OS PROBLEMAS DA ENERGIA NUCLEAR EM UMA EUROPA EM CRISE ENERGÉTICA, CLIMÁTICA E DE SEGURANÇA 

A geração de eletricidade partir de fontes nucleares é fundamental para diversos países europeus. Um grande exemplo é a França, onde cerca de 70% de toda a energia elétrica consumida pela população vem de centrais nucleares. Outros exemplos são a Finlândia e a Bélgica, onde essa geração responde por 35% da oferta de energia elétrica. 

As primeiras especulações sobre a constituição da matéria remontam ao século 4° a.C., quando os filósofos gregos Leucipo e Demócrito se questionaram sobre a divisão da matéria em partes cada vez menores até chegar ao elemento formador da matéria. Esse elemento passou a ser chamado de átomo, palavra grega que significa indivisível.  

O aprofundamento dos estudos e o uso prático da energia nuclear, entretanto, só ganharia força a partir do final do século XIX, quando começaram a se destacar cientistas como Joseph John Thompson, Marie e Pierre Curie, Albert Einstein, Niels Bohr, Ernest Rutherford e Enrico Fermi, entre inúmeros outros. Graças a todos os conhecimentos acumulados, Otto Hahn e Fritz Straßmann conseguiriam realizar a primeira fissão nuclear em Berlim em1938.   

Vista inicialmente pelo seu enorme potencial bélico e militar, o desenvolvimento da energia nuclear levou a uma verdadeira corrida entre os principais países do mundo, em especial os Estados Unidos e a Alemanha nazista em plena Segunda Guerra Mundial. Felizmente, se é possível usar essa palavra, essa corrida foi vencida pelos norte-americanos, que lançaram duas bombas atômicas sobre o Japão em 1945. A derrotada Alemanha estava, segundo muitos historiadores, a seis meses de conseguir construir armas nucleares naquele momento.

As aplicações da energia nuclear para fins civis remontam ao final da década de 1940, quando foram iniciadas as obras das primeiras centrais para geração de energia elétrica. A primeira dessas unidades foi a Usina Nuclear de Obninsk, na então URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1954. Atualmente, existem cerca de 440 reatores nucleares em operação em mais de 30 países do mundo, que geram cerca de 390 GW de energia elétrica. 

Uma página negra da energia nuclear foi escrita entre os dias 25 e 26 de abril de 1986. Durante um desastrado teste de segurança, o reator número 4 da Usina Nuclear de Chernobyl explodiu e criou o maior acidente deste tipo na história. Além de contaminar imediatamente centenas de pessoas e provocar a morte de algumas pessoas, a radiação e os materiais radioativos liberados na atmosfera contaminaram centenas de milhares de pessoas que viviam dentro de uma vasta região da Ucrânia, então uma das Repúblicas da União Soviética e sede da Usina, além de atingir áreas da Bielorrússia, da Rússia e países da Europa Ocidental.   

Apesar de sua ligação direta com armas de destruição de massa e de tragédias como a que ocorreu em Chernobyl, a tecnologia das centrais nucleares evolui muito ao longo das últimas décadas, atingindo altos patamares de segurança e de eficiência. Para muitos especialistas, a geração de energia elétrica em centrais nucleares é uma das menos danosas ao meio ambiente – para outros grupos, a geração de resíduos radioativos e os riscos de acidentes ainda são problemas gravíssimos. 

Entre prós e contras, é fato que as centrais nucleares em operação estão fazendo um bom trabalho em muitos países, especialmente em um momento delicado de crise ambiental mundial. Quando comparadas às centrais de geração termelétricas a carvão mineral ou a gás natural, as emissões de gases de efeito das centrais nucleares são baixíssimas. 

Desgraçadamente, essa importante fonte de geração de energia elétrica vem enfrentando problemas bem particulares nesses últimos meses em países da Europa. Entre esses problemas desacatam-se a forte seca que está assolando diversos países do continente e o conflito entre a Rússia e a Ucrânia

A falta de chuvas e o forte calor que está assolando grande parte da Europa tem provocado uma baixa recorde do nível de importantes rios como o Reno, o Pó, o Danúbio, o Tâmisa, entre muitos outros. Isso está causando problemas para o abastecimento de água de populações e também para a produção agrícola e pecuária de muitas regiões. 

Os baixos níveis de muitos desses rios também está afetando a produção de energia elétrica. Um exemplo é o caso do rio Pó, na Itália, responsável por cerca de 15% de toda a geração de eletricidade do país. As centrais hidrelétricas instaladas na calha do rio estão operando com cerca de metade da capacidade em relação aos níveis de 2021 por causa da seca. 

Os baixos níveis dos rios também estão afetando a geração em diversas usinas nucleares. Apesar da energia dessas unidades ser originada pela fissão de materiais nucleares, a água é fundamental tanto para a operação quanto para o resfriamento dos reatores. Com os baixos níveis dos rios, muitas dessas centrais foram obrigados a reduzir a sua produção de energia elétrica. 

Durante a fissão dos elementos nucleares nos reatores, grandes volumes de calor são liberados – esse calor é usado para transformar a água em vapor que será usado para mover as pás de turbinas geradoras de energia elétrica. A água quente resultante desses processos é descarregada em rios próximos. A temperatura dessas águas deve respeitar certos limites para não afetar a fauna e a flora aquática. 

Com os baixos níveis dos rios, o volume de água quente que pode ser liberado pelas usinas nucleares precisa ser reduzido, o que está afetando diretamente a produção de energia elétrica. Cerca de metade das 19 centrais nucleares da França estão sendo afetadas por esse problema, o que é uma verdadeira tragédia em um momento de crise energética mundial. 

Além do clima, muitos países que operam centrais nucleares dependem do fornecimento de pastilhas de urânio enriquecido e de peças de reposição fabricadas na Rússia. Muitos desses países faziam parte da Antiga URSS e suas usinas foram fabricadas com tecnologia nuclear e equipamentos russos. 

Um desses casos é a República Tcheca, país que possui duas dessas centrais nucleares, que respondem por cerca de 40% de toda a produção de energia elétrica consumida pela população. Há poucos dias atrás, os tchecos receberam um carregamento de pastilhas de urânio enriquecido vindas da Rússia, elementos que garantirão o funcionamento das centrais nucleares de Temelín e Dukovany por até 4 anos. 

Por causa do conflito com a Ucrânia, a Rússia está sofrendo toda uma série de embargos econômicos, o que vai afetar a continuidade do fornecimento de combustível nuclear e de peças de reposição para a República Tcheca e diversos outros países. Ou seja, além de não poder mais contar com o gás natural da Rússia, que vinha sendo usado para a geração de energia “limpa” em muitos países – especialmente na Alemanha, a bola da vez agora são essas centrais nucleares. 

Para encerrar, ainda existe o problema da Usina Nuclear de Zaporizhia em Enerhodar, Ucrânia. Essa é a maior usina do tipo em operação atualmente na Europa e se encontra em meio ao fogo cruzado de soldados russos e ucranianos. Existe um temor generalizado que um novo acidente nuclear possa acontecer no local. Notícias divulgadas nas últimas horas dão conta que a usina foi desconectada da rede elétrica da Ucrânia no ultimo dia 25 de agosto.

Sem outras alternativas, muitos países da Europa estão mesmo é reativando as boas e velhas usinas termelétricas a carvão que, apesar de altamente danosas ao meio ambiente, garantem todos os confortos da vida moderna. O meio ambiente, literalmente, “que se dane”… 

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