a distribuição de energia elétrica. 

Grandes cidades californianas com Los Angeles, San Diego e San Bernardino foram obrigadas a impor uma redução compulsória de 25% no volume de água disponibilizada para seus moradores, ao mesmo tempo em negociaram um aumento das cotas de água do rio Colorado com os agricultores do Imperial Valley. 

Também não é segredo que o Estado vem sofrendo sistematicamente, ano após ano, com grandes incêndios florestais. Com a falta de chuvas e com a vegetação seca, basta uma pequena fagulha ou uma bituca (ou guimba) de cigarro acesa para desencadear incêndios devastadores que arrasam enormes áreas florestais. 

Outro sinal de que as coisas não andam bem no “Estado Dourado” – em 31 de agosto de 2022, a Associação de Energia Pública dos Estados Unidos fez um apelo aos californianos que possuem veículos elétricos – “Insta-se aos consumidores reduzir o uso de energia entre as 16h00 e as 21h00, quando o sistema faz mais esforço pela alta demanda constante e a menor energia solar disponível”.   

Além dos problemas climáticos e ambientais, a Califórnia também vem sofrendo com os excessos dos ambientalistas, com leis draconianas criadas pelo Governo Estadual e muitas liberalidades concedidas a praticantes de “pequenos” crimes. Grandes empresas estão abandonando o Estado e se instalando em locais mais liberais como o Texas. 

Este ano, ao menos, começou com melhores perspectivas climáticas para os californianos. Resta saber se o Lago Tulare vai mesmo voltar a encher… 

O CONVÍVIO COMPLICADO ENTRE AEROPORTOS E POPULAÇÕES ANIMAIS VIZINHAS 

Na última postagem falamos de um problema inusitado no Aeroporto Eurico Aguiar Salles, na cidade de Vitória no Espírito Santo. Um piloto que acabou de pousar informou à torre de comando que a pista estava infestada de caranguejos, informação que paralisou todas as operações no aeroporto por um bom tempo. 

Conforme comentamos no texto, essa “invasão” dos crustáceos foi uma espécie de resposta ã invasão das áreas de manguezais da região pelo aeroporto. Lamentavelmente, a presença de caranguejos na pista é o menor dos problemas dos aeroportos – existem comunidades de animais instaladas nas proximidades destas infraestruturas que são muito mais perigosas para a aviação

De acordo com informações do Ranking Brasileiro de Severidade Relativa de Espécies da Fauna, uma publicação do CENIPA – Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, as aves são os animais que trazem maiores riscos para a operação de aeroportos. 

De acordo com esse ranking, as espécies mais problemáticas são o urubu-da-mata (Cathartes melambrotus), tesourão (Fregata magnificens), urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus), urubu-de-cabeça-amarela (Cathartes burrovianus), urubu-de-cabeça-vermelha (Cathartes aura), entre inúmeras outras espécies de pássaros. 

Um detalhe curioso desse ranking é que nas 30 primeiras posições, apenas uma única espécie de mamífero é relatada – cachorros domésticos. Todas as demais posições são ocupadas por aves. 

De acordo com informações do CENIPA, acontecem mais de 2 mil colisões de pássaros com aviões no Brasil a cada ano. De acordo com uma estatística do órgão relativa a 2019, 185 dessas colisões (birdstrikes em inglês) foram consideradas graves. 

A maior parte dessas colisões graves envolveu aves de maior porte: 33 foram com urubus de diversas espécies, 19 com quero-quero (Vanellus chilensis) e 13 com carcarás (Caracara plancus). 

Um dos casos mais famosos de colisão de pássaros com uma aeronave, e que mostra que esse não é apenas um problema brasileiro, foi o caso do voo 1549 da US Airways, que acabou sendo levado para as telas do cinema com o título “Sully, o herói do rio Hudson”, de 2016, com Tom Hanks no papel principal. 

Esse voo partiu do Aeroporto LaGuardia, em Nova York, em 15 de janeiro de 2009. Poucos minutos após a decolagem, a aeronave se chocou com um enorme bando de aves, o que resultou na perda dos dois motores. Sem outra opção de retorno segura, o comandante Chesley Burnett Sullenberger III optou por um pouso de emergência no rio Hudson. Todos os 150 passageiros foram salvos. 

Como fica bem fácil de notar pelas estatísticas, os urubus são as aves que mais se envolvem em acidentes com aeronaves. Urubus são aves de grande porte que podem pesar de 1,5 a 12 quilos a depender da espécie. Essas aves são necrófagas, ou seja, se alimentam de animais mortos e de carnes em decomposição. 

Na natureza, o papel ecológico ocupado por essas aves é essencial. Ao comerem a carcaça de animais mortos, os urubus evitam que doenças e pragas dos mais diferentes tipos sejam propagadas por diferentes vetores. Aliás, a Lei de Crimes Ambientais (Lei Número 9.605 de 1998), é categórica em afirmar que urubus não podem ser mortos nem maltratados.  

Eu lembro bem das minhas férias escolares na infância, quando toda a minha família viajava par o sítio de parentes no Oeste Paulista. Era comum avistar grandes bandos de urubus voando nos horizontes ao largo das rodovias durante essas viagens. Dentro da cidade grande era raro ver uma dessas aves. 

De alguns anos para cá, pelo menos é essa a minha sensação, o número de urubus aqui na minha cidade – São Paulo, cresceu muito. Eu moro num condomínio grande com sete torres de apartamentos onde diversos casais dessas aves têm ninhos na laje superior. A explicação para isso é a grande presença de lixões e aterros clandestinos na cidade. 

Esses lixões se transformaram em áreas de alimentação para os urubus, que com comida em abundância e espaço de sobra para a construção dos ninhos, se multiplicaram sem controle e são vistos às centenas no horizonte e céus das cidades.  

Criminosamente, muitos destes lixões foram criados nas proximidades das cabeceiras de pistas dos aeroportos. As operações de pouso e decolagem ganharam um componente de risco extra, risco aumentado significativamente para aviões menores como os jatinhos executivos 

À coisa de uns vinte e cinco anos atrás, o dono de uma grande construtora, onde eu viria a trabalhar em tempos mais recentes, por muito pouco não viu seus dias encerrados em um grave desastre aéreo. Em uma viagem a trabalho num dos jatinhos da empresa (grandes construtoras costumam ter jatos particulares para uso em “serviço”), a poucos minutos do pouso em Belém, a aeronave sofreu um forte impacto seguido da explosão de uma das turbinas.  

Graças à perícia e à grande experiência do piloto, segundo relato que ouvi anos depois do próprio empreiteiro, foi possível compensar a potência do avião acelerando o segundo motor e fazer um pouso de emergência no aeroporto.  

Semanas depois do acidente, o relatório oficial das autoridades aeronáuticas confirmou a suspeita inicial do piloto: a turbina sugou um dos muitos urubus que planam nas proximidades do aeroporto, provocando assim a explosão da turbina.  

O número de acidentes aeronáuticos, diga-se de passagem, raramente fatais, envolvendo impactos de urubus contra a fuselagem ou contra as turbinas de aviões em voo cresceu muito nos últimos anos, particularmente em países “em desenvolvimento” como o nosso – a concentração de renda e muita gente vivendo do lixo são características comuns entre esses países. 

Ou seja – o problema com os caranguejos no aeroporto de Vitória é fichinha perto das centenas de lixões clandestinos nas cidades e dos milhares de urubus que sobrevoam as pistas de aeroportos por todo o Brasil. 

CARANGUEJOS NA PISTA DE AEROPORTO IMPEDEM O POUSO DE AVIÃO NO ESPÍRITO SANTO 

Uma notícia inusitada que mostra como os impactos ambientais sempre se refletem em problemas para as populações humanas: 

Na última segunda-feira, dia 20 de março, um avião da empresa aérea Gol, que decolou do Aeroporto Santos Dumont, na cidade do Rio de Janeiro, com destino ao Aeroporto Eurico Aguiar Salles, em Vitória no Espírito Santo, precisou abortar o pouso e arremeter. 

De acordo com o comandante da aeronave, o piloto do avião que acabara de pousar no aeroporto informou que a pista estava tomada por uma grande quantidade de caranguejos, problema que poderia acarretar riscos para o pouso de aeronaves. A torre de controle do aeroporto recomendou que todas as aeronaves em procedimento de pouso permanecessem em espera até que uma equipe de solo confirmasse a informação. 

Em meio a risos, o comandante comunicou aos passageiros que a aeronave estava arremetendo por causa da presença de “uma quantidade absurda de caranguejos” na pista do aeroporto. 

Equipes de solo do aeroporto especializadas no resgate de fauna vasculharam a pista e encontraram apenas um caranguejo no local. O avião da Gol teve seu pouso autorizado cerca de 10 minutos após a confirmação das condições da pista de aterrisagem. 

O caso ganhou uma enorme repercussão nas redes sociais. A empresa privada que administra o aeroporto fez questão de esclarecer que todos os procedimentos previstos para esse tipo de situação foram tomados, de forma a preservar a integridade dos passageiros e dos crustáceos invasores. 

Apesar de provocar risos em muitos dos leitores, essa é uma questão delicada do ponto de vista ambiental, mostrando o quanto a invasão de áreas naturais por infraestruturas e atividades humanas pode ser problemática. 

O Aeroporto Eurico Aguiar Salles foi construído às margens da Baía de Vitória, também chamada da Baía do Espírito Santo. Essa baía se estende entre os municípios de Vila Velha, Vitória, Cariacica e Serra. 

A área é marcada pelo encontro das águas do Oceano Atlântico com o estuário de vários rios, o que resultou na formação de extensos manguezais e também de uma rica fauna. Ao longo da história, essa região abrigou diversos sambaquis, antigos sítios ocupados por povos indígenas. A colonização e ocupação da região por europeus começou no século XVI. 

O Donatário da Capitania do Espírito Santo foi o fidalgo e militar português Vasco Fernandes Coutinho, que se destacou em inúmeras conquistas militares de Portugal na Ásia e na África. Fernandes Coutinho recebeu o foral, o título de posse das terras, em 1534 e no ano seguinte, já no Brasil, fundou a Vila do Espírito Santo (atual Vila Velha), após “desterrar e dizimar” as tribos indígenas que habitavam essa região. O território da sua Capitania compreendia “50 léguas de costa, entre os rios Mucuri e Itapemirim”.   

Os indígenas expulsos pelos portugueses passaram a viver nas matas ao redor da Vila do Espírito Santo e, constantemente, organizavam ataques e tocaias contra os colonos. A Capitania também viria a sofrer com constantes ataques de corsários franceses e holandeses, que tinham como objetivo conquistar seu próprio quinhão de terras no litoral do Brasil. 

Depois de vários anos sob ataque dos indígenas, os portugueses decidiram se transferir para a Ilha de Santo Antônio, na Baía de Vitória, em 1551. Essa ilha era chamada de Guanaani pelos indígenas e possibilitava melhores condições para a segurança e defesa da população. Os portugueses fundaram na ilha a Vila Nova do Espírito Santo, que mais tarde seria conhecida com o nome de Vitória – a antiga ocupação no continente passaria a ser conhecida como Vila Velha.   

Como vem sendo comum em todo o litoral do Brasil, a expansão da mancha urbana das cidades costeiras muitas vezes se dá às custas do aterro de áreas de mangues. Para essas populações, essas áreas alagadas são espaços inúteis, não havendo maiores problemas na sua ocupação. Esse é um trágico engano. 

Manguezais são ecossistemas fundamentais para a vida marinha. Suas águas salobras possibilitam a reprodução de cerca de 70% das espécies marinhas de alto valor comercial, o que coloca os manguezais na posição de “maternidades dos oceanos”. Em regiões onde as áreas de mangue estão bem preservadas, a produtividade da pesca é muito maior que em locais onde essas áreas estão degradadas.  

Além de abrigar centenas de espécies de peixes, crustáceos, moluscos, vermes, insetos, aves, répteis e mamíferos, que encontram abundância de alimentos e abrigos seguros em seus domínios, os manguezais são a principal fonte de proteínas para as populações pobres das áreas litorâneas. Além de encontrar alimentos, essas populações costumam tirar o seu sustento da lama, literalmente, capturando e vendendo caranguejos. 

Os caranguejos são crustáceos da infra ordem Brachyura  e são encontrados em rios e mares de todo o mundo. Esses animais se adaptaram muito bem às áreas alagadiças e de águas salobras dos manguezais, se transformando numa das espécies animais símbolo desse ecossistema. 

Os caranguejos que vivem em manguezais são considerados animais semi-terrestres, ou seja, que dependem da presença da água para reprodução e parte de sua alimentação, mas que podem viver por longos períodos longe da água. 

Isso pode explicar a suposta invasão da pista do aeroporto por uma grande quantidade desses animais – no período de acasalamento e de reprodução, esses animais abandonam seus territórios nos manguezais e saem à procura de parceiros/parceiras em outros lugares. Eventualmente, a pista do aeroporto se transformou numa “rota de passagem” para os animais. 

É provável que essa invasão da pista por caranguejos esteja ocorrendo há muitos anos (talvez desde a construção do aeroporto), porém, com uma quantidade tão pequena de animais que nunca chamou a atenção de ninguém. Se o número de animais aumentou muito, é sinal de que a “saúde” ou a fragmentação dos manguezais atingiu níveis críticos, o que está afetando a vida e o comportamento dos caranguejos. 

Muito mais que um problema para as operações dos aviões no aeroporto, essa “invasão” precisa ser vista como um pedido de socorro dos animais dos manguezais da Baía de Vitória. 

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O DIA DE SÃO JOSÉ, OU FALANDO DE FÉ E CHUVAS 

No último domingo, dia 19 de março, foi comemorado o dia de São José, um santo muito venerado pelos sertanejos, especialmente no Estado do Ceará. Aliás, São José é o padroeiro do Estado desde 1621, ano em que foi publicado um decreto pelo Papa Gregório XV. 

De acordo com a tradição religiosa, São José foi o marido de Maria e o pai de Jesus Cristo. Carpinteiro de profissão, São José é considerado o protetor da Igreja Católica e padroeiro dos trabalhadores e das famílias por seu trabalho como artesão e por ser patriarca da Sagrada Família. 

Segundo a crença dos sertanejos, se as chuvas caírem até o dia de São José estará garantido um bom período de precipitações e de boas colheitas em todo o sertão. A temporada de chuvas é chamada de inverno na região. 

De acordo com os meteorologistas, a data do dia do padroeiro fica muito próxima do equinócio de outono, que ocorreu no último dia 22 de março. Nesse dia, os dois hemisférios da Terra ficam igualmente iluminados pelo Sol, o que faz com que o dia e a noite tenham exatamente a mesma duração. A partir desse momento, o Hemisfério Sul passa a receber menos luz solar, o que marca a chegada do outono. 

A partir do equinócio de outono as regiões próximas da linha do Equador recebem uma maior incidência de raios solares. Isso leva a um aumento do volume de ventos úmidos que chegam, o que, geralmente, pode resultar em chuvas. O Ceará e outros Estados que ficam mais ao Norte ficam dentro dessa região. 

Um bom período chuvoso no sertão, entretanto, também dependerá da ZCIT – Zona de Convergência Intertropical. Esse é um sistema meteorológico que permite a formação de grandes massas de umidade no oceano nas regiões tropicais e sua transferência para médias e altas altitudes. São essas nuvens que trazem as chuvas para o sertão. 

Para o homem simples que vive no Semiárido Nordestino, entretanto, o que vale mesmo é a fé no santo. 

A data é sempre marcada por procissões, novenas e muita oração por todos os cantos do Semiárido, especialmente nos períodos de seca. Os principais pedido dos fiéis, claro, são as chuvas e colheitas fartas. 

De acordo com informações do COGERH – Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos, do Ceará, o Dia de São José chegou com 21 açudes sangrando no Estado, além de outros 11 com uma capacidade de armazenamento acima dos 90%. Na média, os açudes cearenses estão com 33% de sua capacidade de armazenamento. 

O maior açude do Ceará, o Castanhão, está operando com pouco mais de 20% de sua capacidade. Esse açude foi inaugurado em 2002 e possui capacidade para armazenar 6,7 bilhões de m³. É considerado o maior reservatório para usos múltiplos da América Latina. Sua capacidade de armazenamento corresponde a 37% da capacidade total de armazenamento de todos os 8 mil reservatórios existentes no Estado do Ceará, incluindo-se na lista o Açude Orós, que durante décadas foi o maior de todos. 

Em sua capacidade máxima de armazenamento, o Castanhão tem condições de abastecer toda a Região Metropolitana de Fortaleza por 3 anos ininterruptamente – o problema é que desde 2012, os volumes de chuvas que caíram na bacia hidrográfica do rio Jaguaribe foram insuficientes para recuperar plenamente os níveis desse Açude. 

O Semiárido Brasileiro ocupa uma área com aproximadamente 925 mil km², onde vivem cerca de 23,5 milhões de pessoas. É considerada a região semiárida mais superpopulosa entre todas as regiões semiáridas do mundo. Para efeito de comparação, a região do Deserto do Saara tem 9,2 milhões de km² (quase dez vezes maior que o nosso Semiárido) e uma população de apenas 2,5 milhões de pessoas.   

Secas no Semiárido Nordestino não são novidades para ninguém – a região está sujeita a ciclos de seca em intervalos regulares. Em intervalos maiores, acontecem secas generalizadas e de efeitos devastadores. Exemplos dessa anomalia climática aconteceram em 1915 no Ceará e em toda a região do semiárido em 1877 e 1932, as duas maiores crises até hoje registradas.  

Uma das mais trágicas foi a “Grande Seca” que se abateu sobre a região entre os anos de 1877 e 1879. Segundo as estimativas da época, o número de vítimas fatais ficou entre 400 e 500 mil mortes. Para que todos tenham uma ideia do tamanho da tragédia, a população da região do Semiárido Nordestino era de 800 mil pessoas há época.   

Normalmente as secas, mesmo as mais extensas, ficam limitadas ao período de um ano, mas não é raro que esse desequilíbrio alcance um período maior, dois anos e até três. Segundo os registros oficiais do Governo e notas de antigos cronistas, testemunhas oculares, médicos e jornalistas, ocorreram grandes secas em 1744, 1790, 1846, 1877, 1915, 1932, 1951 e 1979. 

Grandes obras literárias como os romances “O quinze”, de Rachel de Queiróz, e “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, imortalizaram personagens que viveram essas grandes tragédias. A cultura nordestina está impregnada com toda uma sucessão de dramas pessoais das populações em diferentes ciclos de seca na região. A religiosidade do povo também é marcante. 

Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, esse superpovoamento e a formação de vilas e cidades no Semiárido Nordestino começou no período colonial, época em que a grande riqueza do Brasil era a indústria do açúcar. Grandes extensões do litoral do Nordeste foram ocupadas por gigantescos canaviais, que pouco a pouco ocuparam todos os antigos domínios da Mata Atlântica

As boiadas dos criadores de gado invadiam os canaviais, onde os animais se deliciavam comendo os brotos tenros e adocicados da cana-de-açúcar, gerando grandes protestos dos senhores de engenho. Os conflitos foram se acirrando, o que levou à expulsão das boiadas do litoral e sua migração para os sertões.  

O problema era tão sério que, em 1701, foi publicada uma Carta Régia assinada pelo Rei de Portugal proibindo a criação de gado a menos de 60 km do litoral. Eu costumo chamar esse processo de “diáspora bovina“. 

E para as populações que foram surgindo nessa região tão bela e inúmeras vezes inóspita e tão carente de recursos hídricos, restou muito pouco, principalmente sua religiosidade e fé. 

Valha-nos São José!”