MANTIQUEIRA: “A MONTANHA QUE CHORA”

Serra da Mantiqueira

Comecemos com um pouco de folclore:

Segundo uma antiga lenda dos índios Tupi, havia uma linda princesa encantada em uma das tribos. Ela era tão bela, que os bravos guerreiros lutavam entre si a fim de chamar a sua atenção. Mas a princesa não reparava nesses homens – ela era apaixonada pelo Sol, que nunca tinha tempo para reparar na sua beleza. 

Com o passar do tempo, o Sol passou a perceber a formosura da moça e acabou se apaixonando por ela. Para passar mais tempo com sua princesa, o Sol começou a estender a duração dos dias – as pessoas e os animais das matas não conseguiam mais dormir nas madrugadas. Para sentir o cheiro da amada, o sol se aproximava da Terra, o que provocava grandes queimadas nas matas. A Lua ficou enciumada e raivosa por não poder mais reinar durante as noites – ela foi reclamar junto ao deus Tupã. 

Tupã não gostou dessa paixão do Sol por uma simples mulher. E como punição, ele decidiu que o Sol nunca mais deveria vê-la. Então Tupã ergueu a maior montanha que já existiu e dentro dela encerrou a princesinha. Sabendo que nunca mais veria seu amado Sol, a princesinha chorou rios de lágrimas, que formaram as nascentes de muitos rios. Os índios passaram então a chamar aquela montanha de amantikir – a montanha que chora. Para nós, o nome desse lugar é Mantiqueira. 

A Serra da Mantiqueira é um conjunto de montanhas que se estende por cerca de 500 km ao longo da divisa dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A região concentra uma grande infinidade de nascentes e afloramentos de água, que formam importantes rios da região Sudeste, sobre os quais vamos falar um pouco nessa postagem.  

Grandes formações rochosas como a Serra da Mantiqueira sofrem fraturas ao longo do tempo, que são provocadas pela movimentação dos solos pela ação das forças tectônicas. Os espaços criados por essas fraturas são preenchidos com os fragmentos resultantes dos processos de intemperismo e erosão das rochas. Esses acúmulos de fragmentos formam solos permeáveis, que permitem a acumulação de grandes volumes da água das chuvas. Essa água aflora em alguns pontos e forma as nascentes de inúmeros cursos d’água – é por isso que a Serra da Mantiqueira é uma verdadeira “caixa d’água”. 

Um rio ilustre com nascentes na Serra da Mantiqueira é o Rio Grande, que tem 1.360 km de extensão desde de suas nascentes até a foz no Paranaíba, rio com o qual se junta para formar o rio Paraná. Suas águas movimentam as turbinas geradoras de 12 usinas hidrelétricas, que juntas respondem por 25% da capacidade instalada do Subsistema Elétrico Sudeste/Centro-Oeste. Em uma dessas hidrelétricas, o represamento do rio Grande forma o maior espelho d’água de Minas Gerais – o Lago de Furnas, também conhecido como o “Mar de Minas”. A bacia hidrográfica do rio Grande ocupa uma área total de 143 mil km², englobando áreas dos Estados de São Paulo e de Minas Gerais – o rio, inclusive, marca um longo trecho da divisa entre esses dois Estados. 

Outro importante rio com DNA da Serra da Mantiqueira é o Rio Doce. O rio Piranga, com nascentes localizadas no município mineiro de Ressaquinha, na Serra da Mantiqueira, é o principal formador do rio Doce. O rio Piranga se encontra com as águas do rio do Carmo no município de Rio Doce e, a partir desta confluência, passa a ser chamado de Rio Doce. A extensão total do rio até a sua foz no Oceano Atlântico em Linhares, no Estado do Espírito Santo, é de 853 quilômetros. Um total de 228 municípios estão incluídos total ou parcialmente na bacia hidrográfica do rio Doce, sendo 202 no Estado de Minas Gerais e 26 no Espírito Santo. A população total que vive na região da bacia do rio Doce soma 3,2 milhões de habitantes, o que comprova que esse não é um “riozinho” qualquer. 

Esse importantíssimo curso d’água, conforme já tratamos em diversas postagens, foi literalmente reduzido a lama após o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração em 2015. Já se passaram mais de 3 anos desde o fatídico desastre e o rio Doce continua cheio de problemas – grandes volumes de sedimentos tóxicos ainda se encontram depositados na calha do rio, o que contamina as suas águas e impede que as populações as usem no abastecimento de cidades e na agricultura. Os pescadores também continuam sofrendo – a produção pesqueira atual não lembra, nem de longe, os volumes que se produziam num passado recente; no pouco peixe que se pesca hoje, pairam dúvidas sobre eventuais contaminações. 

Dois rios menores que os rios Grande e Doce, mas não menos importantes, são o Camanducaia e o Jaguari, que têm nascentes em terras mineiras da Serra da Mantiqueira, porém correm para o Sul, na direção do Estado de São Paulo. Esses rios estão entre os formadores do Sistema Cantareira, o principal manancial de abastecimento das regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas. Esses rios mostram o quão importante é a Serra da Mantiqueira – suas águas chegam a percorrer 160 km desde o Sul de Minas Gerais até a Região Metropolitana de São Paulo, tendo de seguir por diversas  represas, canais, túneis e estações de bombeamento, até chegar nas torneiras sedentas de milhões de paulistanos.

Entre os anos de 2014 e 2015, quando um seca monumental atingiu a Serra da Mantiqueira, houve uma queda brusca na produção de água nas suas nascentes e as represas do Sistema Cantareira praticamente secaram – milhões de paulistas foram submetidos a uma forte redução no fornecimento de água por vários meses. Obras emergenciais de interligação entre outros sistemas produtores, como o Guarapiranga e Rio Grande, tiveram de ser feitas as pressas, para substituir as águas do Sistema Cantareira. Já se passaram vários anos desde aqueles dias difíceis sem água, mas muita gente ainda teme pela volta de um seca forte como aquela.

Abençoadas sejam as águas da “montanha que chora”. Amém!

A BOA E VELHA SERRA DA MANTIQUEIRA

Cão-pastor-da-Mantiqueira

Em dezenas de postagens deste blog falamos do famoso Sistema Cantareira, o maior e mais importante conjunto de reservatórios que garantem o abastecimento de boa parte das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas. Nestas postagens sempre falamos que muitos dos rios formadores dessas represas têm suas nascentes no Sul do Estado de Minas Gerais, na Serra da Mantiqueira, tema da nossa postagem de hoje. 

A Serra da Mantiqueira é uma extensa cadeia de montanhas com altitudes entre 1.000 e 3.000 metros, localizada na divisa dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. O maciço montanhoso tem cerca de 500 km de extensão, indo da região de Barbacena, na região Sudeste de Minas Gerais, em direção da divisa com o Estado do Rio de Janeiro e depois seguindo na direção Oeste, fazendo a divisa dos Estados de Minas e São Paulo. Cerca de 60% da formação ocupa terras mineiras, 30% fica em terras paulistas e os 10% ocupam terras fluminenses. A Serra da Mantiqueira é rica em recursos hídricos e possui diversas Unidades de Conservação (UC) com vistas à proteção ambiental. 

A origem geológica da Serra da Mantiqueira, conforme comentamos em postagem anterior, está ligada à de outras importantes Serras: da Canastra, do Espinhaço, do Mar e de Maracaju. Falando de forma bastante simplificada, todas estas formações faziam parte de uma grande cadeia montanhosa, que tinha cerca de 800 km de extensão e 500 km de largura, que estava localizada bem próxima do centro do antigo supercontinente de Gondwana. Com a separação da América do Sul da África, um processo que começou há cerca de 160 milhões de anos, essa grande cadeia montanhosa foi se fragmentando e suas “partes” foram acompanhando a movimentação dos terrenos e acabaram formando todas essas Serras. 

Há um detalhe curioso nessa história – a separação do grande bloco que formava a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar levou à formação do Vale do Paraíba, no Leste do Estado de São Paulo, e também ao nascimento do rio Paraíba do Sul. A separação dessas duas massas de montanhas formou o que se chama em geologia estrutural de Graben ou fossa tectônica – um vale alongado com um fundo plano, resultado do afundamento de um grande bloco do território devido aos movimentos combinados de falhas geológicas paralelas ou quase paralelas. Sem entrar em maiores detalhes, esse tipo de afundamento ocorreu devido à movimentação das Placas Tectônicas, também conhecida como Tectônica Global. 

As grandes altitudes dos morros e montanhas da Serra da Mantiqueira resultam numa temperatura amena nos meses de calor e de baixas temperaturas no inverno – nos terrenos mais elevados é comum o registro de temperaturas negativas; nos picos das montanhas mais altas há registros de precipitação de neve. Essas características climáticas, somadas às belas paisagens serranas e a relativa proximidade das três maiores cidades brasileiras: São Paulo, que fica a 90 km ao Sul; Rio de Janeiro, a 200 km, e Belo Horizonte, localizada a 170 km de Barbacena, transformou toda a Serra da Mantiqueira em um dos mais importantes destinos turísticos do Brasil.

Um exemplo é a cidade de Campos do Jordão, no lado paulista da Mantiqueira. Localizada numa altitude de 1.650 metros acima do nível do mar, Campos do Jordão é considerada a cidade mais fria do Estado de São Paulo. No inverno de 1979, os termômetros da cidade registraram a temperatura de –7,3° C. Durante as primeiras décadas do século XX, a cidade abrigou diversos sanatórios para tratamento de doenças pulmonares como a tuberculose – de acordo com as práticas médicas da época, o ar frio das montanhas era bastante benéfico para os portadores dessas doenças. Com o crescimento da cidade, especialmente a partir da década de 1950, Campos do Jordão foi se consolidando como imperdível destino para as férias de meio de ano, que na Região Centro-Sul é Inverno. 

No lado fluminense da Serra da Mantiqueira podemos destacar a região de Visconde de Mauá, um distrito do município de Resende. A pequena vila tem cerca de 6 mil habitantes, que têm no turismo a sua principal atividade econômica. De acordo com dados oficiais, a vila possui mais de 100 hotéis e pousadas, além de dezenas de restaurantes e bares, alguns especializados em receitas com trutas e pinhões.  Além dos prazeres da boa mesa, os turistas fluminenses se esbaldam com os rios, corredeiras, cachoeiras e vales de toda essa belíssima região.  

No lado mineiro da Mantiqueira, são dezenas e mais dezenas de pequenas cidades encravadas no meio das montanhas, onde além de todas as belezas naturais dos cenários, se encontra a maravilhosa cozinha típica das Minas Gerais. Alguns exemplos são as cidades de Extrema, Gonçalves, Monte Verde (distrito de Camanducaia), Passa Quatro e Alagoa, conhecida como a Terra do Queijo Parmesão

Uma característica da vegetação da Serra da Mantiqueira é que ela mescla elementos típicos da vegetação da Mata Atlântica com fragmentos da Mata das Araucárias – essa é uma das razões da presença do pinhão, semente da Araucária, como um ingrediente típico da culinária da Serra da Mantiqueira.

O relevo acidentado, com a presença de grandes áreas cobertas por vegetação, criou grandes refúgios para a vida natural em toda a Serra da Mantiqueira. Espécies que estão ameaçadas de extinção em outras áreas da região Sudeste encontraram ali bons refúgios. Entre essas espécies podemos destacar o veado-campeiro, onças-pardas, lobos-guará, jaguatiricas, sauás, bugios, esquilos, ouriços-caixeiro e muriquis, um dos maiores primatas das Américas. 

Um detalhe curioso sobre a Serra da Mantiqueira, que eu desconhecia até hoje, é que a partir de cruzamentos entre as diversas espécies de cães dos moradores e sitiantes da região, se formou uma raça de cães de pastoreio com reconhecimento pelo The Kennel Club – o cão-pastor-da-Mantiqueira (vide foto). Ou seja, além de belas paisagens, fabulosos recursos hídricos e ótima comida, a Serra da Mantiqueira também possui sua raça própria de cães.

Show! 

A MAGNÍFICA SERRA DO MAR EM SÃO PAULO

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Vínhamos numa sequência de postagens falando sobre serras e águas por todo o Brasil, quando fomos obrigados a dar uma parada para falar das enchentes na Região Metropolitana de São Paulo. Conforme comentamos em uma das postagens, entra ano e sai ano e as previsíveis enchentes continuam a atormentar a vida da população paulistana. E isso não acontece apenas em São Paulo – outras grandes cidades como Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Florianópolis também passam seus maus momentos nas temporadas de chuvas. 

Tomando como gancho esse grande problema, lembro que falamos que a principal bacia hidrográfica da Região Metropolitana de São Paulo é a do rio Tietê, que atravessa essa grande mancha urbana no sentido Leste-Oeste. O Tietê recebe contribuições de milhares de pequenos rios e córregos ao longo deste trecho – somente dentro do município de São Paulo, o número de tributários fica entre 200 e 300; como muitos destes corpos d’água foram canalizados, aterrados e esquecidos ao longo da história da cidade, ninguém sabe o número exato – algumas fontes antigas chegam a falar até de 2.000 corpos d’água dentro da área do município de São Paulo. As canalizações, aterros e retificações feitas nesses cursos d’água estão na raiz das enchentes da Região Metropolitana de São Paulo. 

Mas o rio Tietê não reina tão soberano assim na área Metropolitana – no extremo Sul do município de São Paulo, já dentro dos domínios da Mata Atlântica, existem vários rios que correm na direção do Oceano Atlântico, seguindo por vales e quedas d’água na região da Serra do Mar. Isso acontece também em outros municípios da Região Metropolitana com porções na Serra do Mar. Um desses rios é o Capivari, que tem nascentes na região de Colônia, um dos bairros mais afastados da cidade de São Paulo. 

Poderá até parecer conversa de ecologista para a maioria dos leitores, mas, por mais incrível que possa parecer, a maior e mais urbanizada cidade brasileira possui uma grande área florestal no extremo sul do seu município, onde se encontram rios com águas cristalinas, densas matas e muita vida animal, onde até algumas raras onças-pintadas podem ser encontradas. Essa região faz parte de uma Unidade de Conservação Ambiental, a Capivari-Monos, que por sua vez fica dentro do Parque Estadual da Serra do Mar. 

A Serra do Mar é uma longa cadeia montanhosa que se estende por cerca de 1.500 km entre os Estados do Rio de Janeiro e Santa Catarina, acompanhando a faixa litorânea. A Serra do Mar é formada por uma sucessão contínua de morros e montanhas, onde se destacam grandes blocos rochosos de granitos e gnaisses, pertencendo ao chamado Complexo Cristalino Brasileiro. O trecho paulista da Serra do Mar se estende da divisa com o Estado do Rio de Janeiro até o litoral Sul de São Paulo. Esse trecho representa a maior porção contínua remanescente da Mata Atlântica no Brasil. A importância ambiental dessa área é tamanha que, desde 1977, ela passou à condição de área de preservação permanente com a Criação do Parque Estadual da Serra do Mar

Ocupando uma área com mais de 332 mil hectares, o Parque Estadual da Serra do Mar se espalha por 25 municípios paulistas. De acordo com os levantamentos científicos já realizados, esse imenso corredor ecológico abriga cerca de 1.361 espécies animais e 1.200 tipos de plantas. De acordo com dados da Secretaria Estadual do Meio Ambiente de São Paulo, o Parque contribui para a conservação de 19% do total de espécies de vertebrados de todo o país e 46% de toda a Mata Atlântica, além de proteger 39% de anfíbios, 40% de mamíferos e 23% de répteis do bioma. Isso não é pouca coisa

A Serra do Mar também se destaca por seus recursos hídricos. Dois dos mais importantes rios paulistas têm suas nascentes em seus morros – o Tietê e o Paraíba do Sul. Além desses, a Serra do Mar possui uma infinidade de pequenas nascentes e afloramentos d’água, que vão se juntando e formando riachos e rios maiores como o rio Capivari, que citei no começo deste post. A poucos quilômetros de sua nascente, já dentro da Serra do Mar, o rio Capivari apresenta fortes corredeiras e cachoeiras devido ao desnível do terreno – são cerca de 800 metros de altitude em relação ao nível do mar. Quando atinge uma altitude de uns 200 metros, o rio Capivari se encontra com o rio Branco de Cima e forma o rio Branco, um importante manancial de abastecimento da região da Baixada Santista. Quando eu era adolescente, acampei diversas vezes nessa região. 

Vista do litoral, a Serra do Mar em São Paulo parece uma muralha verde, com altitudes entre 800 e 1.000 metros. Os cumes dos morros e montanhas sempre aparecem cobertos por nuvens – são grandes massas de umidade vindas do oceano e que são interceptadas pelo relevo, provocando chuvas constantes. Em alguns trechos da Serra do Mar chove mais do que na Floresta Amazônica. São essas chuvas que alimentam os lençóis freáticos e garantem o fluxo contínuo das águas e a vida na floresta. 

Os terrenos íngremes e instáveis das encostas da Serra do Mar sempre foram um desafio para os chamados paulistas, que desde os primeiros tempos da colonização aprenderam a usar as muitas trilhas criadas pelos povos indígenas para superar o desnível entre o planalto e o mar. Esses caminhos indígenas, que existem por todo o país desde tempos imemoriais, são conhecidos como peabirus, palavra tupi guarani que significa algo como “grama amassada”. Naqueles tempos, se gastava de dois a três dias de caminhada pelas trilhas para ir de Santos até São Paulo, uma viagem de pouco mais de 70 km e que hoje pode ser feita em uma hora por rodovias.  

Com o passar do tempo, algumas dessas trilhas foram melhoradas para permitir o uso de burros de carga. Uma dessas trilhas, a Calçada do Lorena, era totalmente revestida por pedras, permitindo assim as viagens na temporada das chuvas. Com a chegada das ferrovias, a partir de meados do século XIX, as coisas melhoraram bastante – as rodovias só foram construídas no século XX. Foi justamente por causa dessa grande declividade e dificuldade de acesso da Serra do Mar que a Mata Atlântica em São Paulo acabou preservada – era muito difícil cultivar essas terras íngremes e dava muito trabalho explorar as madeiras nessas encostas instáveis. 

Para a sorte de todos, ficou valendo o velho ditado – há males que vem para o bem. 

 

OS PROBLEMAS COM A DRENAGEM DAS ÁGUAS PLUVIAIS NA REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

Enchentes em São Paulo

Na última postagem eu fiz um relato do caos criado pela primeira grande enchente desta nova temporada de chuvas na Região Metropolitana de São Paulo. Entra ano e sai ano, e os problemas parecem continuar os mesmos – aliás, a sensação é que na verdade estão num ritmo de crescimento contínuo. Esses problemas não são recentes – eles vêm acompanhando o forte crescimento das cidades da região desde meados do século XIX. Como a maior parte dos leitores do blog são de outras regiões do país e do exterior, acho que vale a pena relembrarmos um pouco da história das enchentes aqui na Paulicéia

Se qualquer um dos leitores tiver a oportunidade de subir ao terraço de um dos grandes edifícios da Avenida Paulista, terá a oportunidade de ter uma visão panorâmica da cidade de São Paulo e de trechos de algumas cidades vizinhas, que através de um intenso processo de conurbação, foram se juntando e formando uma única megalópole, com perto de 16 milhões de habitantes. Também será fácil observar que grande parte dessa área urbana é plana, formando uma extensa bacia sedimentar, com alguns maciços rochosos em destaque – a Serra da Cantareira, o Pico do Jaraguá e o espinhaço da Avenida Paulista/Vila Mariana, entre outros. 

O principal rio que corta a região Metropolitana é o famoso Tietê, que entra pela região Leste, atravessando os municípios de Arujá, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba e Guarulhos, até cruzar todo o município de São Paulo. Na Zona Oeste da cidade de São Paulo, na divisa com o município de Osasco, o rio Tietê toma o seu caminho de saída rumo ao interior do Estado, atravessando outros municípios da área Metropolitana como Carapicuíba, Barueri, Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, entre outros. 

Dentro da Região Metropolitana, o rio Tietê tem dois grandes afluentes, o Tamanduateí, que nasce no município de Mauá e atravessa parte da região do ABCD, e o rio Pinheiros, que atravessa boa parte da região Sul da cidade de São Paulo. Além desses dois rios maiores, a bacia hidrográfica do rio Tietê na Região Metropolitana possui milhares de pequenos rios e córregos. De acordo com dados da Prefeitura da cidade de São Paulo, existem pelo menos 186 sub-bacias hidrográficas somente dentro da área desse município. São entre 200 e 300 cursos de água – algumas fontes chegam a falar de 2.000. Essa falta de certeza sobre o número exato de cursos d’água dentro do município está na raiz do problema das enchentes e ajuda a entender o caos que se forma em toda a Região Metropolitana nos dias de chuvas mais fortes. 

Até meados do século XIX, São Paulo era uma cidadezinha sem maior importância, perdida no alto da Serra do Mar. A cidade só começou a ganhar alguma relevância após a chegada das primeiras linhas férreas, que ligavam os grandes centros produtores de café no interior do Estado ao Porto de Santos. Foi justamente por estar no entroncamento dessas linhas de trens, que São Paulo começou a se destacar e se transformou, bem aos poucos, em um importante entreposto comercial entre o litoral e o interior. 

Canalizando os lucros dos grandes cafeicultores do interior do Estado, a cidade começou a crescer rapidamente, recebendo gente de todo o mundo. Os grandes contingentes de imigrantes estrangeiros que foram recrutados para trabalhar nas plantações de café, passavam obrigatoriamente pela cidade de São Paulo – alguns acabavam ficando por aqui e outros voltariam mais tarde. Com o crescimento da cidade, passou-se a uma busca frenética por terrenos para a construção de casas, hotéis, lojas, galpões e, mais tarde, fábricas. As várzeas e margens dos muitos córregos que cortavam a cidade passaram a ser vistas como áreas com enorme potencial para receber todas essas construções. Então, sem maiores estudos e preocupações ambientais, córregos e rios passaram a ser canalizados e aterrados – a cidade, literalmente, cresceu por cima dessa imensa rede hídrica.

Décadas mais tarde, foram as áreas de várzeas dos rios Tietê e Tamanduateí que entraram na alça de mira da especulação imobiliária. O curso destes dois rios era extremamente sinuoso e com grandes áreas de várzeas ou baixadas, justamente para permitir que nos períodos das fortes chuvas, que sempre caíram no Planalto de Piratininga, houvesse espaço para o transbordo do excesso de água. Essas áreas enchiam rapidamente e liberavam a água aos poucos, evitando assim maiores enchentes em outras regiões da cidade. 

Pois bem – para conseguir mais áreas para o crescimento das cidades, tanto o rio Tietê quanto o Tamanduateí passaram por grandes obras para a retificação dos seus cursos. Os antigos e longos leitos sinuosos foram transformados em canais, burocraticamente, retos. As antigas áreas de várzeas passaram a ser aterradas e as cidades, que nunca paravam de crescer, avançaram sobre essas antigas áreas. Outros tantos rios e córregos das cidades também passaram por esses processos de retificação dos seus leitos e foram ocupados pelas famosas avenidas de fundo de vale

O resultado de todo esse longo processo de canalização de rios, córregos, e ocupação das  suas áreas de várzea foi um só – não sobrou muito espaço nas áreas urbanas da Região Metropolitana de São Paulo para acumular os excedentes de águas nos dias de grandes chuvas. É por isso que basta uma chuva mais forte para aparecer um ponto de enchente; se for uma chuva generalizada e forte, como essa de poucos dias atrás, teremos então uma mega enchente. Simples assim. 

Existem soluções? 

Sim – é necessário ampliar e rebaixar a calha dos rios e córregos que restaram, criando assim espaço para se acumular água. Também é necessária a construção de piscinões e bacias de detenção, entre outros dispositivos hidráulicos, que permitam a acumulação da maior quantidade possível de água das chuvas. Outro caminho é tornar os solos das áreas urbanas permeáveis, de forma que parte da água das chuvas seja absorvida antes de chegar aos canais dos corpos d’água. Tanto a realização das obras quanto a desapropriação dos terrenos exigem grandes volumes de dinheiro, dinheiro esse que as cidades não têm. Vemos então o jogo de empurra-empurra dos políticos após cada grande enchente. 

Essa história aconteceu nas cidades da Região Metropolitana de São Paulo e em outras por todo o Brasil – a rede natural de drenagem das águas pluviais, que são os rios e córregos, foi comprometida pelo crescimento das próprias cidades e agora não há dinheiro para se criar uma rede de drenagem artificial. 

Então, as enchentes dos períodos de chuva passaram a fazer parte das paisagens. 

 

A CIDADE DE SÃO PAULO E A PRIMEIRA MEGA ENCHENTE DA TEMPORADA

Enchente em São Paulo

Um roteiro dos mais manjados: entre as 19 horas e a meia noite desta última sexta-feira, dia 30 de novembro, a cidade de São Paulo registrou 45,1 mm de chuvas, o que corresponde a exatamente um terço das chuvas esperadas para todo o mês de novembro. Já no sábado, dia 1° de dezembro, foram registradas até as 7 horas da manhã mais 21 mm de chuvas na cidade, o que corresponde a 11% do que é esperado para todo o mês de dezembro. Resultado: um caos em grande parte da cidade (vide foto)

Os problemas, infelizmente, não se limitaram à cidade de São Paulo: na região do ABCD, sigla usada para identificar as cidades vizinhas de Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema, os estragos com a chuva não foram menores. Do outro lado da Região Metropolitana, foram as cidades de Franco da Rocha, Caieiras e Francisco Morato que sofreram as consequências do transbordamento do rio Juqueri. Em Itaquaquecetuba, município limítrofe com o extremo Leste da cidade de São Paulo, também foram registrados inúmeros alagamentos. Entre outros graves problemas, as chuvas provocaram o fechamento do Aeroporto de Congonhas, cancelando ou atrasando dezenas de voos.  

A segunda parte do roteiro: de acordo com informações publicadas pelo Portal G1, a Prefeitura da Cidade de São Paulo tinha uma previsão de gastar, nos exercícios de 2017 e 2018, cerca de R$ 575 milhões em obras e sistemas de monitoramento contra enchentes – desse total previsto, somente R$ 222 milhões, ou 38% do orçamento, foram gastos. Do total previsto no mesmo período para obras de drenagem de águas pluviais, um dos serviços mais básicos de competência das prefeituras, foram gastos R$ 279 milhões, cerca de 35% do valor previsto de R$ 824 milhões.  

Sem nos preocuparmos com a qualidade das obras e dos serviços que foram efetivamente realizados, e que normalmente deixam muito a desejar, peço que observem que há um verdadeiro descaso das autoridades municipais em relação aos problemas ligados às chuvas. Em nosso país, onde felizmente não estamos sujeitos a nevascas, furacões e terremotos mais fortes, temos uma característica bem tropical – uma temporada de chuvas, que se repete ano após ano, com algumas variações de intensidade e de período, conforme a região do país. 

Com tamanha previsibilidade desse período de chuvas e, previsivelmente, das consequências e problemas que essas chuvas vão provocar nas áreas urbanas e rurais de todo país, como é que as autoridades de todos os níveis de Governo não conseguem, ao menos, executar num orçamento municipal, o que foi previsto? Vejam que, no caso da cidade de São Paulo, apenas um terço do que foi orçado foi realizado. 

Sem entrar no mérito da incompetência de muitas “otoridades” indicadas para exercer cargos técnicos na administração pública e nos muitos desvios de condutas (uma forma mais simpática de falar de roubalheira) na contratação de obras pelos Governos, deixem-me citar dois exemplos da dificuldade que as empresas de construção civil enfrentam para realizar obras públicas lícitas na Região Metropolitana de São Paulo: 

Entre os anos de 2010 e 2012, eu trabalhei em diversas obras do Projeto Tietê na Região Metropolitana de São Paulo. Essas obras tinham como meta a ampliação do volume de esgotos coletados e tratados na Região Metropolitana, contando com financiamento de um banco do Japão e realização a cargo da Sabesp, a empresa estadual de saneamento básico. Projeto bem definido, metas claras e recursos financeiros disponíveis – tudo o que se precisa para tocar uma obra, certo?

Não! 

Em cidades como Francisco Morato, Pirapora do Bom Jesus, Arujá e Caieiras, as Prefeituras liberavam o alvará para a realização das obras entre 7 e 15 dias. Explicando: para realizar obras em vias públicas (redes de água tratada, de águas pluviais e de esgotos, além de redes elétricas, de TV a cabo, internet e de telefonia), uma construtora precisa apresentar o projeto e o cronograma das obras para a Prefeitura da cidade, onde será feita uma análise dos impactos das obras no dia a dia da população local. Alterações no fluxo do trânsito, rotas de linhas de ônibus, acessos a hospitais e serviços públicos – tudo é analisado e pensado de forma a se minimizar os impactos. Uma vez liberado o alvará, a Prefeitura tem obrigação de fiscalizar a obra e cobrar a execução dos prazos pela construtora. 

Pois bem – enquanto nessas cidades vizinhas era relativamente fácil realizar as obras contratadas, em São Paulo era praticamente impossível. Ao entrar com a documentação na Prefeitura da Cidade solicitando o alvará para realização das obras, as repartições responsáveis pediam de 6 a 8 meses apenas para analisar o pedido, além de um prazo indefinido para a liberação do alvará. Não há como uma construtora esperar tanto tempo, mantendo funcionários e equipamentos em ritmo de espera. 

Um outro caso – nesse mesmo pacote de obras, realizamos obras no Jardim São José, um bairro da cidade de Osasco. A certa altura, era necessário fazer a interligação das redes de esgotos do bairro, atravessando a principal avenida local. Após conversas com a Prefeitura de Osasco, ficou acertado que a obra seria realizada numa madrugada de sábado para domingo, causando o mínimo de transtornos para a população. No dia e na hora programados, nossa equipe mal iniciou os trabalhos de corte do asfalto quando o engenheiro responsável recebeu um telefonema com ordem vinda diretamente dos altos escalões da Sabesp, mandando parar a obra e desbloquear a avenida. 

Foi somente no começo da semana seguinte que se entendeu o que aconteceu – um ex-diretor da Sabesp, que bem por acaso morava na região, se sentiu incomodado em pegar um engarrafamento no começo da madrugada e ligou para o presidente da empresa exigindo uma explicação. Uma única “ex-otoridade” teve poder suficiente para paralisar uma obra pública,  que beneficiaria dezenas de milhares de pessoas e causou um prejuízo de dezenas de milhares de reais para a construtora. 

Moral da história: enquanto burocratas e “otoridades” desqualificadas continuarem a mandar e a desmandar no serviço público sem critérios técnicos claros, todos os cidadãos vão continuar sofrendo com enchentes e alagamentos, com esgotos correndo a céu aberto, com encostas de morros desmoronando, com viadutos e pontes sem manutenção (vejam o caso do viaduto de São Paulo que cedeu), entre outros problemas que assistimos no nosso dia a dia. 

Muito pior: desperdiçando dinheiro público, que de público não tem nada – é nosso dinheiro.