O VAZAMENTO DE 4 MILHÕES DE LITROS DE PETRÓLEO NO RIO IGUAÇU NO ANO 2000. LEMBRA?

Vazamento de petróleo no rio Iguaçu

Existe uma fala popular que diz que “o brasileiro tem memória curta”. Muita gente pode até discordar dessa expressão, mas a nossa “capacidade” de esquecer fatos de nossa história, inclusive acontecimentos bem recentes do ponto de vista histórico, é muito grande. Um exemplo dessa memória curta foi um grave derramamento de petróleo na Refinaria Presidente Getúlio Vargas, a REPAR, em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, no ano 2000. Esse acidente foi considerado como o maior desastre ambiental já ocorrido no Estado do Paraná e um dos maiores da história da Petrobras. A mancha de poluição cobriu uma grande área do rio Iguaçu. Apesar de toda essa gravidade, é bem provável que você nem se lembre desse ocorrido. 

O Iguaçu, conforme já apresentamos em postagens aqui no blog, é o maior e mais importante rio do Estado do Paraná. Com nascentes na Serra do Mar e foz nas mundialmente conhecidas Cataratas do Iguaçu, o rio percorre aproximadamente 1.300 km, com uma área total da bacia hidrográfica correspondendo a 70 mil km², englobando 109 municípios e onde vivem 4,4 milhões de habitantes – 33% do território e 42% da população do Estado do Paraná. A história geológica e as características físicas do rio Iguaçu o transformam numa espécie de primo-irmão do rio Tietê de São Paulo. Infelizmente, essas semelhanças familiares têm seu preço: o Iguaçu é o segundo rio mais poluído do Brasil, só ficando atrás do rio Tietê

A REPAR faz parte do conjunto de refinarias de petróleo da Petrobras e foi inaugurada em 1977. A unidade tem capacidade para processar mais de 200 mil barris por dia, o que corresponde a cerca de 12% da produção de derivados de petróleo do Brasil. A REPAR é considerada a maior planta industrial da Região Sul do Brasil e abastece os mercados do Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e parte do Estado de São Paulo, além de fornecer combustíveis para o Paraguai e a Bolívia.  

Entre outras instalações, a refinaria possui dois terminais marítimos, um no litoral do Paraná e outro em Santa Catarina, além de um sistema de oleodutos entre a refinaria e o Estado de Santa Catarina. Foi justamente uma falha nesse sistema de oleodutos que levou ao vazamento de petróleo. No dia 16 de julho de 2000, um rompimento nas tubulações de um oleoduto desse sistema em Araucária terminou com o vazamento de 4 milhões de litros de petróleo cru, um volume equivalente ao de 115 piscinas olímpicas. O óleo atingiu inicialmente o Arroio Saldanha, chegando depois aos rios Barigui e Iguaçu. A mancha de óleo cobriu uma extensão de águas com aproximadamente 100 km. 

Esse acidente aconteceu num momento particularmente tenso da história da Petrobras no Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. Os partidos de oposição ao Governo afirmavam que a Petrobras estava sendo sucateada, tendo em vistas um futuro processo de privatização da empresa. Houve inclusive, nessa mesma época, uma proposta para mudar o nome da empresa para PetroBrax, palavra mais fácil de ser pronunciada por estrangeiros e que facilitaria a internacionalização da empresa – para os partidos de oposição, essa mudança era um argumento a mais para a venda da empresa para grupos estrangeiros. O clima tenso na Petrobras teve seu auge no início de 2001, quando explosões seguidas por um incêndio levaram a Plataforma P-36 a naufragar na Bacia de Campos, litoral do Estado do Rio de Janeiro. 

Logo após o vazamento de óleo, centenas de trabalhadores da REPAR foram designados para os trabalhos de limpeza dos rios, munidos apenas de baldes e de pás para recolher o óleo que vazou. Sem treinamento para atuar nesse tipo de situação e sem EPIs – Equipamentos de Proteção Individual, muitos trabalhadores passaram mal durante as operações de limpeza e não contavam com um atendimento médico adequado. Um dos trabalhadores dessas frentes de serviço, inclusive, viria a falecer meses depois em consequência da exposição aos elementos químicos tóxicos do petróleo. Houve também o caso de um outro trabalhador de uma das equipes que desenvolveu doenças neurológicas logo após esses trabalhos e ficou paraplégico. 

Além da falta de equipamentos básicos de segurança para as equipes de limpeza, a Petrobras também não conseguiu disponibilizar a mínima infraestrutura para as refeições dos trabalhadores, que eram feitas nas margens dos rios, com solos e vegetação cobertos por óleo e sem as mínimas condições de higiene. A Petrobras foi duramente criticada na época pela falta de preparo das equipes de emergência para o enfrentamento desse tipo de acidente. 

De acordo com levantamentos do IAP – Instituto Ambiental do Paraná, a flora e a fauna dos trechos de rios afetados pelo vazamento de óleo foram completamente devastadas. Dados do Instituto indicam que para cada oito animais resgatados das águas, apenas um conseguiu sobreviver. O abastecimento de água em toda a Região Metropolitana de Curitiba também foi fortemente prejudicado – apesar dos problemas de poluição, o rio Iguaçu é o maior manancial de abastecimento regional. 

Já se passaram quase 20 anos desde a ocorrência desse acidente e as causas ainda não estão claras. Relatórios internos da REPAR afirmam que houve um problema em uma das válvulas das tubulações e que foi seguida por falhas na operação e no desrespeito aos procedimentos de segurança. Já para o CREA – Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, do Estado do Paraná, um acidente de tal magnitude não poderia ser explicado simplesmente por uma falha em equipamentos e em procedimentos de segurança, mas também em “falhas e/ou fragilidades estruturais e organizacionais, o que inclui as decisões gerenciais.” 

As operações de limpeza se estenderam por vários meses e se concentraram na remoção de manchas de óleo superficiais e impregnadas em troncos de árvores e em pedras. Barreiras de contenção instaladas no leito do rio Iguaçu evitaram que as manchas de óleo se espalhassem ainda mais pela calha dos rios. Perícias e testes que são feitos até hoje por determinação da Justiça, dentro do processo jurídico que levou a Petrobras à condenação e ao pagamento de uma multa bilionária, ainda detectam a evaporação de gases associados ao petróleo que afundou no leito dos rios. Além de poluir o ar, esses gases podem causar uma série de problemas aos seres vivos que habitam as águas e margens desses rios, inclusive as populações humanas. 

Os efeitos negativos e os impactos ao meio ambiente no longo prazo criados por um vazamento de petróleo devem sempre nos lembrar dos cuidados e procedimentos de segurança que sempre devem ser seguidos durante a exploração, transporte e processamento desse óleo. Qualquer falha ou erro trará consequências para muitas e muitas gerações de seres vivos.

Se a nossa memória é curta, a da natureza não é.

 

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