VOCÊ CONHECE UM MINERAL CHAMADO COLTAN?

SRSG visits coltan mine in Rubaya

É bem provável que você nunca tenha ouvido falar de um mineral chamado coltan. O coltan é uma mistura de dois minerais – a columbita e a tantalita. Da columbita se extrai o nióbio e da tantalita o tântalo. Esses dois minerais são essenciais para a fabricação de componentes eletrônicos utilizados na maioria dos aparelhos eletro-portáteis como smartphones, notebooks, tablets, computadores, televisores, videogames, filamadoras, máquinas fotográficas, sistemas eletrônicos de bordo em carros, trens, navios e aviões, entre outros equipamentos eletrônicos essenciais para a nossa vida moderna. 

Para que você tenha uma ideia da importância do coltan: um levantamento recente mostrou que cerca de 88 mil empresas da União Europeia utilizavam componentes eletrônicos fabricados a partir do coltan. E, se por qualquer problema de fornecimento, o coltan não chegar nas empresas que dependem dessa matéria prima, as consequências serão graves. Um exemplo disso foi o que ocorreu no início dos anos 2000, quando o esperado lançamento do videogame Playstation 2 foi adiado por vários meses devido a falta de coltan no mercado mundial. Em resumo: mesmo não conhecendo o coltan, você não consegue viver um único dia sem ele.

Feita esta apresentação inicial, vamos ao coração do problema: 75% das reservas mundiais desse mineral estão localizadas na República Democrática do Congo, um país no centro do continente africano e que há várias décadas vem sendo assolado por uma terrível guerra civil. Intolerâncias étnicas entre os diferentes grupos da população, disputas territoriais e políticas e, principalmente, o controle das reservas de coltan e de outros minerais raros, estão na raiz dessa guerra. De acordo com informações da ONU – Organização das Nações Unidas, mais de 6 milhões de pessoas já morreram nesse conflito, sendo que perto de 4 milhões dessas mortes estão ligadas diretamente à disputa pelo controle da mineração no país

A República Democrática do Congo é uma ex-colônia da Bélgica, alçada à condição de país independente em 1960. É o segundo maior país da África, com aproximadamente 2,35 milhões de km² e 75 milhões de habitantes, distribuídos em mais de 200 grupos étnicos. Apesar da grande riqueza mineral dos solos e com abundância de recursos naturais e energéticos, o Congo figura entre os países com as mais altas taxas de mortalidade infantil e materna, desnutrição, falta de acesso da população aos serviços de saúde, educação e segurança, além de apresentar as mais precárias infraestruturas de saneamento básico. 

Em Bandulu, uma região da província de Kivu no Leste do país, encontram-se algumas das mais importantes reservas minerais do Congo. A mineração do coltan é feita de forma completamente desordenada (vide foto) e sob um clima de absoluta violência. Existem perto de 5 mil lavras na região, que nada mais são do que imensos buracos no chão, onde homens, mulheres e crianças, muitas vezes trabalhando na condição de escravos ou semi-escravos, cavam o chão em busca do coltan, chamado de “ouro azul”, e também de ouro, diamantes, cobre, urânio, tungstênio e estanho. O trabalho dessa população é, constantemente, realizado sob a mira dos fuzis dos seguranças. 

Ao final de cada jornada de trabalho, os “mineiros” são impiedosamente revistados na busca de desvios de minérios. Caso algum dos trabalhadores seja considerado suspeito de ter engolido alguma pepita de ouro ou uma pedra de diamante, uma forma clássica de “roubar” bens preciosos, ele será conduzido para uma cela, onde permanecerá em jejum por vários dias. Todas as suas fezes serão vasculhadas na busca de qualquer quantidade de mineral que ele eventualmente tenha engolido. Caso não se encontre nenhum vestígio de minerais desviados, o preso será libertado e depois reconduzido para os trabalhos de mineração. A depender da situação e do “mau humor” dos seguranças, o pobre suspeito poderá ser simplesmente estripado e ter suas entranhas vasculhadas.

Por trás dessa estrutura caótica e violenta de mineração, encontram-se funcionários públicos corruptos, militares de todas as patentes, milicianos e combatentes dos mais diferentes grupos étnicos e, também, os chamados “senhores da guerra”. Os ganhos obtidos com a venda dos minerais, especialmente do coltan, alimentam as contas bancárias de pessoas gananciosas e, muito pior, financiam a guerra civil no Congo. Parte importante dos recursos financeiros é usada para a compra de armas e equipamentos militares, usados pelos muitos grupos que disputam o controle das mais diferentes regiões do país, especialmente as províncias minerais. 

As exportações de ouro feitas pela República Democrática do Congo nos dão uma ideia do caos da mineração no país. De acordo com estudos realizados pela ONU – Organização das Nações Unidas, 98% dessas exportações vieram de fontes ilegais. A situação da mineração no país é tão surreal que, em 2017, dois especialistas da ONU, que foram enviados ao Congo para investigar as violações dos direitos humanos nas atividades das minas, foram detidos e executados por supostos rebeldes. 

Atividades mineradoras, como as que temos analisado ao longo dessa sequência de postagens, são potencialmente impactantes ao meio ambiente. No Brasil, onde a implantação dessas atividades fica vinculada à realização de minuciosos estudos de impactos ao meio ambiente e são sujeitas à fiscalização de diversos órgãos de controle, os acidentes são frequentes. Imaginem então a situação de um país onde milhares de quilômetros quadrados do seu território, incluindo-se na lista imensas áreas que supostamente abrigam parques nacionais de preservação da vida selvagem, foram tomados de assalto por minas ilegais. 

A bacia hidrográfica do rio Congo, a maior do continente africano, sofre intensamente com os despejos de rejeito minerais resultantes de todas essas atividades. As águas contaminadas com os mais diferentes tipos de metais pesados se misturam com os resíduos sólidos e esgotos despejados pelos aglomerados humanos, comprometendo a qualidade da água usada no abastecimento das populações que vivem a jusante do rio. O rio Congo tem uma extensão total de 4.700 km e é o principal manancial de abastecimento do país. 

Os impactos ambientais da mineração também atingem em cheio antigas áreas agricultáveis, onde a população vivia da produção de subsistência.  O avanço ilegal e descontrolado das cavas expulsa, diariamente, milhares de famílias de suas terras, criando uma verdadeira onda de refugiados da mineração, algo que só faz agravar o clima de convulsão social criado pela guerra civil. 

Por essas e por muitas outras razões, o coltan figura numa lista conhecida como “os minerais de sangue”. Seu smartphone ou o seu laptop, é claro, não tem qualquer responsabilidade sobre estes horríveis fatos, mas é triste saber que aparelhos “tão legais” e imprescindíveis em nossas vidas tenham coisas desse tipo “gravadas” em seus DNAs.

Pense nesses fatos sempre que usar um desses aparelhos.

OS PROBLEMAS AMBIENTAIS CRIADOS PELA EXPLORAÇÃO E PELO USO DO CARVÃO MINERAL

Carvão Mineral

O carvão mineral é uma rocha sedimentar sólida que foi formada ao longo de milhões de anos a partir do acúmulo e soterramento de matéria orgânica de origem vegetal. Essa matéria orgânica sofreu um processo de carbonificação, onde o hidrogênio e o oxigênio foram expulsos, favorecendo a concentração do carbono, o principal constituinte do carvão. Conforme o grau de concentração do carbono, o minério recebe nomes diferentes: a turfa tem 60% de carbono; o linhito tem 70%; a hulha ou carvão betuminoso tem concentrações de carbono entre 80 e 85% e, finalmente, o antracito, onde a concentração do carbono é superior a 90%. 

As propriedades energéticas do carvão são conhecidas desde o alvorecer da humanidade, quando as pessoas ficavam fascinadas com as pedras que queimavam como lenha. O aquecimento de abrigos e a geração de calor para se cozinhar alimentos foram as primeiras aplicações para o carvão. Com a descoberta dos metais, a exploração e o uso do carvão atingiram um novo patamar. Foi, porém, com o advento da Revolução Industrial a partir de meados do século XVIII, em que a exploração e a utilização do carvão mineral passaram a ser feitas em grande escala. Essa escala e esse consumo cresceram consideravelmente a partir da década de 1880. 

Nos dias atuais, o carvão é um dos mais importantes combustíveis do planeta, com uso intenso em atividades industriais e em usinas termelétricas – cerca de 40% da energia elétrica usada no mundo é gerada a partir da queima do carvão. A queima desse combustível responde por um volume entre 30 e 35% das emissões mundiais de gás carbônico (CO2), um dos principais gases responsáveis pelo Efeito Estufa. O consumo mundial atual de carvão mineral é da ordem de 5,5 bilhões de toneladas.

Algumas regiões do planeta apresentaram condições climáticas e geológicas ideais para a formação de gigantescas reservas carboníferas. Destaques nessa lista incluem territórios nos Estados Unidos, Rússia, China, Austrália e Índia, países que concentram as maiores reservas de carvão do mundo. O Brasil ocupa a 14° posição entre os países com as maiores reservas desse mineral, concentradas em diversos municípios do Sul do Estado de Santa Catarina. 

A contaminação das fontes de água é um dos principais impactos ambientais provocados pela mineração do carvão. Esse processo é chamado de drenagem ácida. Substâncias e elementos com alto potencial de toxicidade são liberados nas fontes de água, alterando também o Ph (potencial hidrogeniônico). Essas substâncias provocam mudanças físicas, organolépticas e biológicas nos corpos hídricos, além de alterar a geoquímica dos sedimentos.  

A mineração do carvão expõe rochas e rejeitos ricos em sulfetos, que liberam grandes quantidades de metais nas águas. Esses poluentes se associam aos sedimentos, dando-lhes uma cor alaranjada. Menos de 1% dessas substâncias são dissolvidas na água e cerca de 99% ficam armazenadas nos sedimentos dos corpos hídricos, o que significa que os contaminantes permanecerão ativos a longo prazo. É por isso que antigas áreas de mineração desativadas há muitas décadas continuam poluindo as fontes de água. 

Metais acumulados nos sedimentos dos corpos hídricos passam por processos de bioacumulação em vegetais e, posteriormente, são transmitidos por toda a cadeia alimentar. Metais pesados altamente tóxicos como o cádmio, chumbo e mercúrio podem, através desse processo, contaminar seres humanos. Esse processo de transferência de metais entre os seres vivos é chamado de biomagnificação

A exploração do carvão também afeta a atmosfera, especialmente pela liberação do dióxido de enxofre (SO2), material particulado e cinzas volantes. Durante a queima do carvão, o enxofre é totalmente oxidado e transformado em trióxido de enxofre (SO3). Esses compostos químicos comprometem a qualidade do ar. Para os seres humanos, um dos grandes vilões é o sulfeto de hidrogênio (H2S), que uma vez absorvido pelas vias aéreas poderá causar problemas irreversíveis no sistema nervoso central e também no sistema respiratório

O dióxido de enxofre (SO2) é outro elemento químico associado ao aparecimento de doenças respiratórias, estando diretamente associado aos problemas de bronquite crônica, resfriados e disfunções no sistema imunológico. Esse elemento químico também causa danos nas folhas dos vegetais, além de corroer superfícies metálicas pintadas. A queima do carvão também libera grandes volumes de monóxido de carbono (CO) na atmosfera. O monóxido de carbono é um gás altamente tóxico para os seres humanos. Sua inalação produz uma redução dos níveis de oxigênio no sangue a níveis críticos – o monóxido de carbono tem uma maior afinidade com as hemácias, sendo assim um competidor com o oxigênio na ligação com a hemoglobina

A exploração do carvão gera grandes quantidades de rejeitos onde se encontra, entre outros minerais, a pirita. A oxidação da pirita provoca o decaimento do Ph da água, o que fatalmente vai resultar numa acidificação dos solos, um processo que vai dificultar o desenvolvimento das plantas e, especialmente, o uso futuro dessas áreas contaminadas para atividade agrícolas. A origem desse problema está na concentração de metais pesados como o ferro, o alumínio e o magnésio, lixiviados pela água, um processo que também promove a fixação do magnésio. 

Solos onde se desenvolveram atividades de mineração de carvão, mesmo no longo prazo, continuarão a apresentar problemas. Solos que venham a se formar nessas regiões serão estruturalmente fracos, com baixa permeabilidade na camada superficial à água e baixa capacidade de retenção da água, o que vai limitar os processos de construção de solo. Esses solos não permitirão o desenvolvimento adequado da vegetação, o que resultará em erosão dos solos, assoreamento e contaminação dos recursos hídricos. Uma das alternativas para a recuperação desses solos é a aplicação de calcário agrícola, um mineral que neutraliza a oxidação da pirita. 

Essa rápida apresentação mostra que o carvão mineral, apesar de ser um dos combustíveis mais importantes da história da humanidade, é também um dos grandes inimigos da preservação ambiental. 

MINERAÇÃO: A MAIOR RESPONSÁVEL POR MORTES DE TRABALHADORES NO MUNDO

Diamantes em Serra Leoa

De acordo com dados da OIT – Organização Internacional do Trabalho, as atividades ligadas à mineração são as mais perigosas para os trabalhadores em todo o mundo. Os trabalhos nessas atividades são os que oferecem os maiores riscos aos trabalhadores, tanto pela falta de estrutura de segurança das minas quanto pelo total desrespeito às normas e convenções trabalhistas. São frequentes as contratações de mineiros com salários abaixo do piso, jornadas de trabalho abusivas – algumas vezes com turnos de até 24 horas seguidas, abusos físicos por parte dos empregadores e não fornecimento de EPIs – Equipamentos de Proteção Individual. Doenças ocupacionais como a silicose, doença pulmonar provocada pelo exposição contínua dos trabalhadores ao pó das rochas, completam esse quadro dramático.

Todos os anos, milhares de mineiros morrem ou ficam soterrados por vários dias em minas, muitas vezes sem que a notícia chegue aos meios de comunicação. Muitas vezes, são as próprias companhias mineradoras que escondem esses acidentes temendo represálias dos governos locais; em várias situações, essas informações até chegam aos ouvidos das autoridades, que optam por medidas administrativas brandas contra a empresas de mineração como forma de não prejudicar o atingimento das metas de produção. São muitos os países pobres e em desenvolvimento que tem nas atividades mineradoras importantes fontes de recursos externos. 

A mineração do carvão é, de longe, a atividade mineradora que mais mata trabalhadores no mundo. O carvão é uma importante fonte energética, indispensável em usinas siderúrgicas e em usinas termelétricas geradoras de energia elétrica. Ao longo de todo o século XX, com o crescimento do uso de combustíveis fósseis derivados do petróleo, o consumo e a importância do carvão diminuiu bastante no mundo. Entretanto, com o forte aumento nos preços do petróleo verificado nas últimas décadas, a produção e o consumo de carvão voltaram a crescer. Projeções econômicas indicam que em cerca de dez anos, o consumo de carvão mineral vai superar o de derivados de petróleo, o que é uma péssima notícia do ponto de vista ambiental

As minas de carvão da China são consideradas as mais inseguras do mundo. Com o forte crescimento econômico do país nas últimas décadas, a mineração do combustível sofreu um forte crescimento, crescimento esse que não foi acompanhado de melhorias nos níveis de segurança. De acordo com os dados disponíveis (muitas informações não são divulgadas), cerca de 13 mineiros morrem a cada dia nas minas chinesas. Esses números colocam a China na trágica primeira posição em número de fatalidades na mineração do carvão, sendo responsável por 80% das mortes nessas atividades; o país responde hoje por cerca de 48% da produção mundial de carvão. 

Se nos grandes complexos de mineração espalhados pelo mundo a segurança dos trabalhadores é frequentemente negligenciada, a situação nas pequenas minas é muito pior. A exploração de ouro, diamantes, prata e outros minerais raros é, muitas vezes, feita em lavras ilegais, onde as condições de segurança são as piores possíveis e onde os trabalhadores não contam com nenhuma rede de proteção social e médica em casos de acidentes. Exemplos são as minas de ouro na Tanzânia, de diamantes em Serra Leoa (vide foto) e a exploração da prata nas minas de Potosí, na Bolívia, sobre a qual comentamos em postagem recente. Muitos desses trabalhadores vivem sob um regime de escravidão, crianças pequenas exercem atividades de alto risco, sem contar a exposição de muitos trabalhadores ao mercúrio, uma substância perigosa usada na separação do ouro e da prata. 

Entre os grandes riscos da mineração, as explosões provocadas por gases acumulados nas galerias merecem destaque. O metano é um desses gases, que se forma dentro das camadas de carvão. Conforme é feita a remoção do carvão, pequenos volumes de gás metano vão sendo liberados e, caso a mina não possua sistemas de ventilação e de exaustão forçada, esse gás começa a se acumular nas galerias, podendo atingir níveis altamente perigosos – basta uma pequena centelha criada pela quebra de uma lâmpada para que haja uma grande explosão. Os riscos do gás metano são amplificados pela presença de grandes quantidades de pó de carvão na atmosfera das galerias. 

A explosão combinada de gás metano e pó de carvão foram as responsáveis pelos dois piores acidentes da mineração na história. Em 1906, na cidade de Courrières, no Norte da França uma gigantesca explosão nas galerias de uma mina de carvão matou 1.099 mineiros. Um outro acidente com as mesmas causas ocorreu em Colliery Benxu, na China, em 1942. Esse acidente matou 1.549 mineiros, sendo considerado o pior desastre da mineração até hoje

Outra fonte potencial de riscos aos trabalhadores são as explosões realizadas para a quebra e o desmonte das rochas. Estudos indicam que a maior causa de lesões graves e mortes de mineiros em minas a céu aberto são as chamadas “rochas voadoras”, pedras arremessadas pelas explosões. Esses acidentes ocorrem porque os trabalhadores não foram colocados a uma distância segura do ponto da explosão ou porque as pedras foram lançadas a uma distância muito maior do que a que foi calculada pelos engenheiros. No caso das minas subterrâneas, as explosões podem liberar vapores venenosos devido a falhas de ignição ou por explosões prematuras

Uma outra fonte de risco para os trabalhadores são os abalos sísmicos, que podem provocar o desabamento de galerias e soterrar os mineiros. Aqui na América Latina, por exemplo, algumas das mais importantes províncias minerais se encontram na faixa Oeste do continente, acompanhando a Cordilheira dos Andes. Nesta região destacam-se importantes minas no Chile, Argentina, Bolívia, Peru e Equador. Nessa região se encontra o ponto de encontro entre duas importantes placas tectônicas – a Placa Sul Americana e a Placa de Nazca, o que torna a região propensa a fortes terremotos. Em 2010, um terremoto atingiu o norte do Chile e provocou o soterramento de 33 mineiros na mina San José. Os mineiros ficaram presos por mais de dois meses até que as equipes de socorro conseguissem abrir um poço para o resgate – todos os mineiros foram salvos. 

Infelizmente, nem sempre o socorro chega a tempo nesse tipo de acidente e centenas de trabalhadores acabam morrendo à centenas de metros de profundidade.. 

A MINERAÇÃO DE COBRE E SALITRE NO CHILE, OU OS ECOS DE SANTA MARIA DE IQUIQUE

Santa Maria de Iquique

O cobre foi, muito provavelmente, o primeiro metal utilizado pela humanidade. Estudos arqueológicos indicam que o cobre começou a ser minerado e trabalhado por agrupamentos humanos por volta do ano 9.000 a.C. Durante vários milênios, todas as ferramentas e armas metálicas produzidas pela humanidade foram feitas com cobre. Por volta do ano 2.000 a.C., os egípcios passaram a adicionar pequenas quantidades de estanho durante a fundição do cobre e, assim, passaram a produzir peças em bronze, um metal mais duro que o cobre puro. Com o aprimoramento da fundição do ferro, uma tecnologia que surgiu por volta do ano 1.200 a.C., o cobre passou a ocupar um papel secundário na vida humana. 

Foi somente a partir de meados do século XIX, com o início das primeiras aplicações da eletricidade na vida humana, que o cobre voltou a ter importância significativa, graças às suas excelentes características de condução de corrente elétrica. Sistemas de redes telegráficas, seguidos posteriormente de redes telefônicas e de distribuição de energia elétrica, passaram a ser implantados em todo o mundo. Essa súbita valorização do cobre levou a uma intensa busca por fontes minerais e colocou no mapa mundial um país isolado da América do Sul – o Chile. 

A mineração acabou se transformando na principal atividade econômica do país e o cobre é principal produto exportado pelo Chile. Cerca de 60% das receitas externas do país vem da venda do cobre. No Norte do país são encontradas algumas das maiores reservas mundiais de cobre, calculadas em mais de 115 milhões de toneladas. Oo Chile responde atualmente por mais de 10% da produção mundial do metal. Uma das mais famosas minas a céu aberto do mundo, Chuquicamata, fica na região, ocupando uma extensão de 4,5 km e uma largura de 3,5 km – a profundidade é superior a 900 metros. 

Outro produto de destaque na mineração chilena é o salitre, também conhecido como nitrato, um mineral que tem múltiplas aplicações, que vão da produção de fertilizantes até seu uso para a produção da pólvora. A multiplicação de conflitos e das guerras de independência em diversos cantos do mundo ao longo do século XIX, aumentou grandemente o uso do salitre para fins militares. A intensa disputa pelas minas de salitre na região do Deserto do Atacama levou Chile, Bolívia e Peru à uma guerra territorial, episódio que ficou conhecido com o nome de Guerra do Pacífico e se desenrolou entre 1879 e 1883. A Bolívia foi a grande derrotada nesse conflito, perdendo uma importante faixa do seu território e sua saída para o Oceano Pacífico. 

Apesar da imensa importância e do grande volume das atividades de mineração no Chile, seus impactos ambientais são bem diferentes daqueles vistos em outras partes do mundo.  A razão para isso é a falta crônica de água no Norte do país e, lembrando, a mineração do cobre é uma atividade que necessita de grandes volumes de água. O Chile tem uma geografia única, com a Cordilheira dos Andes ocupando toda a faixa Leste do país de Norte a Sul – praticamente todos os rios têm suas nascentes na Cordilheira, de onde a água de degelo de glaciares escorre lentamente e forma pequenos cursos de água. Na região do Atacama, considerado como um dos desertos mais secos e quentes do mundo, essa água criada pelo degelo dos Andes se evapora rapidamente. Uma combinação de relevo, ventos e correntes marinhas impede a chegada das chuvas, que são raríssimas no Atacama e nas regiões circunvizinhas. 

Um exemplo do uso da água na mineração é a lavagem do material escavado para separação dos minérios. De acordo com informações da Comissão Chilena do Cobre, se estima um consumo próximo de 27 mil litros de água por segundo na mineração do cobre no ano de 2021, um consumo superior ao da cidade de São Paulo com seus mais de 11 milhões de habitantes. No caso no salitre, um minério que se formou na superfície e se encontra praticamente puro do solo, não há necessidade do uso de volumes tão grandes de água. 

Conforme já tratamos em postagens anteriores, o aquecimento global vem provocando uma redução sistemática dos glaciares de montanhas em todo o mundo – a Cordilheira dos Andes não é exceção. Diversas fontes de água e rios chilenos vem apresentando redução sensível dos seus caudais, um problema que já está causando preocupação em muita gente. Diversos grupos ambientalistas têm aumentado sua pressão sobre empresas mineradoras, exigindo mudanças em seus processos de produção, com vistas a economia de água. Uma das opções em estudo pelas empresas é o uso de água dessalinizada em um futuro bem próximo – já para o mesmo ano de 2021, a expectativa das empresas de mineração do Chile é a de usar mais de 9 mil litros de água dessalinizada por segundo em seus processos. 

Além dos conflitos gerados pela intensa disputa pelos recursos hídricos, a mineração no Norte do Chile tem um longo histórico de desrespeito aos direitos dos trabalhadores. Durante várias décadas, esses trabalhadores foram recrutados em aldeias indígenas no Chile, Argentina, Bolívia e Peru. Entre os abusos se incluem baixos salários, jornadas de trabalho exaustivas, além de condições de trabalho inseguras, um problema que é agravado pela grande frequência de terremotos no país. Para citar um caso de 2010, um grupo de 33 mineiros ficou preso por mais de dois meses na mina San José, soterrados a uma profundidade de 688 metros. Graças a um grande esforço internacional, todos os mineiros foram resgatados com vida. 

Um dos casos mais dramáticos da história da mineração mundial, que muita gente faz questão de esquecer, ocorreu na cidade de Iquique, no Norte do Chile, em 1907. Trabalhadores das minas de salitre da região iniciaram um movimento grevista em função das péssimas condições de trabalho e, especialmente, contra o pagamento dos salários em fichas, algo que também era muito comum nos seringais brasileiros na época. Essas fichas só podiam ser trocadas em armazéns da própria mina, onde os produtos e alimentos eram vendidos a preços exorbitantes, Milhares de mineiros se dirigiram para a cidade de Iquique (vide foto), onde se concentraram na Escola Santa Maria. 

Inflexíveis em suas reivindicações, os mineiros prometeram manter a greve até que conseguissem negociar com os patrões. Ao invés de negociar, as empresas optaram em pedir ajuda ao Governo do Chile, que ao invés de negociadores, mandou o exército para a cidade. Com um impasse nas negociações, os militares partiram para o confronto – mais de 5 mil mineiros desarmados sucumbiram ao fogo das metralhadoras. Em 1970, o grupo musical chileno Quilapayn lançou uma cantata popular – Santa Maria de Iquique, onde narra em versos musicais o drama dos mineiros do salitre. 

Além de destruir o meio ambiente, a mineração também destrói vidas. 

NAURU: A ILHA QUE EXPORTOU A MAIOR PARTE DOS SEUS SOLOS

Nauru

A Ilha Nauru, no Oceano Pacífico, tem apenas 21 km² de superfície, sendo considerado um dos menores países do mundo. Para que todos tenham uma ideia real da superfície desse país insular, Nauru é menor que o arquipélago de Fernando de Noronha, que tem uma área total de 26 km². A população da ilha é de aproximadamente 13 mil habitantes. 

Apesar de ser um pequeno ponto de terra perdido no meio do imenso Oceano Pacífico, o drama social e ambiental vivido na Ilha Nauru é, proporcionalmente, o maior do mundo. A raiz do problema é a mineração do fosfato, um elemento químico essencial para a produção de fertilizantes agrícolas fosfatados. Junto com o nitrogênio e o potássio, o fosfato forma o principal conjunto de nutrientes para as plantas. A extração sistemática de fosfato para exportação já destruiu 80% do território da ilha. Vamos entender como algo dessa magnitude pôde acontecer: 

No final do século XIX, exploradores ingleses que estudavam as ilhas do Oceano Pacífico desembarcaram em Nauru e, rapidamente, descobriram que a ilha inteira era um gigantesco bloco de rocha fosfática. Prometendo riqueza e melhoria de vida para toda a população nativa, uma grande empresa de mineração britânica fechou um contrato com os governantes locais para a exploração do fosfato, uma atividade que foi iniciada em 1899. 

Como era comum entre as populações das ilhas polinésias, os nauruenses viviam dos recursos pesqueiros e do cultivo da terra, especialmente da produção da batata-doce, um produto fundamental na culinária local. A criação de galinhas e porcos complementava a base da dieta das população. Como a implantação das atividades de mineração foi concentrada na área central da ilha e longe da faixa habitada na linha costeira, a ingênua população nativa não se deu conta do que lhes reservaria o futuro.

Essa relativa “miopia” ante o avanço da mineração sobre os ricos solos de Nauru foi intensificada pela visível melhoria nos padrões de vida da população, graças à chegada dos royalties pagos pelo fosfato. Os antigos casebres cobertos com palhas de coqueiro (vide foto abaixo) passaram a ser substituídos por confortáveis bangalôs; a população passou a ter um acesso mais fácil aos serviços de saúde e as crianças passaram a frequentar escolas com boa infraestrutura. Aparentemente, Nauru havia alcançado o tão sonhado patamar de “paraíso tropical dos mares do sul”. 

Nativos de Nauru

Uma das formas mais simplificadas de definirmos a mineração seria a escavação dos solos para a retirada de bens minerais – rochas e metais que têm um valor comercial. Também, de forma bastante simplificada, podemos afirmar que o que sobra após o esgotamento desses bens minerais é “um grande vazio no chão”. Uma história que contei em uma postagem anterior e que é bastante conveniente repetir para explicar esses processos – anos atrás, em função do meu trabalho, eu viajava com bastante regularidade até a cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Ao lado da rodovia já bem próximo da cidade, havia um sítio de exploração de minério de ferro, onde se via um grande morro sendo “escavado”. Em um período de dez anos, eu vi esse morro, literalmente, desaparecer. 

Em Nauru, as atividades de mineração, fizeram exatamente isso: a ilha começou a desaparecer. A primeira grande vítima foram áreas utilizadas para agricultura. Pouco a pouco, com o avanço das cavas, a produção da batata-doce começou a diminuir e passou a ser necessária a importação a partir de ilhas vizinhas. Depois, as áreas que eram utilizadas para a criação de galinhas e porcos também passaram a minguar, sendo também necessária a importação de carnes para o abastecimento da população.  

Os recursos pesqueiros, fonte ancestral de alimentos para os nauruanos, também acabaram afetados pela mineração. Logo no início das atividades na ilha, os ingleses construíram um terminal portuário para o embarque do fosfato. O coração desse terminal era uma grande esteira para o transporte do produto desde os galpões de beneficiamento até os navios cargueiros. Pela vibração da esteira e por força dos ventos, pequenas quantidades de fosfato passaram a cair no mar, destruindo os corais e a espantando os cardumes de peixes e de crustáceos que viviam nas águas rasas ao redor da ilha. Atualmente, todos os alimentos consumidos pela população de Nauru precisam ser importados, especialmente da Austrália

A mudança no regime alimentar dos nauruenses, com a substituição de alimentos frescos por produtos enlatados e congelados, resultou em inúmeros problemas de saúde. O povo de Nauru é considerado um dos mais doentes e obesos do mundo, com grande percentual de diabéticos, cardíacos e hipertensos. Cerca de 94% da população têm sobrepeso e 72% são considerados obesos. Outro problema de saúde é o diabetes tipo 2, que afeta mais de 40% da população. Doenças renais e cardíacas, além de outras associadas aos problemas de alimentação, também são bastante comuns entre os habitantes da ilha

A surreal paisagem do interior da Ilha Nauru lembra áreas que sofreram intensos bombardeios em uma guerra – terrenos com uma elevação de até 60 metros e que eram cobertos por matas foram transformados numa sucessão de crateras e de terras arrasadas, despidas de qualquer vegetação. Além dos evidentes impactos sociais e econômicos, essa devastação da ilha provocou uma forte alteração no clima local, que passou a apresentar longos períodos de seca. Isso é muito preocupante, pois Nauru possui uma única fonte de água doce, o Lago Buada, alimentado pela água das chuvas – com a escassez das chuvas, a tendência no longo prazo será o desaparecimento completo do Lago. 

As únicas áreas “intocadas” da ilha ficam na orla oceânica, que forma um anel coberto por coqueirais ao redor da grande “cratera” que foi deixada por mais de um século de mineração. E como se toda essa tragédia sócio-ambiental já não fosse muita coisa, há uma outra a porvir: o aquecimento global está provocando uma gradativa elevação do nível dos oceanos em todo o mundo e a faixa costeira da Ilha Nauru poderá acabar submersa dentro de poucas décadas. 

Não tardará chegar o dia em que poderemos afirmar, sem sombra de dúvida, que a ganância da mineração e a insensatez humana riscaram um pequeno país insular do mapa mundial  – a Ilha Nauru. 

O HOMEM DE NEANDERTAL E A MINERAÇÃO

Homem de Neandertal

Uma leitura apressada do título desta postagem poderá transmitir uma informação incorreta aos leitores – não, os pobres Homens de Neandertal, uma raça extinta de seres humanos, considerada “prima” dos homens modernos, nunca utilizou nenhuma forma de mineração desastrosa nos recantos em que viveu até seu desaparecimento da face da Terra há aproximadamente 40 mil anos atrás. Como outras espécies “primitivas”, eles utilizavam fragmentos de rocha para a confecção de toda uma gama de ferramentas para uso em suas caçadas e em atividades do dia a dia – nada mais do que isso. 

Na postagem de hoje, vamos mostrar os impactos da mineração de calcário no vale de Neander e suas consequências na descoberta dos fósseis do Homem de Neandertal

O rio Dussel é um pequeno afluente do alto rio Reno, no Sudoeste da Alemanha. Foi na confluência desses dois rios que surgiu uma pequena vila entre os séculos VII e VIII, que passou a ser conhecida na região como Vila de Dussel ou, em alemão, Dusseldorf. Os primeiros documentos escritos que falam de Dusseldorf datam do ano 1135.  

A moderna Dusseldorf é uma das mais importantes cidades da Alemanha, abrigando o segundo maior centro financeiro do país e concentrando as empresas de propaganda e de moda. Nos últimos anos, a cidade foi transformada no maior centro de telecomunicações da Alemanha, sediando a maior parte das empresas e provedores de internet do país. A cidade tem hoje uma população de 2,8 milhões de habitantes. 

A cerca de 15 km do centro de Dusseldorf existia uma grande formação de pedra calcária que, desde os primeiros tempos da fundação deste assentamento humano, vinha sendo explorada pelas populações. O calcário é um mineral com largas aplicações em nosso dia a dia: a cal é um exemplo. Esse produto é usado na produção de argamassa para assentamento de tijolos e reboco de paredes. Na produção do cimento Portland, o calcário é a principal matéria prima. Essas duas aplicações já mostram a sua importância para a construção de qualquer cidade. 

Outra aplicação importante do calcário é na metalurgia, onde é usado como fundente dos metais. Na agricultura, o calcário é usado como corretivo do Ph (potencial hidrogeniônico) dos solos e também como um dos ingredientes de adubos. Também é usado na fabricação do vidro, um material de múltiplos usos e aplicações. Por fim, pedras calcárias recortadas são usadas como elementos estruturais e decorativos em construções

O rio Dussel cortava esse bloco rochoso, onde formava um pequeno canyon cercado por altos paredões de pedra calcária. Esse trecho era chamado pelos locais como Dusseltal – a palavra “tal” (na antiga grafia alemã, anterior a 1904, se escrevia “thal“) é usada para designar o vale de um rio, no caso, o vale do rio Dussel. Um detalhe histórico levou à mudança do nome do lugar: um compositor e pregador religioso do século XVII, chamado Joachim Neander, pregava para seus seguidores neste local. Com o passar dos anos, o local passou a ser conhecido como Neandertal

Pois bem: em 1856, os trabalhadores de uma das muitas pedreiras que exploravam o calcário no local encontraram alguns ossos e um grande fragmento de crânio em uma gruta conhecida pelo nome de Feldhofer. Os trabalhadores entregaram os ossos ao dono da pedreira, que por sua vez os entregou a Johann Carl Fuhlrott, um naturalista amador que lecionava em uma escola da região. Inicialmente, se suspeitava que esses ossos eram despojos de vítimas humanas atacadas por ursos selvagens da região. 

O professor Fuhlrott ficou impressionado com os ossos, especialmente com o fragmento do crânio, no qual era possível verificar que pertencera a uma pessoa com a testa baixa e com as arcadas do supercílio bastante proeminentes. Os ossos do braço e do antebraço também se mostravam muito mais curtos do que numa pessoa normal. As primeiras impressões fizeram o professor Fuhlrott deduzir que esses ossos deveriam ter pertencido a uma espécie primitiva de seres humanos. Os ossos foram levados ao famoso anatomista Hermann Schaaffhausen, que em 1857 fez a publicação conjunta da descoberta – surgia assim a primeira descrição científica do Homem de Neandertal (ou, Neanderthal na grafia alemã antiga, palavra que você vai encontrar frequentemente em uso). 

Ossadas semelhantes dessa “antiga espécie humana” já haviam sido encontradas décadas antes em Gibraltar e na Bélgica, porém, o receio de confronto com o forte pensamento religioso da época, que pregava que “Deus criou o homem à sua imagem”, impediu que outros cientistas afirmassem se tratar de outra linhagem de seres humanos. Também é importante lembrar que o revolucionário livro de Charles Darwin A Origem das Espécies, só seria publicado em 1859. Esses fatos mostram o quanto a divulgação da descoberta dos professores Fuhlrott Schaaffhausen foi corajosa e importante numa época em que as ciências ainda se submetiam aos dogmas religiosos. 

Infelizmente, as pesquisas sobre o homem de Neandertal não puderam ser aprofundadas no local da descoberta – a gruta de Feldhofer. Poucas semanas após o achado dos ossos, a gruta simplesmente desapareceu, desmontada pela retirada das pedras calcárias. Aliás, a maior parte da formação rochosa que existia no local desapareceu por força da mineração. Visitando hoje o local, você poderá conhecer o Neandertal Museum e um parque ecológico linear que foi criado às margens do rio Dussel. Além disso, você encontrará diversas lagoas formadas nas crateras abertas pela mineração e muitas fazendas. A mineração também alterou completa e irremediavelmente as características primitivas do rio Dussel

Os antigos paredões de pedra calcária ainda resistem na tradição oral das populações locais e em gravuras e pinturas antigas, além de algumas fotografias. Tudo o que se descobriu posteriormente sobre a vida e os hábitos dos Homens de Neandertal vem de achados feitos em outros sítios paleontológicos, em diferentes regiões da Europa e da Ásia. Podemos, literalmente, afirmar que a mineração de calcário varreu os vestígios da presença dessa antiga espécie “humana” do vale de Neander

Neandertal

Entre os anos de 1997 e 2000, foram realizadas algumas pesquisas científicas no vale de Neander. Usando algumas novas tecnologias de estudo de solos, os pesquisadores conseguiram determinar com exatidão o local onde ficava a gruta de Feldhofer. Também foram realizadas buscas arqueológicas em depósitos de rejeitos minerais que restaram no local, onde foi possível encontrar alguns fragmentos de ossos da antiga população “humana” que ali viveu. Por pura obra do acaso, nem tudo estava perdido.  

Como se vê, a mineração não causa apenas impactos ambientais e sociais – ela também pode comprometer, irremediavelmente, estudos sobre a origem e a cultura da humanidade. 

PS: A imagem que ilustra esse post é do filme AO, O ÚLTIMO NEANDERTAL.

RUINA MONTIUM – A DEVASTADORA TÉCNICA DE MINERAÇÃO CRIADA PELO IMPÉRIO ROMANO

Las Médulas

Ao ver as imagens da destruição provocada pelo rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração como no recente caso de Brumadinho ou ainda revendo a tragédia de Mariana em 2015, você poderá ficar com a impressão que esses desastres são o resultado de processos de mineração irresponsáveis do mundo moderno. Ao contrário do que talvez aparente, a mineração em larga escala vem produzindo tais catástrofes há milhares de anos. As antigas minas de ouro do Império Romano em Las Médulas, na Província de León na Espanha, farão você mudar de ideia. 

A exploração de ouro nesta região, que fica próxima da cidade de Ponferrada, surgiu por volta do ano 25 a.C, poucas décadas depois da conquista da Hispânia pelas tropas do Império Romano. A partir de trabalhos de prospecção mineral em montanhas da região, os governantes romanos descobriram que os solos locais abrigavam fabulosos veios de ouro e não pouparam esforços para a mineração do precioso metal. Ao longo dos dois séculos seguintes, os romanos empregaram cerca de 60 mil trabalhadores livres em operações de lavra, retirando cerca de 1,65 milhão de quilos de ouro da região

Sem contar com explosivos para o desmonte das rochas, os engenheiros romanos utilizaram seus conhecimentos em obras hidráulicas para desenvolver uma técnica de exploração mineral que passou a ser conhecida como Ruina Montium, que significa literalmente “destruição da montanha”. Utilizando a força hidráulica de grandes volumes de água, os trabalhadores forçavam a erosão das rochas e o carreamento de grandes volumes de sedimentos, que eram vasculhados minuciosamente na busca por pepitas e resíduos de ouro, numa técnica que lembra muito a exploração de ouro de aluvião aqui no Brasil. 

Essa água era coletada em fontes localizadas em montanhas próximas e transportada até as minas através de complexos sistemas de aquedutos e canais, que numa extensão total somada tem aproximadamente 300 km. A água era armazenada em grandes tanques, em uma quota de mais de 250 metros acima do nível das minas – era essa altura que gerava a poderosa pressão hidráulica para o desmonte das rochas. Conforme as necessidades da mineração iam surgindo, os trabalhadores cavavam túneis através das rochas, que seriam usados para direcionar fluxos violentos de água com alta pressão contra áreas de interesse. A cada uma dessas operações, trechos inteiros das montanhas ruíam. Uma dessas montanhas, o monte Medilianum, praticamente desapareceu. 

No ano 77 d.C, Caio Plínio, um dos mais importantes naturalistas da antiguidade, visitou as minas de Las Médulas e ficou chocado com a devastação dos solos que lá encontrou: 

 “O que acontece é muito além do trabalho de gigantes. As montanhas estão rasgadas com corredores e galerias feitas pelas luzes de lamparinas, que duram até a troca de turnos. Por meses, os mineradores não podem ver a luz do sol e muitos deles morrem dentro dos túneis. A esse tipo de mina tem sido dado o nome de Ruina Montium. As rachaduras feitas nas entranhas das pedras são tão perigosas que seria mais fácil achar purpurina e pérolas no fundo do mar que fazer cicatrizes na rocha. Como fizemos perigosa a terra!” 

No século II d.C., após o esgotamento das reservas de ouro em Las Médulas, os romanos abandonaram a região. A paisagem deixada para trás mais parecia com a superfície do planeta Marte – grandes crateras e rochas vermelhas espalhadas por uma extensa região despida de qualquer traço de vegetação. As antigas montanhas cobertas por florestas e toda a vida animal local simplesmente desapareceu, como se nunca tivesse existido. A antiga rede de nascentes de água das montanhas e os rios em uma área com milhares de quilômetros quadrados, foi substituída por poças de lama e grandes montes de pedra, tornando os solos locais praticamente imprestáveis para qualquer futura atividade agropecuária. 

Em 1997, as ruínas das minas de ouro de Las Médulas foram transformadas em Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO – Órgão das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura: uma trágica lembrança de quão destrutiva a humanidade pode ser. A devastação ambiental em larga escala deixada pelos antigos romanos é hoje um importante destino turístico da Província de León. Como praticamente não houve qualquer ocupação humana posterior na região, as ruínas das minas, dos aquedutos e de outras construções romanas permanecem praticamente intactas. 

Com o passar do tempo, e falamos aqui de vários séculos, a região de Las Médulas conseguiu recuperar parte de suas características naturais, voltando a ser coberta por bosques e passando a abrigar novamente vida animal. Uma característica interessante desses novos bosques é a grande presença de castanheiras, uma árvore que não pertencia à flora original e que passou a colonizar os solos graças à intervenção humana. Os romanos consumiam castanhas trazidas de outras regiões do seu Império e, acidentalmente, muitas dessas dessas caíram no chão e brotaram.

Esses novos bosques se transformaram em refúgios para espécies animais que perderam espaço em outras regiões da Espanha. O lugar é hoje lar de espécies como o javali (Sus scrofa), a corsa europeia (Capreolus capreolus) e o gato-montês (Felis silvestris), um felino raro que pode pesar até 7 kg. Perto de uma centena de espécies de aves, além diversas outras espécies de répteis e anfíbios, completam a fauna local. 

Essa recolonização dos solos por árvores exóticas tem um paralelo interessante com a faixa Leste do litoral do Nordeste brasileiro. Essa faixa era coberta originalmente pela Mata Atlântica, uma densa formação vegetal que se estendia desde o Rio Grande do Sul até algumas áreas do interior do Ceará; em alguns trechos, ela entrava pelo interior do Brasil chegando até o Paraguai. A chamada Zona da Mata nordestina sucumbiu a ferro e a fogo diante da cultura da cana-de-açúcar. Ao longo de quase três séculos, as matas foram derrubadas e queimadas para expansão dos canaviais e produção do açúcar, restando ao final uma terra arrasada e a nua. Coqueirais surgidos a partir de cocos trazidos por maus portuguesas desde a Índia passaram a ocupar o litoral do Nordeste, criando paisagens que mais lembram as ilhas do Oceano Pacífico. 

Imagino que, em séculos futuros, arqueólogos e outros estudiosos venham a se espantar com a fauna e a flora que surgiu em áreas destruídas por atividades mineradores irresponsáveis desses nossos dias. Quem sabe o que o futuro reservará para os desolados vales dos rios Doce e Paraopeba, entre outros, destruídos por nossa gananciosa e  irresponsável geração… 

O DESAPARECIMENTO DO LAGO POOPÓ NA BOLÍVIA POR CAUSA DE REJEITOS DE MINERAÇÃO

Lago Poopó

Numa postagem publicada aqui no blog em 13 de abril de 2017, divulgamos uma das notícias mais terríveis da área dos recursos hídricos – o desaparecimento do Lago Poopó, no Altiplano boliviano. A notícia não tratava de um lago qualquer, mas sim do segundo maior corpo d’água da Bolívia, um lago de água salgada, com um tamanho equivalente a seis vezes a Baía da Guanabara ou três vezes o tamanho da cidade de São Paulo, que, literalmente, desapareceu no ar.  

O “finado” Lago Poopó ficava (é estranho usar esse tempo passado) no departamento de Oruro, região que faz divisa com o Chile, onde o espelho d’água se espalhava por uma área que podia chegar a 2.500 km² nos períodos de cheia. O nível do lago se encontrava numa altitude de 3.686 metros acima do nível do mar, com uma profundidade média de 2,5 metros, podendo chegar em alguns trechos a 6 metros. O Altiplano é um extenso planalto com altitudes acima dos 3.500 metros, que se estende entre as montanhas dos Andes, ocupando partes do Norte do Chile e da Argentina, do Oeste da Bolívia e no Sul do Peru. 

A hidrologia do Lago Poopó estava ligada diretamente ao Lago Titicaca, o maior corpo de água da América do Sul, localizado ao Norte, na divisa da Bolívia com o Peru. Um conjunto de aproximadamente vinte e cinco rios, formados a partir do degelo de glaciares no alto dos Andes, corre para as terras mais baixas do Altiplano alimentando o Lago TiticacaUma fenda natural na parte Sul do Titicaca, conhecida como rio Desaguadero, funcionava com uma espécie de “ladrão”, escoando todo o excedente de água na direção do Lago Poopó, localizado num trecho mais baixo, que funcionava como lago terminal da bacia hidrográfica. Ciclos de evaporação das águas e realimentação via drenagem do Lago Titicaca mantinham a estabilidade do Lago Poopó

O destino do Lago Poopó começou a ser selado a partir da redução do nível do Lago Titicacaque baixou cerca de 1 metro nos últimos anos, o que reduziu a quantidade de água drenada pelo rio Desaguadero. Para aumentar o problema, o Governo local realizou obras no Desaguadero, desviando as águas para outras regiões, para usos em sistemas agrícolas e abastecimento de comunidades (o Titicaca tem água doce). Sem receber os despejos sistemáticos de água do Lago Titicaca, o Lago Poopó começou a secar

A tragédia ambiental que se abateu sobre o Lago Poopó, porém, tem outro componente bombástico – a mineração predatória e intensa realizada na região desde o tempo dos conquistadores espanhóis. Usando técnicas das mais rudimentares, os mineiros da região nunca se preocuparam com a construção de barragens de rejeitos minerais, assunto que temos falado bastante nas últimas postagens. O Lago Poopó foi transformado “na barragem de rejeitos” do Altiplano, recebendo sedimentos arrastados pelas escassas chuvas ao longo dos séculos. O acúmulo desses rejeitos reduziu gradativamente a profundidade do lago e amplificou os efeitos da evaporação das águas.  

O nível de contaminação das águas do Lago com metais pesados chegou a um nível altamente crítico, resultando na mortandade de 30 milhões de peixes em um único dia – milhares de aves, que se alimentavam destes peixes envenenados tiveram o mesmo fim. As aves e animais que conseguiram fugir a tempo, ganharam uma sobrevida em outras regiões – os flamingos rosados do Poopó, por exemplo, migraram para o pequeno Lago Oruro em uma região próxima, um corpo d’água que também está secando. Nesse novo ambiente, a carência de nutrientes está afetando a saúde dessas aves – as vistosas penas rosas passaram a apresentar uma cor branca. Especialistas da Bolívia calculam que cerca de 200 espécies de aves, peixes, mamíferos, répteis e anfíbios, além de uma grande variedade de plantas, desapareceram junto com o Lago Poopó

O desastre também teve um custo humano. Cerca de 350 famílias das comunidades indígenas locais, em sua maioria pescadores do lago, foram afetadas. Os Urus eram os donos do lago e tiravam o seu sustento das águas do Poopó, o seu “território”. Essas comunidades tinham como fonte principal de alimentos um grupo com 38 espécies de animais entre peixes, aves e mamíferos: nada sobrou. De acordo com as leis bolivianas, o território dos Urus é formado pelo espelho d’água dos diversos lagos do país e eles não podem cultivar as terras, um território que pertence aos indígenas da etnia Aymaras

O desaparecimento do Lago Poopó foi um longo e contínuo processo de degradação ambiental, denunciado sistematicamente por anos a fio por ambientalistas e especialistas em recursos hídricos da Bolívia. Essas denúncias contaram com forte apoio de órgãos de imprensa opositores ao Governo do Presidente Evo Morales. Dentro da forte ideologia política do Governo boliviano, a sistemática redução dos níveis do Lago Poopó “foi uma consequência do aquecimento global, um fenômeno provocado pelas grandes nações capitalistas do Hemisfério Norte.” Nenhuma providência prática para controlar ou reduzir o problema foi tomada. 

A Bolívia tem uma longa história de exploração selvagem dos seus recursos naturais, uma trágica herança do período colonial. O antigo Vice-Reino do Peru, do qual a Bolívia fazia parte, se mostrou, já nos primeiros anos após a conquista pela Espanha, como uma das mais promissoras províncias minerais do Novo Mundo. A descoberta das minas de prata de Potosí, em 1545, consolidou ainda mais essa realidade. Em 1611, a cidade homônima que surgiu no local já tinha uma população de 150 mil habitantes, a segunda cidade mais populosa do mundo, só ficando atrás de Paris. De acordo com dados oficiais, saíram das minas de Potosí, entre os séculos XVI e XIX, cerca de 31 mil toneladas de prata, metal que enriqueceu a Espanha e condenou a Bolívia ao subdesenvolvimento atual. Para efeito de comparação, o Ciclo da Mineração no Brasil  Colonial produziu cerca de mil toneladas de ouro.

Usando a farta mão de obra indígena local, escravizada e explorada aos limites das suas forças, a mineração da prata utilizou milhares de toneladas de mercúrio, um elemento altamente tóxico, para separar o metal precioso dos rejeitos minerais, entre esses o chumbo e o arsênico. O resultado de séculos dessa mineração predatória: altíssimos níveis de contaminação dos solos, o que tornou a agricultura impraticável na região, além de fontes de água com alarmantes concentrações de metais pesados e contaminantes diversos. Inúmeros casos doenças como o câncer e a má formação de fetos assombram as populações locais, que ainda dependem fortemente da mineração da pouca prata que restou na região. 

Como se vê, o desrespeito ao meio ambiente e a Cordilheira dos Andes no Altiplano são, desgraçadamente, lados diferentes de uma mesma paisagem… 

ÁGUA E MINERAÇÃO

Água e Mineração

O rompimento da barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho – Minas Gerais, expôs, da forma mais dramática possível, os riscos que são criados, dia após dia, pelas atividades mineradoras. Esses riscos incluem a segurança de comunidades humanas, danos aos recursos naturais e prejuízos econômicos – o tripé da sustentabilidade é colocado sistematicamente em xeque.

Por outro lado, nosso mundo moderno e nossas vidas “confortáveis” dependem, como em nenhum outro período da história, dos recursos minerais. Citando um único exemplo: em nossos cotidianos não podemos dispor da presença de smartphones e computadores – as baterias desses equipamentos são construídas usando minerais, notadamente o lítio, um metal com grande capacidade para o armazenamento de energia elétrica. 

Nossas casas e apartamentos foram construídos usando matérias primas oriundas da mineração: argila para os tijolos e blocos, calcário para a produção da cal e do cimento, areia para produção de argamassa, concreto e também usada para a produção do vidro. E não menos importante, ferro e aço para a construção das armaduras e estruturas de sustentação, além de alumínio e outros metais que são usados para a fabricação de portas, janelas e metais sanitários. 

Nos meios de transporte que usamos diariamente, os metais ocupam os papéis mais essenciais: ferro e aço para a montagem de carros, motocicletas e trens; alumínio, um metal leve e resistente, essencial para a produção dos aviões; e aços especiais para a construção de navios de todos os tipos. Para se produzir todas essas máquinas maravilhosas, gigantescos parques industriais, onde os mais diferentes tipos de metais formam todos os tipos de máquinas e equipamentos de produção. Os serviços de comunicação, essenciais em nosso mundo moderno, dependem dos mais diferentes tipos de metais para a fabricação de equipamentos e redes de comunicação. 

Até mesmo a produção dos diferentes tipos de alimentos que consumimos depende da mineração: fertilizantes e corretivos de solos utilizam matérias primas de origem mineral; para a produção de carnes e ovos, a ração dos animais é complementada com vitaminas produzidas a partir de sais minerais criados a partir de diferentes processos de mineração. 

Nessa busca frenética e, não raramente, irresponsável, os rios acabam transformados em verdadeiras latrinas devido ao lançamento direto ou acidental de rejeitos de mineração. A tragédia ambiental no rio Doce, ocorrida em 2015, e o recente acidente no rio Paraopeba em Brumadinho, estão entre as mais evidentes entre nós. Existem várias outras calamidades ambientais ao nosso redor que, de tão acostumados que estamos, mal nos damos conta da sua existência.  

A extração de areia para a construção civil em importantes cidades como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, destruiu e continua destruindo importantes trechos dos rios Tietê, Iguaçu e Paraíba do Sul. Outro exemplo drástico – montanhas de rejeitos minerais e de escória de altos fornos ameaçam desmoronar sobre o rio Paraíba do Sul na cidade de Volta Redondo, com potencial para comprometer todo o abastecimento de água na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. 

Essas agressões se multiplicam em diferentes regiões do mundo. Diversas fontes de água e rios sofrem com a contaminação originada pela exploração de carvão, um combustível fóssil essencial em diversas regiões do mundo. Acidentes em poços de petróleo e vazamentos em refinarias são praticamente diários. De quando em vez, se transformam em verdadeiras tragédias ambientais, como no caso do acidente do navio petroleiro norte-americano Exxon Valdez no Alasca em 1989, de onde vazaram 36 mil toneladas de petróleo e 1.800 km² de praias foram contaminados.  

A exploração de produtos minerais ocorre em praticamente todas as regiões do mundo – felizmente, devido ao Tratado da Antártida, o grande continente gelado ainda está livre dessa “praga”. Mais raros, os grandes veios com alta concentração de metais se encontram em apenas algumas regiões do globo, onde grandes empreendimentos mineradores a céu aberto arrancam dezenas de milhares de toneladas de minerais dos solos a cada dia. No Brasil, três dessas províncias minerais se destacam – o Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, a Serra dos Carajás, no Pará e a reserva de Urucum no Mato Grosso do Sul. Dos seus solos “jorram”, à força, minério de ferro, níquel, manganês, estanho e cobre, entre outros metais, além de ouro em quantidades bem menores. 

As minas subterrâneas, aparentemente menos destrutivas que suas congêneres a céu aberto, também dão sua importante quota na produção de minerais importantes para o nosso cotidiano. A busca insana nas estranhas da Terra, porém, cobra regularmente altos preços em vida humanas e em agressões ambientais.  As notícias de acidentes em minas subterrâneas, com trabalhadores presos em profundidades cada vez mais insanas, são cada vez mais regulares. No exato momento em que estou escrevendo essas palavras, um grupo de quatro mineiros está preso em uma mina no interior do Peru – o teto de uma galeria desabou, bloqueando o acesso à saída. 

As necessidades mundiais de metais não param de crescer e a produção do aço é um indicador dos mais importantes – a produção atual supera a casa de 1,7 bilhão de toneladas/ano, com a China respondendo por cerca de metade dessa produção. Outro importantíssimo metal, com uso nos mais diferentes campos, é o alumínio, com uma produção superior a 800 mil toneladas ano. Em 2008, a produção desse metal bateu um recorde e atingiu a marca de 1,6 bilhão de toneladas. Esses números demonstram quão grandes são os esforços e os problemas da mineração em todo o mundo. 

Na lista dos maiores produtores minerais do mundo, o Brasil apresenta a sua própria quota de problemas ambientais ligados às atividades mineradoras. As principais reservas lavráveis do país se encontram em Minas Gerais, Pará e Mato Grosso do Sul, com reservas calculadas em 9,5 bilhões, 1,2 bilhões e 710 milhões de toneladas, respectivamente. Ao ritmo atual de produção, essas reservas vão se esgotar em pouco mais de 30 anos em Minas Gerais, em 140 anos em Mato Grosso e em 15 anos no Pará. Até lá, vamos assistir a muitas e muitas agressões ambientais. Pelo triste andar da carruagem, assistiremos ainda à morte de muitos rios como visto com o Doce e Paraopeba. 

A partir das próximas postagens, vamos falar em detalhes sobre os principais problemas ligados aos diferentes setores da mineração e suas consequências sobre as reservas mundiais de água. 

A RESILIÊNCIA DA VIDA

A tragédia de Brumadinho

Há exatamente uma semana, as primeiras notícias sobre o rompimento da barragem do Córrego do Feijão começaram a circular nos meios de comunicação. As primeiras imagens mostravam a lama avançando pela calha do rio Paraopeba e algumas pessoas andando com marcas de lama até o meio da canela. Com as lembranças do acidente com a barragem de Fundão, em Mariana, ainda vívidas na mente, todos esperávamos por notícias ruins. 

E uma verdadeira enxurrada de más notícias passou a tomar conta dos noticiários – a mais terrível de todas essas notícias informava que todo o prédio do centro administrativo da mina foi, literalmente, arrastado pela onda de lama. No local funcionava o refeitório e, segundo cálculos da própria empresa, cerca de 400 pessoas se encontravam no local no horário do rompimento da barragem. 

Não tardou muito a se descobrir que uma famosa pousada, localizada numa das margens do rio Paraopeba, foi completamente arrasada e que dezenas de hóspedes sumiram sem deixar rastros. Pouco a pouco, notícias de vilas de casas e de propriedades rurais destruídas a jusante da barragem começaram a ser divulgadas, o que nos ajudou a compor um quadro inicial da tragédia de Brumadinho. 

Os números oficiais do momento confirmam que 110 pessoas morreram e que, pelo menos, 238 pessoas ainda se encontram desaparecidas. Dadas as condições da calha do rio, que em alguns pontos apresenta uma camada de lama e de rejeitos de mineração com mais de 10 metros de espessura, serão necessários vários meses de trabalho até que se saiba exatamente o número de vítimas do acidente. Para se conhecer e “digerir” todos os números da tragédia, serão necessários vários anos. 

Para marcar essa primeira semana desde o rompimento da barragem, as equipes de busca fizeram uma pequena pausa nos seus exaustivos trabalhos para assistir uma cerimônia religiosa. Um helicóptero sobrevoou a calha do rio e fez “chover” pétalas de rosa em homenagem a todas as vítimas da tragédia. 

Serão muitos os desdobramentos e as histórias que serão contadas e recontadas daqui para frente. Esperamos também que surjam respostas, se é que isso será possível, que expliquem como mais uma tragédia desse porte pode acontecer na pacata Brumadinho.  

Pessoalmente, gostaria que registrar a minha indignação com mais essa tragédia humana e ambiental. Desde 2016, quando comecei a publicar diariamente os meus comentários e informações sobre os recursos hídricos e o saneamento básico, foram muitas as postagens onde falei dos problemas criados pela mineração e dos riscos da repetição da tragédia de Mariana, que em 2015 destruiu o rio Doce. Desgraçadamente, a ganância de uns poucos destruiu mais um rio e arrasou para sempre a vida de inúmeras famílias, que perderam os seus entes queridos e/ou as suas propriedades. Faço votos que, dessa vez, se faça verdadeiramente a justiça. 

A única certeza que nós temos, por hora, é que a vida é resiliente e vai encontrar os seus caminhos em meio aos escombros dessa tragédia