OS RISCOS PARA O ABASTECIMENTO DE ÁGUA NA REGIÃO METROPOLITANA DE CURITIBA, OU LEMBRANDO MANUEL BANDEIRA

sapo.jpg

A postagem de hoje de hoje começa com os primeiros versos da poesia do grande mestre pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) – Os sapos:

“Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra…”

Conforme se avança nas pesquisas sobre a hidrologia e os problemas ambientais de Curitiba e região, vão surgindo algumas alcunhas que reforçam as características físicas da região – dois destes apelidos são bastante significativos: Sapolândia e Chuviritiba.

A região onde se encontra a atual cidade de Curitiba era formada originalmente por uma imensa teia de rios, riachos e arroios, como se diz na região Sul do Brasil – os pequenos cursos d’água que se encontravam por todos os lados. Algumas fontes afirmam que, somando-se tudo, chegaremos próximo de 5.000 cursos d’água de todos os tamanhos como os formadores do famoso rio Iguaçu (palavra que, não por acaso, significa “rio grande” em língua tupi). Em uma região tão úmida, os anfíbios encontram um habitat perfeito. Conta-se que, por estas razões, a cidade de Curitiba era conhecida no século XIX como Sapolândia – a terra dos sapos; inclusive, o curitibano na época era chamado de “o sapo” (justifico aqui a escolha da poesia de Bandeira). Outro apelido bastante simpático e que não requer maiores explicações, é associado ao grande número de dias chuvosos na cidade: Chuviritiba.

Uma região com tanta disponibilidade e tantas referências à água, faz supor que não esteja sujeita a problemas para o abastecimento da sua população, problema que realmente inexiste na cidade nos dias atuais – como toda grande Região Metropolitana, há problemas pontuais e intermitentes de infraestrutura que não comprometem o “conjunto da obra”. Porém, como já apresentado em posts anteriores, a cidade e a Região Metropolitana de Curitiba apresentam sérios problemas de poluição difusa na rede regional de corpos d’água, que se refletem diretamente no principal manancial da região – o rio Iguaçu é o 2° mais poluído do Brasil, uma verdadeira façanha se comparado ao enorme esforço que a maior Região Metropolitana do Brasil – São Paulo, com uma população quase cinco vezes maior, faz para colocar o rio Tietê na primeira posição deste ranking.

Um estudo da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, divulgado em 2015, fez um diagnóstico da situação das sub-bacias de Curitiba: 96 das 120 sub-bacias da cidade foram monitoradas e analisadas, recebendo uma pontuação com o nome de IQA – Índice de Qualidade das Águas. O principal parâmetro utilizado no cálculo foram os índices de contaminação das águas por despejos de esgotos domésticos. E os resultados não foram nada animadores: 62,5% das sub-bacias receberam a indicação de IQA ruim, 14,5% IQA péssimo, 21,8% IQA razoável e apenas uma sub-bacia, a nascente do Rio Tapajós, conseguiu receber uma avaliação de IQA boa – nenhuma sub-bacia da cidade conseguiu atingir a avaliação IQA ótimo. Confesso que a divulgação deste relatório é bastante decepcionante para uma cidade que se vende nos meios de comunicação como a Capital Mais Ecológica do Brasil – como deve ser fácil de notar pelos meus textos, sou paulistano e minha cidade está a anos-luz (é na realidade uma medida de distância, mas estou “forçando” o uso dentro do contexto) de ousar ostentar tal título; porém, mesmo dentro de São Paulo, é possível encontrar sub-bacias que podem receber a avaliação IQA ótimo: um exemplo é a do rio Capivari, no extremo Sul do município, que só não receberia um IQA perfeito por que os milhares de macacos, pássaros, jaguatiricas e sapos que vivem nas matas fazem cocô nas margens e dentro do rio…

A constatação, através de um estudo publicado por um órgão da própria Prefeitura da cidade, de que a imensa maioria dos corpos d’água de Curitiba, e por extensão de toda a Região Metropolitana, apresentam altos índice de contaminação por despejos de esgotos é preocupante, uma vez que a água usada para o abastecimento da população é captada dentro deste meio ambiente poluído. Se hoje a Região Metropolitana pode se vangloriar de possuir grandes fontes de água para o abastecimento da população, é preciso cuidado com o andor por que pode faltar barro para fazer o santo amanhã: a cidade de Curitiba tinha 180 mil habitantes em 1950 e hoje já se aproxima dos 2 milhões de habitantes, sem considerarmos o crescimento vigoroso das demais cidades da Região Metropolitana – quanto mais gente, mais água se faz necessária; quando mais água fornecida para a população maiores serão os despejos irregulares de esgoto nos corpos d’água, o que resultará em maiores níveis de poluição nas fontes de abastecimento de água – é um círculo extremamente danoso para todos.

A contaminação das fontes superficiais de água tem reflexos diretos na contaminação das águas subterrâneas, que podem estar recebendo cargas de contaminantes a partir dos pontos de recarga dos aquíferos. A exploração do potencial das águas subterrâneas para abastecimento das cidades, que existe num bom tamanho em Curitiba, normalmente é uma garantia de águas de ótima qualidade, especialmente para as indústrias. Caso se identifique qualquer grau de contaminação, o uso destas águas poderá necessitar de algum tipo de tratamento prévio – dependendo dos custos deste tratamento, o uso destas águas subterrâneas pode até deixar de ser vantajoso do ponto de vista econômico, sendo mais barato “comprar” água da rede pública de abastecimento. A água potável, como todos devem saber, é o recurso natural mais escasso do planeta e uma região com tanta abundância de recurso hídricos como a Região Metropolitana de Curitiba, não tem, forçando um pouco as palavras, o direito de tratar suas águas tão mal.

Sem querer ofender ninguém da Região, inclusive por que os problemas e as responsabilidades com os recursos hídricos são difusos, é preciso mais ação dos governantes e autoridades e menos marketing: os índices oficiais do saneamento básico de Curitiba falam de 100% de coleta de esgotos e 91,26% deste volume sendo tratado (dados de 2016), ao mesmo tempo em que estudo da Prefeitura da cidade, feito em 2015, indica a contaminação das águas da imensa maioria das sub-bacias por esgotos – tem “sapo” nesta tuba…

Continuamos no próximo post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s