A HISTÓRIA DO CAFÉ NO VALE DO PARAÍBA

Vale do Paraíba

Uma importante cultura agrícola brasileira que nos legou preciosos ensinamentos sobre o uso irracional dos solos foi o café, produto que entre meados do século XIX e o início da década de 1930, época da quebra da Bolsa de Valores de Nova York, foi o principal produto da pauta de exportações do Brasil. Sozinho, o café chegou a representar 50% das exportações brasileiras, façanha que fez o Brasil ser reconhecido por muito tempo como a “terra do café”. 

Segundo a tradição oral, o café é originário da região de Cafa, na Etiópia, país do Nordeste da África. Segundo as lendas dessa região, um jovem pastor de cabras observou que os seus animais ficavam muito ativos após comerem as folhas e as frutas vermelhas de alguns arbustos. Esse fato chamou a atenção dos moradores locais, que passaram a preparar chás a partir das folhas e frutos da planta – foi a partir desse uso que se desenvolveu o preparo do café que conhecemos hoje em dia. 

Consta que o café foi introduzido no Brasil por Francisco Palheta no Estado do Pará em 1727.  A planta foi sendo disseminada por todo o Brasil colônia, onde era cultivada para uso exclusivamente doméstico nas fazendas e casas das vilas e cidades. Comercialmente, o valor do café era quase nulo. Foi somente no decorrer do século XVIII que o café adquiriu status nos mercados internacionais, passando a ser considerado um artigo de luxo nos grandes centros urbanos da Europa e dos Estados Unidos. 

As primeiras sementes de café chegaram ao Rio de Janeiro por volta de 1774, onde foram semeadas no Convento dos Frades Barbadianos. A partir do início do século XIX foram implantadas as primeiras plantações comerciais de café em sítios e fazendas, especialmente na região Oeste do Estado do Rio de Janeiro, próximas ao rio Paraíba do Sul. Sem maiores possibilidades de expansão nessa região, a cultura cafeeira passou a se expandir na direção do Vale do Paraíba, já no Estado de São Paulo, por volta de 1850. 

Diferentemente de outros produtos agrícolas, o café é uma planta que apresenta uma série de restrições físicas para o seu cultivo, bastante diferente da cana-de-açúcar ou do algodão, produtos de grande destaque na época. Os limites de temperatura ideais para o cultivo da planta oscilam entre 5 e 33º C. É uma planta muito sensível tanto a geadas quanto ao excesso de calor e insolação. Requer ainda chuvas regulares e bem distribuídas e é muito exigente em relação à qualidade do solo. É uma planta de cultivo permanente, cujo início da produção exige um período entre 4 e 5 anos a partir do plantio das mudas. A maior parte do território brasileiro não se adequava à produção do café. Foi no estado do Rio de Janeiro e, sobretudo, nas regiões vizinhas dos estados de São Paulo e Minas Gerais, que a cultura cafeeira, propriamente dita, foi iniciada no Brasil. 

O Vale do Paraíba, a ligação natural entre São Paulo e Rio de Janeiro, foi a porta de entrada do café no Estado de São Paulo, transformando-se em poucos anos no primeiro grande cenário da cultura cafeeira no Brasil. As condições naturais da região eram esplendidas: altitudes entre 300 e 900 metros, com temperaturas dentro dos limites ideais para o café e ciclo de chuvas regulares. O relevo acidentado da região proporcionava encostas bem protegidas contra o vento, um fator importante para uma planta arbustiva como o café. O Vale do Paraíba, em meados do século XIX, tornou-se um grande centro condensador de população e riqueza do Brasil.  

Toda esta prosperidade não durou muito tempo. A produção cafeeira entrou em decadência por volta de 1875 devido ao esgotamento dos recursos naturais da região. Os terrenos da região apresentam forte declividade e não suportaram por muito tempo a supressão da cobertura vegetal e a exposição do solo à ação das intempéries; o trabalho da erosão foi muito rápido. Os cafeicultores da região agiram sem o menor cuidado quanto ao manuseio dos solos: a mata foi arrasada sem nenhum critério, mesmo nas partes mais altas dos terrenos; plantou-se o café sem outra preocupação senão o lucro imediato – o sistema de cultura implantado distribuiu as plantas em linhas retas, perpendiculares às encostas dos morros, quando a forma ideal de plantio é em curvas de nível: não poderia ter sido utilizada técnica mais favorável à erosão.  

Esse plantio do café em linhas retas teve uma outra razão – visibilidade. Um capataz montado em seu cavalo poderia acompanhar o trabalho de um grupo entre 100 e 150 escravos a partir da base do terreno; se o café fosse plantado acompanhando as curvas de nível das encostas, como manda a boa prática agrícola, os escravos ficariam escondidos atrás das plantas e a “produtividade” seria bem menor. 

Os impactos nessa região, sobretudo nas encostas da Mantiqueira, foram a intensificação dos usos e ocupação das terras antes recobertas pela primitiva Mata Atlântica, deixando como herança o aumento da degradação ambiental, o manejo inadequado dos recursos naturais, o desrespeito à topografia acidentada e a devastação extensiva da cobertura vegetal. A somatória de todos esses problemas promoveu o empobrecimento e a exaustão quase completa dos solos, intensificando os processos erosivos e transformando-os em pastos

Bastaram uns poucos decênios para a produção cafeeira apresentar rendimentos aceleradamente decrescentes, com enfraquecimento das plantas e o aparecimento de pragas destruidoras. Nas palavras de Caio Prado Junior, “inicia-se então a decadência com todo seu cortejo sinistro: empobrecimento da população, abandono sucessivo das culturas e rarefação demográfica”. O Oeste paulista, com seus famosos e férteis solos de terra roxa e relevo muito menos acidentado, acabou se transformando numa alternativa ao Vale do Paraíba – rapidamente, as grandes plantações de café migraram para essas novas terras, deixando para trás uma “terra devastada”. Em 1919, o grande escritor brasileiro Monteiro Lobato (1882-1948) lançou o livro Cidades Mortas, onde ele narra a decadência econômica e social das cidades do Vale do Paraíba após a derrocada da cultura cafeeira. 

Uma última observação: o Vale do Paraíba continuou com um ótimo clima, com chuvas regulares e boa oferta das águas do rio Paraíba do Sul. Porém, sem solos férteis, não havia como se continuar praticando a cultura do café na região.

É sempre assim – vão-se os solos e ficam as tristes histórias… 

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