A IMPORTÂNCIA AMBIENTAL DA CANA DE AÇÚCAR E DO ÁLCOOL

Comecemos com uma pergunta incômoda para muita gente: qual dessas grandes cidades tem o ar mais poluído: São Paulo ou Paris? 

Minha cidade, São Paulo, tem fama de ser “caótica, engarrafada e extremamente poluída” – logo, não vou estranhar que a maioria dos leitores tenham apontado, quase que instintivamente, o dedo para Sampa. Lamento informá-los, mas, no quesito poluição do ar, São Paulo perde feio para a cidade do Rio de Janeiro – quando o assunto é trânsito, nós levamos uma verdadeira surra da cidade do Recife, a “Veneza brasileira”. 

De acordo com dados da OMS – Organização Mundial da Saúde, compilados em 2010, a poluição média na cidade de São Paulo apresentou níveis de poluentes da ordem de 38 microgramas para cada metro cúbico de ar; no Rio de Janeiro esse índice foi de 64 microgramas. As belas montanhas que emolduram a “Cidade Maravilhosa” dificultam a dispersão dos poluentes. O índice considerado ideal pela OMS é menor ou igual a 25 microgramas de poluentes para cada metro cúbico de ar.

Na “romântica e bela” cidade de Paris (observem que estou destacando a fama que cada cidade possui) os níveis de poluição, especialmente nos meses de inverno, ultrapassam frequentemente a marca de 100 microgramas de poluentes para cada metro cúbico de ar. Esse índice fica muito abaixo daquele encontrado entre as cidades mais poluídas do mundo como Ulan Bator, na Mongólia, e Pequim, na China, onde se supera a marca das 900 microgramas nos meses de inverno, mas é duas vezes e meia maior que o índice paulistano. 

Entre os grandes vilões da poluição atmosférica, destacamos a queima do carvão mineral para a geração de energia elétrica nos casos da China e da Mongólia, e a poluição emitida pelos escapamentos de automóveis, ônibus e caminhões nos casos de São Paulo e Paris. E os tipos de combustíveis automotivos usados nessas duas últimas cidades estão na raiz do problema. 

Apesar de um grande crescimento no número de veículos movidos a eletricidade nos últimos anos, a frota parisiense é movida essencialmente por derivados de petróleo como a gasolina e o óleo diesel. Aliás, um dos grandes problemas da cidade é o grande número de carros velhos com motores a diesel, que por onde passam deixam uma nuvem escura de gases e partículas altamente poluentes. Nos meses de inverno, as dificuldades para a dispersão dessa grande massa de gases poluentes aumentam muito e a população sofre para respirar. 

Já em São Paulo, as coisas melhoraram muito, principalmente nos últimos 30 ou 40 anos. Eu lembro muito bem dos tempos em que essa cidade era muito poluída. Eu comecei a trabalhar como office boy ou mensageiro em 1978 e não me esqueço do ar sofrível do centro da cidade naquela época. De lá para cá as coisas mudaram bastante – muitas indústrias saíram da cidade e levaram suas grandes chaminés para regiões do interior do país; várias obras viárias, como o Rodoanel, foram implementadas para evitar que ônibus e caminhões em trânsito para outras cidades e estados precisassem entrar na cidade. Também é importante citar que as áreas verdes da cidade dobraram de tamanho nesse período

A maior mudança, entretanto, foi a adoção do álcool como combustível veicular. Segundo informações da ANFAVEA – Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, após a introdução do álcool como combustível para veículos, a poluição do ar em grandes cidades brasileiras como São Paulo diminui em cerca de 40%. Eu não posso atestar se o percentual de redução foi esse mesmo, mas meu nariz e meus olhos podem confirmar que os níveis de poluição na cidade despencaram ao longo das últimas décadas. 

De acordo com informações da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, estudos feitos há época do lançamento do Pró-Álcool indicavam que motores a álcool emitiam 57% menos monóxido de carbono, 64% menos óxidos e 13% menos nitrogênio que motores a gasolina. Com o lançamento dos motores Flex em 2003, parte dessas reduções nas emissões foi perdida devido à menor eficiência desses motores, mas ainda continuam abaixo de motores a gasolina e a diesel

É importante ressaltar aqui que veículos com motores a álcool poluem menos que seus similares que usam gasolina e óleo diesel, mas continuam sendo uma fonte importante de poluição do ar. Para resolvermos em definitivo o problema de poluição do ar nas cidades, é importante que se adotem soluções de transporte que usem energia realmente limpa como a eletricidade gerada a partir de fontes renováveis como as hidrelétricas. Me veio a mente uma foto que recebi há algum tempo atrás, que mostrava um carro elétrico sendo recarregado em Portugal – o detalhe era que a fonte de energia elétrica era um gerador a diesel, o que mostra a complexidade da situação. Enquanto fontes realmente renováveis e limpas para a geração de energia não estiverem à disposição de todos, o uso de combustíveis como o álcool pode ajudar muito na redução da poluição atmosférica. 

Existe também um outro lado do uso do álcool que tem um papel ambiental importantíssimo – o crescimento acelerado dos canaviais sequestra enormes quantidades de carbono da atmosfera, algo que é fundamental para combater o efeito estufa. Conforme já comentamos em postagens anteriores, um dos principais gáses responsáveis pelo efeito estufa é o dióxido de carbono, um gás que é emitido em grandes quantidades durante a queima de madeiras e de combustíveis fósseis. 

O efeito estufa é um fenômeno natural da atmosfera terrestre e que tem um papel importantíssimo na estabilidade das temperaturas e do clima no planeta. Cerca de 98% dos gases que compõem a nossa atmosfera como o nitrogênio, oxigênio e argônio não absorvem calor. É aqui que entram em cena gases como o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), os óxidos de nitrogênio (NOx) e o vapor de água, que absorvem parte do calor irradiado pela superfície terrestre e mantém a atmosfera aquecida. 

Desde os tempos da Revolução Industrial, que teve seu início em meados do século XVIII, as emissões de gases de efeito estufa não param de crescer. A concentração desses gases aumentou no período de 280 ppm (partes por milhão) para 360 ppm. A consequência mais direta desse aumento dos gases de efeito estufa já é visível – aumento das temperaturas do planeta e do nível dos oceanos

As emissões de carbono criadas pela geração de energia também não param de crescer – em 1997, essas emissões eram calculadas em 7 bilhões de toneladas ao ano; para o ano de 2100, as projeções falam de volumes da ordem de 26 bilhões de toneladas. A situação é dramática. 

Florestas em crescimento e culturas como o eucalipto, a palmeira do dendê e a cana de açúcar absorvem grandes quantidades desse carbono presente na atmosfera. Além de utilizarem as moléculas do carbono para a “construção” de caules, folhas e raízes, as plantas fixam parte desse carbono nos solos. Ou seja, mesmo que o uso da madeira do eucalipto, do azeite do Dendê ou do álcool resultem em novas emissões de carbono, o ciclo de crescimento das plantas sempre absorverá uma quantidade de carbono superior as emissões, o que significa uma neutralização dessas emissões. 

A cana de açúcar também pode ser utilizada como fonte de matéria prima para a produção de plásticos 100% biodegradáveis. Derivado do álcool ou etanol, esse plástico possui as mesmas características técnicas do polietileno comum feito a partir de derivados do petróleo, que é muito usado na fabricação de embalagens, sacolas e utensílios de cozinha. Além de ser produzido a partir de uma fonte renovável, esse plástico causa baixíssimos impactos ambientais uma vez que se degrada em poucos meses. Essa é uma tecnologia desenvolvida aqui no Brasil que ainda esbarra nos custos – produzir plástico a partir do petróleo é bem mais barato.

A poluição ambiental criada pelos resíduos plásticos aumentou muito nas últimas décadas, principalmente nos oceanos. Muitos cientistas afirmam que dentro de poucos anos haverá mais resíduos de plástico do que peixes nos mares. Em postagens anteriores já tratamos desse grave problema, mostrando inclusive as ilhas de plástico flutuante no Oceano Pacífico e no Mar do Caribe

Como é bem fácil de ver, a utilíssima cana de açúcar ajuda a resolver muitos desses problemas, com a vantagem extra de também produzir o açúcar e bebidas como a cachaça e o rum. Um brinde à cana! 

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