OS RISCOS DE EXTINÇÃO DE OUTROS ANIMAIS DO CERRADO

ONÇA-PINTADA Panthera onca

Nas duas últimas postagens falamos dos impactos da destruição de extensas áreas do Cerrado na população de aves do bioma – algumas espécies correm risco eminente de extinção enquanto outras fogem para outros biomas, reduzindo dramaticamente as populações em algumas regiões, um problema que poderá causar profundos impactos nas formações vegetais. Mas, além das aves, outras espécies de animais também estão sofrendo com a destruição da cobertura florestal nativa do Cerrado. Vejamos algumas: 

Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus): É um canídeo adaptado para a vida em ambientes abertos, com hábitos de vida noturna e com uma alimentação onívora, comendo qualquer coisa que encontre, especialmente pequenos roedores, ovos e aves, raízes e frutas, especialmente a lobeira, uma fruta silvestre do Cerrado muito parecida com o tomate e que pode representar até 50% da dieta do animal. Essa preferência por frutas torna o lobo-guará uma espécie com um importante papel na dispersão de frutos do Cerrado a partir das sementes não digeridas, que são expelidas junto com as fezes. Casais de animais da espécie ocupam sozinhos grandes extensões territoriais que podem ter mais de 120 km².  

O lobo-guará é considerada uma espécie-chave do Cerrado, sendo considerada uma das espécies que representam o bioma. A presença dessas espécies fala muito sobre as condições do meio ambiente, uma vez que esses animais ou plantas interagem direta ou indiretamente com todo o ecossistema, especialmente regulando as cadeias tróficas, que são os fluxos de matéria e energia do sistema. 

Onça-pintada (Phantera onca): É o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, só ficando atrás do tigre asiático e do leão africano. O felino (vide foto) ocupava um extenso território desde o Sul dos Estados Unidos até o Norte da Argentina, porém, com o avanço da colonização e com a caça predatória, o animal está extinto em diversas regiões – um exemplo são as regiões do Sul e do Sudoeste americano, onde o animal não é visto desde o início do século XX. Outra região onde a onça-pintada praticamente desapareceu foi na região antigamente ocupada pela Mata Atlântica. Com a destruição de mais de 90% do bioma, sobraram poucos habitats com capacidade para suportar um animal que pode chegar aos 150 kg de peso e até 1,85 metro de comprimento. 

A grande Floresta Amazônica e as extensas matas do Cerrado eram, até bem poucas décadas atrás, um dos últimos refúgios seguro para as populações desses animais em território brasileiro. Com o avanço da agricultura e com a redução das matas e das populações de outros animais predados pelas onças-pintadas, a espécie tem sofrido fortes reduções em suas populações. 

Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla): Essa é outra espécie-chave do bioma Cerrado que está sofrendo fortemente os impactos ambientais resultantes da destruição dos campos. Os tamanduás-bandeira se alimentam exclusivamente de formigas e cupins, que eram encontrados em grandes quantidades nos campos – o animal chega a comer 30 mil formigas e cupins a cada dia, atuando no controle populacional desses insetos. Os ninhos de algumas espécies de cupins do Cerrado podem se apresentar na forma de montes de terra com até 2 metros de altura: os tamanduás-bandeira “abraçam” esses ninhos e o quebram com suas poderosas garras.  Com a abertura dos campos agrícolas, esses cupinzeiros são destruídos pelos tratores e os animais têm a sua fonte de alimentação comprometida. 

Boto-do-rio-Araguaia (Inia araguaiensis): Durante muito tempo se acreditou que os botos que viviam nas águas dos rios Araguaia e Tocantins eram da mesma espécie  daqueles animais encontrados na bacia do Rio Amazonas. Em pesquisas bastante recentes, os cientistas descobriram que, na realidade, trata-se de uma outra espécie, com diferenças no tamanho e peso, no formato do crânio e no número de dentes. Apesar de recém descoberta pela ciência, a espécie já está na lista dos animais ameaçados de extinção

Uma das principais ameaças à sobrevivência desses botos são as sequências de barragens de usinas hidrelétricas construídas nos rios Tocantins e Araguaia, que isolaram populações e tornaram a espécie criticamente vulnerável. Outro problema grave para os botos-do-rio-Araguaia é a redução dos caudais dos rios, assunto que já tratamos em postagens anterior. Durante o período da seca, muitos trechos dos rios têm ficado com profundidade muito reduzida – muito botos acabam encalhados nos bancos de areia e morrem por desidratação e por ataque de outros animais. Essa redução dos caudais está diretamente associada à destruição das matas nativas do Cerrado para a formação de campos agrícolas. Sem as longas raízes dessa vegetação, os aquíferos e lençóis subterrâneos de água não recebem a recarga no período das chuvas, o que faz minguar a água nas nascentes e nos rios. 

Como se nota, matas, solos, rios e animais possuem uma interdependência muito maior do que nossa “vã filosofia” poderia imaginar. O desaparecimento de qualquer um dos elementos em qualquer uma das partes do sistema terá impactos em outras partes, aparentemente sem qualquer ligação – o grande cientista, escritor e ambientalista Fritjof Capra deixou isso muito claro em seu famoso livro “A teia da vida”. 

Essa é uma teia que envolve e abriga todos nós. 

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