OS DERRAMAMENTOS DE PETRÓLEO E AS ÁGUAS

Manchas de óleo no Nordeste

No final do mês de agosto, misteriosas manchas de óleo começaram a ser encontradas em várias praias dos Estados da Região Nordeste. Com o passar dos dias e com o aumento da extensão dos locais atingidos e dos volumes de óleo nas praias, começou a ficar bastante claro se tratar de um grande derrame de óleo no mar, sem que os responsáveis pelo “acidente” comunicassem o ocorrido às autoridades. Passados mais de dois meses, as manchas de óleo já se estendem por mais de 2 mil km da costa do Nordeste, atingindo, em maior ou menor grau, todos os Estados da Região. As últimas notícias informam que pequenas manchas de óleo foram encontradas em uma das ilhas do Arquipélago de Abrolhos, o que coloca em risco o mais importante santuário de vida marinha do Atlântico Sul. 

O petróleo é, indubitavelmente, uma das fontes de energia mais importantes da humanidade. Gasolina, óleo diesel, querosene de aviação e óleo combustível movimentam carros, motocicletas, caminhões, aviões, navios, geradores de usinas termelétricas, entre muitos outros equipamentos. Subprodutos do refino do petróleo também estão por todos os lados na forma de plásticos, fios sintéticos de roupas, produtos de limpeza, fertilizantes, defensivos agrícolas, inseticidas caseiros e até mesmo em produtos usados na alimentação humana. 

Mas, se os combustíveis e demais derivados de petróleo são tão importantes para o nosso dia a dia, eles também estão entre as maiores fontes de poluição do planeta: todos os dias, milhões de toneladas de gases liberados pela queima de combustíveis fósseis gerados a partir do petróleo são lançados na atmosfera, causando toda uma série de problemas que vão de doenças respiratórias à mudanças no padrão climático do planeta. Além da poluição atmosférica, o petróleo também se faz presente na forma de resíduos como os plásticos dos mais diferentes tipos, que entulham aterros sanitários, rios e mares, em quantidades cada vez maiores. 

Os problemas da indústria do petróleo começam já na fase de prospecção e perfuração dos poços, quando os mais diferentes tipos de ecossistemas, que vão das areias dos desertos à tundra do Ártico, das florestas tropicais ao fundo do oceano, passam a ficar expostos a vazamentos acidentais de óleo. Esses problemas aumentam durante as fases de transporte, quando grandes volumes de óleo cru são levados para as refinarias localizadas nos mais diferentes pontos do planeta. Grandes volumes de óleo são bombeados sob pressão em oleodutos com centenas de quilômetros de extensão, ou ainda armazenados em tanques de navios petroleiros cada vez maiores: basta uma falha na solda de uma tubulação ou um erro nos procedimentos de operação de um navio para que milhares de toneladas de óleo vazem e poluam grande áreas e/ou superfícies de águas. 

O processamento e o refino do petróleo também são problemáticos: grandes volumes de combustíveis precisam ser queimados para gerar a energia necessária aos diferentes processos de refino, liberando grandes quantidades de gases poluentes na atmosfera. Essas plantas industriais também são problemáticas quando se fala em segurança – são  gigantescos volumes de líquidos e gases inflamáveis de todos os tipos que, a qualquer falha, podem criar explosões e incêndios catastróficos.  

Um caso dramático e ainda vivo na memória de muita gente foi o incêndio na Vila Socó, em Cubatão, no início de 1984 – mais de 700 mil litros de gasolina vazaram de um duto da Refinaria Arthur Bernardes da Petrobrás, provocando um trágico incêndio numa grande comunidade que ocupou o terreno por onde passavam as tubulações da empresa. De acordo com dados da época, devidamente censurados pelos Governantes Militares que mandavam no país, foram 93 mortos na tragédia. Reaberto em 2014, o caso agora trata do desparecimento de mais de 500 pessoas da comunidade nesse acidente. 

Além dos acidentes nas operações de processamento e refino do petróleo, as instalações das refinarias podem ser tomadas como alvo em conflitos militares e em ataques terroristas. No último mês de setembro, um ataque terrorista ao complexo petrolífero de Abqaiq, na Arábia Saudita, provocou uma redução de 5% na produção mundial de petróleo e um aumento de 20% no preço do produto. Considerada a maior instalação do tipo no mundo, Abqaiq foi atingida por um grande ataque de mísseis e drones, o que destruiu parte das suas instalações e levou a uma paralização total de suas atividades. A tensão geopolítica da região, onde ficam alguns dos mais importantes centros de produção e exportação de petróleo, subiu a níveis muito mais altos que o normal. 

Aqui na América do Sul, o petróleo também é um grande causador de problemas. No início de 1995, o Peru e o Equador entraram em guerra por causa da disputa pelo controle da Região de El Condor, famosa por suas grandes reservas de petróleo. A nossa problemática vizinha Venezuela é outra espécie de “refém” da exploração do óleo. Dona das maiores reservas petrolíferas confirmadas do mundo, a Venezuela construiu toda a sua economia com base na exploração, produção e exportações da indústria petrolífera.  

Durante várias décadas, o país foi um exemplo de riqueza e alto padrão de vida para os seus pobres vizinhos sul-americanos. Com a ascensão do Bolivarianismo ao poder, uma espécie de socialismo latino-americano piorado, na década de 1990, o país começou a retroceder econômica e socialmente ao estilo “ladeira abaixo”. A incompetência generalizada na gestão das atividades petrolíferas do país, associadas à corrupção e aos desmandos de uma ditadura “eleita democraticamente”, levaram ao desmantelamento e sucateamento das atividades petrolíferas na Venezuela. O óleo das manchas que estão atingindo as praias do Nordeste, inclusive, foi identificado em testes de laboratórios como de origem venezuelana. 

Sofrendo com um forte embargo econômico imposto pelos Estados Unidos por causa do processo eleitoral considerado fraudulento e da intensa repressão aos opositores do regime, a Venezuela tem se valido de inúmeros descaminhos para vender seu petróleo no “mercado negro”. De acordo com as últimas descobertas feitas pelos investigadores brasileiros, a origem do derramamento de óleo foi um navio petroleiro de bandeira grega, que foi abastecido com uma grande quantidade de petróleo ilegal na Venezuela e que, supostamente, estava se dirigindo para o extremo oriente. Ao que tudo indica, esse navio fez o transbordo do petróleo para outro navio em alto mar (o que é chamado nos meios navais de operações ship-to-ship), quando houve uma falha na operação e um grande volume de óleo foi lançado nas águas. 

Imagens recuperadas de satélites do final de julho mostram uma grande mancha de petróleo com cerca de 200 km de extensão sobre o Oceano Atlântico, a uma distância de 700 km da costa do Nordeste. As correntes marinhas que correm em direção ao litoral brasileiro se encarregaram de espalhar todo esse óleo ao longo de 2 mil km do nosso litoral. Foram essas imagens que permitiram às autoridades brasileiras identificar o navio responsável pelo acidente. Até o final do mês de outubro, haviam sido identificadas manchas de petróleo em 94 municípios, afetando um total de 264 localidades. Foram encontrados 107 animais afetados pelo óleo, a grande maioria tartarugas-marinhas – 81 animais já morreram. As estimativas falam de 4 mil toneladas de óleo já recolhidas.

O comércio ilegal de petróleo e a “pirataria” dos navios tanques sem identificação têm crescido muito nos últimos anos e os riscos de acidentes desse tipo se repetirem serão cada vez maiores. Nas próximas postagens vamos falar dos impactos dos derramamentos de petróleo nas águas de mares, rios e lagos de todo o mundo e dos seus impactos na economia, nas populações humanas e animais, além dos muitos danos ao meio ambiente. 

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