A EUROPA E SEUS RIOS SECOS

A forte seca e os baixos níveis do rio Reno estão ameaçando a indústria alemã. Essa afirmação foi emitida em nota há poucos dias atrás pela BDI – Federação da Indústria Alemã. E esse mesmo alerta vale para importantes rios de diferentes países da Europa.  

O Reno é um dos rios mais importantes da Europa e, desde a antiguidade, a navegação pelas suas águas vem sendo fundamental para a formação e manutenção de grandes impérios e nações. Com quase 1,3 mil quilômetros de extensão, desde as suas nascentes em geleiras nos Alpes Suíços até sua foz no Mar do Norte nas proximidades de Rotterdam, o rio Reno é uma rota vital para a economia da Suíça, Áustria, Alemanha, Liechtenstein, França e Holanda.  

O Porto de Rotterdam, localizado próximo do encontro das águas do Reno com o Mar do Norte na Holanda, exemplifica a importância dessa via de transporte fluvial: é um dos maiores portos do mundo, com cerca de 40 km de extensão linear entre cais e depósitos, movimentando cerca de 400 milhões toneladas de carga a cada ano e empregando aproximadamente 300 mil trabalhadores. A cidade de Rotterdam, que tem 500 mil habitantes, é sede de um importante complexo industrial, além de abrigar o maior polo petroquímico da Europa. 

Com a forte seca que vem assolando grande parte da Europa há vários meses, o Reno está com cerca da metade do nível normal para essa época do ano. A navegação de grandes barcaças de carga está comprometida e o transporte de cargas vitais para a economia dos diferentes países servidos pela hidrovia está ameaçado, especialmente na Alemanha. 

Combustíveis e derivados de petróleo, carvão mineral, minérios, além de cargas volumosas e pesadas sempre foram transportados por barcaças através dessa hidrovia. Cada uma dessas barcaças de carga transporta um volume equivalente entre 40 e 100 caminhões, o que nos dá uma ideia dos impactos de uma eventual paralização na movimentação de cargas no rio Reno. 

E os problemas não se limitam ao rio Reno. Um outro importante rio que está secando a olhos vistos ó rio Pó, o maior e mais importante da Itália. Conforme comentamos em uma postagem anterior, o vale do rio Pó concentra cerca de 1/3 da produção agrícola italiana. 

O rio Pó nasce nos Alpes Italianos junto à fronteira com a França e percorre 652 km no sentido Leste até desaguar no Mar Adriático ao Sul da famosa cidade de Veneza. Ele atravessa os Estados italianos de Piemonte e da Lombardia, considerados os maiores celeiros agrícolas da Itália. Um exemplo da pujança dessa região pode ser visto na produção de arroz – 93% da produção italiana está concentrada nesses dois Estados. 

O vale do rio Pó também responde pela maior parte da produção de trigo e cevada, entre outros grãos, além de amêndoas, nozes e frutas. A região também concentra grande parte da pecuária do país. Com os baixos níveis do rio, grande parte dessa produção está ameaçada. 

Outro exemplo da inclemência da seca pode ser visto no rio Loire (ou Leire em occitano), um dos mais famosos da França. Essa região com feições de “contos de fada” é famosa em todo o mundo pelos seus castelos. Com os baixíssimos níveis das últimas semanas, a população está conseguindo atravessar o leito do rio a pé. 

Além dos gravíssimos impactos na agricultura – lembrando que a França é um dos grandes produtores de alimentos da Europa, e no abastecimento das populações, os baixos níveis dos rios estão ameaçando a geração de energia elétrica no país. Cerca de 70% da eletricidade consumida pelos franceses vem de centrais nucleares, onde a água dos rios é fundamental nos processos de resfriamento dos reatores – sem água, muitas dessas usinas estão sendo desligadas. 

Uma outra importantíssima hidrovia da Europa que sofre com os baixos níveis das águas é a do rio Danúbio. Com aproximadamente 2,8 mil km de extensão, o rio Danúbio atravessa 9 países da Europa e ocupa a posição de segundo maior rio do continente, perdendo apenas para o rio Volga da Rússia.  

A hidrovia do rio Danúbio é uma das mais importantes do mundo, tanto em termos de volumes de cargas e de pessoas transportadas todos os anos quanto pelo número de países cortados por ela: Alemanha, Áustria, Eslováquia, Croácia, Sérvia, Hungria, Bulgária, Romênia e, na região do Delta do Danúbio, um trecho da Ucrânia.  

A lista de países fica ainda maior quando se incluem os afluentes navegáveis da bacia hidrográfica: República Tcheca (rio March), Bósnia-Herzegovina (rio Save) e Moldávia (rio Pruth). A maior parte dos países listados não têm acesso direto ao mar, algo que representaria um enorme obstáculo ao seu desenvolvimento econômico, uma vez que o comércio marítimo é fundamental para os grandes países. 

O mítico “Danúbio Azul”, que foi imortalizado na famosa valsa do compositor austríaco Johann Strauss II, está apresentado águas com uma infinidade cada vez maior de tons na cor marrom devido aos grandes bancos de areia que surgem a todo o momento ao longo do seu leito. 

Nem mesmo o icônico rio Tâmisa, o maior e mais importante rio da Inglaterra, está saindo ileso dessa forte seca. Oficialmente, o rio Tâmisa nasce no condado de Gloucestershire e suas águas percorrem cerca de 346 km até encontrarem as águas do Mar do Norte. Ao longo do seu curso, o rio atravessa algumas importantes cidades da Inglaterra como Oxford, Eton, Walingford, Reading, Windsor e Londres. Essa “nascente oficial” do rio secou. 

Fortes ondas de calor e grandes secas sempre ocorreram por toda a Europa. Um exemplo disso são as chamadas “pedras da fome”, inscrições líticas que sempre aparecem nos momentos em que as águas dos rios baixam muito. Populações do passado, especialmente entre os séculos XV e XIX, deixaram esculpidas nas pedras as datas em que ocorreram essas grandes secas e as consequentes fomes. 

O que vem se notando nas últimas décadas é um aumento vertiginoso na frequência e na intensidade das grandes secas no continente – eventos extremos que ocorriam de duas a três vezes a cada século agora ocorrem a intervalos de três anos. 

Estudos mostram que o continente europeu é o que está sofrendo com maior intensidade os efeitos do aquecimento global. E as notícias não são nada animadoras – as coisas ainda vão piorar muito nos próximos anos. 

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