A DESTRUIÇÃO DE RIOS E LAGOS DA NIGÉRIA POR DERRAMAMENTOS DE PETRÓLEO, OU A TRISTE SINA DO DELTA DO RIO NÍGER

Vazamento de petróleo no delta do rio Níger

O Níger é o terceiro maior rio da África, com uma extensão total de 4.180 km. Sua bacia hidrográfica cobre aproximadamente 2,2 milhões de km² e se estende por cinco países: Guiné, Mali, Níger, Benin e Nigéria. Conforme o rio Níger se aproxima do Oceano Atlântico, ele se abre num grande delta com cerca de 70 mil km², uma área equivalente a mais de três vezes a área do Estado de Sergipe.  

Regiões deltaicas possuem terras de altíssima fertilidade, resultado de milhões de anos de acumulação de sedimentos arrastados pela correnteza dos rios e, desde tempos imemoriais, essas regiões costumam apresentar grandes populações. Exemplos destas importantes regiões são os deltas dos rios Nilo no Egito, do Ganges em Bangladesh e do Mekong no Vietnã. A região do delta do rio Níger possui cerca de 31 milhões de habitantes, que sempre puderam usufruir de boas colheitas e de uma alta disponibilidade de água potável. 

A primeira grande “riqueza” explorada pelos comerciantes europeus no delta do rio Níger a partir do final do século XV  foram os negros escravizados, que eram vendidos a altos preços nas colônias que começavam a surgir no Novo Mundo, especialmente no Brasil, Antilhas e Estados Unidos. A escravização e a venda de seres humanos na África já eram milenares naqueles tempos, sendo resultado das infinitas guerras entre as diferentes etnias. A navegação pelo rio Níger permitia o transporte de grandes comboios de embarcações vindas do interior do continente repletas de escravos, o que transformou as costas da Nigéria num grande mercado para esse tipo de “produto”.  

Um segundo produto local que aos poucos começou a conquistar mercados pelo mundo foi o azeite de palma, mais conhecido como azeite de dendê. A palma ou dendezeiro é uma árvore nativa da costa Oeste da África e, conforme já apresentamos em postagens anteriores, é a planta que produz a maior quantidade de óleo vegetal por hectare plantado, superando com muita folga a soja e o milho. Além dos usos na culinária, o azeite de palma era um importante combustível, usado principalmente para iluminação de residências e vias públicas no passado.  

Em décadas bem mais recentes, foi o petróleo que se transformou na grande riqueza da Nigéria, uma atividade que durante muito tempo foi dominada por grandes empresas petrolíferas internacionais. E como sempre aconteceu ao longo da história, empresas fortes dominam facilmente Governos fracos – em busca de lucro rápido e fácil, essas empresas passaram a explorar o petróleo de modo selvagem, sem maiores preocupações com a qualidade de vida das populações locais e com o meio ambiente. 

A exploração inadequada desse recurso transformou algumas das mais belas paisagens do país em terras e águas mortas, cobertas por resíduos de óleo e de piche. Os vazamentos de petróleo nos gasodutos são frequentes, contaminando grandes áreas e, especialmente, alguns dos mais importantes rios do país. Esse descaso pode ser visto com toda a sua intensidade na outrora fabulosa região do delta do rio Niger. 

Grandes unidades de prospecção e de perfuração de petróleo começaram a aparecer por todos os cantos, sem que se realizassem estudos de impacto ao meio ambiente ou se mostrassem maiores preocupações com as comunidades vizinhas. Grandes sistemas de oleodutos passaram a rasgar os territórios, sem maiores esforços com a manutenção das tubulações ou reparos de pequenos vazamentos – enquanto o petróleo chegasse em grandes quantidades aos terminais de embarque e garantisse bons lucros para as empresas, pequenas perdas ao longo das linhas de tubulações seriam toleradas.  

Essa mentalidade persistiu por várias décadas, transformando muitos corpos d’água da Nigéria em depósitos de resíduos de petróleo. Gradativamente, esses vazamentos de óleo começaram a escorrer na direção do delta do rio Níger, hoje tomado por poças de óleo. Grupos ambientalistas calculam que, nos últimos 50 anos, mais de 10 milhões de barris de petróleo vazaram na Nigéria e poluíram grandes extensões de terras e águas. Para efeito de comparação, o grande derrame de petróleo no Alasca provocado pelo navio petroleiro Exxon Valdez em 1989 ficou entre 250 mil e 750 mil barris. Porém, muito diferente da grande repercussão midiática daquele acidente, esses vazamentos de óleo na Nigéria são silenciosos.  

A principal fonte de vazamentos de petróleo, entretanto, são as inúmeras tubulações clandestinas instaladas ao longo dos oleodutos para roubo de petróleo. Conforme comentamos na postagem anterior, cerca de 10% de toda a produção anual de petróleo da Nigéria é roubada e desviada para pequenas destilarias clandestinas, que realizam um refino precário do óleo e produzem derivados grosseiros como gasolina, querosene e óleo diesel. Esses derivados de petróleo falsificados são distribuídos por todo o país por uma grande rede de revendedores clandestinos e impulsionam grande parte da frota de veículos do país. 

De acordo com um estudo feito pelo PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, as maiores vítimas dessa poluição são as populações do delta do rio Níger, que consomem água contaminada por hidrocarbonetos. Amostras de água recolhidas em rios, córregos e poços encontraram grandes concentrações de produtos químicos associados ao petróleo. Um exemplo é o benzeno, um elemento cancerígeno que chegou a ser encontrado em algumas amostras recolhidas em poços com uma concentração 900 vezes superior ao limite máximo permitido internacionalmente.  

Para o meio ambiente, esses volumes de vazamentos de petróleo são devastadores. O delta do rio Níger apresenta a maior concentração de manguezais de todo o continente africano. Os mangues são ecossistemas de transição entre os oceanos e a terra seca, concentrando uma enorme biodiversidade vegetal e animal. Cerca de 70% das espécies de peixes e crustáceos marinhos de grande valor comercial dependem dos manguezais para reproduzir. Com a poluição das águas por resíduos de petróleo, toda essa riqueza acaba prejudicada, comprometendo a fonte de trabalho e de renda de milhares de pescadores e a fonte de alimentação de milhões de pessoas.  

Extensas áreas de manguezais no delta do rio Níger não têm mais folhas e as suas raízes estão cobertas por uma camada de óleo (vide foto). As inúmeras espécies marinhas que buscavam essas áreas no passado desapareceram, transformando suas águas em verdadeiros desertos sem vida. Uma espécie emblemática que costuma viver nas águas dos canais do delta e no rio Níger é o peixe-boi marinho africano (Trichechus senegalensis), primo-irmão do peixe-boi marinho que vive entre a costa do Nordeste brasileiro e o Sul da Flórida, nos Estados Unidos, e primo em segundo grau do peixe-boi amazônico.   

Essa espécie marinha, que já encontra em situação altamente vulnerável por causa da caça predatória, costumava encontrar bons refúgios e alimentos nos inúmeros canais do delta do rio Níger. Com a intensa destruição desses habitats, o futuro desse peixe-boi é cada vez mais incerto. Incerto também é o futuro de dezenas de milhões de seres humanos que vivem nessa extensa região. 

Enquanto o petróleo for a mais importante riqueza da Nigéria, as perspectivas futuras para o delta do rio Níger, seus ecossistemas e populações humanas não são as melhores. 

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