A IMPORTÂNCIA DAS AVES E DOS BIOMAS

Beija-flor

Quem assistiu ao filme Jurassic Park, de 1993, com certeza deve se lembrar da cena do ataque de um Tiranossauro rex ao grupo de cientistas da instituição de pesquisa. Um dos meus sobrinhos era bem pequeno na época e ficou absolutamente impressionado com a imagem do animal: durante meses, sempre que ele se aproximava de algum adulto da família, ele assumia uma “postura de ataque” e afirmava ser o T-rex. Lembrei disso por que as aves, animais que vamos tratar nesta postagem, são alguns dos descendentes vivos dos extintos dinossauros. Inclusive, de acordo com estudos científicos bem recentes, sabemos que muitas das espécies de dinossauros tinham o corpo recoberto por penas, como ocorre com as modernas aves. Pode até soar hilário, mas o temível T-rex nada mais era do que uma “galinha” gigante.

As aves são um dos grupos animais de maior sucesso evolutivo do planeta – são encontradas em todos os continentes, inclusive na gelada Antártida; em ilhas das mais distantes, perdidas no meio do oceano, em selvas, desertos, estepes, montanhas e em qualquer ecossistema que você possa imaginar, sempre se encontrará alguma espécie de ave, residente ou migratória. Todo esse sucesso se deveu à incrível capacidade de adaptação das aves aos mais diferentes tipos de clima e ambientes – exemplos são os pinguins, aves exímias nadadoras que vivem em regiões do pólo Sul e em ilhas e continentes da região austral. Outro exemplo são os avestruzes, aves corredoras gigantes, encontradas nas savanas e em regiões semiáridas do continente africano. Finalizando, podemos citar os pequenos beija-flores (vide foto), pássaros minúsculos encontrados apenas no continente americano.

Cada uma das espécies animais e vegetais que encontramos vivas por todos os cantos do mundo são um triunfo da evolução – elas prosperaram e sobreviveram enquanto outras tantas, simplesmente, desapareceram ao longo da história. E muito desse triunfo se deveu à capacidade que essas espécies têm de trabalhar em conjunto.  Aves e plantas, particularmente, tem muito em comum.

Na última postagem nós falamos rapidamente do declínio populacional de muitas espécies de aves e do risco de extinção de muitas outras – o avanço das fronteiras agrícolas e a exploração madeireira estão entre as maiores responsáveis por esses problemas. Infelizmente, a redução populacional e a extinção de espécies de aves não são problemas isolados – eles repercutem de diferentes maneiras sobre as espécies vegetais, podendo levar todo um bioma à extinção. Vejam alguns exemplos do que pode acontecer:

Dispersão de sementes: as aves e pássaros (subgrupo onde entram todas as aves que conseguem voar) são fundamentais para dispersão de sementes de uma infinidade de espécies vegetais, o que as tornam fundamentais para a reprodução e manutenção da diversidade genética dessas plantas. Um exemplo que mostramos em uma das postagens dessa série mostrou a relação entre as araucárias e a gralha-azul, uma espécie de ave que come a semente da planta, o pinhão. A gralha-azul enterra os pinhões ou os coloca dentro de nichos de troncos mortos para um consumo futuro – muito desses pinhões são esquecidos e acabam dando origem a novas árvores. Sem a parceria com as gralhas-azuis, a araucárias não teriam prosperado e ocupado uma área tão extensa na região Sul do Brasil. Nas espécies vegetais que produzem frutos com polpa, as sementes são comidas pelas aves junto com a fruta. Após a digestão, quando essas aves já voaram para outros locais, as sementes são eliminadas junto com as fezes das aves, criando assim a possibilidade de germinação e desenvolvimento de novas mudas das plantas, uma outra forma de garantir a sobrevivência da espécie;

Polinização: plantas têm as células reprodutivas masculinas (núcleos espermáticos) e receptores femininos (estigmas) separados – a polinização é o ato de transferência dos grãos de pólen, literalmente os espermatozóides das plantas, para o receptor feminino localizado em uma outra flor ou em outro estigma. Insetos, morcegos, aves e algumas outras espécies de animais realizam esse trabalho para as plantas que, como uma estratégia de atração, oferece algum tipo de alimento como o néctar. Caso a população de aves de um determinado bioma entre em declínio, isso terá reflexos diretos nesse importante trabalho de polinização e muitas espécies vegetais também passarão a ter suas populações reduzidas;

Controle de pragas e de predadores: Além dos frutos, as folhas, caules e raízes das plantas servem de alimento para uma infinidade de seres vivos – caso uma árvore sofra um ataque maciço de cupins, por exemplo, ela corre o risco de desaparecer. As aves realizam um importante trabalho ecológico de controle desses predadores – existem muitas espécies especializadas no consumo de insetos como cupins e formigas, realizando assim um importante trabalho de controle dessas populações de insetos. Caso essas aves desapareçam de uma determinada região, as populações desses insetos se reproduzirão sem controle, ameaçando a sobrevivência de inúmeras espécies vegetais.

Esses três rápidos exemplos mostram a importância das aves para a sobrevivência de um bioma. No caso do Cerrado brasileiro, um bioma que ocupa cerca de 20% do nosso território e que está sofrendo profundos impactos com o rápido avanço das frentes agrícolas, nós não sabemos ao certo quais serão as consequências do desaparecimento de espécies vegetais e animais como as aves e os mamíferos, algo que já está ocorrendo e muito rápido. Grande parte dessa destruição está ocorrendo com espécies que ainda nem foram estudadas ou são conhecidas pela ciência.

Sem a interdependência multimilenar e a sobrevivência conjunta de plantas e animais, corremos um sério risco de transformar grandes áreas do Cerrado em verdadeiros desertos, onde nada viverá – nem plantas, nem animais.

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