OS RISCOS AMBIENTAIS DA EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO E DO GÁS DE XISTO

Xisto

Nas últimas postagens falamos de uma série de problemas sociais e ambientais criados por diferentes tipos de mineração, especialmente problemas localizados e regionais. Falamos, inclusive de alguns problemas políticos e de conflitos armados que são financiados pela mineração ilegal de diamantes na África e de lápis-lazúli no Afeganistão. Apesar de ser uma atividade imprescindível na vida moderna, a mineração sempre causa impactos negativos. 

Na postagem de hoje, vamos falar de um processo de exploração mineral com alto poder de geração de impactos ambientais – a exploração do xisto pelo método do fraturamento hidráulico. Vamos entender isso: 

Xisto é um nome genérico que se dá a vários tipos de rochas metamórficas fortemente laminadas (vide foto). Essas rochas têm uma enorme importância econômica por serem uma fonte de combustíveis fósseis. Quando rochas como o xisto betuminoso são submetidas a altas temperaturas, elas liberam o chamado petróleo de xisto, um óleo mineral semelhante ao petróleo convencional. Utilizando-se diversos tipos de processos de beneficiamento, o petróleo de xisto produz nafta, óleo combustível, gás liquefeito de petróleo (GLP), óleo diesel e gasolina. As maiores reservas mundiais de xisto estão nos Estados Unidos, Brasil, China e na Argentina

A exploração dos depósitos de xisto passou a ganhar um enorme destaque nos noticiários nos últimos anos devido ao uso cada vez mais intensivo de uma técnica de extração conhecida como fraturamento hidráulico ou hydraulic fracking, em inglês. Os Estados Unidos, país que é um dos maiores consumidores de derivados de petróleo do mundo, se transformou no maior utilizador dessa tecnologia de exploração. A França, ao contrário, proibiu o uso dessa tecnologia em seu território devido aos riscos ao meio ambiente. 

A técnica de exploração consiste na injeção sob alta pressão de uma mistura de água, propante (areia ou outro material similar) e produtos químicos nos substratos rochosos. Essa mistura pressurizada provoca um aumento controlado das fraturas e fissuras nas rochas, locais onde o petróleo de xisto e o gás natural está encerrado, trazendo-os na direção da superfície. De acordo com estimativas feitas no ano de 2010, cerca de 60% dos poços em atividade no mundo usavam essa técnica de extração

O uso intensivo da técnica do fraturamento hidráulico por empresas de petróleo e gás nos Estados Unidos vêm produzindo efeitos econômicos impressionantes nos últimos anos: a produção de gás aumentou perto de 50% e a de petróleo em 11%. O aumento de produção desses “óleos não convencionais” e do gás vai criar perto de 3,3 milhões de empregos e injetar cerca de US$ 468 bilhões na economia dos Estados Unidos até 2020. Um dos pontos mais comemorados dessa nova fase da exploração dos combustíveis fósseis no país é a redução na dependência da importação de petróleo, um problema que sempre foi classificado como o “calcanhar de Aquiles” dos Estados Unidos. 

Deixando de lado toda a euforia e os ganhos econômicos e políticos do “Tio Sam”, é preciso mostrar toda uma série de problemas e de riscos ambientais criados pelo fraturamento hidráulico, a começar pela poluição dos grandes volumes de água utilizados no processo. A água é injetada sob alta pressão nos substratos rochosos e fica rapidamente saturada com o petróleo e o gás de xisto, que por serem mais leves que a água, rapidamente são transportados para a superfície e são separados mecanicamente.  

A água usada no processo fica completamente poluída com resíduos de hidrocarbonetos, metais presentes nas rochas e também com os resíduos dos produtos químicos usados como solventes. Caso haja um erro na operação e essa água altamente poluída vaze para o meio ambiente, há sérios riscos de uma forte contaminação das fontes superficiais de água na região – algo parecido com os acidentes do rio Doce, em Mariana, e no rio Paraopeba, em Brumadinho

Vazamentos dessas águas residuárias são apontados como a causa da poluição de diversos rios no Estado do Kentucky próximos das áreas de exploração do xisto, locais onde foram observadas mortes de diversas espécies animais e vegetais aquáticas. Estudos realizados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos e pelo Serviço de Pesca e de Vida Silvestre comprovaram que os poluentes presentes nessas águas residuárias causam lesões nas guelras, no fígado e no baço dos peixes.

Um outro problema, este muito mais sério, é a contaminação direta dos depósitos subterrâneos de água. Caso os solos ao redor da área onde a exploração do xisto está sendo feita sejam constituídos de rochas permeáveis como os arenitos, é possível que parte dessa água pressurizada e dos gases liberados pelo processo se propaguem através das rochas (processo de percolação) e contaminem as reservas de água do subsolo da região. 

Estudos realizados pela Universidade Duke, na Carolina do Sul, comprovaram a ocorrência desse problema de contaminação das águas subterrâneas na Bacia de Gás de Xisto de Marcellus, situada entre o Nordeste da Pensilvânia e o Sul do Estado de Nova York. Os pesquisadores encontraram altos níveis de metano e etano em mais de 100 poços de abastecimento de água espalhados por toda a região. As medições mostraram que a concentração de metano dissolvido na água “potável” de poços situados a menos de 1 km dos locais de perfuração eram, em média, 6 vezes maiores do que em poços mais distantes. No caso do etano, essas concentrações eram 23 vezes maiores. O metano, caso seja inalado, é altamente prejudicial à saúde humana e o etano é um gás altamente inflamável

A injeção de água pressurizada nos poços de xisto também pode estar relacionada com o aumento de pequenos terremotos nas regiões Central e Leste dos Estados Unidos, conforme estudos do Serviço Geológico do país. Entre os anos de 2010 e 2012, foram registrados mais de 300 terremotos com magnitude acima de 3,0 graus na Escala Richter. Entre os anos de 1967 e 2000, a média de eventos dessa magnitude era de apenas 21 ocorrências por ano. Estudos realizados pelo Earth Observatory da Universidade de Columbia, em Nova York, indicaram que cerca de metade dos terremotos com magnitude superior a 4,5 graus na Escala Richter observados no interior dos Estados Unidos na última década ocorreram em regiões de exploração por fraturamento hidráulico. 

Encerrando os comentários desta postagem – grandes quantidades de gás metano estão sendo liberadas na atmosfera pelos poços que utilizam a técnica do fraturamento hidráulico. O metano, só para relembrar, é 20  vezes mais potente que o CO2 (dióxido de carbono) na formação do Efeito Estufa, o grande vilão do aquecimento global.

Os ganhos econômicos de curto prazo com a produção de petróleo e gás de xisto estão fazendo a alegria de muitas empresas e Governos; já a conta com os prejuízos ambientais que virão a longo prazo, como sempre, será paga por toda a população do mundo. 

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