SEGUNDO A ONU, PAÍSES INVESTEM POUCO EM CIÊNCIAS DO OCEANO

Entre os dias 27 de junho e 1 de julho aconteceu a Conferência dos Oceanos da ONU – Organização da Nações Unidas, em Lisboa, numa organização conjunta dos Governos de Portugal e do Quênia. O principal objetivo dessa Conferência foi criar as bases para que se atinjam os 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável antes de 2030. 

Contrariando os discursos de muitos ambientalistas de “escritórios com ar condicionado”, de alguns líderes mundiais e de muitas celebridades, que repetem a exaustão que a Floresta Amazônica é o pulmão do mundo, essa é uma função que os mares e oceanos realizam com distinção – eles geram metade do oxigênio da nossa atmosfera

Além de ser uma fábrica viva de oxigênio, as águas salgadas absorvem ¼ de todas as emissões de dióxido de carbono, além de capturar cerca de 90% do calor adicional gerado por essas emissões. Oceanos e mares também formam um grande amortecedor global contra os impactos das mudanças climáticas. 

E as coisas não param por aí – oceanos e mares cobrem perto de 70% da superfície do Planeta Terra e são o lar de aproximadamente 80% de todos os seres vivos. Ou seja – eles formam o maior bioma de nosso planeta. Não é a toa que uma grande parte dos alimentos consumidos pela humanidade vem dos mares.

Apesar de toda a sua importância, oceanos e mares não recebem a atenção que lhes seria merecida por parte dos Governos. De acordo com documento publicado durante a Conferência dos Oceanos, os países gastam, em média, apenas 1,7% dos recursos nacionais de pesquisa com as áreas da ciência ligados aos oceanos. 

Quando analisamos o caso do Brasil, a situação é muito mais dramática: apenas 0,03% dos recursos destinados a pesquisas científicas em nosso país são usados em estudos sobre mares e oceanos. De acordo com uma declaração de um porta-voz da ONU, o “gasto médio é muito, muito pequeno”. Por minha conta e risco, digo que no caso do Brasil é “simplesmente ridículo“.  

O Brasil tem uma linha de costa com extensão total de aproximadamente 7.400 km. Quando se consideram as águas jurisdicionais do nosso país, falamos de um território com cerca de 3,5 milhões de km2, chamado tecnicamente de ZEE – Zona Econômica Exclusiva, ou como, como a nossa Marinha prefere chamar – Amazônia Azul

Desde 2004, o Brasil está reivindicando junto a CLCS – Comissão de Limites da Plataforma Continental, na sigla em inglês, uma organização da ONU, um aumento da área de direitos econômicos exclusivos. Caso o pleito brasileiro seja aceito, a nossa Amazônia Azul sofrerá um aumento de mais de 2,1 milhões de km2, passando para uma área total próxima dos 5,7 milhões de km2.  

Para que todos tenham uma vaga ideia da importância da Amazônia Azul: ela concentra 85% de nossas reservas de petróleo, 75% do gás natural e 45% de nossa produção de pescados. Mais de 95% do comércio exterior do Brasil é feito por via marítima. A ANM – Agência Nacional de Mineração, estima que sob essas águas existem grandes reservas de níquel, cobre, cobalto e manganês, mas faltam estudos técnicos mais profundos. 

Com todo potencial econômico já explorado e a explorar, é fundamental que se destinem verbas mais substanciais para pesquisas científicas em áreas como biologia marinha, oceanografia, mineralogia e geologia, meteorologia, engenharia naval, entre muitas outras áreas afins.  

Citando apenas um dos muitos problemas – a Marinha do Brasil, força nacional responsável pela defesa e patrulhamento de todo esse “mundo de águas”, está com uma frota envelhecida, com muitos navios sendo aposentados e com poucos recursos para se reequipar. Existem novos submarinos e fragatas em construção, porém, a quantidade está muito aquém das necessidades. 

Um exemplo da falta de uma força naval atuante foi o que vimos em 2019, quando um trecho não contínuo de mais de 2 mil km de praias nos Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe foi tomado por grandes manchas de óleo. O país foi pego, literalmente, de “calças curtas” e demorou muito para entendermos o que aconteceu. 

Depois de mais de dois anos de investigação, a Polícia Federal concluiu que os vazamentos de óleo foram causados por um navio petroleiro de bandeira grega. A embarcação seguia da Venezuela para a África do Sul quando houve o vazamento de mais de 5 mil toneladas de petróleo em uma área a cerca de 700 km da costa do Nordeste. Nenhum suposto culpado ainda foi condenado. 

Os problemas dos oceanos e mares, desgraçadamente, não se limitam a problemas econômicos e de segurança. Um dos mais graves e urgentes são os problemas decorrentes da poluição das águas marinhas. Entram aqui os grandes vazamentos de petróleo, como o exemplo já citado, acidificação das águas e morte dos recifes de coral, problema esse ligado ao aquecimento global, e, principalmente, a poluição das águas por resíduos de plástico

De acordo com estimativas de especialistas, cerca de 10% das 100 milhões de toneladas de plásticos produzidas anualmente em nosso planeta acabem chegando aos oceanos, jogadas diretamente nas águas por cidades costeiras ou por despejo de navios ou arrastadas do interior dos continentes por chuvas e caudais de rios te doso os tamanhos. 

Estudos do PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, indicam que existem atualmente 18 mil fragmentos visíveis de plásticos flutuando em cada quilômetro quadrado de mar – é indeterminada a quantidade de resíduos que está submersa nos oceanos. 

As inocentes sacolas plásticas como as de supermercados, tão presentes em nosso dia a dia, representam até 27% desse lixo flutuante dos oceanos, segundo algumas medições já feitas. Felizmente, muitas cidades e países já proibiram a distribuição dessas sacolas. 

Um exemplo dos danos ambientais provocados pelos resíduos plásticos nos oceanos é uma imensa ilha flutuante descoberta no Oceano Pacífico em 1997. Essa ilha está localizada a meio caminho das ilhas do Havaí e as costas do estado americano da Califórnia, numa região onde as diversas correntes oceânicas se encontram e formam uma espécie de redemoinho. Essa ilha se estende por cerca de 1.000 quilômetros e concentra aproximadamente 4 milhões de toneladas de todo o tipo de resíduos plásticos. 

Para entender como todo esse grande bioma funciona e como está sendo impactado por agressões ambientais, sobre pesca e mudanças climáticas, não existe outro caminho senão investir pesado em todos os tipos de pesquisas científicas. 

Oceanos e mares são importantes demais para todos nós, mesmo para aqueles povos que vivem a milhares de quilômetros de uma praia. É preciso multiplicar, no mínimo, por dez os recursos financeiros destinados às pesquisas. No caso brasileiro, será necessário multiplicar por cem… 

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