ADOLESCENTE SOLTA 1,4 MILHÃO DE RÃS EM UM LAGO NA INGLATERRA. SERÁ? 

Um vídeo viral que está circulando nas redes sociais está deixando ambientalistas e especialistas de “cabelo em pé”. De acordo com o relato do vídeo, cuja veracidade não foi confirmada até o momento, um jovem britânico recolheu cerca de 1,4 milhão de ovos de rã (algumas fontes dizem se tratar de sapos) na natureza e os colocou em um pequeno lago na propriedade de sua família. 

Dentro desse ambiente protegido e longe dos predadores naturais, a imensa maioria desses ovos eclodiu na forma de girinos, a primeira fase da vida dos anfíbios, passando depois para a fase adulta. Ou seja – esse jovem produziu artificialmente uma população de mais de 1 milhão de sapos ou rãs em seu quintal. 

De acordo com relatos de diversas reportagens que tratam desse assunto, os animais estão se espalhando pela região e invadindo propriedades vizinhas – animais precisam de alimentos e seria lógico supor que o pequeno lago “berçário” não teria capacidade para sustentar um número tão grande de animais. 

A “grande” ideia desse jovem britânico não é um caso isolado – em abril último circulou um outro vídeo nas redes sociais que mostra um jovem que soltou 100 milhões de joaninhas no Central Park em Nova York. Segundo o relato do próprio autor do vídeo, ele foi processado pelas autoridades locais e expulso dos Estados Unidos. A autenticidade dessa “história” também não foi confirmada. 

Sendo ou não verdadeiros, esses vídeos tem o potencial de inspirar outras pessoas a fazerem coisas parecidas, muito provavelmente imaginando que estarão ajudando a natureza. O primeiro caso que comentamos, segundo o texto das reportagens, foi motivado por uma forte seca no ano anterior que teria matado milhares de girinos – o ato do jovem teve a intenção de salvaguardar toda uma nova geração de anfíbios. 

Ambientes naturais, apesar de toda a sua aparente crueldade, são sistemas em perfeito equilíbrio, ou seja, as populações de plantas e animais nunca crescem acima de um determinado limite. Vou citar o exemplo das tartarugas marinhas – segundo as estimativas dos biólogos apenas 2 ou 3 tartarugas chegam a fase adulta a cada 1 milhão de tartaruguinhas que nascem. 

Imaginemos por um momento que alguém com as melhores intenções do mundo consiga “salvar” esse grande número de tartaruguinhas, por exemplo, recolhendo os animais recém-nascidos e os soltando em um braço de mar protegido ou num lago de águas salgadas. Em tal situação é muito provável que dezenas de milhares de tartarugas consigam atingir a idade adulta. 

E o que viria a seguir? 

Essa enorme população de tartarugas comprometeria facilmente todos os estoques de alimentos disponíveis nesse novo ambiente. Espécies nativas desse ambiente sofreriam com essa competição desleal, com muitas inclusive podendo desaparecer para sempre. Esse simplório resumo pode lhes dar uma ideia dos riscos de se introduzir espécies em ambientes diferentes. 

Uma das postagens campeãs em visualizações aqui do blog trata justamente dos sapos-cururus (Rhinella marina), uma espécie nativa aqui da América do Sul e bastante famosa nos poemas de Manuel Bandeira (leia o poema Os Sapos).  

Os sapos-cururu foram introduzidos na Austrália em 1933, com a missão de combater uma praga de besouros-da-cana (Dermolepida albohirtum) que infestava os canaviais de algumas regiões do país. Um lote de cento e dois animais foi trazido das Ilhas do Havaí, onde a espécie havia sido introduzida décadas antes para realizar o controle biológico de insetos que atacavam os canaviais locais.  

Como o território havaiano é muito pequeno, os impactos ambientais que a espécie invasora provocava não eram tão evidentes e os “serviços” de controle biológico pareciam ser bastante satisfatórios. Naquele momento, fazia sentido introduzir a espécie nos canaviais da Austrália.  

Infelizmente, os sapos-cururus não foram felizes em sua missão na Austrália. Diferentemente dos insetos rasteiros que infestavam os canaviais das Ilhas do Havaí, os besouros-da-cana da Austrália ficavam alojados nos caules das plantas acima do solo, numa altura que os sapos não conseguiam atingir com seus pulos. Sem conseguir se alimentar desses besouros, os sapos-cururu passaram a buscar outros alimentos e assim passaram a se dispersar pelas matas costeiras do país e a criar problemas para inúmeras espécies nativas.  

Os predadores dos sapos nativos da Austrália, onde se incluem cobras, lagartos, aves de rapina e marsupiais, passaram a se intoxicar com o veneno dos sapos-cururu e a morrer em grandes quantidades, alterando completamente o equilíbrio ecológico de várias regiões. Sem grandes predadores naturais, a espécie sul americana prosperou muito no Continente Australiano. 

De acordo com cálculos feitos por entidades ambientais do país já existem mais de 200 milhões de sapos-cururu na Austrália e a espécie não para de invadir ecossistemas em todas as regiões australianas. De acordo com estudos feitos através do monitoramento de sapos que receberam pequenos radiotransmissores, esses animais conseguem percorrer até 2 km por dia em suas migrações pelo interior do país.  

Os problemas não param por aí. Estudando a rápida propagação da espécie por toda a Austrália, os cientistas descobriram que os sapos-cururu passaram por adaptações físicas e aumentaram a sua velocidade de propagação em cinco vezes ao longo dos últimos 60 anos.  

Estudos anatômicos comparativos com espécimes preservados em museus demonstraram que as patas traseiras dos sapos-cururu tiveram um aumento de 25% em seu comprimento, aumentando proporcionalmente a força muscular e a velocidade dos animais – os sapos se transformaram em “pequenos cangurus” e passaram a usar essa vantagem “evolutiva” na sua conquista do Outback australiano. 

Se qualquer um dos leitores fizer uma pesquisa nos arquivos do blog encontrará dezenas de postagens que tratam da introdução de espécies invasoras. Falando de memória posso citar os castores, as trutas e os javalis que foram introduzidos na Argentina e no Chile décadas atrás e que atualmente possuem populações que fogem de qualquer tipo de controle. 

Espécies vegetais exóticas também podem causar enormes estragos em um determinado meio ambiente – posso citar os casos do pinus e do eucalipto, espécies que foram introduzidas aqui no Brasil e que ameaçam inúmeras espécies nativas. Também há o caso dos dendezeiros africanos que foram introduzidos em países do Sudeste Asiático, resultando na destruição de grandes extensões de florestas tropicais. 

Quantos “amantes da natureza” não poderão se sentir inspirados por qualquer um desses vídeos virais que circulam livremente pela internet e quantos crimes ambientais poderão estar cometendo inconscientemente com as melhores intenções? 

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