RIO CHAPECÓ: UM EXEMPLO DA POLUIÇÃO DAS ÁGUAS NO OESTE CATARINENSE

A Mata das Araucárias era, até poucas décadas atrás, uma das paisagens dominantes da região Oeste de Santa Catarina. Conforme apresentamos em postagens anteriores, essa vegetação, que era um dos subsistemas florestais da Mata Atlântica na Região Sul do Brasil, sucumbiu rapidamente diante da forte pressão exercida pela exploração madeireira. Além do excelente pinho das araucárias, essas matas forneciam madeiras de grande valor comercial como a peroba, o cedro, o marfim e a imbuia. 

Em paralelo à exploração dos recursos florestais, essa extensa região passou a assistir a instalação de um sem número de pequenas propriedades rurais, grande parte delas especializadas na criação de animais, especialmente os porcos. Atualmente, o Estado de Santa Catarina, é o maior produtor e processador de carne de suínos do Brasil, com 30% do rebanho nacional. O jeito mais fácil de qualquer um dos leitores comprovar isso é ir até um supermercado e olhar a procedência das carnes suínas, frios e embutidos ali vendidos. 

O rebanho suíno catarinense tem mais de 4,7 milhões de animais, que produzem quase 50 milhões de litros de esgotos por dia – são cerca de 10 litros de esgotos por animal. Essa conta inclui fezes, urina e a água usada na limpeza dos viveiros dos animais. Os órgãos ambientais consideram a suinocultura como uma das maiores geradoras de dejetos por unidade de área ocupada, produzindo em média de 5% a 8% em relação ao peso vivo dos animais em efluentes sanitários

Nos últimos anos publicamos diversas postagens falando dos impactos da suinocultura na degradação das águas no Oeste catarinenses. Uma dessas postagens – Os porcos contra atacam, virou uma das campeãs em acesso aqui do blog. Para detalharmos o impacto de todo esse despejo de efluentes sanitários dos suínos no meio ambiente, vamos analisar a situação do rio Chapecó: 

O rio Chapecó é um corpo d’água bastante modesto quando comparado a outros grandes rios brasileiros. Tem um comprimento total de 248 km e sua bacia hidrográfica ocupa uma área de pouco mais de 8 mil km². É um dos principais formadores da bacia hidrográfica do rio Uruguai junto com os rios Pelotas, Canoas e Peixe.

O rio atravessa uma importante região produtora de grãos, aves e suínos, onde sofre uma forte degradação ambiental devido ao carreamento de grandes quantidades de resíduos de fertilizantes e de agrotóxicos, assoreamento gerado pelo manejo inadequado de solos e, principalmente, pelo lançamento de dejetos líquidos de suínos. 

De acordo com estudos realizados pela EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina, 84% das fontes de água de uma grande área delimitada para a pesquisa e onde se englobava a bacia hidrográfica do rio Chapecó, apresentavam contaminação por coliformes fecais, um claro indicador de águas com despejo de esgotos.

Essas bactérias, também conhecidas como coliformes termotolerantes existem em grande quantidade nos intestinos de seres humanos e de animais de sangue quente como porcos, vacas e cavalos, e são eliminadas junto com as fezes. Como acontece com outros rios da região, o rio Chapecó recebe as águas de uma infinidade de pequenos cursos e riachos que drenam as fazendas e sítios, onde são lançados grandes volumes dos esgotos gerados pela criação de animais. 

O rio Chapecó e o seu principal afluente – o rio Chapecozinho, formam o principal manancial de abastecimento de água de uma região que engloba, total ou parcialmente, 59 municípios do Oeste Catarinense. Entre as cidades abastecidas com essas águas se incluem Chapecó, Xaxim, Xanxerê, Abelardo Luz (vide foto), Nova Erechim, entre muitas outras.  

As ETAs – Estações de Tratamento de Água, unidades responsáveis pelo tratamento e desinfecção da água usada no abastecimento das populações dessa região, precisam trabalhar com atenção redobrada no controle da qualidade dessas águas em laboratório. Também precisam gastar mais com a compra de produtos químicos usados no tratamento da água como o cloro, o sulfato de alumínio e o cloreto férrico – esses custos extras serão, inevitavelmente, repassados nas contas de água aos consumidores. 

Os problemas de poluição nas águas dos rios locais, infelizmente, não param por aí. Nas mesmas áreas rurais onde existem os sítios e fazendas especializados na criação de animais, também existem aqueles que se dedicam à produção de legumes e verduras. Essas culturas precisam ser irrigadas e, desgraçadamente, os mesmos cursos de água que recebem os efluentes das criações de animais são as fontes da água usada nessas irrigações

De acordo com estudos publicados em julho de 2017 pela respeitada revista Environmental Research Letters, foi confirmado que, em todo o mundo, uma área equivalente à da Alemanha (aproximadamente 30 milhões de hectares) é irrigada com água contaminada pelos esgotos. De acordo com modelos matemáticos elaborados pelos autores desse estudo, cerca de 885 milhões de pessoas consomem verduras e vegetais produzidos sob essas condições, ficando expostas a uma infinidade de patógenos, como parasitas e bactérias, com significativos riscos à saúde

Os dados desses estudos vão de encontro a estudos da OMS – Organização Mundial da Saúde, que demonstram que mais de 10% da população mundial, ou 700 milhões de pessoas, consome regularmente alimentos produzidos a partir da irrigação com águas residuais.

Com o crescimento da população, principalmente em cidades que não possuem uma infraestrutura de saneamento básico adequada, a tendência é de um aumento cada vez maior na contaminação das águas por esgotos. Essa pressão populacional, por sua vez, também se reflete num esforço para o aumento da produção de alimentos, onde se incluem as proteínas de origem animal, atividade que gera grandes volumes de efluentes sanitários, além de verduras e legumes irrigados com essas águas. 

No Oeste de Santa Catarina, infelizmente, o problema não fica restrito apenas as águas superficiais – a captação de água em poços subterrâneos, uma alternativa que passou a ser buscada pelas cidades para fugir das águas poluídas dos rios, também tem apresentado os mesmos problemas. Estudos feitos em amostras de água colhidas em 1.875 poços da região encontraram sinais de contaminação por coliformes fecais em 60% dos casos

O Aquífero Guarani, maior reservatório subterrâneo de água doce da América do Sul com uma área de mais de 1,2 milhão de km², está presente em 50% do subsolo catarinense. Parte dos efluentes sanitários gerados pelas criações de suínos acaba infiltrada nos solos e atinge as águas do aquífero. Em uma parte importante das amostras analisadas, a qualidade da água foi considerada ruim, atingindo a marca de 50 pontos numa escala técnica que vai até 100. 

Uma das fontes mais comuns dessas infiltrações de esgotos nos solos são as fossas usadas pelos produtores para o descarte dos efluentes, que não possuem um revestimento impermeável adequado nas paredes e no fundo. Outro problema é o uso dos efluentes como fertilizante em plantações. Os dejetos são espalhados sobre os solos em grande quantidade e uma parte do líquido atinge o lençol freático e chega até o aquífero. 

Ao contrário do que muitos podem imaginar, são raros os casos onde existe uma caverna ou fenda subterrânea que se enche de água. Normalmente, essas águas subterrâneas se encontram em rochas porosas como o arenito, uma das principais formadoras de aquíferos e lençóis subterrâneos de água. Um metro cúbico dessa rocha pode armazenar mais de 500 litros de água das chuvas – basta a infiltraçao de alguns poucos litros de esgotos para contaminar um grande volume de água.

As estratégicas águas do Aquífero Guarani são utilizadas no abastecimento de centenas de cidades no Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Os contaminantes gerados pela suinocultura do Oeste de Santa Catarina podem percorrer centenas de quilômetros através de toda uma rede de micro canais nas camadas de rocha onde se encontra o aquífero, podendo afetar a qualidade da água usada em cidades distantes. É um problema grave. 

Isso é o que se pode chamar de uma verdadeira “porcaria”. 

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