OS PERSISTENTES BAIXOS NÍVEIS DA REPRESA DE SERRA MESA EM GOIÁS

Serra Mesa

A Usina Hidrelétrica de Serra Mesa, no rio Tocantins, foi inaugurada em 1998. Sua represa passou a ocupar a quinta posição entre os maiores lagos artificiais do Brasil, com uma área total de 1.784 km², maior que o município de São Paulo. A represa passaria a desempenhar um papel semelhante ao da Represa de Três Marias, funcionando como um regulador dos caudais do rio Tocantins no período da seca. Para cumprir essa função, a represa poderia armazenar aproximadamente 54 bilhões de m³ de água, números que a colocariam como o maior reservatório do país em capacidade de armazenamento. Infelizmente, desde 2012, os níveis da Represa não pararam de cair. 

No final do ano passado, nós publicamos uma postagem aqui no blog falando da situação crítica de Serra Mesa, que naquela época chegou ao nível de 12,46% (28/10/2018). Naquele momento, toda a Região o Centro-Oeste do país estava passando por um período de forte seca e as populações da região esperavam ansiosamente pela chegada de chuvas em volumes maiores e com melhor distribuição geográfica. As projeções da meteorologia, infelizmente, não eram as mais animadoras – as chuvas previstas para os últimos meses do ano estavam abaixo da média histórica por conta da presença do fenômeno El Niño. As projeções indicavam que o fenômeno climático provocaria áreas com chuvas mais intensas nas regiões Sudeste e Sul 

De acordo com estudos da SECIMA – Secretaria Estadual de Cidade, Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás, foi observada uma redução de 10% nos volumes de chuva no Estado desde 2008 – a partir de 2016, a redução foi ainda maior, chegando aos 25%. Neste período, o fenômeno El Niño  se fez presente em 4 anos, tendo  provocado redução nas chuvas em pelo menos 3 anos. Apesar dos números encontrados, os dados do estudo não permitem nenhuma conclusão sobre o assunto. Na década de 1960 também foi observado um período de 4 anos com redução contínua das chuvas no Estado, porém, as chuvas voltaram aos níveis históricos nos anos seguintes. 

Entre janeiro e julho de 2018, o volume de chuvas acumulado no Estado de Goiás chegou à marca de 6.710 mm, o menor volume registrado desde de 1994, quando foram registrados 6.017 mm no mesmo período. Historicamente, o volume médio de chuvas nesse período é de 8.400 mm. É esse déficit hídrico contínuo que está se refletindo nas águas do reservatório de Serra Mesa e também na produção agrícola do Estado, onde afeta a produtividade das culturas de grãos e provoca atrasos no plantio de novas safras. 

Além de fenômenos climáticos, o Estado de Goiás, em particular, e grande parte da Região Centro-Oeste, sofre com o avanço das frentes agrícolas e com o corte sistemática de extensas áreas de vegetação nativa do Cerrado. Conforme já comentamos exaustivamente em diversas postagens anteriores, esse corte de espécies nativas do bioma tem reflexos na recarga de aquíferos e lençóis subterrâneos de água. O clima do Cerrado é caracterizado por dois períodos distintos – um período de fortes chuvas seguido por uma temporada de seca. Ao mesmo tempo, os solos do bioma apresentam rochas permeáveis, com alta capacidade para o armazenamento de água, onde os grandes sistemas de raízes da vegetação nativa facilitam a infiltração da água. Sem a presença dessa vegetação, a água das chuvas tem dificuldade para se infiltrar em grandes profundidades para a recarga dos depósitos subterrâneos, o que comprometerá as nascentes de água do bioma. 

Uma resolução da ANA – Agência Nacional de Águas, publicada no final de 2018, determinou que a barragem da Usina Hidrelétrica de Serra Mesa passasse a liberar uma quantidade menor de água entre os meses de dezembro de 2018 e maio de 2019. O objetivo dessa medida seria a recuperação do volume de água no reservatório durante o período das chuvas em um nível de até 7,2%. Com essa medida, a vazão da Hidrelétrica foi reduzida de 300 m³ por segundo para 200 m³ por segundo nos meses de dezembro de 2018 e maio de 2019. Entre janeiro e abril de 2019, essa redução foi ainda maior – para 100 m³ por segundo. Ontem, dia 03/06/2019, o nível da Represa de Serra Mesa atingiu a marca de 22,86%, contra o nível de 12,49% em 09/12/2018, o que mostra que houve uma visível melhoria

Além de garantir a geração de energia elétrica – a Usina Hidrelétrica de Serra Mesa tem uma potência instalada de 1,275 mil MW, a Represa foi concebida para regularizar os caudais do rio Tocantins nos períodos de seca, garantindo assim as vazões para a operação das demais Hidrelétricas a jusante – Cana Brava, São Salvador, Peixe Angical, Luís Eduardo Magalhães e Estreito. Com a adoção dessa medida emergencial, foram garantidas as vazões mínimas de operação para as Usinas Hidrelétricas, ao mesmo tempo que se garantiu uma substancial recuperação dos níveis de armazenamento de água na Represa de Serra Mesa. 

Apesar de necessária, essa medida criou uma série de complicações para a navegação em um longo trecho do rio Tocantins. Tradicionalmente, os meses de chuva são os melhores para a navegação na calha do rio, quando a elevação dos volumes dos caudais encobre os extensos bancos de areia, obstáculos que prejudicam muito a navegação nos períodos da seca. Além do transporte de grãos como o milho e a soja, a navegação no rio Tocantins é fundamental para o transporte das populações ribeirinhas e de turistas, especialmente pescadores, que buscam a região e seus famosos peixes como o tucunaré. A Marinha do Brasil foi engajada nesse processo a fim de fiscalizar e garantir a segurança da navegação nesse período especial. 

Além dos aspectos técnicos ligados à geração de energia elétrica e aos transportes fluviais, a recuperação dos níveis da Represa de Serra Mesa também tem reflexos no turismo, uma importante fonte de renda e de lazer para a população local. Conforme já comentamos em outras postagens, a construção de usinas hidrelétricas em áreas interioranas do país, apesar de toda uma lista de problemas decorrentes, cria verdadeiras “praias” de água doce para as populações, além de permitir a prática de toda uma série de esportes náuticos. 

A forte seca que atingiu a Represa de Serra Mesa a partir de 2012, criou grandes problemas para o turismo na região do entorno. Hotéis, restaurantes – alguns flutuantes, clubes náuticos e muitas praias com infraestrutura (quiosques, banheiros e estacionamentos), que ficavam na beira do espelho d’água, passaram a ficar a centenas de quilômetros das margens. Além da extensa faixa de lama seca, a paisagem ficou tomada por restos de árvores mortas ainda em pé, que não foram cortadas antes do enchimento do lago e acabaram encobertas pelas águas (vide foto). Dezenas desses estabelecimentos comerciais fecharam e centenas de pequenos comerciantes e prestadores de serviço, que dependiam desse fluxo turístico, perderam sua fonte de trabalho e renda. 

A melhora no nível de Serra Mesa amenizou os problemas, mas ainda se está longe dos bons tempos do grande lago em meio ao Cerrado. Há muitos anos atrás eu tive a oportunidade de fazer um passeio turístico de barco nessa Represa e lembro bem da alegria dos demais passageiros, a grande maioria formada por gente local, que aparentavam navegar pela primeira vez num espelho d’água tão grande.  

Que esses bons tempos voltem o mais rápido possível. 

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