A PREDATÓRIA EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO, GÁS E OUTROS RECURSOS NATURAIS NA SIBÉRIA

Tigre siberiano

Imagine um lugar inóspito, pouco habitado, gelado na maior parte do ano, longe de tudo e que dava arrepios na espinha daqueles que ouviam seu nome: Sibéria. Até algumas poucas décadas atrás, essa era a imagem dessa extensa região do Leste da Rússia, que nos tempos “áureos” do regime comunista era o paraíso dos gulags, os campos de prisioneiros e de dissidentes políticos do regime. A Sibéria responde por 77% do território da Rússia, o que corresponde a 13 milhões de km². 

Nos últimos anos, porém, as temidas estepes geladas da Sibéria foram transformadas na redenção da Rússia. Após o colapso da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, os russos perderam ou passaram a ter acesso limitado aos recursos naturais de seus antigos países satélites. Foi então que a Sibéria entrou definitivamente no mapa da Rússia – a região concentra 80% das reservas de petróleo, 85% do gás, 80% do carvão, além de possuir impressionantes reservas de minerais e a maior parte das florestas do país. 

Essas grandes reservas de matérias primas e recursos energéticos colocaram a Rússia como um dos grandes players do mundo atual. Os países que formam a União Europeia, citando um exemplo, se transformaram em grandes dependentes de recursos energéticos da Rússia – 70% do petróleo e 65% do gás consumido por esses europeus são comprados dos russos. Um outro grande mercado para os recursos naturais e energéticos da Rússia é a China, país que fica muito próximo da região da Sibéria e que já é o destino final de diversos oleodutos, gasodutos e rodovias russas. 

A proximidade com a China, aliás, se tornou um dos grandes atrativos da até então “distante Sibéria”. De acordo com as informações usadas e divulgadas pelo Governo da Rússia nas estratégias de marketing dos recursos siberianos, o tempo de transporte de uma carga para Xangai a partir do porto de Vânino na Sibéria é de apenas 4 dias. Essa mesma carga levaria 35 dias de viagem a partir do Brasil, 20 dias a partir da África do Sul e 14 dias a partir da Austrália. Além do menor tempo de transporte e facilidades logísticas, os custos com os fretes são muito mais baixos.

Até meados do século XVI, a Sibéria era uma espécie de “terra de ninguém”, habitada por inúmeros povos nômades e independentes de qualquer grande potência. Foi no reinado do czar Ivan IV da Rússia (1530-1584), mais conhecido entre nós como “Ivan, o Terrível“, que teve início a partir de 1555 um grande processo de exploração e colonização da Sibéria pela Rússia. Gradativamente, todos os territórios a Leste dos Montes Urais foram incorporados ao Império Rússo. Essa expansão, inclusive, atravessou o Estreito de Bering, chegando até o Alasca, um território que em 1867 seria vendido aos Estados Unidos. 

Um dos mais importantes recursos naturais explorados na Sibéria nessa época eram as peles de animais como tigres siberianos (vide foto), lobos, ursos e raposas, que eram encontrados em grandes quantidades nas florestas de taiga e nas estepes. Entre os séculos XIII e XVII, a Europa passou por um período de esfriamento, conhecido entre os climatologistas como Pequena Era do Gelo. As temperaturas caíram fortemente no continente, com algumas regiões da Escandinávia, Islândia e Groenlândia sendo abandonadas pelas populações devido ao frio extremo.  

Nesse período, o mercado de peles de animais para a confecção de casacos para os mais endinheirados da Europa cresceu muito, o que tornou as regiões mais selvagens do continente num grande atrativo para os caçadores. O czar Ivan IV enxergou nesse mercado uma grande oportunidade para a venda de peles da Rússia e estimulou a caça na Sibéria. Milhares de aventureiros se deslocaram para o grande Leste da Rússia, o que estimulou a expansão da população e a anexação dessa extensa região pelos russos.  

Muitos dos povos dessa região acabaram se transformando em fornecedores de peles, o que facilitou sua gradual integração social e econômica à Rússia – outros povos, mais aguerridos, acabaram sendo dominados com o uso da força pelas tropas imperiais. Gradativamente, a Sibéria foi se transformando em uma grande e importante fornecedora de carvão, madeiras, minérios e outras matérias primas essenciais para os sucessivos czares russos. 

Após a Revolução Comunista de 1917 e com a formação de um grande bloco de países, a União Soviética passou a contar com importantes fontes de petróleo, gás e carvão na região do Mar Cáspio e nas Repúblicas Socialistas da Ásia Central – a região da Sibéria voltou a ser colocada em um segundo plano, só voltando a ser lembrada pelos invernos rigorosos e como um local de punição para os presos políticos. Foi somente após o colapso da União Soviética em 1991 e perda de acesso dos russos aos recursos naturais da Ásia Central, que a Sibéria voltou a “entrar” no mapa da Rússia mais uma vez. 

A exploração em larga escala dos cobiçados recursos naturais da Sibéria está criando uma série de impactos ao meio ambiente. Vamos começar falando dos desmatamentos em grandes extensões da taiga, a floresta boreal ou das coníferas. Esse grande sistema florestal, o maior do mundo, cobre uma área total de 15 milhões de km² em países como a Escócia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, partes do Cazaquistão e da Mongólia, Norte do Japão, Alasca – território dos Estados Unidos, Canadá e Groenlândia

A maior parte da vegetação da taiga, cerca de 12 milhões de km², se encontra dentro do território da Rússia, principalmente na região da Sibéria. Essa impressionante floresta russa tem mais de duas vezes o tamanho da Floresta Amazônica e sofre dos mesmos males: desmatamentos (muitos deles ilegais) e queimadas. Durante o verão de 2019, mais de 100 mil km² de florestas de taiga foram destruídos por incêndios, grande parte provocados por fenômenos naturais. 

Os desmatamentos na taiga são realizados por empresas produtoras de papel e celulose e também para a exploração de madeira, principalmente uma espécie local de cedro de grande valor comercial. O grande comprador de madeiras da Rússia é a China, destino de 2/3 das exportações russas. Estima-se que entre 15 e 30% desses desmatamentos sejam ilegais. O avanço sobre essas florestas ameaça inúmeras espécies animais locais como o tigre, lobos, raposas e linces, entre outras, além de comprometer a estabilidade do clima global

A exploração de minerais e carvão na região também é uma grande fonte de problemas para o meio ambiente. Conforme comentamos em postagem anterior, os efeitos da mineração selvagem na Sibéria têm comprometido uma série de cursos e corpos d’água como o grande Lago Baikal. Resíduos tóxicos de metais pesados presentes em depósitos de rejeitos minerais têm sido carreados para inúmeros rios que desaguam nesse Lago e o efeito mais visível da poluição é a morte de grandes quantidades de focas, animal símbolo do Baikal

A exploração de petróleo e gás também dá a sua contribuição para os grandes problemas ambientais da Sibéria. Longe dos olhos da maior parte da população do país, as empresas desse setor costumam fazer vista grossa para os procedimentos de segurança e de proteção ao meio ambiente, o que tem resultado em inúmeros acidentes na perfuração, armazenamento e transporte, com vazamento de grandes quantidades de petróleo.  

Petróleo e gás ocupam uma posição de destaque na economia da Rússia e o Governo Central do país faz todo um esforço para minimizar a importância e a intensidade de qualquer notícia de vazamentos de petróleo e/ou gás na Sibéria. O grande poderio militar da Rússia, que conta com um fabuloso arsenal de armas nucleares, e a dependência de grande parte da Europa pelo fornecimento de petróleo e do gás russo, ajuda a calar a maior parte dos ambientalistas, que raramente se atrevem a falar dos problemas enfrentados pela Sibéria de Vladimir Putin

Diante do silêncio do mundo, a exploração selvagem dos recursos naturais está a custar muito caro para a distante Sibéria.

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