ANTÁRTIDA REGISTRA TEMPERATURA 30° C ACIMA DO NORMAL 

Nessa última semana, pesquisadores do Instituto de Geociências Ambientais de Grenoble, na França, observaram que as temperaturas na base antártica francesa de Dumont d`Urville, na costa da Terra de Adélia, atingiram a marca de 4,9° C. Essa temperatura extremamente agradável para os padrões da Antártida é nada menos que 30° C mais quente do se esperaria para essa época do ano. 

Em outra unidade de pesquisa – a base franco-italiana Concórdia, localizada na cúpula C do Planalto Antártico a uma altitude de 3 mil metros, os termômetros marcaram -11,5° C. Essa marca bateu o antigo recorde, registrado em dezembro de 2016, quando a temperatura máxima atingiu –13,7° C. A constatação é óbvia – as temperaturas no grande continente gelado estão aumento mais rápido do que os especialistas imaginavam. 

De acordo com os pesquisadores, as temperaturas na Antártida costumam cair a partir de dezembro, época em que ocorre o solstício de verão. O solstício ocorre quando um dos polos do planeta tem sua inclinação máxima em direção ao sol. Esse evento ocorre duas vezes a cada ano, sendo uma vez no Hemisfério Norte e outra no Hemisfério Sul. 

Cautelosos como sempre, os pesquisadores afirmam que ainda é muito cedo para afirmar que esses picos de altas temperaturas no Continente Antártico estejam ligados diretamente ao aquecimento global e a todas as mudanças climáticas em andamento. Entretanto, para nós “leigos”, é difícil não associar esse evento de altas temperaturas a outros pelo mundo afora. 

No início deste ano publicamos uma postagem aqui no blog onde falamos de uma fortíssima onda de ar quente e seco que se abateu primeiro sobre a Argentina, atingindo depois o Paraguai, o Uruguai e o Sul do Brasil. Na cidade de San Antonio Oeste, na Patagônia argentina, foi registrada a temperatura recorde de 42,8º C.  

Outro evento climático similar ocorreu na cidade de Verkhoyansk, na Sibéria russa, em junho de 2020, quando os termômetros registraram 38° C. Segundo informações do website meteorológico russo Pagoda i Kimat, a cidade vem registrando temperaturas entre 10 e 14° C acima da média nos verões dos últimos anos. Historicamente, as temperaturas máximas no verão siberiano são da ordem de 15° C. 

Estudos recentes indicam que o degelo na Antártida está atualmente com uma velocidade seis vezes maior do que era registrado há 40 anos atrás. Segundo um artigo, publicado na revista científica norte-americana PNAS – Proceedings Of the Academy of Sciences, o derretimento do gelo antártico produziu um aumento do nível do mar de 1,4 centímetro entre 1979 e 2017.  

Isso pode até não parecer muita coisa, mas estamos falando de uma lâmina de água cobrindo toda a extensão dos oceanos do mundo, o que corresponde a cerca de 363 milhões de km². As correntes de água fria da Antártida que correm para os oceanos também estão causando mudanças na direção de correntes marítimas importantes e alterando os padrões climáticos em muitas regiões.  

No outro lado do globo terrestre, no Ártico, a situação também não é nada animadora. Um exemplo dramático do derretimento do manto de gelo é a Groenlândia, ilha autônoma pertencente à Dinamarca. Segundo um estudo publicado na prestigiada revista científica Nature no final de 2020, as três maiores geleiras do país: Jacobshavn Isbrae, Kangerlussuq e Helheim, estão apresentando um rápido derretimento.   

De acordo com as estimativas dos pesquisadores, a Jacobshavn Isbrae perdeu 1,5 trilhão de toneladas de gelo entre 1888 e 2012. Nas geleiras Kangerlussuq e Helheim essa perda de massa, entre os anos de 1900 e 2012, foi estimada em 1,3 trilhão e 3,1 bilhão de toneladas, respectivamente. Entretanto, nem é preciso ser um especialista no assunto para observar o que está acontecendo – existem enormes crateras cheias de água por toda a ilha, um sinal claro do derretimento do manto de gelo. Esse problema se repete por todo o Ártico. 

O derretimento de tamanha quantidade de gelo tem reflexos diretos no nível dos oceanos. As simulações sugerem que por volta do ano de 2060, o derretimento do gelo atingirá um “ponto sem retorno”, onde as perdas de gelo e o aumento do nível dos oceanos se voltará contra o manto de gelo e os penhascos marítimos, aumentando cada vez mais a perda de gelo.   

Se confirmando esse cenário, o aumento do nível dos oceanos até o ano de 2100 chegará a cerca de 150 milímetros. A partir de então, o derretimento das grandes massas de gelo da Antártida representará um aumento de 5 milímetros por ano no nível dos oceanos. Mantido esse cenário, o nível dos oceanos poderá aumentar cerca de 1,5 metro até o ano 2300, um cenário nada animador para as futuras gerações. 

Todas as cidades costeiras do mundo, em maior ou menor intensidade, serão fortemente impactadas pelo aumento do nível dos oceanos. Em planícies costeiras e áreas deltaicas, esses impactos serão enormes. Cito como exemplo a região do Delta do rio Ganges, entre a Índia e Bangladesh, onde vivem mais de 300 milhões de pessoas e é um grande celeiro agrícola. O aumento do nível das águas do Golfo de Bengala poderá desalojar toda essa população e inviabilizar uma importante fonte de produção de alimentos. 

O derretimento de grandes volumes de gelo nas áreas polares e também no alto de grandes cadeias montanhosas também poderá afetar fortemente as correntes marítimas e alterar o regime dos ventos, alterando completamente o regime das chuvas ao redor do mundo. Só para relembrar, toda a água doce disponível no mundo vem da evaporação dos oceanos e depende dos ventos para a sua distribuição ao redor do planeta. 

O calor do sol, que incide sobre os oceanos, cria uma gigantesca massa de vapores de água, com um volume total calculado em 383.000 km³ a cada ano. Esse vapor é espalhado pelos ventos por toda a superfície do planeta e uma parte considerável, cerca de 30%, é precipitada sobre os solos dos continentes e ilhas na forma de chuva, neve e granizo.  

Ou seja –a notícia de mais essa temperatura recorde em uma zona polar é motivo de grandes preocupações. É mais um sintoma de um mal que está afetando toda a “mecânica” climática do nosso planeta e que, mais dia menos dia, vai afetar a vida de todos nós. 

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