O SUCATEAMENTO DA INDÚSTRIA PETROLÍFERA NA VENEZUELA

Lago Maracaibo

Nos últimos dois meses, as notícias sobre as manchas de óleo em praias da Região Nordeste se tornaram diárias, com novas localidades sendo atingidas diariamente. Nos últimos dias, fragmentos de óleo foram encontrados no Norte do Estado do Espírito Santo, felizmente em quantidades bem pequenas. De acordo com análises feitas em laboratórios em dezenas de amostras, esse óleo é uma mistura de, pelo menos, três tipos diferentes de petróleo de origem venezuelana. 

A Venezuela fica ao Norte da América do Sul, fazendo fronteira com a Amazônia brasileira ao Sul, com a Colômbia a Oeste e com a Guiana a Leste. O país tem uma área com mais de 910 mil km² e possui as maiores reservas confirmadas de petróleo e gás do mundo, superando inclusive a poderosa Arábia Saudita. Essas reservas petrolíferas se concentram na região do Lago Maracaibo e na bacia hidrográfica do rio Orinoco (ou Orenoco), a maior do país. As reservas de petróleo da Venezuela foram descobertas no início do século XX e sua exploração comercial teve início em 1922, se transformando na espinha dorsal da economia do país desde então. 

Durante várias décadas, a exploração do petróleo na Venezuela foi feita exclusivamente por empresas estrangeiras, onde os lucros com as vendas do produto eram divididos com o Governo do país. Em 1973, uma votação determinou a nacionalização da indústria petrolífera e em 1976 foi criada a PDVSA – Petróleos de Venezuela, estatal que passou a comandar a exploração, refino e as exportações do petróleo e seus derivados. A PDVSA cresceu rápido e em poucos anos se transformou em uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, se tornando cada vez mais independente do Governo. Na década de 1990, a empresa iniciou um processo de abertura do capital e atração de investidores estrangeiros, como forma de aumentar consolidar o seu crescimento e sua posição no mercado mundial. 

Em 1999, com a eleição de Hugo Chávez para a Presidência da República, a PDVSA inverteu sua curva de crescimento e iniciou um gradual processo de declínio. Chávez, que em 1992 comandou um frustrado golpe de estado, implantou o chamado Bolivarianismo na Venezuela, uma espécie de socialismo sul-americano piorado. Entre outras medidas populistas, o Governo passou a limitar os investimentos e a participação de grupos estrangeiros na PDVSA a partir de 2001, além de criar todos os tipos de empecilhos para a atuação de empresas estrangeiras no país.  

Apesar do forte processo de desindustrialização e da necessidade cada vez maior de importação de alimentos e bens de consumo de todos os tipos, os altos preços do petróleo no mercado internacional permitiam a prática de fortes políticas para a redução da pobreza e de intervenção do Estado na economia do país. O Governo da Venezuela “surfou nessa onda” enquanto pode. O barril de petróleo, que no ano de 2008 chegou a valer perto de US$ 160.00, despencou bruscamente para pouco mais de US$ 40.00 em 2009. Sem essas receitas externas do petróleo que irrigavam e nutriam a economia, a Venezuela iniciou sua caminhada rumo ao colapso atual

Além da queda nos preços internacionais, a Venezuela já vinha sofrendo uma redução sistemática da produção de petróleo, onde a raiz do problema está na má gestão da PDVSA, que passou a ser comandada por “companheiros” Bolivarianos. No início da década de 2000, a Venezuela apresentava uma produção diária de mais de 3 milhões de barris de petróleo – atualmente, a produção do país mal consegue superar a barreira de 1 milhão de barris/dia. As unidades de extração e produção de petróleo também vêm diminuindo gradativamente – no início de 2016, o país dispunha de 70 plataformas de exploração de petróleo e, hoje, são pouco mais de 20 unidades. Essa queda brusca da produção e exportação do petróleo e seus derivados está ligada diretamente às sanções econômicas internacionais enfrentadas pela Venezuela. 

Além da queda nas vendas e a redução das receitas externas do país, o que devastou a economia da Venezuela, o país passou a enfrentar dificuldades para a importação da nafta, um produto químico essencial para a produção local de petróleo. O petróleo bruto venezuelano é muito denso, apresentando uma consistência quase sólida. Para tornar o produto viscoso e fluído para o bombeamento em tubulações e oleodutos, o petróleo venezuelano precisa receber a adição de diluentes químicos como a nafta. O maior fornecedor de nafta para a Venezuela eram os Estados Unidos, país que também ocupava a posição de maior comprador de petróleo da Venezuela e que acabou alçado à condição de grande inimigo do país pelo regime Bolivariano. 

Com a decadência da PDVSA, veio o sucateamento de toda a indústria petrolífera da Venezuela. Um exemplo dessa situação pode ser visto nitidamente no Lago de Maracaibo, um dos maiores centros de produção de petróleo do país. Com mais de 13 mil km² de área, as águas verdes do Lago de Maracaibo estão sendo tomadas por manchas de óleo. Há cerca de dez anos, a produção local de petróleo era da ordem de 1 milhão de barris/dia e, atualmente, essa produção mal consegue superar a barreira dos 160 mil barris/dia. Com a queda da produção e das receitas, a PDVSA ficou sem recursos para a manutenção das plataformas e das tubulações – há vazamentos de petróleo por todos os lados (vide foto). 

De acordo com análises feitas em laboratório, metade das espécies aquáticas do Lago de Maracaibo, que vão de peixes e crustáceos até espécies locais de botos e peixes-boi, apresentam sinais de contaminação por óleo. Essa contaminação atinge em cheio os milhares de ribeirinhos que vivem na região e que dependem da pesca para a sua sobrevivência e alimentação. A Venezuela, vale lembrar, é um dos países com uma das maiores biodiversidades do mundo e que apresenta a maior concentração de espécies justamente na região da bacia hidrográfica do rio Orinoco, o maior centro de produção de petróleo do país. Com o sucateamento das instalações petrolíferas, toda essa biodiversidade está ameaçada pelos vazamentos de petróleo. 

Infelizmente, esse sucateamento da indústria petrolífera não fica limitado apenas ao território da Venezuela. Com as sanções econômicas enfrentadas pelo país, o que entre outras coisas cria inúmeras dificuldades para a venda legal de petróleo no mercado internacional, foi criado um perigoso “mercado negro” para a venda do óleo local. Navios petroleiros “fantasmas” passaram a frequentar os terminais petrolíferos do país para o embarque e o transporte do produto para uns poucos compradores internacionais – a Índia é um exemplo e compra aproximadamente a metade da atual produção petrolífera da Venezuela. 

Os navios petroleiros “fantasmas” são famosos por navegar pelos oceanos com o transponder desligado. Esses equipamentos, que também são usados nos aviões, permitem o rastreamento e o acompanhamento do posicionamento geográfico das embarcações nos oceanos em tempo real. Caso ocorra algum acidente ou vazamento de petróleo no mar, as Guardas Costeiras ou Marinhas dos países afetados pela mancha de óleo podem identificar a embarcação responsável. No caso das manchas de óleo que atingiram a costa do Nordeste brasileiro, uma das suspeitas em investigação foi o uso de um desses navios petroleiros “fantasmas” para o transporte do petróleo até águas internacionais no Oceano Atlântico, onde a carga foi transferida para uma embarcação legalizada em alto mar, numa operação conhecida como ship-to-ship

Ao que tudo indica, ocorreu uma falha durante essa operação de transferência e um grande volume de petróleo cru caiu no mar. A mancha de óleo que se formou foi arrastada pelas correntes oceânicas na direção da costa do Nordeste e resultou nesse grande desastre ambiental que assistimos em nossas praias. As autoridades brasileiras já identificaram um navio de bandeira grega supostamente envolvido nessa operação – a empresa proprietária nega qualquer participação no vazamento de petróleo. A Venezuela também nega que tenha vendido ou embarcado petróleo ilegalmente em petroleiros “fantasmas”. 

Como se nota, também estamos sendo vítimas e estamos pagando um alto preço por causa do sucateamento da indústria petrolífera da Venezuela. Lamentável. 

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