O RISCO DE EXTINÇÃO DO QUETZAL, A AVE SÍMBOLO DA AMÉRICA CENTRAL

Quetzal

quetzal é uma das mais belas aves do mundo. O nome quetzal é uma derivação de quetzalli, uma antiga palavra dos indigenas Náuatles ou nahuatl que viviam em algumas regiões do México e das altas planícies da América Central, e significa “bela pluma brihante”, ou, segundo outras fontes, “pena de cauda grande e brilhante”. Esses indígenas não poderiam ter escolhido uma palavra melhor para definir essa maravilhosa ave. 

A coloração das penas da ave é predominantemente verde-emeralda, com reflexos dourados, possuindo longas penas na cauda, que ondulam durante os seus voos. A ave é nativa de florestas do Sul do México, Honduras, Belize e da Guatemala, cuja moeda, não por acaso, é o Quetzal. Devido aos seus hábitos migratórios, existem populações de quetzal espalhadas por toda a América Central e a ave acabou sendo transformada em um símbolo dos povos centro-americanos.  

Para as antigas civilizações Maias, Toltecas e Astecas, o quetzal era uma criatura sagrada. Um dos principais deuses desses povos era o quetzalcoatl, a “serpente emplumada”, metade quetzal, metade serpente, considerado o deus da fertilidade. Somente os mais altos sacerdotes podiam usar adornos feitos com as penas da ave – as longas penas da cauda só poderiam ser usadas pelo imperador. Montezuma, o último grande imperador dos Astecas, usava uma espécie de cocar composto por 160 penas de quetzal.  

Segundo contam lendas dos indígenas do México, logo depois do assassinato de Montezuma por um soldado asteca (o imperador foi deposto por um conselho de líderes e seu irmão, Cuiltlahuac, foi eleito imperador), um quetzal desceu dos céus e absorveu o sangue do imperador morto. De acordo com essa lenda, é por isso que o quetzal tem as penas do ventre na cor de um vermelho vivo (vide foto). A lenda demonstra a importância cultural das aves entre os povos indígenas do México e de toda América Central. 

Naqueles tempos antigos, a retirada de penas das aves só podia ser feita a pedido dos sacerdotes e deveria ser realizada com extremo cuidado. Os animais capturados deveriam retornar às matas sãos e salvos logo depois da retirada das penas. Qualquer pessoa que matasse ou machucasse um quetzal seria condenada imediatamente à morte. 

A espécie mais conhecida é o quetzal-resplandecente (Pharomachrus mocinn). Essa ave tem um corpo com comprimento de 36 cm e penas de cauda que podem ter mais de 60 cm nos machos da espécie. A família das aves possui também as espécies quetzal-de-crista, quetzal-de-cabeça-dourada, quetzal-de-pontas-brancas e quetzal-pavão. O quetzal possui uma espécie de ave aparentada aqui no Brasil – sucuruá. Os quetzais têm um modo de vida solitário, só formando casais na época do acasalamento. As aves se alimentam de frutos e insetos, o que pressupõe a necessidade de matas e florestas bem conservadas. 

As aves vivem em regiões florestais com altitudes entre 1.000 e 3.000 metros, onde costumam procurar os galhos mais baixos, de onde pode localizar e predar insetos rasteiros. Na época do acasalamento, os casais de ave buscam ocos de árvores para construir seu ninho. Macho e fêmea se alternam em turnos no trabalho de cuidar do ninho e dos ovos. Uma característica única do quetzal macho no momento da incubação dos ovos é que a ave senta no ninho de forma que as longas penas da cauda pendam para o lado de fora.

Os tempos em que o quetzal era considerada uma ave sagrada e que deveria ser protegida por todos, infelizmente, já se foram há muito tempo. A ave está em situação crítica e corre sérios riscos de extinção.

Os maiores predadores do quetzal na natureza são as corujas e também aves de rapina como águias e falcões. Os filhotes e os ovos da espécie costumam ser atacados por esquilos, répteis e alguns mamíferos de hábitos noturnos, o que exige a proteção dos ninhos pelos pais em tempo integral. Aves oportunistas como os tucanos também podem se valer do descuido dos pais para predar ovos e filhotes. 

O grande predador do quetzal, entretanto, é o ser humano, que vem encurralando as aves em duas frentes. A primeira delas é a intensa devastação de áreas florestais em toda a América Central, o que vem reduzindo e restringindo cada vez mais os habitats das aves.  

Conforme comentamos em diversas postagens anteriores, as florestas tropicais da América Central continental estão entre as mais ameaçadas do mundo. Foram séculos de derrubadas de matas para abertura de campos agrícolas e pastagens para animais, projetos de mineração e realização de grandes obras de infraestrutura. 

Em países como El Salvador e Honduras restam menos de 30% das florestas nativas, espalhadas na forma de pequenas manchas de fragmentos florestais. Na Costa Rica e em Belize, países em melhor situação ambiental na região, as florestas ainda ocupam metade dos seus territórios.  

No Sul do México, já na América do Norte, as antigas e exuberantes florestas que formavam grande parte dos habitats dos quetzais estão reduzidas a pouco mais de 20% de suas áreas originais. No México, aliás, 90% das matas nativas já foram devastadas. Estudos indicam que cerca de 70% dos antigos habitats do quetzal no país foram destruídos. 

Outra ameaça à sobrevivência das aves é a caça predatória – as exuberantes penas dos animais, principalmente as longas penas das caudas dos machos, são extremamente cobiçadas e valorizadas pelo mercado da moda. Muitas aves são mortas pelos caçadores nas tentativas de captura. Muitas dessas aves capturadas são vendidas como animais de estimação após a remoção das penas da cauda. Normalmente, os quetzais não se adaptam a uma vida em cativeiro – há inúmeros relatos de aves que se recusam a comer e que acabam morrendo de fome. 

Existem diversas iniciativas governamentais e privativas em toda a América Central para recuperar populações e habitats da ave. Um dos destaques é o Centro de Educação e Pesquisa do Quetzal na Costa Rica. No início da década de 1980, um pesquisador norte-americano – Leo Finkenbinder, identificou uma grande população das aves vivendo nas matas da Cordilheira de Talamanca, na Costa Rica. As densas matas da região ainda abrigavam dezenas de espécies animais da fauna do país que também se encontravam em situação de vulnerabilidade. 

O Centro de Educação e Pesquisa do Quetzal surgiu a partir dos esforços combinados do Governo da Costa Rica, da SNU – Southern Nazarene University, de Oklahoma nos Estados Unidos, do Governo da Espanha e da ONU – Organização das Nações Unidas. A região foi primeiro transformada em um centro de pesquisas e estudos para alunos de biologia e, depois, foi elevada à categoria de reserva ambiental e convertida num importante centro de visitação, que passou a receber turistas de todo o mundo. A Southern Nazarene University criou um campus na região, onde promove a biodiversidade, a sustentabilidade e a responsabilidade social. O estudo e a preservação do quetzal é uma das atividades de destaque da instituição. 

Além do famoso quetzal, a lista de espécies da fauna ameaçadas em toda a América Central incluiu milhares de animais, onde estão mamíferos, répteis, aves, anfíbios, peixes e insetos. Também não é nada desprezível o número de espécies vegetais ameaçadas de desaparecimento devido a destruição e fragmentação de florestas e matas em todos os países da região. 

Já que os homens não tem conseguido proteger os importantes biomas centro-americanos, roguemos aos antigos “deuses” indígenas pedindo proteção ao quetzal e aos seus habitats. 

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