A MINERAÇÃO ILEGAL DE DIAMANTES NA ÁFRICA

Crianças trabalhando em garimpos na África

O Diário de Notícias, um dos mais importantes jornais matutinos de Portugal, fez uma reportagem bem interessante há cerca de dez anos, onde falava da África Ocidental, uma região onde o crime organizado impera. Os principais países que formam essa região são Gana, Libéria, Nigéria, Senegal e Serra Leoa, além de vários outros países menores. Na base dessa verdadeira indústria do crime estão governos, militares “compráveis” por preços módicos, funcionários públicos corruptos, a falta de controle nas fronteiras entre os países e uma localização privilegiada, com fácil acesso à Europa e América do Norte. As autoridades locais calculam que existem 30 grandes grupos criminosos operando na região, no controle de aproximadamente 2 milhões de armas – isso é coisa para “cachorro grande”, como dizemos na minha região. Pouca coisa mudou nessa região nesses últimos anos. 

As organizações criminosas que operam na região lidam com tráfico ilegal de pessoas, drogas, petróleo, tabaco, medicamentos falsos, resíduos industriais e diamantes, isso para não entrarmos em detalhes com atividades criminosas menos lucrativas. Citando alguns exemplos: criminosos da região fornecem cerca de 25% de toda a cocaína consumida na Europa; de acordo com cálculos da ONU – Organização das Nações Unidas, entre 50 e 60% dos medicamentos consumidos na região são falsos, assim como também são falsos cerca de 80% dos cigarros que circulam nos mercados. Outra área onde as organizações atuam é a do petróleo – calcula-se que os criminosos “desviem” cerca de 55 milhões de barris de petróleo a cada ano, especialmente da Nigéria. 

O lucrativo comércio dos diamantes não poderia ficar de fora desse verdadeiro portfólio de atividades criminosas. Em Serra Leoa, um dos grandes produtores de diamantes da região, calcula-se que 80% do comércio destas pedras esteja na mão desses grupos criminosos. Os dados oficias da produção de diamantes do país mostram claramente como anda o descontrole da atividade: em 1970, Serra Leoa produzia uma média de 2 milhões de quilates de diamantes por ano; nos últimos anos, essa produção está abaixo de 500 mil quilates por ano

A má fama dos diamantes de Serra Leoa atingiu o seu clímax durante a guerra civil que assolou o país entre os anos de 1991 e 2002. Um grupo revolucionário conhecido como FRU – Frente Revolucionária Unida, sob o comando de Foday Sankoh, tentou derrubar o Governo central do país. E para financiar a sua revolução e a compra de armas, esse grupo passou a se valer da exploração e exportação ilegal de diamantes. Esse conflito foi um dos inspiradores da expressão “diamantes de sangue” e teve sua história contada em livros, documentários e filmes. Ao longo de 11 anos de guerra, cerca de 2,5 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar para outras regiões do país – o número de mortos no conflito, a depender da fonte consultada, ficou entre 50 mil e 200 mil pessoas

Com a pressão crescente dos custos da guerra civil, os comandantes militares da guerrilha passaram a recrutar o maior número possível de pessoas nas cidades e aldeias sob controle da FRU para os trabalhos de garimpo de diamantes. Jornadas de trabalho excessivas, maus tratos, agressões físicas e sexuais, trabalho infantil (vide foto) – as crianças que conseguiam escapar da mineração acabavam transformadas em meninos soldados. Valia tudo para se encontrar as preciosas pedras. Com o final da guerra em 2002 e com a vitória do Governo central de Serra Leoa, as tropas revolucionárias foram desmobilizadas e muitos dos seus antigos comandantes acabaram se transformando em “senhores do crime organizado”. 

O comércio ilegal de diamantes também financiou, comprovadamente, conflitos armados em larga escala em Angola, República Democrática do Congo, Libéria, República do Congo e Costa do Marfim. Milhões de pessoas foram submetidas aos mesmos maus tratos em trabalhos nos garimpos ilegais. Outras tantas foram forçadas a se deslocar de suas cidades e regiões de origem por causa desses conflitos e centenas de milhares morreram. Muito sangue e muitos diamantes marcaram as suas histórias. 

Uma das técnicas de mineração mais usadas em regiões pobres para a mineração de ouro e de pedras preciosas é a exploração nos chamados aluviões, nome dados aos grandes depósitos de sedimentos clássicos como a areia, o cascalho e o silte. Estes depósitos se formaram ao longo do curso de rios, além de áreas alagáveis e deltaicas, onde os mais diferentes tipos de sedimentos foram se acumulando. Os diamantes, conforme comentamos em postagem anterior, se formam sob calor e pressão intensa dos solos profundos. Erupções vulcânicas, liberação de gases e de água desde altas profundidades, entre outros processos geológicos, trouxeram grandes quantidades de diamantes para a superfície do planeta ao longo das eras – as chuvas se encarregaram de carrear essas gemas até os cursos d’água, e a força das águas as depositaram nas áreas de aluvião. 

Para garimpar os diamantes, os trabalhadores costumam usar uma vasilha metálica ou de madeira, conhecida aqui no Brasil como bateia – pequenas quantidades de sedimentos são coletados e passam a ser lavados para se retirar os sedimentos mais finos. Os materiais que restam na bateia são vasculhados visualmente na busca das pedras preciosas e do ouro – diamantes e ouro costumam ocorrer nos mesmos solos. 

Conforme as buscas avançam, os solos começam a ser escavados para se atingir camadas de sedimentos mais antigas. Essas buscas começam a avançar na direção das margens dos rios, que rapidamente acabam sendo transformadas em uma sucessão de barrancos e de buracos despidos de qualquer vegetação. Como sempre existe pressa para a obtenção de grandes quantidades de diamantes, os trabalhadores não têm tempo a perder com a colocação de escoras de segurança nas escavações: dezenas de trabalhadores acabam morrendo soterrados em desmoronamentos, especialmente nos períodos de chuva. Rolagem de rochas, quedas de árvores, inundação de valas ou, simplesmente, a violência dos seguranças que acompanham todos os trabalhos de mineração com um fuzil nas mãos, completam o quadro da tragédia. 

Além da tragédia humana que é provocada por essa mineração caótica, onde dezenas de milhares de pessoas são forçadas a trabalhar em condições análogas à escravidão, ocorre também uma destruição sistemática dos riachos e rios onde os diamantes são procurados. Além dos grandes volumes de sedimentos finos que acabam sendo liberados na corrente dos rios e que já causam uma perda considerável da potabilidade das águas, a escavação dos sedimentos também pode liberar diversos tipos de metais pesados como chumbo, cádmio, mercúrio e zinco, acumulados ao longo de milhões de anos nos aluviões e que passam a ser espalhados pelas águas dos rios.  

A destruição das margens e de áreas alagáveis também cria enormes problemas ambientais – sem a proteção da vegetação, grandes volumes de sedimentos passam a ser arrastados pelas chuvas em processos erosivos e vão ser acumulados nos canais dos rios. Perde-se ao mesmo tempo grandes volumes de solo fértil e os canais dos rios, problemas que irão comprometer futuras atividades agrícolas nessas regiões.  

As guerras sempre acabam, mas as pessoas precisarão continuar vivendo, especialmente se servindo dos frutos da terra. Sem terras férteis e sem água, o futuro dessas populações será, cada vez, mais incerto. 

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