A AGRICULTURA IRRIGADA EM ISRAEL

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No último post foi levantado um paralelo entre a tragédia do Mar de Aral na Ásia Central e a redução do nível do Mar Morto, localizado na divisa entre Israel e Jordânia. Em referência a Israel, as semelhanças ficam por aqui.

O Estado de Israel é um país muito pequeno – são 22 mil km², incluindo-se algumas áreas em litígio: isso equivale a pouco menos que três vezes a área da Região Metropolitana de São Paulo ou ainda, uma área equivalente a Sergipe, o menor Estado brasileiro. A população israelense é de pouco mais de 9 milhões de habitantes, equivalente à soma das populações das cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Apesar destes números “insignificantes” em termos mundiais, Israel é um gigante quando se fala em agricultura. Por si só, isso já seria uma grande façanha, mas tem mais: o território de Israel é formado por terrenos difíceis para as atividades agrícolas: 60% do território é formado por regiões semiáridas e desérticas – metade da área restante é formada por solos rochosos.

As primeiras experiências em agricultura na moderna Israel datam da última década do século XIX, quando os primeiros colonos judeus chegaram a Palestina e se estabeleceram em terras compradas por companhias internacionais. Fazendas foram adquiridas em regiões semiáridas abandonadas havia séculos, consideradas como “impossíveis” de serem cultivadas pelos palestinos e árabes de diversas etnias que habitavam na região. Com apoio internacional de dezenas de entidades judaicas de todo o mundo, esses colonos pioneiros iniciaram um intenso trabalho de pesquisa, desenvolvendo técnicas de recuperação de solos, limpeza de terrenos rochosos, dessalinização de campos, construção de terraços agrícolas e contenção de encostas, drenagem de pântanos, reflorestamento entre outras atividades. Paulatinamente, foram dominadas as técnicas no trato e cultivo dos solos locais, possibilitando a expansão dos projetos agrícolas e a aquisição de novas e maiores propriedades.

A moderna colonização de Israel foi baseada em produção pelo sistema de cooperativas, com dois tipos de assentamentos: o kibutz, comunidades coletivas em que os meios de produção, as responsabilidades e os eventuais lucros são de propriedade geral, e o moshav, vila agrícola onde cada família tem o direito a manter sua própria casa e trabalhar em sua própria terra, vendendo a sua produção para uma cooperativa. Foi a partir dessas bases de produção agrícola que foi formado o Estado de Israel, alçado à independência em 1947, e em conflito permanente com os palestinos, antigos habitantes da região, assunto que não discutiremos aqui.

Um ponto chave no desenvolvimento da agricultura israelense foi a criação de tecnologias de irrigação altamente eficientes, com destaque para a irrigação por micro gotejamento, técnica que transformou o país em referência mundial. Graças ao alto grau de desenvolvimento tecnológico em irrigação, sistemas de cultivo e ao desenvolvimento de espécies vegetais altamente adaptadas às condições de solo e clima, Israel consegue uma produção até 30 vezes maior por hectare que a maioria dos países. Entre as espécies vegetais desenvolvidas em institutos de pesquisa do país são destaques o tomate cereja, o melão Galia, diversas espécies de frutas cítricas e uvas, além de morangos, caquis e framboesas que crescem fora das estações. As variedades de algodão desenvolvidas também são destaque, com uma produtividade de 55 kg por hectare.

Diferentemente do que aconteceu na Ásia Central com seus sistemas de irrigação ineficientes e onde as perdas de água superam 90% entre absorção pelo solo e evaporação, a baixíssima disponibilidade de recursos hídricos em Israel obrigou, desde os primeiros anos da consolidação do país, a uma busca incessante pela excelência no uso racional de cada litro de água. O setor agropecuário representa 2,5% do PIB – Produto Interno Bruto, de Israel e 3,6% das exportações, respondendo por 95% do consumo interno de produtos naturais do país.

As áreas irrigadas em território israelense, incluindo áreas de deserto, possibilitam a produção de uma infinidade de culturas, com destaque para: cereais como o sorgo, trigo e milho; mais de quarenta tipos de frutas com destaque para o abacaxi, melão, tâmaras, tangerina, maçã, pera, morangos, caqui, nectarina, romã, cereja, laranja, limão, kiwi, goiaba, abacate, banana e manga; frutos e legumes como o tomate, pepino, pimentão e abobrinha; diversas espécies de uvas, o que tem impulsionado o crescimento da indústria vinícola no país. Outra área com intenso crescimento e exportações é produção de flores (vide foto). Na área de produtos de origem animal, o leite é destaque, com espécies locais de vacas com produtividade superior às congêneres holandesas, consideradas grandes produtoras. Os maiores importadores de produtos agropecuários de Israel são os países da Comunidade Européia.

Apesar dos inevitáveis problemas ambientais que estão sendo criados no Mar Morto, apresentados no último post, a eficiência dos sistemas de irrigação e a altíssima produtividade da agricultura de Israel merecem ser estudadas e copiadas pelas regiões semiáridas do Brasil, particularmente neste momento em que as águas da transposição do Rio São Francisco começam a chegar ao sertão Nordestino.

Chegaremos lá nos próximos posts.

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