PARACATU: O “RIO BOM”

 

Rio Paracatu

O rio Paracatu era até poucos anos atrás o mais caudaloso afluente do rio São Francisco, contribuindo com 26% do volume total de caudais. Com extensão total de 485 km, sendo aproximadamente 360 km navegáveis, a bacia hidrográfica do Paracatu ocupa uma área equivalente a 8% da área total da bacia hidrográfica do Velho Chico. Era um rio de respeito com lugar de destaque na hidrografia regional.

Em tupi-guarani, Paracatu quer dizer “rio bom”. Conhecedores como ninguém da fauna e da flora, os antigos indígenas tiveram suas razões para dar ao rio tal nome – com margens repletas de pequenas lagoas, o Paracatu era um rio extremamente piscoso e com uma correnteza tranquila por um longo trecho, o que deve ter rendido excelentes pescarias para uma infinidade de gerações destes antigos moradores locais.

Típico rio do Cerrado, o Paracatu nasce no Estado de Goiás, bem próximo da divisa com Minas Gerais, numa região relativamente seca, com baixa pluviosidade, porém, até bem pouco tempo atrás, muito rica em vegetação típica como as veredas de buritis, cerradões e campos cerrados, que eram as nascentes naturais dos cursos d´água que formam ribeirões e rios. O rio Paracatu é retratado por Guimarães Rosa como “o Moreninho”, onde, segundo o escritor, os moradores da região costumavam caçar capivaras. Em sua obra mais famosa – Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa descreveu como ninguém a relação dos habitantes locais com o bioma Cerrado, as veredas ao longo dos cursos d’água, os descampados e as estradas ao longo das margens sutis dos rios da bacia hidrográfica do São Francisco. O narrador-personagem dessas histórias é Riobaldo, um velho jagunço que relembra seus antigos dias, seus amores, medos, frustraçoes e conflitos.

Das narrativas poéticas deixadas por Guimarães Rosa, muito se perdeu. O avanço da agricultura destruiu muitas das belezas da terra descritas em prosa apaixonada pelo eterno viajante dos antigos sertões. A agricultura mecanizada e as grandes pastagens transformaram em simples lembrança a imagem dos antigos homens da terra. Os cavalos foram aos poucos abandonados e as grandes máquinas tomaram os seus lugares nos imensos campos. A tranquila espera pela estação das chuvas foi substituída pelas tubulações dos sistemas de irrigação com pivô central, que arrancam a força as águas dos ribeirões e rios, e as dispersam abundantes sobre a terra seca, fazendo brotar os valorizados grãos. As antigas matas de galeria – as veredas, foram derrubadas para garantir o máximo aproveitamentos dos campos ou para facilitar o acesso das grandes boiadas às beiradas dos rios – como se fosse possível separar as águas das veredas…

Sedentos pelos grãos valiosos, esses incautos homens arrasaram as matas, as margens e as águas. As típicas lagoinhas, que eram uma marca do rio Paracatu, simplesmente desapareceram, levando junto a antiga fartura de peixes. Os fartos caudais viraram algo como caldinhos ralos para a tristeza de todos. O bom rio sentiu muito.

Á primeira vista, o Paracatu continua com sua aparência imponente e curso largo – só aparência: o assoreamento do seu leito chega a representar hoje risco de vida para os “piloteiros” menos experientes, que a qualquer momento podem atingir um banco de areia e acabar virando com sua embarcação. Os pescadores tradicionais do rio e também os amantes da pesca esportiva, que sempre conseguiam capturar belos espécimes de peixes como o dourado e o pintado, hoje reclamam das dificuldades em se capturar um único peixe de qualquer espécie. A destruição das pequenas lagoas acabou com os berçários que eram utilizados pelos alevinos em sua fase de crescimento em seus primeiros meses de vida. A exemplo dos manguezais do litoral que abrigam entre suas raízes aéreas os pequenos habitantes dos oceanos em sua primeira fase da vida, as lagoas marginais do rio Paracatu abrigavam as crias dos peixes do rio, aumentando o número de filhotes que sobreviviam aos primeiros meses de vida e garantiam grandes populações de todas as espécies nas águas largas e profundas. A derrubada das matas ciliares e o desmatamento das terras resultou no carreamento de grandes volumes de sedimentos e no entulhamento do leito dos rios – a típica receita repetida em todos os rios da região.

Além de todo o arcabouço de problemas típicos da bacia hidrográfica do Velho Chico, nós hoje encontramos no rio Paracatu um problema novo: a destruição da prática da pesca esportiva, que atraia um número enorme de aficionados para a região, em busca dos grandes pintados, dourados, cachorras, matrinxãs, piraputangas, trairões entre outras espécies. O velho “rio bom” já não é tão bom assim.

Diadorin, o emblemático personagem de Grandes Sertões: Veredas, deixou seu ponto de vista sobre o lugar: “Depois de Paracatu é o mundo…”

Se o personagem visse o que aconteceu com sua região nos nossos dias, muito provavelmente sua fala seria bastante diferente…

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