“COMBATENDO” A POLUIÇÃO DO AR EM PARIS

Carros com motores diesel na França

Na última postagem abordei o grave problema da poluição do ar em Paris, a capital da França. No inverno de 2019, os níveis de poluição do ar na cidade atingiram o nível de 105 microgramas por metro cúbico de ar, um valor que está quatro vezes acima do nível máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial de Saúde. Na cidade de São Paulo, de acordo com números da própria OMS, os níveis de poluição são da ordem de 38 microgramas de poluentes para cada metro cúbico de ar. 

Assim como acontece na cidade de São Paulo, uma das maiores fontes de poluição do ar em Paris é a grande frota de veículos em circulação. Quando chega o período do inverno europeu, há uma brutal redução na circulação de ventos na região da capital francesa, um fator ambiental que leva a um grande acúmulo de gases poluentes. 

Existe, porém, uma grande diferença na frota de veículos das duas cidades. Aqui no Brasil, desde o final da década de 1970, existe a opção do uso do álcool combustível ou etanol para o abastecimento de veículos. Nos primeiros tempos desse programa governamental, eram fabricados veículos com motores especialmente preparados para o uso do etanol. Eu mesmo cheguei a ter um desses carros e lembro que era difícil fazer o motor pegar em dias muito frios.  

De alguns anos para cá, com a introdução dos motores Flex, que funcionam tanto com gasolina quanto com etanol, o interesse pelo uso desse combustível voltou a crescer – lembrando aqui que o etanol é bem mais barato e polui bem menos que a gasolina. Outra mudança importante foi a introdução obrigatória dos catalisadores nos automóveis novos. Esse dispositivo ajuda a reduzir os poluentes emitidos pelos motores. Entre outras mudanças no dia a dia da cidade, a soma do uso do etanol com a obrigatoriedade dos catalisadores ajudou a reduzir, e muito, a poluição do ar em São Paulo.

Em países da Europa como a França, ainda é muito comum o uso de automóveis com motores movidos a óleo diesel, um combustível que é bem mais poluente que a gasolina e o etanol. Existem mais de 43 milhões de automóveis movidos a diesel na Europa – 8,7 milhões desses carros estão na França e muitos deles emitem poluentes em níveis até 18 vezes acima dos limites estabelecidos por lei.

Muitos países da Europa passaram a adicionar óleos combustíveis renováveis de origem vegetal ao óleo diesel como forma de reduzir um pouco os níveis de poluição. Um desses óleos é o problemático azeite de dendê produzido no Sudeste Asiático, sobre o qual tratamos em diversas postagens anteriores. Várias cidades da Europa, inclusive Paris, tem planos para proibir a circulação de automóveis movidos a óleo diesel a partir de 2024.

Combustíveis alternativos como o etanol só são encontrados em programas experimentais em alguns países. Entretanto, veículos com motores híbridos e movidos com energia elétrica vêm recebendo importantes estímulos dos Governos locais e suas respectivas frotas estão crescendo paulatinamente. Porém, ainda estão muito longe de alcançar números significativos. 

Uma das alternativas encontradas pelos franceses para tentar controlar a circulação de parte da frota de veículos foi a adoção de um sistema de rodízio baseado no número final das placas – números pares circulam em um dia e os números ímpares circulam no outro. A cidade de São Paulo adota um sistema de rodízio de veículos desde a década de 1990, onde o principal objetivo é reduzir o tamanho da frota em circulação, melhorando assim a velocidade média.

O rodízio de veículos paulistano funciona de forma contínua (é suspenso apenas no período das férias escolares) e já passou a fazer parte da cultura da cidade assim como o pastel de feira, o caldo de cana e o “chopps”, palavra que os locais usam para pedir uma cerveja nos bares. 

A primeira vez que a Paris adotou um sistema de rodízio de veículos foi em 1997, época em que a cidade enfrentou sua primeira grande crise por causa da forte poluição. Essa medida foi adotada por um período determinado de tempo e enfrentou muitas reclamações por parte da população, que não estava acostumada a restrições desse tipo. Em 2014 e em 2019, durante novas crises criadas pela extrema poluição na cidade, a Prefeitura voltou a adotar a medida, também por um curto período de tempo

Entre outras medidas paliativas, a Prefeitura de Paris também incluiu as motocicletas no sistema de rodízio e deu uma série de incentivos para o uso de transportes coletivos, especialmente reduzindo as tarifas de ônibus, trens e metrôs. Todas essas medidas, entretanto, foram temporárias – assim que as condições climáticas da região de Paris melhoraram e o vento dispersou a grande nuvem de poluição, tudo voltou como “era dantes” e toda a frota de veículos voltou a circular normalmente. As causas principais da poluição do ar não foram atacadas. 

O Presidente da França, Emmanuel Macron, chegou a aunciar em 2018 um aumento progressivo nos impostos sobre combustíveis de origem fóssil como a gasolina e o óleo diesel, onde o principal objetivo era desestimular o consumo e reduzir a poluição do ar nas cidades. Essas medidas não foram bem recebidas pela população e teve início uma série de protestos espontâneos. Os manifestantes passaram a usar um colete amarelo, o que acabou se transformando na marca registrada do movimento.

Outra das causas da poluição do ar na França e em várias regiões da Europa são as centrais termelétricas, principalmente aquelas que usam carvão mineral como combustível. Na França, em particular, perto de 70% da eletricidade gerada vem de centrais nucleares, e a participação de centrais termelétricas é bem menor do que em outros países. Parte da poluição gerada por essas centrais termelétricas acaba sendo carregada até a região de Paris, onde se junta com a poluição gerada localmente. Essa é uma fonte de poluição que precisa ser melhor controlada. 

Como o território da França não possui um grande potencial para a geração de eletricidade em centrais hidrelétricas, serão necessários investimentos cada vez maiores em fontes alternativas como a energia eólica e a solar. Na vizinha Alemanha, citando um exemplo, cerca de 40% da energia elétrica vem de fontes alternativas, principalmente da energia solar. A Alemanha, inclusive, vai desativar os seus últimos reatores nucleares usados para a geração de energia elétrica até 2022, e já assumiu o compromisso de acabar com as suas centrais termelétricas a carvão até 2038

É fundamental que a França desestimule o uso de veículos particulares para o transporte na Região Metropolitana de Paris, que, diferentemente de São Paulo, possui uma ótima infraestrutura de transporte de massas. Dentro de Paris existem 16 linhas de metrô e há outras 4 linhas em projeto. É possível circular facilmente por toda a cidade usando só o metrô, um luxo que nós paulistanos estamos bem longe de atingir. Linhas de trens interurbanos e de ônibus completam a rede de transportes

Eu tenho muitos amigos parisienses e vários deles afirmam que não gostam de usar os sistemas públicos de transporte da cidade, preferindo usar seus carros ou taxis. Isso demonstra, pelo menos para mim, que existe um problema cultural que precisa ser bem trabalhado para que se atinja o bem maior da comunidade. Caso não se consigam controlar adequadamente as fontes de poluição do ar em Paris, a população voltará a enfrentar sérios problemas com a poluição do ar a cada novo inverno que chegar.  

Finalizando – mesmo não atingindo níveis alarmantes, a poluição atmosférica do dia a dia nas cidades acaba sendo prejudicial para toda a população no longo prazo, criando problemas de saúde parecidos com os danos criados pelo hábito de fumar. Como diz um antigo ditado – prevenir é sempre melhor que remediar. 

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