A BABUGEM, O ACHEB E A RESSURREIÇÃO DOS SEMIÁRIDOS

Atacama

Uma das figuras mitológicas mais intrigantes da história da humanidade é a fênix, um pássaro lendário que morria em meio as chamas e que depois renascia das próprias cinzas. A ideia de uma ave com estas características surgiu no Oriente – povos como os egípcios veneravam a fênix, que era vista pelo povo como a reencarnação do deus Rá. A imagem da ave mitológica foi adaptada pelos gregos dentro do conceito que chegou aos nossos dias.

De acordo com as antigas lendas, a fênix era uma ave muito poderosa, que podia carregar grandes cargas durante o voo, inclusive elefantes. Também tinha o poder de se transformar em uma ave de fogo com uma forma muito parecida com uma águia. As lágrimas da fênix teriam o poder de curar doenças. Porém, a característica mais marcante da fênix é sua capacidade de renascer a partir das próprias cinzas. No imaginário coletivo, a fênix passou a representar a ideia da imortalidade e do renascimento.

Comecei esta postagem falando da fênix como uma introdução a um assunto bastante parecido – o renascimento das áreas semiáridas e desérticas que acontece logo após a chegada das chuvas (pode parecer estranho mas chove, muito pouco é claro, nos desertos). Não sei quantos de vocês já tiveram a oportunidade de conversar com um sertanejo “da gema”, acostumado com as belezas e as durezas do sertão. Quando qualquer um desses homens “rudes” (uso o termo aqui no sentido de adaptação a um meio extremamente difícil) fala da chegada das chuvas ao sertão depois de uma seca prolongada, é possível ver seus olhos marejando de tanta felicidade. Uma das razões dessa felicidade é o rápido renascimento da terra seca após as chuvas – estou falando da babugem.

A babugem é um tipo de vegetação de crescimento extremamente rápido, formado pela associação de várias espécies de plantas, especialmente as gramíneas, que nascem, crescem e dão flor e sementes em poucos dias, logo após as chuvas começarem a cair sobre o solo seco. A babugem marca uma espécie de “rito de passagem” entre os tempos de escassez da seca e a fartura do período das águas – uma forma de ressurreição da “fênix” verde nordestina logo após as cinzas dos tempos da seca. Uma pessoa de outras terras poderá ter um choque ao visitar uma área do sertão antes e depois das chuvas, mesmo sendo num espaço de tempo pequeno, dias talvez. As sementes destas plantas sertanejas tem uma alta capacidade de resistir por longos períodos sobre o solo seco, e estamos falando aqui de anos a fio. Com as chegada das chuvas, a semente desperta e usa toda a energia armazenada em sua estrutura para germinar no menor tempo possível para aproveitar ao máximo da umidade, que poderá desaparecer muito rapidamente. O ciclo de vida das plantas, devido a um intenso processo evolutivo, pode ser completado em poucos dias: germinar, crescer, florescer e produzir sementes, garantindo assim a perpetuação da espécie. As sementes são espalhados pelo vento e, caso não encontrem umidade para germinar, vão ficar adormecidas a espera das chuvas, demore o tempo que demorar.

O semiárido brasileiro, que ocupa uma área total de mais de 925 mil km², é formado por uma infinidade de ecossistemas diferentes, que formam um mosaico altamente complexo – cada um destes ecossistemas possui as suas próprias variedades de “sementes mágicas”, que vão florescer à sua moda com a chegada das chuvas. Todas as plantas do semiárido sofreram um intenso processo de adaptação para reduzir a perda de água por evaporação e desenvolveram grande capacidade para armazenar água, especialmente as cactáceas como o xique-xique, a coroa-de-frade e os famosos mandacarus. As árvores do semiárido também são altamente adaptadas, com raízes profundas e troncos e galhos apropriados ao clima seco; quando a planta ressente a falta de água, ela perde rapidamente suas folhas, num mecanismo para economizar energia e água. Quando as chuvas chegam, essas plantas recuperam as suas folhagens e o seu viço rapidamente, claro que numa velocidade muito menor do que a babugem. Junto com o verde e com as flores, a vida animal também parece renascer repentinamente: são milhares de espécies de insetos, aves e mamíferos, além dos resistentes répteis, que enchem os olhos e os ares de vida.

Este fenômeno maravilhoso não é uma exclusividade do semiárido brasileiro – ele acontece em diferentes lugares de clima extremamente seco do mundo: a foto que ilustra este post, escolhida pela beleza sui generis, mostra uma área no deserto do Atacama, no Norte do Chile, após uma das raríssimas chuvas ter caído sobre as areias escaldantes. Também poderá ser encontrado em regiões semiáridas do mundo na África, América do Norte, Europa, Ásia e Austrália.

Na região do deserto do Saara, conforme comentado em post anterior, vivem aproximadamente 2,5 milhões de pessoas dentro de uma área com 9,2 milhões de km². Diferente do que muita gente pensa, o Saara não é formada apenas pelas gigantescas dunas de areia mostradas nos antigos filmes da Legião Estrangeira francesa. No Saara existe um enorme mosaico de ecossistemas diferentes, que vão de campos de savanas às dunas de areia, incluindo-se áreas de semiárido muito parecidas com a nossa caatinga nordestina, oásis verdejantes no meio do nada, vales profundos onde correm pequenos rios e até altas montanhas com picos nevados – sempre chove um pouco por todos os lados e de vez em quando até cai neve em alguns lugares do Saara. Nas áreas semiáridas do Saara, ocorre um fenômeno muito parecido com a babugem – os pastores nômades do Maghreb (nome que os locais dão ao Saara) chamam este fenômeno de acheb. O grande geógrafo francês Émile-Félix Gauthier (1864-1940), em sua famosa obra Le Sahara de 1925, nos deixou este registro:

“O acheb não é uma planta determinada, é uma categoria de vegetais que possuem sua tática própria de luta contra a seca. Vegetais que sobrevivem por suas sementes cuja resistência à seca é de duração quase infinita. Quando cai a chuva o grão de acheb a utiliza com energia admirável. Em poucos dias ele germina, lança sua haste, cobre-se de flores e lança suas sementes. Ele sabe que não tem tempo a perder, está organizado para tirar todo partido da dádiva excepcional. Mas sua semente carregada pelo vento e recoberta pela areia, guardada nas anfractuosidades da rocha esperará, se for preciso, dez anos por novas chuvas. São vegetais que sacrificam tudo pela reprodução, são verdadeiros buquês de flores. Este é o pasto que dá pena ver-se deglutido pela garganta imunda dos camelos.”

Todos estes tipos diferentes de vegetação com suas flores maravilhosas são uma espécie de prêmio a todos aqueles que conseguiram sobreviver a todas as agruras e provações das grandes secas. Faço votos que a babugem e outras formas vegetais floresçam o mais rápido possível em muitas terras assoladas ainda hoje pela forte seca, marcando o renascimento da vida nestes sertões.

Encerro com uma observação de Euclides da Cunha (1866-1909), o célebre autor da antológica obra “Os Sertões”, descrevendo um destes raros momentos em que o sertão renasceu das cinzas:

“E ao tornar da travessia o viajante, pasmo, não vê mais o deserto. Sobre o solo, que as marílis atapetam, ressurge triunfante a flora tropical. É uma mutação de apoteose.”

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