OS RIOS INTERMITENTES DO NORTE DO ESTADO DE GOIÁS

Lata d'água na cabeça

Vamos começar a postagem de hoje com uma rápida definição para rio intermitente ou temporário: são corpos d’água que durante o período das chuvas (ou época das cheias) apresentam volumes de água normais em suas calhas e que, durante o período da estiagem ou de seca, apresentam-se completamente secos. Na região do Semiárido brasileiro existem inúmeros exemplos de rios desse tipo. Já os rios perenes, a imensa maioria dos rios brasileiros, são aqueles que nunca secam completamente, mesmo nos períodos de seca intensa. 

O bioma Cerrado tem como clima predominante o Tropical Sazonal, com temperaturas médias anuais próximas dos 23º C e precipitação média entre 1.200 e 1.800 mm. Nos meses de primavera e verão, entre outubro e março, a região apresenta um clima chuvoso. Já nos meses de outono e inverno, entre abril e setembro, o bioma apresenta um clima extremamente seco, porém, diferentemente da região do Semiárido, os rios do Cerrado são perenes, com rios apresentando bons volumes de água neste período seco. Essa característica hídrica do Cerrado está apresentando mudanças visíveis em algumas regiões. 

No Norte do Estado de Goiás, vários rios e córregos passaram a ficar completamente secos ou com níveis de água extremamente baixos no período das secas. Nesta região de Goiás, onde os rios sempre foram perenes, o fenômeno passou a ser observado nos últimos dez anos. Populações que sempre dependeram das águas destes rios e córregos, agora têm enfrentado sérios problemas. Um exemplo é o rio do Ouro, que atravessa o município de Porangatu. 

Considerado um dos mais importantes corpos hídricos da região, o rio do Ouro passou a apresentar seu leito completamente seco durante o período da estiagem, que mais parece um caminho de areia e pedras. Até o ano de 2010, o rio era considerado perene, apresentando água durante todo o ano. De lá para cá, todos os anos, o rio passou a secar completamente no período da estiagem. O fenômeno do rio do Ouro não é um caso isolado – existem ao menos dez rios no Estado de Goiás que estão apresentando exatamente o mesmo comportamento. O córrego Bom Sucesso, na mesma região do rio do Ouro, também tem se transformado num caminho de areia e folhas secas nos períodos de estiagem. Na cidade de Goiás, os rios Bacalhau e Bagagem estão se comportando como intermitentes desde 2008; desde a mesma época, os rios Santa Maria e Correntes, na região de Flores de Goiás, Formosa e Alvorada do Norte, também passaram a ser intermitentes. 

O abastecimento de água na cidade de Porangatu, apesar da situação crítica, ainda não foi afetado porque a captação é feita em um outro rio da região que ainda se mantém com características de um rio perene. Os moradores da região, que sempre contaram com água corrente durante todo o ano, agora esperam ansiosamente pela chegada do período das chuvas, algo comum entre os nordestinos da região do Semiárido e inédito no Cerrado. As temperaturas nos períodos da seca têm ficado próximas dos 40° C, as mais altas registradas no Estado de Goiás, e com níveis de umidade do ar próximos dos 10%, o que é considerado um clima de deserto.  

O rio do Ouro se forma a partir de pequenos cursos de água que nascem em regime de enxurrada na Serra do Paranã, que sem as chuvas, desaparecem. De acordo com as autoridades locais, este é um fenômeno natural que se repete em intervalos regulares – a intensidade deste fenômeno, porém, está preocupando muita gente. Especialistas afirmam que a derrubada de matas no campo e nas margens dos rios da região estão na raiz do problema. Conforme já comentamos em postagem anterior, são as raízes da vegetação do Cerrado que favorecem a infiltração da água no solo – a vegetação dificulta o escoamento superficial da água durante o período das chuvas, facilitando e aumentando o tempo que a água tem para infiltrar no solo.  

Com o avanço da fronteira agrícola nessa região de Goiás nas últimas décadas, grande parte da vegetação nativa foi derrubada para a implantação de grandes plantações de soja e milho, além da formação de pastagens para o gado. Essa “nova” vegetação é muito rala e apresenta raízes muito superficiais, o que vem dificultando cada vez mais a infiltração da água e reduzindo cada vez mais a produção de água nas nascentes. Vale lembrar que o Cerrado é o “berço das águas” do Brasil – as mais importantes bacias hidrográficas brasileiras têm nascentes na região: rios Tocantins/Araguaia, Paraná e São Francisco. 

O Professor Altair Sales Barbosa, diretor do Instituto do Trópico Subúmido e professor da PUC – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, reitera estas informações, afirmando que, com o desmatamento e a redução da vegetação nativa, a água não está conseguindo alcançar as regiões mais profundas para reabastecer os aquíferos, que chegaram ao nível mínimo e não estão conseguindo abastecer as nascentes: 

“A quantidade de água existente nesses aquíferos já chegou ao seu nível mínimo. É como se fosse uma caixa d’água com vários furos. Os furos são as nascentes. Quando ela está cheia, a água sai por muitos furos. Conforme vai esvaziando, vai saindo nos furos mais inferiores, até chegar ao último furo e há um momento em que não sai mais. Estamos em um momento em que [a água] está saindo, mas de maneira muito rudimentar, menor do que saía há 20, 40 anos.” 

A agricultura intensiva causa um outro forte impacto nos rios da região – grandes quantidades de água são retiradas dos rios para a irrigação das lavouras. Sem uma gestão adequada dos volumes retirados, existem grandes desperdícios e uma parcela importante da água se perde por evaporação. Com quantidades cada vez menores de caudais nos rios e com retiradas de água cada vez maiores para os mais diversos usos, acontece o óbvio: os rios secam (literalmente, ficam zerados). 

Essa situação “inédita” está tendo um forte impacto entre os sitiantes e moradores das margens, que sempre dependeram e contaram com a água desses rios para sobreviver e que agora precisam procurar outras fontes de abastecimento. Para a fauna local, não acostumada com o desaparecimento da água, a seca pode significar a morte. Espécies de animais da região do Semiárido, onde é comum a presença de rios intermitentes, estão melhor adaptadas para estas situações e tiveram milhares de anos para desenvolver mecanismos de adaptação para períodos de seca extrema – as espécies do Cerrado são adaptadas para tolerar o clima seco dos períodos de estiagem, porém, como sempre dispuseram de fontes de água permanentes, não se adaptam à falta contínua de água. 

É um fenômeno preocupante que, dada a contínua e intensa destruição dos últimos fragmentos de matas originais do Cerrado, tende a se agravar e passar a ser observada em outras regiões do bioma. 

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