O ATERRO DE SEROPÉDICA E O AQUÍFERO PIRANEMA

Aterro Seropédica

Ainda era um adolescente quando vi uma placa com o nome Seropédica pela primeira vez. Achei que se tratava do nome de uma fábrica ou quem sabe de algum tipo de hospital (a palavra lembra muito ortopédica). Passaram-se muitos anos até descobrir se tratar de um município da Região Metropolitana do Rio de Janeiro; somente há uns poucos meses atrás descobri que a palavra está associada a produção de seda – Seropédica é a junção da palavra latina “sericeo” ou “serico”, que significa seda, com a palavra grega “paideía”, que significa nutrição, criação ou cultivo: a palavra final significa “local onde se cultiva a seda”.

Até as primeiras décadas do século passado, o então distrito de Seropédica era conhecido por produzir a melhor seda do mundo. Hoje em dia a economia local não lembra em nada o glamour dos velhos tempos e o atual município acabou por se transformar no maior fornecedor de areia e brita para a construção civil da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, onde responde por quase 90% destes insumos. Os problemas ambientais provocados pela retirada destes materiais são marcantes e preocupantes, uma vez que o município integra a bacia hidrográfica do Rio Guandu, maior e mais importante manancial de abastecimento da Região Metropolitana.

Um novo e grande problema ambiental vem colocando Seropédica nas manchetes dos noticiários – foi instalado no município um grande aterro sanitário que passou a receber os resíduos sólidos que antes eram descartados no famoso “lixão” do Jardim Gramacho. O aterro foi construído em um terreno com área total de 2 milhões de metros quadrados e está em operação desde abril de 2011. De acordo com informações da empresa responsável pela instalação e operação, as valas do aterro receberam tripla impermeabilização de base reforçada, utilizando argila e dupla camada de mantas de polietileno de alta densidade e utilização de sensores eletrônicos que podem detectar qualquer tipo de anomalia no sistema de impermeabilização. Atualmente o aterro sanitário recebe 10 milhões de toneladas diárias de resíduos sólidos gerados pelas cidades de Seropédica, Itaguaí e Rio de Janeiro.

Até aqui, nenhum problema – um gigantesco “lixão” foi fechado e um volume considerável de resíduos sólidos passou a ser despejado em um aterro sanitário construído e operado dentro das normas técnicas e de acordo com a legislação ambiental. Porém, existe um pequeno detalhe: grande parte do aterro sanitário foi construída sobre o aquífero Piranema, uma reserva estratégica de água que poderá ser fundamental para o abastecimento da Região Metropolitana.

O aquífero Piranema ocupa uma área de aproximadamente 180 km² entre os municípios de Itaguaí, Queimados, Japeri e Seropédica. De acordo com estudos geológicos, o aquífero tem potencial para atender o abastecimento de água de toda a Região Metropolitana do Rio de Janeiro por um mês. Isso pode parecer pouco, mas é importante lembrar que o Rio Guandu, considerado um dos mais poluídos e degradados rios do Estado, responde por 80% do abastecimento da cidade do Rio de Janeiro e de parte de municípios da Baixada Fluminense – não existem outras fontes alternativas. O aquífero Piranema seria uma espécie de “coringa na manga” para um abastecimento emergencial.

Diferente de aquíferos como o Guarani, que possui uma grossa camada de rochas e sedimentos impermeáveis como cobertura, o Piranema tem areia e sedimentos permeáveis cobrindo suas águas, que podem ser facilmente poluídas no caso da infiltração de chorume e outros contaminantes. De acordo com moradores de Seropédica, especialistas da UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro, e ambientalistas da região, a escolha do terreno em Seropédica foi a mais inadequada possível. O questionamento e os protestos são gerais – como foram possíveis a aprovação e o licenciamento ambiental do empreendimento sobre o aquífero?

Apesar de todos os cuidados na impermeabilização reforçada do fundo das valas, existem denúncias que dão conta do transbordamento de 50 mil litros de chorume do reservatório do aterro após uma forte chuva. Em uma outra denúncia, ambientalistas informaram as autoridades que foram encontradas tubulações despejando chorume em um rio a centenas de metros do aterro sanitário – este rio deságua diretamente na Baia de Sepetiba.

Há vários posts estamos falando da importância ambiental representada pelo fechamento dos lixões e o despejo dos resíduos sólidos em aterros controlados. Agora, construir um aterro sanitário sobre um aquífero estratégico para o abastecimento de água de pelo menos 10 milhões de pessoas não faz muito sentido, ao menos na minha opinião e na de muita gente que está a protestar contra o empreendimento.

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