A EXTRAÇÃO DE AREIA NO RIO IGUAÇU, OU NÃO É SÓ A POLUIÇÃO POR ESGOTOS QUE DESTRÓI UM RIO

Cavas no Rio Iguaçu

“A areia é um dos sedimentos mais importantes, pelas suas múltiplas utilidades, para a construção civil – ela é essencial para a produção de argamassa para o assentamento de tijolos e blocos; para chapisco, emboço e reboco de paredes; como aglomerado na produção de peças de concreto, vigas, colunas e lajes; como matéria prima para a produção dos diversos tipos de vidro, usados não apenas na construção civil, mas em múltiplos produtos consumidos pela nossa sociedade.”

Esse longo parágrafo faz parte de uma postagem anterior, publicada no mês de julho, onde tratei dos problemas ambientais criados pelas cavas de extração de areia no rio Paraíba do Sul (que assumiu o papel de fornecedor após a extração de areia nas margens do rio Tietê se tornar inviável com o crescimento da mancha urbana de São Paulo), areia esta que abastece a indústria da construção civil, especialmente nas Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas. Mudando a latitude alguns graus mais para o Sul, encontraremos exatamente os mesmos problemas na Região Metropolitana de Curitiba e nas margens do rio Iguaçu, inclusive porque a história geológica das duas Regiões é muito similar. O rio Iguaçu, assim como o Tietê e Paraíba do Sul, há milhões de anos vem transportando a areia e os sedimentos resultantes da erosão das montanhas da Serra do Mar, montanhas que no passado já foram tão altas como a Cordilheira do Andes. Toda essa massa de areia e sedimentos se espalhou e se acumulou por extensas áreas do território brasileiro, mas estão mais acessíveis para a exploração nas margens e várzeas destes rios.

Na Região Metropolitana de Curitiba, a exploração de areia e argila vem de cavas em áreas de diversos rios, principalmente das várzeas do rio Iguaçu. Existem aproximadamente 40 pontos de extração de areia oficialmente registrados na Região Metropolitana, de onde são extraídos 100 mil metros cúbicos de areia a cada mês. Porém, ao longo de várias décadas, antigas cavas de extração de areia, a grande maioria clandestinas, foram abertas, exploradas e depois abandonadas, sem que se fizesse nenhum trabalho de recuperação ambiental – se apresentam hoje como imensas crateras cheias de água, que representam riscos ao meio ambiente e as populações: nos últimos 10 anos, foram registradas 13 mortes de pessoas por afogamento nas cavas da Região Metropolitana de Curitiba.

Nestas últimas postagens tenho falado muito dos problemas da poluição no rio Iguaçu, especialmente dos problemas ligados ao lançamento de esgotos de maneira clandestina nas águas dos inúmeros rios e córregos que cruzam as cidades da Região Metropolitana e que acabam na calha deste rio.  Porém, não são apenas os esgotos os responsáveis pela degradação do rio – as cavas de extração de areia também contribuem com sua cota de destruição das águas. De acordo com dados de ONGs – Organizações Não Governamentais, 40% da calha do rio Iguaçu dentro da Região Metropolitana de Curitiba está cheia de cavas abandonadas e apresentando inúmeros problemas de degradação ambiental. Estes problemas começam com a remoção da mata das margens, que todos sabem funcionar como uma barreira contra a entrada de sedimentos e lixo na calha do rio; essa vegetação marginal também tem um importante papel ecológico para as espécies que vivem nas águas dos rios – elas ajudam a formar pequenas lagoas e áreas de remanso, protegidas da correnteza, onde as espécies aquáticas – peixes, anfíbios, répteis e até mesmo aves, se reproduzem. As espécies se valem, conforme sua própria fisiologia, das raízes submersas, das áreas de solo protegidas pela vegetação e dos altos galhos dos arbustos e das árvores. A destruição das matas e a escavação das áreas nas margens altera completamente o ciclo de vida destas espécies e, pior, o assoreamento que é provocado na calha do rio, entre outros gravíssimos problemas, soterra as comunidades bênticas ou bentônicas do fundo rio – nestas comunidades vivem plantas, vermes, moluscos e crustáceos de tamanhos variados (a maioria muito pequena e microscópica). Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar (também chamada de cadeia trófica) do rio e sustentam todas as formas de vida superiores – inclusive a dos seres humanos (especialmente os ribeirinhos) que se alimentam com os peixes pescados no rio.

De acordo com a legislação vigente, a extração de areia só pode ser feita a partir de 500 metros de distância das margens dos rios e as empresas mineradoras são responsáveis pela recuperação ambiental das áreas após o esgotamento ou a impossibilidade da escavação prosseguir (a partir de certa profundidade, a retirada da areia fica mais difícil e existe o risco do desmoronamento das paredes da cava). Nem a distância mínima das margens dos rios nem a recuperação das áreas degradadas são respeitadas pelos exploradores, que alegam que não tem outro material para usar no preenchimento das cavas após a extração da areia. Duas opções rápidas de materiais de preenchimento que me vêm à memória: as montanhas de entulhos que são geradas diariamente e que, em grande parte das vezes, acaba descartada de maneira irregular em áreas ermas das cidades e os sedimentos resultantes de escavações de obras e de serviços de terraplenagem – lembrando que estes resíduos são gerados pela indústria da construção civil, a mesma que consome os milhões de metros cúbicos de areia retirados das cavas das margens dos rios.

Concluindo, tenho ainda duas observações: primeira – os resíduos da construção civil podem ser reciclados, produzindo uma areia de boa qualidade: esta areia não pode ser usada na fabricação de concreto para fins estruturais (a areia possui contaminantes que reduzem a resistência final do concreto), porém é ideal para a fabricação de peças estruturais e argamassa para assentamento de tijolos e blocos, além de chapisco, emboço e reboco; a reciclagem desta areia vai evitar a extração do agregado na natureza e gerar inúmeros benefícios ambientais. Segundo – um exemplo do reaproveitamento ecologicamente correto dos sedimentos de escavações é a Ilha de Notre Dame, na cidade de Montreal, Canadá, onde encontramos um charmoso parque: a ilha foi formada artificialmente a partir dos despejos das rochas e sedimentos da escavação dos túneis do metrô da cidade nas décadas de 1960 e 1970.

Com boa vontade e criatividade, é possível resolver e remediar muitos dos atuais problemas ambientais. E rios como o Iguaçu serão eternamente gratos.

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