A EXPLORAÇÃO DO CARVÃO EM SANTA CATARINA E A POLUIÇÃO DO RIO TUBARÃO

Na última postagem falamos do problemático rio Itajaí-Açu, um dos mais importantes cursos d’água do Estado de Santa Catarina. Fundamental como via de transporte e comunicações ao longo da história do povoamento de uma extensa região catarinense, o rio Itajaí-Açu viu nascer ao longo de suas margens uma infinidade de cidades como Itajaí, Blumenau entre muitas outras.

A ocupação desordenada de suas margens amplificou, e muito, as enchentes naturais do rio, um problema que afeta milhares de pessoas em todo o seu vale. Além das enchentes, um outro grave problema do rio é a poluição de suas águas, que recebem despejos de grandes quantidades de esgotos e resíduos sólidos. 

Cerca de 200 km ao Sul, encontramos um outro rio catarinense também muito problemático – o rio Tubarão, um curso d’água que sofre as consequências da intensa mineração de carvão mineral. O rio Tubarão nasce nas encostas da Serra Geral Catarinense, num trecho conhecido como Serra do Rio do Rastro. Os principais afluentes são os rios Braço do Norte e Capivari. O rio percorre cerca de 120 km, atravessando 20 municípios, até desembocar na Lagoa de Santo Antônio, no litoral de Santa Catarina, nas proximidades da cidade de Laguna.  

A origem do nome do rio é bastante curiosa – ao contrário do que parece, o nome não guarda qualquer relação com o grande peixe oceânico homônimo. O nome Tubarão surgiu como uma variação do nome indígena do rio – tubá-nharô, nome de um antigo cacique e que significa “pai bravo”. Só como curiosidade, a palavra tupi para tubarão é iperu.  

A bacia hidrográfica do rio Tubarão está inserida em meio a grandes jazidas de carvão mineral, onde são realizadas intensas atividades de mineração. As águas dos rios sofrem constante contaminação com drenagens ácidas, geradas principalmente pela lixiviação ou solubilização dos rejeitos minerais pelas águas das chuvas. Essas águas contaminadas são usadas no abastecimento de mais de 125 mil habitantes em cidades da região como Tubarão e Capivari de Baixo. O rio Tubarão ocupa a 10ª posição entre os rios mais poluídos do Brasil. 

O carvão mineral é uma rocha sedimentar sólida que foi formada ao longo de milhões de anos a partir do acúmulo e soterramento de matéria orgânica de origem vegetal. Essa matéria orgânica sofreu um processo de carbonificação, onde o hidrogênio e o oxigênio foram expulsos, favorecendo a concentração do carbono, o principal constituinte do carvão.  

Considerado um dos mais importantes combustíveis do planeta, o carvão tem uso intensivo em atividades industriais e em usinas termelétricas – cerca de 40% da energia elétrica usada no mundo é gerada a partir da queima do carvão. Essa queima responde por um volume entre 30 e 35% das emissões mundiais de gás carbônico (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo Efeito Estufa. O consumo mundial atual de carvão mineral é da ordem de 5,5 bilhões de toneladas. 

A queima do carvão também é fundamental para o processamento e produção de metais como o ferro e o aço. O Brasil não dispõe de grandes reservas de carvão de boa qualidade e, durante muito tempo, o carvão de origem vegetal foi usado como combustível nos altos fornos das forjas, o que levou a intensos processos de desmatamentos como o que se assistiu em Minas Gerais. A região de Laguna, no Sul do Estado de Santa Catarina, é uma das poucas produtoras de carvão mineral no Brasil. 

A mineração do carvão expõe rochas e rejeitos ricos em sulfetos, que liberam grandes quantidades de metais nas águas. Esses poluentes se associam aos sedimentos, dando-lhes uma cor alaranjada. Menos de 1% dessas substâncias são dissolvidas na água e cerca de 99% ficam armazenadas nos sedimentos dos corpos hídricos, o que significa que os contaminantes permanecerão ativos a longo prazo. É por isso que antigas áreas de mineração desativadas há muitas décadas continuam poluindo as fontes de água.  

Metais acumulados nos sedimentos dos corpos hídricos passam por processos de bioacumulação em vegetais e, posteriormente, são transmitidos por toda a cadeia alimentar. Metais pesados altamente tóxicos como o cádmio, chumbo e mercúrio podem, através desse processo, contaminar seres humanos, por exemplo, através do consumo de peixes pescados nessas águas. Esse processo de transferência de metais entre os seres vivos é chamado de biomagnificação. As águas que formam a bacia hidrográfica do rio Tubarão sofrem com esse e com muitos outros males. 

Os problemas com a qualidade das águas do rio Tubarão são bem antigos e o processo de tratamento dessa água para o abastecimento de populações é cerca de 15% mais caro do que em outros rios. Devido a acidez da água e da grande presença de metais pesados, as estações de tratamento precisam realizar um pré-tratamento da água com a adição de cloro antes de iniciar o processo de tratamento propriamente dito. Esse custo extra, é claro, acaba sendo pago pelos consumidores, fato que causa enormes descontentamentos na população em relação às empresas mineradoras. 

A exploração do carvão mineral na Região Sul, especialmente no Estado de Santa Catarina, ganhou impulso no início da década de 1940, quando foi iniciada a construção da CSN – Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, interior do Estado do Rio de Janeiro. A CSN foi a primeira grande usina siderúrgica a ser construída no país (antes dela, praticamente todo o aço usado no país era importado) e foi fundamental para o processo de industrialização do Brasil, especialmente na introdução da indústria automobilística no final da década de 1950. 

Para cada tonelada de minério bruto extraído são gerados cerca de 600 kg de resíduos sólidos, divididos entre rejeitos finos e grossos, e aproximadamente 1,5 m³ de efluentes ácidos. Para que todos tenham uma ideia do volume desses rejeitos, somente no Distrito Carbonífero do Sul de Santa Catarina, que concentra 75% das lavras subterrâneas e das usinas de beneficiamento e 83,3% das usinas de beneficiamento/lavagem de carvão, foram geradas aproximadamente 4 milhões de toneladas de rejeitos apenas no ano 2000

Os problemas de contaminação das águas não ficam limitados apenas ao rio Tubarão e seus afluentes. Uma outra bacia hidrográfica, a do rio Ararangá, é uma das mais comprometidas pela mineração do carvão na região. Um dos rios da bacia hidrográfica, o rio Sangão, é cercado de áreas alagadas onde se cultiva arroz e trigo – em situações de fortes chuvas, essas áreas ficam sujeitas ao transbordamento do rio e a contaminação dos solos com resíduos minerais, um problema que fatalmente será passado para as plantas.  

As empresas mineradoras de carvão, principais responsáveis por toda essa poluição e alvo de constantes embates por parte das populações, se defendem reclamando dos graves prejuízos que o setor vem sofrendo por causa da importação do carvão, que foi liberada em 1990, e também da redução da demanda do produto provocada pelas sucessivas crises econômicas vividas pelo país nos últimos anos. 

Há consenso entre as empresas da necessidade de melhorias nos processos de gestão e a modernização dos sistemas de tratamento das águas que serão descartadas no meio ambiente. Porém, as empresas alegam que os custos destas medidas mitigadoras são muito altos e que precisam, é claro, de grandes incentivos governamentais para resolver os problemas.

Já os Governos, tanto do Estado quanto o Federal, atolados em dívidas e cheios de problemas, se mostram absolutamente inertes. Só para constar, o atual Governador de Santa Catarina – Carlos Moisés, está afastado do cargo e sofrendo um processo de impeachment

No meio de tudo isso, populações e meio ambiente sofrem com a poluição das águas. 

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