A REPRESA BILLINGS E A CHEGADA DAS CHUVAS

Prainha Represa Billings

Com o final do ano se aproximando e com o início do período das chuvas na região Centro-Sul do Brasil, agricultores e produtores rurais têm seu ânimo redobrado, na esperança de fartura de águas para o início do plantio; nas cidades, as populações se preocupam com o enchimento das represas e outros reservatórios de água, que garantirão o abastecimento nos meses vindouros. Para a vida natural, o período marca o reinício do ciclo da vida. Existe, porém, uma região, onde a chegada das chuvas tem um significado completamente diferente: falo das áreas de entorno da represa Billings, na Região Metropolitana de São Paulo, onde a chegada das chuvas é providencial para ajudar na diluição da grande quantidade de esgotos acumulados nas águas da represa

A represa Billings é o maior reservatório de águas da Região Metropolitana de São Paulo, com uma área de drenagem com aproximadamente 560 km² e uma superfície máxima de espelho d’água de 173 km². O reservatório ocupa áreas dos municípios de São Paulo, São Bernardo do Campo, Santo André, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, com uma capacidade total de armazenamento superior a 1 bilhão de metros cúbicos de água, maior que a soma de todas as represas que formam o Sistema Cantareira.  

Apesar de todo esse tamanho, somente uma parte das águas da represa Billings pode ser aproveitada para o abastecimento da população – um dos braços da represa foi isolado por meio de uma barragem e ainda mantém águas limpas e isentas de poluentes. A maior parte das suas águas está altamente comprometida pela presença de esgotos. Há pouco menos de duas semanas, eu visitei uma das margens da represa e fiquei assustado com o verde intenso das águas, um sinal claro da presença de grandes volumes de algas verdes nutridas pela alta concentração de esgotos. 

Concebida inicialmente como reservatório para geração de energia elétrica, a represa Billings ganhou outras características de uso com o passar do tempo. Uma das mais importantes foi a de pólo de turismo e lazer, com a utilização das margens como balneário, de suas águas para a prática de esportes náuticos, além de ser um ótimo local para a pesca artesanal. A crescente população das cidades da Região Metropolitana de São Paulo, em especial da região do chamado ABCD Paulista (iniciais dos municípios de Santo, André, São Bernardo, São Caetano e Diadema), transformaram a represa em uma espécie de “praia” longe da praia (vide foto).

A região sofreu forte crescimento industrial no final da década de 1950, graças à implantação do parque automobilístico brasileiro. A especulação imobiliária que se seguiu ao boom das indústrias, encontrou nas matas ao redor da represa Billings as áreas ideais para a criação e a venda de lotes populares, grande parte irregulares. Novos bairros surgiam a cada dia, sem qualquer preocupação com a implantação de uma infraestrutura urbana adequada – as águas da represa foram transformadas em receptores dos esgotos domésticos de uma população cada vez maior.  

Com o crescimento desordenado de toda a Região Metropolitana de São Paulo e o aumento da carga de poluição na bacia hidrográfica do rio Tietê, os problemas de poluição na represa Billings só fizeram aumentar. O sistema de transposição de águas do rio Tietê para a Billings, que foi durante décadas uma alternativa para manter o nível da represa e garantir uma boa geração de energia elétrica na Usina Henry Borden em Cubatão, passou a representar um seríssimo problema ambiental – grande parte da carga de esgotos despejados no rio Tietê acabava sendo transferida para as águas da represa Billings

Os problemas ambientais na Billings foram transformados em bandeira para inúmeros movimentos ambientalistas e sociais, que passaram a lutar pela recuperação e preservação do manancial. Em 1992, com a promulgação da nova Constituição Paulista, foi suspensa o bombeamento e a transferência de águas da bacia do rio Tietê para a represa Billings, exceto em situações de emergência. O que na época parecia ser um ponto de inflexão na direção de uma melhoria na qualidade das águas da represa, não tardou a se mostrar inócuo. Os lançamentos de esgotos in natura de centenas de milhares de residências, nas áreas das margens e dentro da bacia hidrográfica da Billings, não pararam de aumentar. Para piorar a situação, a geração na Usina Hidrelétrica Henry Borden foi dramaticamente reduzida. Com essa nova configuração, como um “sistema praticamente fechado”, a renovação das águas armazenadas ficou muito lenta, transformando a represa, literalmente, em uma grande fossa a céu aberto. 

A chegada da temporada das chuvas traz sempre um pouco de alívio para o corpo d’água – com grandes volumes de águas pluviais chegando na represa, há uma diluição maior do volume de esgotos e toda a biota – incluindo-se plantas, animais e moradores das áreas de entorno da Billings, conseguem respirar um pouco melhor (estou falando tanto no sentido figurativo, quanto no ato de respirar, propriamente dito). Esse alívio momentâneo nas condições da represa irá perdurar enquanto as chuvas caírem. 

Enquanto as autoridades dos diversos níveis de Governo não conseguirem unir forças para resolver, em definitivo, o problema do lançamento de esgotos na represa Billings, restará sempre a alternativa de se torcer muito por uma longa e forte temporada de chuvas. 

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