AINDA FALANDO DA GRANDE MURALHA VERDE DO SAHEL

Na última postagem fizemos uma rápida apresentação do Projeto da Grande Muralha Verde do Sahel, na África. O Sahel é uma grande área de transição climática entre os terrenos áridos do Deserto do Saara e as terras férteis das Savanas africanas, Esse território se estende ao Sul do Saara desde o litoral do Oceano Atlântico, a Oeste, até as margens do Mar Vermelho, a Leste, numa extensão total de 8 mil km e com uma largura entre 500 e 700 km.

As terras do Sahel eram originalmente cobertas por uma vegetação de estepe, formada por muitas espécies de árvores e arbustos adaptados aos solos e ao clima da região. Essa vegetação formava uma barreira natural contra os fortes ventos vindo do Deserto do Saara, evitando que grandes volumes de areia fossem lançados sobre as Savanas. Com o crescimento das populações e com a necessidade de criação de áreas para a agricultura e também de madeira para a construção civil e como combustível, principalmente para se cozinhar, grandes trechos da vegetação nativa do Sahel foram destruídos.

A consequência mais direta desses desmatamentos foi um avanço do Deserto do Saara rumo ao Sul – alguns estudos indicam que o Saara cresceu cerca de 10% entre 1922 e 2020. O Projeto da Grande Muralha Verde surgiu com o claro objetivo de recompor uma parte importante dessa cobertura vegetal, impedindo assim o avanço dos processos de desertificação do Sahel.

A proposta inicial da Grande Muralha Verde era a formação de uma linha de vegetação contínua, com uma largura de 15 km e uma extensão total de 7.775 km desde o Senegal, na costa do Oceano Atlântico, até a Etiópia. Essa faixa de vegetação atravessaria 11 países e, inicialmente, 20 nações se comprometeram a apoiar o projeto. A meta inicial era chegar até o ano de 2030 com 100 milhões de hectares de solos recuperados e, pelo menos, 10 milhões de empregos criados. Analisando apenas esses números, é possível se ter uma ideia da complexidade e do grande número de obstáculos a serem vencidos.

Os números mais recentes indicam que apenas 15% das metas iniciais foram atingidas. Entre outros problemas, existem grandes regiões ao longo do Sahel que não estão sob controle dos Governos dos países, mas sim na mão de grupos guerrilheiros, que ditam as regras locais e decidem o que pode ou não ser feito em seus territórios. Outro problema é que muitas regiões são desabitadas e não haveria ninguém para cuidar das mudas plantadas. Não menos importantes foram os desvios de verbas – a corrupção faz parte da cultura política da África.

Segundo informações da ONU – Organização das Nações Unidas, que está envolvida no projeto, a Grande Muralha Verde está sendo muito bem sucedida em algumas regiões e nada bem em outras. Na Etiópia, por exemplo, perto de 15 milhões de hectares em processo de desertificação já foram recuperados através do plantio de árvores desde 2007. Na Nigéria, os trabalhos já ajudaram na recuperação de 5 milhões de hectares. No Senegal, 11 milhões de árvores já foram plantadas e cerca de 25 mil hectares de solos já foram recuperados.

As iniciativas não ficam restritas apenas ao plano dos Governos federais dos países. Cerca de 120 municípios de Burkina Faso, Mali e Níger fizeram a sua “lição de casa” e plantaram suas “pequenas muralhas verdes”. Esse esforços locais resultaram na recuperação de mais de 2.500 hectares de terras. Isso pode parecer pouca coisa, mas, para milhares de famílias que dispõem apenas de um pequeno lote para produzir seu próprio alimento, isso é muito. Manter as populações em suas terras e garantir que elas possam produzir seus alimentos é parte vital do projeto.

Cada família beneficiada pelo Projeto da Grande Muralha Verde e que consegue se manter vivendo em sua própria terra é uma família a menos que vai ser forçada a migrar para os centros urbanos em busca de uma vida melhor. O êxodo rural é um problema seríssimo em toda a África, não só por causa da desertificação de solos e das secas persistentes em muitas regiões, mas também por causa de conflitos armados em todo o continente.

Existem inúmeros exemplos de países que possuem um Governo oficial (nem sempre eleito democraticamente) e inúmeros líderes tribais ou ligados a alguma guerrilha, que controlam grande áreas do território do país. Indefesa em meio a todas essas forças, a população civil precisa fugir e buscar novos locais para recomeçar a vida.

A iniciativa da Grande Muralha Verde não vai conseguir solucionar todos os problemas dessa extensa região da África, mas, ao menos, poderá garantir um futuro melhor para muita gente. Além dos esforços para conter o avanço do Deserto do Saara rumo ao Sul, os Governos dos países atravessados pelo Sahel também precisam fazer investimento em sistemas de armazenamento e distribuição de água, em irrigação, na construção de estradas para facilitar o escoamento da produção, isso sem falar nos investimentos básicos em saúde e educação.

Infelizmente, não são todos os Governantes que estão preocupados com o bem estar e com a saúde do seu povo. Há notícias de desvios de verbas que seriam destinadas aos trabalhos de formação da Muralha Verde – dinheiro que está sendo doado por organismos internacionais, países e organizações não governamentais, mas que não está chegando onde deveria chegar.

De acordo com o relato de Dennis Garrity, diretor do ICRAF – Centro Agroflorestal Mundial, na sigla em inglês, houve uma proposta muito semelhante à da Grande Muralha Verde no início da década de 1970. Vários líderes africanos ficaram entusiasmados com a ideia e receberam verbas de organismos internacionais para plantar as árvores. O dinheiro, é claro, sumiu e ninguém viu as árvores. Não seria nada improvável que o mesmo acontece com alguns dos trechos do atual projeto.

Qualquer semelhança com fatos similares aqui em nosso país não é mera coincidência.

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