VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DO RIO CUNENE?

Pelas nossas fortes ligações históricas com Portugal e outros países da Europa, todos conhecemos, mesmo que só de nome, importantes rios do continente. Citando alguns exemplos: os rios Tejo e Douro, que tem nascentes na Espanha e Foz em Portugal; o rio Sena da França, o rio Tâmisa da Inglaterra ou ainda os rios Tibre e Pó da Itália

Se eu pedir para os leitores que já ouviram falar ao menos uma vez do rio Cunene (ou Kunene) ”levantarem a mão”, é provável que ninguém se manifeste. Abro uma exceção aqui para os muitos leitores que o blog tem em Angola que, com toda a certeza, conhecem bem esse rio. 

O rio Cunene nasce na província de Huambo, no Planalto Central de Angola, percorrendo cerca de 1.200 km até atingir sua foz no Oceano Atlântico na Namíbia. Sua bacia hidrográfica ocupa uma área total superior a 106 mil km2, sendo que 75% dessa área fica dentro do território angolano. 

O trecho final do rio Cunene, que marca a fronteira entre Angola e a Namíbia, é surpreendente – é um dos poucos cursos de águas perenes numa região extremamente árida. Aliás, o rio atravessa um longo trecho do Deserto do Kalahari, uma região que engloba mais de 900 mil km2 na Namíbia, África do Sul, Angola e Botswana. Próximo da foz, junto ao Oceano Atlântico, o rio cruza uma faixa do Deserto do Namibe

Kalahari deriva da palavra kgalagadi, que na língua dos povos da região significa “o lugar da grande sede”. namib significalugar vasto e desolado”. Essas duas referências, por si só, já nos dão uma ideia da importância desse rio. A foto que ilustra essa postagem foi tirada bem perto da foz do rio e mostra bem a aridez do lugar. 

O Planalto Central de Angola, conhecido localmente como Planalto de Bié, é uma região de clima temperado no centro do país e com chuvas abundantes. Cerca de metade da população rural de Angola vive nessa região. As nascentes dos rios que formam algumas das principais bacias hidrográficas da África Austral ficam nesse Planalto. 

Conforme o rio Cunene vai seguindo para o Sul de Angola e atinge altitudes cada vez menores, as paisagens vão ficando cada vez mais áridas, primeiro na forma de savanas semiáridas até que, finalmente, se transformam em um grande deserto. Nessas regiões, o rio é a fonte de vida de diversos povos tradicionais, que dependem do Cunene para a produção agrícola e para a criação de animais. Essas águas também são essenciais para uma grande diversidade de animais selvagens. 

De acordo com informações do Governo de Angola, existem projetos para a irrigação de uma área de mais de 600 mil hectares na bacia hidrográfica do rio Cunene até o ano de 2025. A maior parte desses projetos está concentrado no médio curso do rio. 

Entre os projetos já implantados destacam-se os de Matala e Humpata-Neves, na Província de Hulia, e Manquete, na Província de Kunene. A esses projetos se juntam Chibia-Gandjelas, na Província de Hulia, e Calueque, na Província de Kunene, sistemas atualmente inativos que receberam prioridade para reabilitação pelo Programa Nacional de Sistemas de Irrigação. 

Esse Programa também prevê a criação de novos sistemas de irrigação. A lista inclui o sistema Quipungo-Malipe, que atenderá cerca de 200 hectares; o Sendi, com 1.500 hectares, e o Chicungu, com cerca de 300 hectares. Todos esses sistemas ficam na Província de Hulia. Na Província de Kunene destaca-se o sistema Calueque, que atenderá uma área com 16 mil hectares. 

Além de atender projetos agrícolas, esses sistemas também provêm água para a dessedentação de rebanhos animais, uma atividade econômica fundamental para muitas tribos locais. Tradicionalmente, os criadores sempre dependeram da escavação de poços para atender as necessidades dos animais, um problema que sempre foi um limitador da produtividade. 

Para a Namíbia, país que é formado quase que exclusivamente por terrenos áridos e semiáridos, as águas de rios perenes como o Cunene, Orange, Okawango e Zambeze são essenciais para a agricultura. As áreas irrigadas produzem milho branco, trigo, verduras, uvas, azeitonas, tâmaras e outras frutas. Essa produção supre a população local e ainda permite a exportação de excedentes.

A região Centro-Norte da Namíbia recebe as águas do rio Cunene a partir de um canal aberto construído no final da década de 1960. As águas são captadas no açude Calueque em Angola. Essas águas alimentam o Sistema de Irrigação de Etunda, localizado a região de Omusati

A região abriga pequenas propriedades rurais onde o milho é a cultura principal. Culturas de subsistência como batata-doce, cebola, abóboras, amendoim, frutas e verduras também fazem parte das paisagens. 

Uma outra região que possui um grande potencial para a implantação de projetos de agricultura irrigada na Namíbia é Marienfluss. Essa é uma área remota e bastante isolada, onde o desenvolvimento dos projetos está dependendo dos avanços da construção da Usina Hidrelétrica de Baynes no rio Cunene, um projeto conjunto de Angola e da Namíbia. 

Além de sua importância ímpar para o abastecimento de vilas e aldeias, para a agricultura e para a pecuária, o rio Cunene também é uma importante atração turística tanto para Angola quanto para a Namíbia. O destaque vai para as Quedas do Monte Negro, que na Namíbia recebem o nome de Epupa

Essas cachoeiras ficam na fronteira entre os dois países, a cerca de 250 km a montante da foz. Nesse trecho, o rio Cunene atinge uma largura de 500 metros, com suas águas descendo por uma série de quedas ao longo de 1,5 km. A maior dessas quedas tem uma altura de 37 metros. 

O rio Cunene cumpre bem a sua missão cruzando uma região bastante árida e com recursos hídricos bastante escassos. Entretanto, é sempre bom lembrar que essas águas são finitas e que precisam ser utilizadas de maneira racional. A exemplo do que faz Israel, país tão árido quanto a Namíbia e o Sul de Angola, é preciso usar bem cada gota de água disponível. 

O GRANDE CANAL DO RAJASTÃO NA ÍNDIA 

Na última postagem falamos do Canal de Narmada, o maior canal de irrigação da Índia. Esse empreendimento foi concluído em 2008, contando uma extensão total de 532 km, sendo 458 km no Estado de Gujarat e outros 74 km no Rajastão. Estes dois estados ficam no Noroeste da Índia junto à fronteira com o Paquistão, uma região com terrenos extremamente áridos. 

As águas transportadas pelo sistema estão abastecendo cerca de 3.125 aldeias e permitindo agricultura irrigada em uma área com aproximadamente 246 mil hectares. Grande parte dessa região fica dentro do território semiárido do Deserto de Thar, o maior da Índia. 

Esse projeto se juntou a uma série de outras iniciativas que vem sendo implementadas na região desde o início do século XX. O Rajastão é o maior Estado da Índia em área e também um dos mais problemáticos. Os solos áridos e as poucas chuvas tornam a vida na região bastante difícil. Ao mesmo tempo, o Rajastão possui o maior trecho de fronteira entre a Índia e o seu arqui-inimigo Paquistão – o Governo sempre sonhou em ter uma grande população nessa região para dissuadir qualquer eventual avanço de tropas paquistanesas. 

O aparente sucesso do Canal de Narmada contrasta com os problemas e as críticas a outro grande projeto hídrico no Rajastão – o Canal Indira Gandhi. Esse projeto foi concebido na década de 1950 com o objetivo de trazer água de rios da verdejante região do Punjabi para os terrenos desérticos do Rajastão. 

O Punjabi é um Estado localizado no Norte da Índia e que tem uma área de mais de 50 mil km2. A palavra punjabi vem da língua persa e significa, literalmente, “terra dos cinco rios”, o que dá uma ideia da grande quantidade de recursos hídricos que a região possui. Uma parte do Punjabi fica no Paquistão. Em ambos os países a região é considerada como um verdadeiro celeiro agrícola. 

No vizinho Rajastão as coisas são bem diferentes. Cerca de 3/5 do território desse Estado são formados pelos solos áridos do Deserto de Thar, o maior da Índia. Trazer águas do Punjabi para o Rajastão sempre foi um sonho antigo dos indianos. 

O projeto do Canal do Rajastão foi concebido no final da década de 1940, no início da história da Índia como país independente. É sempre importante citar que, até 1947, Índia, Paquistão e Bangladesh formavam o Vice-reino Britânico da Índia. Com a independência, os conflitos religiosos entre hindus e muçulmanos levaram à divisão do país – o Paquistão e Bangladesh com população majoritariamente muçulmana de um lado, e os hindus da Índia de outro. Bangladesh se tornou independente do Paquistão em 1970. 

Por razões estratégicas, o Governo da Índia pretendia fixar o maior número possível de agricultores na faixa de fronteira com o Paquistão e a ideia da construção de um grande canal para o transporte de água foi muito bem aceita. Os trabalhos de construção foram iniciados em 1952 e visavam a construção de um trecho inicial com cerca de 250 km. 

Em 1960, os Governos da Índia e do Paquistão tiveram de negociar um acordo para a partilha das águas dos rios Satluj, Beas e Ravi, águas essas que seriam utilizadas para alimentar o Canal do Rajastão. Apesar das nascentes desses rios ficarem dentro do território da Índia, suas águas correm na direção do rio Indo (ou Indus), o maior e mais importante rio do Paquistão. Grande parte das hostilidades entre os dois países está relacionada com a partilha de recursos hídricos. 

A fase inicial do projeto contemplou a construção de um canal entre a Barragem de Harike, no Punjabi, e a cidade de Masitawali, no Rajastão. Além de um canal alimentador com 256 km, essa etapa incluiu a construção de um sistema de canais auxiliares com extensão total de quase 3 mil km. Essa fase de obras deveria ter sido concluída em 1971, mas, as obras se estenderam até 1983. 

Esse grande atraso foi o resultado de uma série de mudanças no projeto e, como bem conhecemos por experiência própria aqui no Brasil, de inúmeros casos de corrupção e desvio de verbas por parte de políticos e empresários da Índia. Qualquer semelhança com projetos similares aqui em nosso país não é mera coincidência. 

A segunda e mais criticada etapa de construção do agora chamado Canal Indira Gandhi, Primeira-Ministra indiana assassinada em 1984, se estendeu até o ano de 2010. Além de repetir os mesmos pecados da primeira etapa – principalmente no que diz respeito a desvio de verbas e corrupção, a maior parte dos canais construídos não está servindo para nada. 

A foto que ilustra essa postagem mostra um ramal de irrigação completamente seco, onde o fundo foi tomado pelas areias do Deserto de Thar. Essa é uma imagem que se repete em grande parte dos 3.400 km de ramais que foram construídos na segunda fase do projeto. 

De acordo com muitos especialistas, o sistema não possui água suficiente para irrigar toda a rede de canais e de ramais que foram construídos. O acordo com o Paquistão estipulou um volume máximo de água que poderia ser desviado para o Rajastão. Grande parte desses ramais foram construídos sem obedecer a quaisquer critérios técnicos, mas simplesmente para atender promessas populistas do Governo. Entre essas promessas havia um compromisso de irrigar 4,67 milhões de hectares. 

No auge da construção, o Governo do Rajastão criou um programa de estímulo para os pequenos agricultores, oferecendo lotes de terras com 6,32 hectares a serem pagos em prestações baixas ao longo de 15 anos. Dezenas de milhares de pequenos agricultores, inclusive de outros Estados da Índia, foram atraídos pelo “canto da sereia” e se deram mal.

Um exemplo do fracasso do projeto pode ser visto na região de Ramgarh, onde mais de mil famílias aderiram ao programa do Governo do Rajastão – cerca de 10 anos depois, apenas 25 estavam conseguindo pagar as parcelas do financiamento. 

Outro sinal do fracasso do empreendimento é visto no sistema de distribuição de água para as pequenas aldeias. A qualidade da água que chega até as caixas de armazenamento é tão ruim que só pode ser utilizada para a lavagem de roupas e panelas. Os aldeões precisam se valer das antigas cisternas de armazenamento da água das chuvas ou então da escavação de poços para seu abastecimento. 

Sistemas de irrigação bem projetados e operados corretamente podem significar a “salvação da lavoura” em regiões de clima árido. Entretanto, quando o objetivo dos governantes é simplesmente fazer politicagem barata para desviar recursos públicos, as chances de os projetos acabarem em completos desastres são enormes – o Canal Indira Gandhi foi um desses casos.. 

NARMADA, O MAIOR CANAL DE IRRIGAÇÃO DA ÍNDIA 

Um outro país onde a agricultura irrigada tem feito uma enorme diferença na vida de muita gente é a Índia, a segunda nação mais populosa do mundo com mais de 1,3 bilhão de habitantes. Projeções demográficas indicam que, muito em breve, o país deverá ultrapassar a China nesse quesito. 

A Índia ocupa uma área com cerca de 3,2 milhões de km2, território esse formado por um verdadeiro mosaico de biomas e climas, que vão das geladas montanhas da Cordilheira do Himalaia aos desertos áridos do Rajastão; dos grandes campos agrícolas do Punjab as áreas cobertas por florestas em Odisha, Chhattisgarh, Madhya Pradesh, Karnataka e Jharkhand. De gigantescas metrópoles como Nova Déli, Mumbai e Calcutá até pequenas aldeias perdidas nos mais distantes rincões do país. 

Em um país com tantas bocas para alimentar todos os dias, a agricultura precisa ocupar uma posição de destaque na economia – e ocupa. Atividades agropecuárias respondem por 18% do PIB – Produto Interno Bruto, da Índia, ocupando cerca de 42% da população economicamente ativa. 

Conforme já tratamos em inúmeras postagens aqui do blog, a agricultura é altamente dependente dos recursos hídricos. Em média, 70% dos recursos hídricos de uma região são consumidos por atividades agrícolas e pecuárias.  

Quando essa água não está disponível na própria região, como acontece nos casos de lugares como o Imperial Valley da Califórnia, do deserto na província de Minya, no Sul do Egito ou de praticamente todo o território de Israel, é preciso se valer de tecnologia e/ou de grandes obras hidráulicas para se conseguir praticar a produção de alimentos e a criação de animais. 

A Índia, já há muitas décadas, vem dando exemplos de sua capacidade de realizar grandes projetos de infraestrutura na área dos recursos hídricos. Um exemplo bem recente é o Canal de Narmada, que foi concluído em 2008, e é o maior canal de irrigação do país. 

O Canal de Narmada possui uma extensão total de 532 km, sendo 458 km no Estado de Gujarat e outros 74 km no Rajastão. Estes dois estados ficam no Noroeste da Índia junto à fronteira com o Paquistão, uma região com terrenos extremamente áridos. 

Esse canal distribui as águas da represa Sardar Sorovar, localizada em Gujarat, para 3.125 aldeias nesse Estado e 124 aldeias no Rajastão. A água é distribuída por uma rede de 42 canais auxiliares, sendo que o ramal Saurashtra, com uma extensão de 104 km, é o maior deles. Nesse ramal, inclusive, foram construídas três PCH – Pequenas Centrais Hidrelétricas, permitindo o aproveitamento de um desnível de mais de 50 metros ao longo do percurso do canal. 

Apesar de bem distante do Brasil, a Índia tem algumas peculiaridades bastante similares com o nosso país. Destaco a dificuldade de executar grandes obras públicas devido a enormes escândalos de corrupção e de desvio de verbas públicas. Qualquer semelhança com o Projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco no Nordeste brasileiro não é mera coincidência. 

Lá, entretanto, bem ao contrário do que muitas vezes acontece por aqui, sempre se consegue levar as obras a um bom termo. Políticos e empresários envolvidos em falcatruas são afastados e julgados (nem sempre condenados, é claro), mas o interesse público sempre acaba prevalecendo e as obras são concluídas. Esse foi o caso do Canal de Narmada, o que vem provocando enormes impactos econômicos e sociais, especialmente no Rajastão. 

Uma das regiões mais problemáticas da Índia tanto em termos políticos quanto para a prática da agricultura é o Rajastão, o maior estado indiano em área. Cerca de 3/5 das terras do Rajastão são tomadas pelas terras desérticas do Deserto de Thar. A maior parte desse deserto fica dentro do território da Índia (cerca de 85%) e o restante dentro do Paquistão. 

Relembrando um pouco da história, o Paquistão fazia parte do Vice-reino da Índia, uma possessão colonial da Inglaterra até 1947, quando toda a região conquistou a independência. Essa independência foi seguida um tumultuado e sangrento processo de partição do território entre muçulmanos e hindus. O Paquistão e Bangladesh, territórios de maioria muçulmana, foram desmembrados em um único Estado independente – o Paquistão. A maioria hindu ficou com o território da atual Índia. Em 1970, Bangladesh se tornou independente do Paquistão e também virou um Estado soberano. 

Desde então, indianos e paquistaneses vivem em um eterno estado de tensão e de disputas territórios, especialmente pelo controle da região da Cachemira e de Jammu, na região das Montanhas Himalaias. Dentro desse contexto complicado, o Governo da Índia sempre se preocupou em estimular o povoamento de toda a faixa de terras ao longo da fronteira com o Paquistão. 

No caso do Rajastão, a extrema aridez do Deserto de Thar sempre foi um obstáculo para o assentamento de agricultores nessa faixa fronteiriça. O Canal de Narmada surgiu com uma solução para parte desse problema. O canal principal no Estado possui cerca de 74 km de extensão, contando com 9 ramais de distribuição, atendendo uma área total de 1.477 km e abastecendo 124 aldeias. No total, o Canal de Narmada permite a irrigação de uma área total de 246 mil hectares. 

As águas do Canal de Narmada hoje abastecem as residências de centenas de milhares de indianos, além de permitirem a produção agrícola e a criação de animais em milhares de pequenas fazendas numa região que antes era praticamente inaproveitável para esses fins. 

Para o tamanho dessa imensa região árida e para um país com as características da Índia isso ainda é muito pouco. Com menos corrupção e desvios de recursos públicos, além de mais seriedade do Governo (propostas que também valem para nós aqui no Brasil), será possível fazer bem mais para essas populações e para as atividades agropecuárias.  

AS GRANDES PLANTAÇÕES DE BETERRABA NO DESERTO DO EGITO 

Sempre que falamos ou pensamos do Egito é quase que automático que imagens das pirâmides ou do rio Nilo surjam em nossa mente. A civilização egípcia foi uma das mais importantes da história da humanidade e importantes obras e feitos desse povo estão sendo descobertos quase que diariamente. 

A agricultura foi a grande mola propulsora da riqueza do antigo Egito. As cheias anuais do rio Nilo cobriam amplas extensões de suas margens com um húmus de altíssima fertilidade, permitindo a produção de grandes quantidades de alimentos para a sua população e também para a comercialização com nações vizinhas. 

O Egito ocupa uma área total de pouco mais de 1 milhão de km2, porém, a maior parte desse território é formado por solos desérticos e áridos. O país possui uma população de aproximadamente 90 milhões de pessoas, sendo que 99% desse total vive em uma área equivalente a 5,5% do território do país às margens e na região do Delta do rio Nilo. 

Essa extrema dependência do país e de sua grande população das águas do rio Nilo está começando a mudar. Uma área equivalente a 50 mil hectares de deserto na província de Minya, no Sul do Egito, está sendo transformada em terras agrícolas. Os antigos solos áridos agora abrigam gigantescas plantações de beterrabas sacarinas, além de trigo, milho e grão de bico. 

O projeto está sendo desenvolvido desde 2018, pela Canal Sugar Company, uma sociedade anônima egípcia com capital majoritário dos Emirados Árabes Unidos que foi criada com o objetivo de criar uma das maiores empresas produtoras de açúcar de beterraba do mundo e a maior do Egito e de todo o Oriente Médio. 

A sede do empreendimento fica a cerca de 300 km ao Sul do Cairo, a capital do Egito, com uma estimativa total de investimentos da ordem de US$ 1 bilhão. Cerca de 50 mil trabalhadores deverão ser empregados nas plantações e outros 1.500 na fábrica e nos serviços de armazenamento e transporte do açúcar e de outros produtos.

De acordo com informações da Canal Sugar Company, o consumo anual de açúcar no Egito é de 3,4 milhões de toneladas enquanto a produção chega a apenas 1,1 milhão de toneladas. A meta da empresa é suprir essa lacuna entre a produção e o consumo, tornando o país autossuficiente em açúcar.

A escolha do local para a implantação do empreendimento foi antecedida de detalhados estudos geológicos do solo, onde se identificou a existência de grandes reservatórios subterrâneos de água. Uma empresa chinesa especializada na exploração de petróleo e gás foi contratada para realizar a perfuração de poços de grande profundidade. Estão previstos de 330 a 350 poços em todo o empreendimento. 

A fábrica de açúcar iniciou suas operações de forma experimental em maio de 2022, com uma capacidade de produção de 900 mil toneladas/ano. Nessa fase, a fábrica passou a receber um volume equivalente a 2 mil toneladas de beterrabas ao dia. Conforme o ritmo de produção foi aumentando, a unidade passou a processar 18 mil toneladas de beterrabas por dia. 

Além de açúcar branco para consumo no mercado interno do Egito, a fábrica tem capacidade para produzir cerca de 216 mil toneladas de polpa de beterraba e 240 mil toneladas de melaço, produtos voltados para o mercado internacional. A meta é atingir capacidade de produção máxima até 2025. 

O pico de produção de beterrabas no Egito começa no início de março e vai até meados de julho, época do verão no Hemisfério Norte. Para permitir o armazenamento do açúcar e dos demais produtos processados, o projeto incluiu a construção de um silo com capacidade para armazenar cerca de 417 mil toneladas. 

A beterraba-sacarina (Beta vulgaris L.) tem a polpa branca/amarelada e é prima da beterraba comum de polpa roxa que nós plantamos aqui no Brasil. Essa planta possui uma elevada concentração de sacarose, sendo muito cultivada em países de clima temperado para a produção de açúcar e de etanol. 

Além de preencher uma importante lacuna no mercado interno do açúcar no Egito, esse projeto abre novas perspectivas para a produção agrícola no país. O Egito é extremamente dependente das águas do rio Nilo, um recurso que vem sendo cada vez mais ameaçado pela exploração dos demais países que formam a bacia hidrográfica. 

Além de Egito e Sudão, países com longa história e tradição cultural, a bacia hidrográfica do rio Nilo também inclui Etiópia, Uganda, Tanzânia, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Ruanda. Esses países sempre foram colocados num segundo plano em questões ligadas ao Nilo, especialmente devido ao histórico colonial da África. 

Entre 1882 e 1952, o Egito esteve sob a administração colonial do Império Britânico, domínio esse que se estendia rumo ao Sul e incorporava grande parte da região, incluindo o Sudão Anglo-Egípcio, Uganda e África Oriental Britânica – no meio dessa grande região, existia um enclave independente, o Reino da Abissínia (atual Etiópia), e colônias da Bélgica.  

Entre os países que formam a atual bacia hidrográfica do rio Nilo – Egito, Sudão, Uganda, Tanzânia e Quênia, foram formados a partir do desmantelamento dessa estrutura colonial britânica. A República Democrática do Congo, Ruanda e Burundi, são ex-colônias belgas. 

A fim de atender aos seus próprios interesses, o Governo Britânico criou um “tratado” para a divisão das águas do rio Nilo, onde 80% do recurso ficava reservado para o Egito e o Sudão. Além do uso pleno das águas do rio, esses países passaram a ter o direito de vetar quaisquer projetos de aproveitamento hidráulico a montante da bacia hidrográfica que, eventualmente, pudessem contrariar seus interesses.  

Esse “tratado” foi reconfirmado em 1959 e os demais países foram obrigados a se conformar com os 20% restantes das águas do rio Nilo. Não houve qualquer critério geográfico, tanto em aspectos físicos quanto humanos, que justificasse esses percentuais – a partilha das águas seguiu exclusivamente interesses políticos e econômicos dos ingleses. 

De alguns anos para cá, entretanto, os países com participação minoritária no acordo de partilha das águas do rio Nilo passaram a se rebelar e estão construindo barragens de hidrelétricas e sistemas de irrigação para o aproveitamento dessas águas sem dar satisfações para o Egito e o Sudão. Muitos analistas geopolíticos enxergam enormes riscos de um conflito militar entre esses países numa disputa pelas águas do rio Nilo. 

Dentro desse contexto explosivo, desenvolver novas formas de cultivo agrícola em áreas que não dependam das águas do rio Nilo é algo bastante “saudável” para os egípcios. 

IMPERIAL VALLEY: UM SINÔNIMO DE DESPERDÍCIO DE ÁGUA NA AGRICULTURA 

Na última postagem falamos brevemente da alta eficiência dos agricultores de Israel, que conseguem produzir grandes volumes de alimentos gastando pouca água e com baixas perdas no transporte das cargas até os consumidores finais. 

Sempre que as práticas agrícolas do pequeno país do Oriente Médio são citadas aqui no blog é inevitável não lembrar de uma região que trabalha de forma totalmente diferente na sua produção agrícola – o Imperial Valley no Sul da Califórnia nos Estados Unidos

O Imperial Valley é um trecho do Deserto de Sonora, uma extensa região na divisa do Estado da Califórnia com o México. Como todo deserto, o Imperial Valley tem uma precipitação pluviométrica bastante baixa – 76 mm por ano, o que, em tese, criaria enormes dificuldades para a produção agrícola. 

Essa região ficou muito conhecida em meados do século XIX, quando milhares de pioneiros atravessarem o Deserto de Sonora rumo a Califórnia. Falando um pouco sobre a história dos Estados Unidos – entre 1848 e 1852 houve a chamada “Corrida do Ouro na Califórnia”, quando foram descobertas as minas de Sutter’s Mill (uma espécie de Serra Pelada californiana), o que atraiu mais de 300 mil pessoas para o Estado. 

Durante as penosas caravanas através do deserto, esses aventureiros observaram que, apesar de muito áridas, as terras do Imperial Valley eram extremamente férteis. Os solos da região foram formados a partir de sedimentos carreados por antigas cheias do rio Colorado. Para transformar esse grande vale em um celeiro agrícola bastava levar água até lá, algo que foi realizado na virada do século XIX para o XX. 

Em 1901, o Governo dos Estados Unidos inaugurou o Canal do Rio Álamo, uma obra que passou a permitir o transporte de água a partir do rio Colorado utilizando um antigo leito de um rio seco. Em 1942, esse canal seria substituído por outro de maior capacidade – o All-American

Com a chegada da água e a construção de uma complexa rede de canais de irrigação a partir dos primeiros anos da década de 1900, o antigo deserto foi transformado em milhares de hectares de terras cultiváveis, criando uma das regiões agrícolas mais produtivas dos Estados Unidos. 

No total, o Imperial Valley passou a contar com mais de 2.300 quilômetros de canais de irrigação e 1.800 quilômetros de tubulações para o transporte de água. Esse sistema passou a distribuir um volume de água correspondente a 83% da cota de água do Rio Colorado a que tem direito o Estado da Califórnia (os Estados da bacia hidrográfica do rio Colorado possuem cotas de consumo de água).  

Com fartura de água, terras férteis e muito sol, a região acabou transformada na principal fornecedora de frutas e de vegetais de inverno dos Estados Unidos, produzindo duas colheitas a cada ano, feito raro em um país de clima temperado. A região também é grande produtora de alfafa, vegetal utilizado na alimentação do gado, especialmente nos meses de inverno quando as pastagens naturais ficam cobertas por grossas camadas de neve ou secam. 

O sucesso agrícola do Imperial Valley, entretanto, teve um alto custo ambiental – um uso cada vez mais abusivo de água. A intensa utilização de água na irrigação das terras do Imperial Valley, especialmente através do dispendioso processo de inundação de valas, criou um “subproduto” inesperado já nos primeiros anos do século XX – a percolação dos excedentes de água na direção de uma depressão ao Norte levou à formação do Lago Salton, transformado em uma atração turística no meio do deserto.  

Apesar de toda a beleza cênica, a água formadora do Lago Salton sempre apresentou altos níveis de contaminação por agrotóxicos e fertilizantes utilizados nas plantações, formando uma grossa camada tóxica no fundo de areia. Durante décadas, a lâmina de água do lago manteve estes resíduos tóxicos longe da população. Com a redução do consumo de água na agricultura, esse lago teve seu volume reduzido e essas areias tóxicas passaram a prejudicar a saúde da população local.

Durante todo o século XX, o Imperial Valley foi sinônimo de produção farta e o alto lucro no meio de um deserto – enquanto as águas desviadas do Rio Colorado escorriam em abundância através dos canais e tubulações dos sistemas de irrigação, a terra respondia com colheitas crescentes. A partir do ano 2000, todo o Sudoeste dos Estados Unidos passou a enfrentar uma severa seca que, de acordo com especialistas, foi a maior seca na região em 1.200 anos e a Califórnia seria o Estado que mais sofreria as consequências entre os anos de 2010 e 2014. 

A forte seca regional começou a afetar os rios formadores dos reservatórios de armazenamento de água de todo o sul do Estado da Califórnia, reduzindo fortemente a oferta de água pelos sistemas produtores e, consequentemente, a disponibilidade de água para abastecimento de cidades importantes como Los Angeles, San Diego e San Bernardino. A partir de 2010, quando a seca atingiu seu auge, grandes cidades do Sul da Califórnia foram obrigadas a impor uma redução compulsória de 25% no consumo de água das famílias, medida inédita na história americana. 

Sem fontes de abastecimento alternativas, estas grandes cidades voltaram sua atenção para as águas do Rio Colorado, que desde muito tempo já chegavam ao Sul da Califórnia através de sistemas de transposição e alimentavam parte dos sistemas de abastecimento e distribuição. Porém, entre o Rio Colorado e as cidades havia o Imperial Valley e seus organizados agricultores, que já estavam tendo seus próprios problemas com a redução dos volumes de água disponíveis e que não estavam dispostos a ceder nem mais um mísero litro de água para o abastecimento das cidades. 

A cidade de San Diego, por exemplo, conseguiu chegar num acordo com os produtores, financiando investimentos em novas tecnologias de irrigação mais eficientes como o micro gotejamento. A contrapartida negociada previa que toda a água economizada nos sistemas financiados pela cidade de San Diego seria revertida para o uso pela população da cidade.  

Como metade da irrigação usada nos campos utilizava o sistema de inundação de valas, volumes substanciais de água puderam ser revertidos para San Diego, apesar dos inúmeros protestos de agricultores que achavam que a cidade deveria pagar um valor adicional pelo uso das águas. Los Angeles e San Bernardino fizeram acordos emergenciais próprios com os agricultores. 

Nos últimos anos os agricultores do Imperial Valley foram obrigados a produzir gastando menos água. Mesmo assim, os gastos locais estão muito acima daqueles obtidos pelos agricultores de Israel, um sinal claro de baixa eficiência e produtividade dos yankees. Ainda dá para melhorar muito! 

A AGROPOECUÁRIA DE ALTA PRODUTIVIDADE E DE BAIXAS PERDAS DE ISRAEL 

Em nossa última postagem falamos do grande desperdício de alimentos que ocorre diariamente em nosso mundo, especialmente pelos norte-americanos, os grandes esbanjadores de comida. Cerca de 40% de todos os alimentos comprados país acabam indo parar no lixo. 

Aqui no Brasil também desperdiçamos um bocado de alimentos – de acordo com a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, o Brasil perde um volume próximo a 27 milhões de toneladas de alimentos por ano ou cerca de 10% da produção total. No mundo, essas perdas chegam a 931 milhões de toneladas por ano. 

Um dos maiores problemas brasileiros nessa área são as deficiências na embalagem de muitos alimentos frescos – especialmente frutas, legumes e verduras, além das dificuldades na logística de transporte. Parte considerável de muitas cargas desses produtos chegam, literalmente, despedaçadas nas centrais de distribuição. 

Para mostrar como é possível reverter essas perdas e ainda ganhar um bocado de dinheiro com a venda desses alimentos, gostaria de falar hoje de um pequeno país do Oriente Médio com área menor que o nosso Estado de Sergipe – Israel. Além do mesmo tamanho, Israel compartilha com Sergipe um clima bastante árido – aliás, lá é bem mais árido que o nosso sertão nordestino. 

O Estado de Israel ocupa uma área de 22 mil km², incluindo-se algumas áreas em litígio A população israelense é de pouco mais de 9 milhões de habitantes, equivalente à soma das populações das cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Para completar o quadro, o território de Israel é formado por terrenos difíceis para as atividades agrícolas: 60% do território fica dentro de regiões semiáridas e desérticas – metade da área restante é formada por solos rochosos.   

Apesar desses “pequenos problemas”, os israelenses conseguem atingir índices de produtividade impressionantes. Alguns exemplos na área de produção de frutas por hectare cultivado: 50 toneladas de maçãs, 65 toneladas de banana, 30 a 35 toneladas de pêssegos, citros e peras, além de 18 a 25 toneladas de frutas como uvas, abacates e tâmaras. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, os segredos de Israel estão na altíssima tecnologia dos sistemas de irrigação e num gerenciamento extremamente racional dos escassos recursos hídricos do país. 

No Norte de Israel, que poderia ser chamada de a região mais úmida do país, a precipitação média anual é de 700 mm. Para efeito de comparação, o nosso complicado Semiárido Nordestino tem uma precipitação média de 750 mm. Nos desertos do Sul, essa precipitação cai para apenas 50 mm ao ano.   

A principal fonte de água da região é o famoso rio Jordão, tão citado na Bíblia cristã. Com pouco mais de 200 km de extensão, o rio Jordão tem suas principais nascentes na região do Monte Hérmon ao Norte, mais conhecido como Colinas de Golã e que foi tomada da Síria por Israel após a Guerra dos Seis Dias em 1967.  

O rio Jordão também recebe contribuições de pequenos rios com nascentes no Líbano como o Dã e o Hasbani. As dimensões do rio Jordão lembram mais os córregos e ribeirões que encontramos por todo o Brasil – a largura média é de 18,3 metros, a profundidade máxima é de 5,2 metros e a vazão média é de apenas 16 m³/s.   

Conseguir praticar agricultura num país com solos tão inóspitos e ainda por cima com uma disponibilidade tão baixa de água já seria uma espécie de milagre digno de um grande destaque na bíblia. Mas os israelenses se superaram – o setor agropecuário representa 2,5% do PIB – Produto Interno Bruto, de Israel e 3,6% das exportações, respondendo por 95% do consumo interno de produtos naturais do país. 

As áreas irrigadas em território israelense, incluindo áreas de deserto, possibilitam a produção de uma infinidade de culturas, com destaque para: cereais como o sorgo, trigo e milho; mais de quarenta tipos de frutas com destaque para o abacaxi, melão, tâmaras, tangerina, maçã, pera, morangos, caqui, nectarina, romã, cereja, laranja, limão, kiwi, goiaba, abacate, banana e manga. Também entram na lista frutos e legumes como o tomate, pepino, pimentão e abobrinha; diversas espécies de uvas, o que tem impulsionado o crescimento da indústria vinícola no país.  

Outra área com intenso crescimento e exportações é produção de flores. Na área de produtos de origem animal, o leite é destaque, com espécies locais de vacas com produtividade superior às congêneres holandesas, consideradas grandes produtoras. Os maiores importadores de produtos agropecuários de Israel são os países da Comunidade Europeia. 

Exportar cereais secos, uma grande especialidade de nós brasileiros é fácil. Os grãos podem ser ensacados e empilhados em qualquer caminhão com condições de rodar até um terminal de cargas ou porto mais próximos. Em muitos casos, nem é preciso ensacar os grãos – basta despejar a carga numa caçamba fechada e pegar a estrada. 

A coisa muda completamente de figura quando falamos de frutas delicadas como morangos, peras, caquis, nectarinas e cerejas. Essas frutas vão exigir um cuidado extremo na manipulação, além de necessitar de embalagens de excelente qualidade. Em muitos casos, cada fruta precisa receber um dispositivo individual de proteção antes de ser colocada numa caixa. 

É justamente aqui onde nós brasileiros perdemos de goleada dos fazendeiros de Israel. 

As dificuldades de produção enfrentadas pelos produtores do país transformam cada fruta, verdura ou legume num verdadeiro troféu, um prêmio que vai merecer um enorme cuidado até que chegue nas mãos dos consumidores em terras distantes em perfeitas condições de consumo. 

É possível fazer com que todas as frutas e outros produtos agrícolas cheguem com 0% de perdas no consumidor final? É claro que não. 

Mas a prática tem mostrado que, com extremo zelo na manipulação, com embalagens de qualidade e com uma logística de transporte das mais eficientes, é possível exportar frutas e outros alimentos frescos com baixíssimos níveis de perdas, algo que faz parte do cotidiano dos produtores agrícolas de Israel. 

Todo o restante do mundo – especialmente nós brasileiros, temos muito a aprender com os agricultores de Israel. Esse aprendizado vai do consumo extremamente racional dos recursos hídricos e do melhor uso do solo, até o baixo desperdício daquilo que foi produzido nos campos. 

NORTE-AMERICANOS JOGAM 40% DOS ALIMENTOS QUE COMPRAM NO LIXO

Em tempos de escassez de alimentos e de grandes preocupações em todo o mundo, os norte-americanos são os campeões mundiais no desperdício per capita de alimentos – cerca de 40% dos alimentos comprados acabam sendo jogados no lixo

Paradoxalmente, 10% da população dos Estados Unidos ou cerca de 35 milhões de pessoas sofrem com a insegurança alimentar, um problema que cresceu bastante após a pandemia da Covid-19. De acordo com o USDA – Secretária de Agricultura dos Estados Unidos, esse número está ligeiramente mais baixo do que foi apurado entre 2019 e 2020. 

Para o Feeding América, a maior organização dedicada ao combate à fome dos Estados Unidos, esses números são muito otimistas – a organização afirma que 54 milhões de norte-americanos, ou 1 em cada 6 pessoas, está sofrendo com a insegurança alimentar no país. 

Entre os problemas o mais comum é o hábito local de colocar mais comida no prato do que o necessário para o tamanho da fome. De acordo com o livro “Os números não mentem”, de Vaclav Smil, que utilizou dados da USDA, um americano médio se serve de 3.600 calorias/dia no prato, mas só consome o equivalente a 2.100 calorias/dia. 

A comida que sobra no prato é simplesmente jogada no lixo. Esse desperdício de comida, para que todos tenham uma ideia do volume, seria suficiente para alimentar mais de 200 milhões de pessoas, ou, simplesmente, toda a população do Brasil. 

Segundo a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, 2,5 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas todos os dias no mundo. Falamos aqui de 931 milhões de toneladas por ano ou mais de três vezes a safra total de alimentos do Brasil em 2022.  

Recentemente, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Melhoria da Doação de Alimentos, projeto que já foi sancionado pelo Presidente Joe Biden. Essa nova legislação foi criada para facilitar a doção de alimentos por empresas e organizações. 

Até agora, todas as doações de alimentos só podiam ser feitas através de organizações assistenciais especializadas. Uma escola ou um restaurante, citando exemplos, não poderiam doar qualquer excedente de alimentos diretamente para pessoas ou famílias em situação de insegurança alimentar. 

Caso não existisse uma organização assistencial próxima que recebesse esse excedente de alimentos da escola ou do restaurante e que se encarregasse de repassá-los para os necessitados, esses alimentos seriam jogados diretamente numa lata de lixo, simplesmente pelo receio de desrespeitar a antiga lei. 

Fazendas, supermercados, fabricas de alimentos, cafeterias ou qualquer outra organização que produz qualquer tipo de alimentos, ficava sujeita a mesma limitação. A partir de agora, todas essas empresas poderão criar seus próprios mecanismos para distribuir todos esses excedentes diretamente a quem mais precisa. 

Como todos nós estamos cansados de saber, uma simples legislação não tem o poder de resolver um problema tão grande e complexo num país com as dimensões dos Estados Unidos. Será preciso um grande engajamento de empresários, políticos, catedráticos, líderes religiosos, entre outros. 

Nessa área, nós brasileiros também precisamos fazer o nosso dever de casa. Segundo levantamento da FAO, o Brasil desperdiça um volume próximo a 27 milhões de toneladas de alimentos por ano ou cerca de 10% da produção total. 

Diferentemente do desperdício dos norte-americanos, a maior parte de nossas perdas se dá no transporte e na manipulação nas centrais de abastecimento. Qualquer pessoa que visitar um “fim de feira” aqui no país vai ficar chocado com o volume de alimentos que vão diretamente para o lixo. 

Um exemplo que sempre chama a minha atenção são verduras com alface, rúcula, agrião e almeirão, muito populares aqui nas feiras do país. Essas verduras saem das chácaras e sítios em caixotes de madeira. Assim que chegam nas feiras, uma das primeiras ações do vendedor é retirar as folhas quebradas e machucadas antes de expor os alimentos nas bancas. 

As unidades que ficaram no fundo desses caixotes normalmente chegam tão destruídas até as feiras que nem vale a pena perder tempo retirando as folhas estragadas – o produto vai diretamente para o lixo. 

O mesmo acontece com frutas e legumes – grande parte dos produtos se perdem pela falta de uma embalagem adequada. Aliás, nosso país deixa de exportar milhares de toneladas de frutas todos os anos simplesmente por não ter tradição em embalar adequadamente esses produtos nos locais de produção. 

Não custa lembrar que a agricultura é a maior consumidora de água em qualquer lugar do mundo – em média, algo em torno de 70% dos recursos hídricos de uma região vaão para as atividades agrícolas. Além de água, há gastos com fertilizantes, defensivos agrícolas, mão de obra, transportes, entre outros. 

Ou seja – a perda é muito maior que o volume de alimentos que vai acabar sendo jogado no lixo. Em um planeta com 8 bilhões de bocas para alimentar e com mudanças climáticas criando problemas por todos os lados, já passou da hora de reduzir essas perdas injustificadas de tanta comida. 

ESCASSEZ DE FRUTAS, LEGUMES E VERDURAS NOS SUPERMERCADOS DA INGLATERRA 

As seções de frutas, legumes e de verduras dos supermercados da Inglaterra estão com diversas prateleiras e gondolas vazias já há algum tempo. Algumas redes de lojas, inclusive, estão impondo cotas de compras para os clientes

As razões para essa falta de produtos são várias, indo desde problemas climáticos até a desastrada política de restrição à circulação de pessoas durante a pandemia da Covid-19.  As autoridades afirmam que a crise é temporária e que dentro de poucas semanas as coisas voltarão ao normal.

Uma das causas do problema é o inverno europeu, quando um volume considerável de alimentos frescos precisa ser importado de outros países. Esse é o caso do tomate – entre 90% e 95% do volume consumido durante o inverno é importado. O Brexit, a saída do Reino Unido do Bloco Europeu em janeiro de 2020, criou uma série de dificuldades para as importações desses alimentos. 

Entre os alimentos mais escassos destacam-se tomates, pepinos, alfaces, brócolis, couve-flor e framboesas. Diferente de muitos países onde as pessoas não conseguem comprar os alimentos por falta de dinheiro, os ingleses dispões de recursos financeiros adequados, porém, não encontram alimentos a sua disposição. 

A Ministra do Meio Ambiente da Inglaterra, Thérèse Coffey, sugeriu que os britânicos comessem nabos ao invés de verduras e legumes. A “brilhante” sugestão faz lembrar a célebre frase atribuída a rainha Maria Antonieta aos franceses que clamavam pela falta de pão – “que comam brioches”. 

O clima do Reino Unido sempre foi bastante inóspito para a produção de plantas mais delicadas como verduras e algumas frutas. Há muito tempo que os agricultores das ilhas britânicas se valem de estufas para esses tipos de cultivo, uma alternativa que vem se tornando cada vez mais cara devido ao aumento da população. 

Outro grave problema das fazendas é a falta crônica de mão de obra. Assim como acontece em outros países considerados ricos, atividades manuais e/ou braçais de qualquer espécie são consideradas ultrajantes para os cidadãos nativos. Esses trabalhos, há muito tempo, vêm sendo delegados para imigrantes pobres vindos de países do Terceiro Mundo. 

No Reino Unido, até pouco tempo atrás, esses trabalhos ficavam por conta de imigrantes do Leste Europeu, especialmente poloneses, búlgaros, georgianos, entre outros povos dessa região pobre da Europa. As regras das União Europeia permitiam a livre circulação desses trabalhadores entre os países do bloco. 

Com a aprovação do Brexit e a saída do Reino Unido do bloco, essa regra deixaria de valer em 31 de janeiro de 2020, o que levou centenas de milhares desses trabalhadores a sair das fronteiras britânicas temendo represálias. 

O que os britânicos nem imaginavam é que o Brexit coincidiria com o início da epidemia da Covid-19. Como forma de contenção da doença, os países passaram a adotar a política de restrição de livre circulação de pessoas. Essa foi a gota d’água para muitos imigrantes que ainda persistiram em ficar no Reino Unido. 

Sem poder sair para trabalhar, esses trabalhadores foram forçados a voltar para seus países de origem – se é para ficar preso dentro de casa sem poder sair na rua, melhor fazer isso junto com seus familiares em suas cidades de origem. 

Notícias do final desse mesmo ano de 2020, já falavam da falta de muitos produtos nos supermercados do Reino Unido. Uma dessas notícias afirmava que estavam faltando motoristas de caminhões para fazer o transporte das mercadorias dos depósitos até as lojas – o país havia perdido 120 mil motoristas àquela altura.

O Brexit também mudou toda a logística para o transporte de produtos entre a Europa continental e o Reino Unido. Enquanto o país fazia parte da União Europeia, cargas de produtos circulavam livremente sem depender de controles alfandegários. Quando o Reino Unido deixou a UE, todos os transportes de produtos passaram a ser controlados e regulamentados por regras alfandegárias. 

Agora, um caminhão com frutas e legumes produzidos no Norte da França ou nos Países Baixos, regiões bem próximas das Ilhas Britânicas e que poderiam chegar aos supermercados em poucas horas, dependem de uma pilha de formulários e de autorizações para deixar o território da União Europeia e desembarcar na Inglaterra. Esses processos podem levar vários dias ou até mesmo semanas. 

Alimentos frescos, como todos sabem, precisam ser consumidos pouco tempo depois de serem colhidos, sob risco de perderem a qualidade ou até mesmo estragarem. As novas regras de circulação de mercadorias estão resultando em grandes perdas de produtos durante esse transporte, o que está reduzindo o volume vendido nos supermercados ingleses, o que também está resultando em preços mais altos. 

Por fim, e não menos importante, as Ilhas Britânicas estão sofrendo mudanças bastante visíveis no seu clima. As chuvas praticamente diárias que caiam sobre o Sul da Inglaterra já não são tão frequentes e as ondas de calor nos meses do verão tem levado os termômetros a superar a barreira dos 40º C

Práticas e técnicas agrícolas ancestrais que vinham sendo utilizadas há incontáveis gerações de agricultores das ilhas britânicas já não se mostram mais produtivas como no passado. As mudanças no clima e a escassez de água também estão dificultando a produção de diversas espécies de alimentos. 

Quando se juntam esses problemas ambientais com a falta de mão de obra e também com as dificuldades de importação, temos como resultado prateleiras de supermercados vazias e consumidores desesperados por não encontrar os alimentos que precisam levar para suas casas. 

A Irlanda está enfrentando problemas muito semelhantes a esse e vários países da União Europeia logo também começarão a viver essa nova realidade em suas feiras e supermercados. 

Esses são os novos e preocupantes tempos em que estamos vivendo, onde é mais fácil comprar um telefone celular do que um simples e trivial pé de alface…

E A SECA NO CHIFRE DA ÁFRICA PERSISTE

As populações da região conhecida como Chifre da África continuam em uma situação desesperadora. De acordo com informações da ACNUR – Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados, a região entrou na sexta temporada com chuvas bem abaixo da média. 

Segundo a ACNUR, a região convive atualmente com 3,3 milhões de refugiados e deslocados internos, populações que foram obrigadas a abandonar suas casas e terras ancestrais em busca de condições mínimas para a sobrevivência. 

O Chifre da África, também conhecido como Nordeste Africano e Península Somali é uma região com cerca de 1,88 milhão de km² no nordeste do continente africano, onde se incluem territórios da Somália, Etiópia, Eritréia e Djibuti. Essa é uma região de transição entre o clima árido do Deserto do Saara e das savanas, que também inclui uma faixa no norte do Quénia.  

Desde o início da década de 1980, a região vem enfrentando sucessivas secas – a crise atual é a maior dos últimos 40 anos. Segundo informações do PMA – Programa Mundial de Alimentos, e do UNICEF – Fundos das Nações Unidas para a Infância, mais de 13 milhões de pessoas estão tendo dificuldade de acesso aos alimentos na Somália, na Etiópia e no Quênia.  

Mudanças nos padrões climáticos do Oceano Índico, ligadas diretamente ao aquecimento global, são apontadas como uma das principais responsáveis pela redução dos volumes de chuvas no Leste e no Sul da África. Além de castigar a região do Chifre da África, a seca também está afetando países como Angola, Lesoto, Madagascar, Malauí, Namíbia, Moçambique, Zâmbia, Zimbábue e África do Sul.   

O Chifre da África ocupa uma área total pouco maior que a do Nordeste brasileiro, porém, com uma população várias vezes maior. No total, são cerca de 119 milhões de habitantes, sendo a maior concentração na Etiópia, onde vivem mais de 94 milhões de pessoas. Se incluirmos nessa conta a população que vive no Norte do Quênia, onde a seca também está sendo devastadora, a crise humanitária afeta mais de 130 milhões de pessoas. 

Em tempos de grandes preocupações com a produção e os estoques de alimentos em todo o mundo, essa crise se soma aos já inúmeros problemas. A exceção de algumas regiões da Etiópia, onde a prática da agricultura irrigada ganhou alguma importância após a construção de represas na calha do rio Nilo (construções bastante polêmicas, aliás), toda a produção agropecuária do Chifre da África é de subsistência. 

Numa “contabilidade global” de produção de alimentos, a região praticamente não produz excedentes para exportação – tudo o que era produzido ali era consumido pela própria população. Com a seca persistente e o colapso da produção agrícola e pecuária, bastante importante, a região se transformou num potencial importador de alimentos – a palavra potencial foi usada porque tratamos aqui de países pobres e sem recursos para pagar por essas importações.  

De acordo com um resumo da situação, feito pela porta-voz da ACNUR Olga Sarrado Mur, já existem mais de 1,7 milhão de deslocados internos apenas na Etiópia e na Somália. Mais de 180 mil refugiados da Somália e do Sudão do Sul, país vizinho ao Chifre da África, também foram deslocados. 

Somente nas últimas semanas, mais de 100 mil pessoas chegaram na região de Doolo, uma remota área somali da Etiópia, fugindo da seca em outras regiões e de conflitos militares na região de Laascaaanood, na Somália. 

Além da crise humanitária ligada diretamente à seca, esse deslocamento maciço de populações acaba amplificando conflitos interreligiosos entre as populações. O Chifre da África é uma área de transição religiosa entre as populações muçulmanas do Norte da África e cristãs do Sul. 

A religiosidade se manifesta em diferentes costumes sociais, de alimentação e de até na forma de se vestir. Essas diferenças, em muitos casos, desembocam diretamente na intolerância. Numa disputa ferrenha por itens básicos como água e alimentos, os sentimentos interreligiosos costumam aflorar violentamente. 

A ACNUR também denúncia inúmeros problemas ligados a maus tratos a crianças, e especialmente, a mulheres, dois dos grupos mais indefesos de qualquer sociedade. 

Como se não bastassem todos esses problemas, existem enormes disputas históricas entre os diferentes grupos tribais das diferentes regiões dos países, mesmo entre aqueles que professam a mesma fé. É intolerável para um grupo assistir suas terras sendo invadidas por uma tribo rival, que além de populações humanas, também traz os seus rebanhos animais para disputar os já parcos recursos naturais. 

A disputa desesperada por alimentos, pastagens e fontes de água, não raras vezes, acaba levando a conflitos armados entre os diferentes grupos. Isso tem criado verdadeiros bolsões de guerra em meio à desolação criada pela forte estiagem. 

Com chuvas abaixo da média em mais uma “estação chuvosa”, as perspectivas de mais um ano de seca em todo o Chifre da África tornam o cenário cada vez mais sombrio. Como o foco de europeus e norte-americanos parece estar totalmente voltado para o conflito na Ucrânia, as mazelas desses africanos acabam sendo jogadas para um plano bastante secundário. 

São vidas humanas que não importam para as populações dos países mais ricos…