CRESCEM OS CASOS DE ROUBO DE LENHA E MADEIRA EM FLORESTAS DA ALEMANHA 

O mundo está enfrentando uma enorme crise energética e a Europa é uma espécie de epicentro dessa crise. O cerne do problema foi a interrupção do fornecimento de gás natural pela Rússia em resposta às inúmeras sanções econômicas que foram impostas pela Europa após a invasão da Ucrânia. 

Os países europeus vinham, já há muitos anos, se empenhando em “descarbonizar” suas economias, focando especialmente na redução da queima de carvão em centrais termelétricas e em industriais. O gás natural, apesar de também ser de origem fóssil, vinha se mostrando uma excelente opção nessa direção. 

A brusca crise criada após a interrupção do fornecimento de gás pelos russos pegou a maioria dos países da Europa Ocidental de “calças curtas”. Um dos casos mais críticos foi o da Alemanha, onde mais da metade do gás natural usado pelo país era fornecido pela Rússia, uma importante fonte energética que desapareceu praticamente do dia para a noite. 

Como se faz para compensar rapidamente essa fonte de energia perdida? 

Entre inúmeras soluções de curto prazo, os Governos da Europa vêm aumentando as importações e os estoques de gás natural liquefeito, importado principalmente dos Estados Unidos e do Oriente Médio. Essa solução resolve grande parte dos problemas dos consumidores, porém, a um custo extremamente elevado – os preços das contas de luz e gás dispararam. 

Outra solução foi reativar a queima de carvão para a geração de energia em empresas e para gerar energia elétrica. Muitas centrais termelétricas que já estavam desativadas voltaram a ser religadas e outras, que se encontravam em processo de desativação, foram simplesmente mantidas em operação. A mineração de carvão no continente, que andava em baixa, voltou a ganhar importância. 

Além das medidas “oficiais” tomadas pelos Governos, as populações mais pobres começaram também a dar os seus “jeitinhos” para tentar driblar a alta nos preços das contas de energia. E uma das formas mais tradicionais de se gerar energia nas residências voltou a moda – a queima de lenha em fogões e lareiras

Apesar de ser uma solução simples, essa alternativa energética também tem seus custos – a maior parte das florestas da Europa Ocidental fica dentro de propriedades particulares e são o resultado de grandes esforços de reflorestamento. No caso da Alemanha, citando um exemplo, essas florestas particulares chegam a representar até 85% do total. Grandes florestas nativas hoje só são encontradas na Escandinávia e na Rússia. 

Muitas dessas florestas alemãs são exploradas por empresas que comercializam lenha e madeira. Essas empresas exploram os recursos naturais de forma sustentável e planejada. No caso da lenha, os maiores consumidores são restaurantes, padarias, pizzarias e também hotéis turísticos, onde os hospedes fazem questão da presença das tradicionais lareiras. 

Antes do início da crise energética, o metro cúbico da lenha era vendido na Alemanha por menos de 60 Euros. Nas últimas semanas, lembrando que o inverno europeu está se aproximando, esse custo já chega a superar a marca dos 200 Euros. Além da explosão dos preços, os consumidores estão enfrentando um outro problema – as empresas do ramo estão trabalhando no seu limite de produção e não estão aceitando novos pedidos. 

E o que a história nos ensinou sobre esses momentos de crise? 

Na falta de lenha e de madeira no mercado formal, surgiu nos últimos meses um poderoso “mercado negro” desses produtos na Alemanha, um fato que é considerado inédito na história do país. Roubar lenha e madeira nas florestas locais virou uma opção ao uso da eletricidade e do gás nas residências. 

Associações florestais e de madeireiros estão relatando um aumento vertiginoso no roubo desses produtos dentro de suas propriedades. Os “ladrões” (uso aspas por que existe muita gente comum e pobre roubando lenha por pura necessidade) invadem as florestas a noite com motosserras. Essas incursões são feitas em pequenos grupos. 

Após derrubar e retalhar as árvores, os pedaços dos troncos são camuflados na caçamba de caminhonetes ou dentro de trailers para o transporte até as vilas e cidades. A venda ilegal dos produtos é normalmente feita a partir das próprias residências, numa divulgação que é feita boca a boca. 

Uma outra modalidade criminosa também está em alta no país – o roubo de cargas de caminhões das empresas que comercializam madeira e lenha. As autoridades policiais dizem que isso também é uma novidade no país. Essas operações envolvem quadrilhas especializadas no roubo de cargas que passaram a enxergar uma boa oportunidade de ganhar dinheiro com o roubo e a venda de produtos florestais. 

Sem entrar no mérito legal do que significa esse roubo de lenha e madeira, problema que eu deixo a cargo da Justiça alemã, é certo que essa prática tem como consequência um aumento das emissões de gases de efeito estufa – queimar lenha e madeira em fogões e lareiras por lá equivale a “queimar” a Floresta Amazônica por aqui. 

Essa situação surreal me lembra uma cena do clássico filme Doutor Jivago de 1965. Numa cena, o protagonista, que foi vivido pelo ator Omar Sharif, é pego roubando lenha de uma cerca para queimar na lareira de sua casa. A cena se passa em pleno inverno russo durante a Segunda Guerra Mundial. Não custa lembrar que a então URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sofreu muito com a invasão de tropas nazistas da Alemanha. 

Tragicamente, hoje são os alemães que estão roubando lenha para sobreviver ao inverno mais de 70 anos depois do final da grande guerra. O mundo e a história costumam mesmo dar grandes voltas…

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