A CRISE HÍDRICA NA CIDADE DO CABO E A CHEGADA DA ÁGUA DESSALINIZADA

cidade do cabo

Há quase um ano atrás, publicamos uma postagem falando da gravíssima situação da Cidade do Cabo ou Cape Town, na África do Sul. Naquele momento, as barragens de abastecimento da cidade estavam com níveis próximos aos 20% em função de uma fortíssima seca iniciada em 2014. E para forçar a população a reduzir ainda mais o consumo, as autoridades estavam reduzindo a disponibilidade diária de água de 87 litros para apenas 50 litros por habitante. Felizmente, ao longo de 2018, a situação melhorou um pouco e algumas das barragens estão com níveis próximos dos 50% – a “luz amarela” ainda continua acesa e a população não pode abusar no consumo de água. 

A Cidade do Cabo é um dos destinos turísticos mais importantes da África do Sul, atividade que representa 10% do PIB do país. Com 4 milhões de habitantes, é a segunda cidade mais populosa do país, com forte participação na vida econômica e cultural da África do Sul. Mudanças climáticas no Oceano Índico ao largo da África e na Ásia, tem alterado o regime de chuvas em uma extensa região. Na África, essas mudanças se refletem em chuvas irregulares na faixa Leste e Sul do continente, o que vem provocando chuvas abaixo da média na África do Sul e secas em várias regiões, especialmente na Província do Cabo Ocidental, onde fica a Cidade do Cabo. 

Mesmo em situações de normalidade climática, a África do Sul é um país com recursos hídricos limitados: uma grande parte do território sul-africano é ocupada por áreas desérticas como o Kalahari, onde as temperaturas podem chegar aos 50° C, e por planaltos secos como o Karoo, além de áreas de savanas. Somente na faixa Leste do país, ao longo da divisa com Moçambique, onde predomina o clima subtropical com chuvas mais regulares, é que uma vegetação mais densa sobrevive. Comparando a grosso modo, o país teria a maior de sua superfície coberta pela Caatinga Nordestina e pelo Cerrado, com uma faixa semelhante à Zona da Mata no Leste. 

Durante os três anos de forte seca no país, surgiram diversas propostas e projetos para solucionar e/ou amenizar os efeitos da crise hídrica. Algumas dessas propostas eram bem curiosas. Uma dessas soluções, sugerida por um famoso especialista em navegação do país, propôs o envio de um navio cargueiro até as águas do Círculo Polar Antártico com a missão de capturar e rebocar um grande iceberg até o litoral da África do Sul. Segundo o cálculo desse “especialista”, o degelo controlado desse iceberg poderia produzir 150 milhões de litros de água doce por dia por até um ano. Felizmente, a proposta não foi levada a sério. 

O Governo sul-africano, já há vários anos, vinha trabalhando na implantação de três usina de dessalinização, criando assim fontes alternativas para o abastecimento das populações. A instabilidade política do país, com vários políticos de peso envolvidos em denúncias de corrupção, atrasou, e muito, o andamento desses projetos. No início de 2018, inclusive, o Presidente Jacob Zuma renunciou em meio a um processo de impeachment. Mesmo em meio a toda essa turbulência política, a primeira das três usinas de dessalinização foi inaugurada para testes em maio daquele ano. 

Localizada na região de Strandfontein, nas proximidades da Cidade do Cabo, essa usina iniciou suas operações com uma produção diária de 3 milhões de litros, água que passou a ser injetada diretamente no sistema de distribuição da rede pública. Em dezembro último, vencidas todas as etapas de teste e de controle de qualidade, a usina de dessalinização passou a operar com capacidade plena, produzindo 7 milhões de litros de água dessalinizada por dia. Quando as outras duas usinas de dessalinização previstas estiverem prontas e em operação, a contribuição total de água dessalinizada vai superar a marca dos 20 milhões de litros diários. Esse volume supre apenas parte da demanda diária da Cidade do Cabo, mas vai ajudar a poupar os volumes de água dos reservatórios, ajudando a prevenir futuras situações de colapso no abastecimento da população. 

Um outro projeto piloto bem interessante de uma usina de dessalinização está em andamento em Witsand, uma cidade costeira a cerca de 250 km da Cidade do Cabo. O projeto está sendo implantado por uma empresa francesa e vai utilizar a técnica de osmose reversa. A planta terá capacidade para dessalinizar um volume diário de 100 mil litros de água, o suficiente para atender metade das necessidades da pequena cidade. O diferencial dessa usina será o uso da energia de uma usina solar instalada nas redondezas, com uma potência instalada de 70 kW. Conforme apresentamos em outras postagens dessa série, o custo da energia elétrica responde, em média, por metade dos custos de operação de uma usina de dessalinização – o uso de energia de uma fonte renovável e limpa tende a reduzir esse custo, além de reduzir o impacto ambiental (quando comparado a outras fontes de energia). 

Em caso de necessidade, essa usina de dessalinização poderá ser conectada à rede elétrica local, passando a operar 24 horas por dia e elevando a produção diária para 300 mil litros de água dessalinizada. A planta também permite o tratamento de esgotos e de águas cinzas para uso em sistemas de irrigação agrícola. O custo desse projeto piloto é de US$ 700 mil e está prevista a construção de mais três unidades de teste em outras cidades costeiras.  

Essa proposta, de pequenas unidades de dessalinização alimentadas por energia fotovoltaica para uso em pequenas comunidades costeiras, merece a nossa atenção – elas podem ser uma solução para o abastecimento de água em dezenas de pequenas cidades do Nordeste brasileiro. 

Sol forte e praias existem de sobra na região. 

A PRESSÃO TURÍSTICA NAS ILHAS BALEARES DA ESPANHA

ibiza

Uma outra região insular do Mar Mediterrâneo que sofre com a carência de recursos hídricos são as Ilhas Baleares, um arquipélago que pertence a Espanha. As Baleares, ou Balears em catalão, são formadas por quatro grandes ilhas: Maiorca, Minorca, Ibiza e Formenteira, além de diversas ilhas menores e ilhotas. Assim como acontece no arquipélago de Malta, as Ilhas Baleares não dispõem de fontes superficiais de água como rios e lagos. Desde da antiguidade, os diversos povos que habitaram essas ilhas sempre dependeram da água das chuvas, que ocorrem em abundância durante os meses de inverno, e da exploração das águas subterrâneas a partir de poços para o consumo familiar e para a agricultura. 

Em décadas mais recentes, as Ilhas Baleares seguiram na esteira de Barcelona e acabaram transformadas em sofisticados destinos turísticos da Europa. O forte sol, que brilha cerca de 285 dias a cada ano, as inúmeras praias e as descoladas baladas organizadas por diversos clubes e bares das principais cidades (vide foto), passaram a atrair verdadeiras multidões para as ilhas – são cerca de 10 milhões de visitantes a cada ano, um número várias vezes superior à população total das ilhas, que está atualmente na casa de 1 milhão de habitantes. As Baleares possuem uma área total de 4.992 km², mas os principais destinos turísticos estão concentrados na região da baía de Palma, na ilha Maiorca, e em Ibiza, ilhas que convivem com sérios problemas nos serviços de abastecimento de água. 

As fontes tradicionais de abastecimento de água, os poços e as cisternas de armazenamento da água da chuva, só conseguem suprir metade do consumo atual das Ilhas Baleares – há várias décadas que vem sendo necessário se recorrer aos sistemas de dessalinização de água do mar para se conseguir complementar o abastecimento das populações. As particularidades das Baleares, entretanto, apresentam desafios que extrapolam a simples oferta de maiores volumes de água potável. 

Usinas de dessalinização da água do mar estão em operação na ilha Maiorca desde 1999, abastecendo as cidades de Palma de Maiorca, Calvia Andraix, onde vive uma população fixa de 345 mil habitantes. A água dessalinizada, obtida através de filtragem por osmose reversa, é injetada diretamente nos solos para reforçar o nível dos lençóis freáticos. Os solos da ilha são formados por rochas calcárias – caso o nível das reservas subterrâneas de água atinja níveis muito baixos, existe um crescimento da infiltração de água do mar e um aumento da salinização da água, que se torna salobra e imprestável para o consumo. Com o aumento explosivo do fluxo de turistas para a ilha nos últimos anos, essa manobra não tem sido mais eficiente e, em algumas regiões, as residências retiram águas dos poços com níveis de sal acima do recomendável. Famílias acabam forçada a consumir apenas água mineral, um produto que nos momentos de pico do turismo, chega a custar 12 Euros a garrafa. 

Na ilha de Ibiza, a mais badalada e famosa de todas as Baleares, a situação é mais caótica. A ilha conta com três usinas de dessalinização, além de diversas unidades menores instaladas nos hotéis, que não dão conta de abastecer toda a população local, na casa de 140 mil habitantes, e de turistas, que superam a cifra de 4 milhões de visitantes a cada ano – no mês de agosto, auge do verão europeu, essa cifra atinge a marca de 1,1 milhão de turistas. A produção de água dos aquíferos e das usinas de dessalinização não é suficiente para atender toda essa demanda. Como acontece na ilha de Maiorca, a água do mar acaba se infiltrando nos aquíferos e a água das torneiras fica com um gosto horrível. Por outro lado, essa verdadeira horda de turistas injeta mais de 20 bilhões de Euros na economia de Ibiza, o que corresponde a mais de 70% do PIB – Produto Interno Bruto. Ou seja, o mesmo turista que torna a vida na ilha insuportável é o mesmo que faz a economia local funcionar

Durante o período da temporada, que vai de abril até o início de novembro, os aeroportos das Ilhas Baleares chegam a receber até 1.500 voos diários, com aviões vindos de todas as partes da Europa e do mundo. A espera de toda essa multidão de visitantes, agências disponibilizam cerca de 90 mil carros para locação, o que transforma as ruas e estradas num verdadeiro caos. Muitos turistas chegam nas ilhas em embarcações, que superlotam os mais de 24 mil atracadouros das marinas. Hotéis e restaurantes, com uma frequência altíssima, passam a pendurar placas de “LOTADO” nas suas portas.  

Na esteira de toda essa massa de turistas, bares, restaurantes, hotéis, hospedarias e outros estabelecimentos de comércio e serviço abrem milhares de postos de trabalho temporário, chegando a empregar entre 70 e 80 mil trabalhadores, vindos de toda a Espanha e de países vizinhos. Esses trabalhadores se amontoam em pequenos apartamentos, que acabam compartilhados por até 12 pessoas, onde cada morador chega a pagar um aluguel de mais de 500 Euros para dormir em uma cama apertada ou num sofá. Muitos cidadãos das Baleares se mudam para cidades da Espanha durante os meses de férias e alugam seus apartamentos e casas para esses trabalhadores sazonais. 

Muitos desses “trabalhadores de verão” não têm condições de pagar os preços proibitivos desses aluguéis e, como alternativa, passam a pernoitar em barracas de camping, montadas em bosques próximos das cidades. Alguns, mais afortunados, conseguem passar as noites em carros ou caminhonetes, emprestados por alguma pessoa conhecida. Nesses locais, surge um problema de higiene básica: na falta de banheiros para toda essa população errante, essas pessoas passam a “defecar e a urinar ao ar livre”, um problema comum em países pobres e subdesenvolvidos do mundo, mas já superado há vários séculos pelos países europeus. Também ocorre o descarte irregular de lixo e de todo o tipo de resíduos, transformando muitos desses bosques em lixões a céu aberto. 

O colapso dos sistemas de abastecimento de água nas Ilhas Baleares tem sua origem na “superpopulação de turistas” e, como demonstrado, isso é apenas a ponta do iceberg dos problemas vividos pelas populações locais. Além da falta crítica de água dos períodos de alta temporada, as populações das cidades e vilas das Ilhas Baleares também sofrem com a falta de médicos, radiologistas, anestesistas, enfermeiros, policiais, bombeiros, entre outros profissionais das áreas de serviço e de atendimento ao público. Problemas nos transportes e serviços de coleta de lixo, abastecimento de eletricidade, gás e alimentos completam o quadro caótico. 

A dessalinização da água do mar consegue resolver muitos dos problemas de abastecimento em vários lugares áridos do mundo. No caso das Ilhas Baleares, isso só será possível com uma pouco provável limitação do número de visitantes. 

É esperar para ver o que acontecerá. 

 

A ARIDEZ DA ILHA DE MALTA E A DEPENDÊNCIA DA ÁGUA DESSALINIZADA

malta

O pequeno arquipélago de Malta, localizado a pouco mais de 90 km ao Sul da Sicília no Mar Mediterrâneo, é considerado um dos países mais secos do mundo. Ocupando uma área de 316 km², Malta é um dos menores países da Europa e também o que possui a maior densidade demográfica – são cerca de 430 mil habitantes, o que dá 1.360 habitantes para cada km². Malta tem gente demais para água de menos. 

De acordo com evidências arqueológicas, o arquipélago é habitado desde o quinto milênio antes de Cristo. Sem rios, lagos ou qualquer outra fonte superficial de água, os malteses sempre dependeram da escavação de poços e do armazenamento da água das chuvas em cisternas para o abastecimento de suas casas e a irrigação de suas plantações. Essa é uma situação que se repete com frequência em outras ilhas do Mediterrâneo. 

Apesar dessa absoluta escassez de água, a localização estratégica de Malta acirrou a cobiça de inúmeros povos desde a antiguidade. O arquipélago já foi dominado por fenícios, gregos, romanos, árabes, mouros, normandos, aragoneses e depois por espanhóis. Também entram na lista a Ordem dos Cavaleiros de São João, os franceses e, por fim, os britânicos. Em 1964, Malta obteve a independência do Reino Unido e passou a ser um membro da Commonwealth, a Comunidade Britânica de Nações. Desde 2008, Malta faz parte da Comunidade Europeia. 

Durante a maior parte de sua longa história, os povos de Malta se valeram exclusivamente da pouca água que conseguiam retirar dos escassos lençóis freáticos das Ilhas e da água das chuvas, que sempre foi acumulada em cisternas e usada pelas famílias – toda casa das ilhas contava com sua própria cisterna. Nas últimas décadas, com o crescimento da população e o aumento da pressão dos agricultores por mais água, o Governo local foi obrigado a se voltar para as águas do Mar Mediterrâneo – desde 1982, o arquipélago de Malta vem utilizando água dessalinizada para o abastecimento de sua população e para uso em sistemas de irrigação agrícola. Atualmente, são três usinas de dessalinização instaladas em pontos diferentes das ilhas, que respondem por 70% da água consumida. 

Uma dessas usinas de dessalinização fica na região de Pembroke e produz até 35 mil metros cúbicos de água por dia, uma operação que demanda um consumo de energia elétrica da ordem de 100 mil quilowatts a cada dia. A geração de energia elétrica no arquipélago de Malta é feita por usinas termelétricas a carvão e a gás, combustíveis caros que precisam ser importados e que resultam em contas de energia elétrica bem elevadas para a população. Os malteses são verdadeiros experts na economia de água e de energia elétrica em suas casas. 

A opção pela construção de três usinas de dessalinização em locais diferentes ao invés de uma única usina de grande porte foi feita por razões de segurança e de proteção ao meio ambiente. Todos os combustíveis e derivados de petróleo utilizados no arquipélago de Malta têm de ser importados de outros países e, nas operações de descarga desses produtos, já ocorreram vários acidentes seguidos de derramamentos no mar. Com a distribuição da dessalinização em três usinas diferentes, o risco de fechamento de uma unidade por contaminação da água do mar não compromete o abastecimento da população. Outra razão para essa descentralização é o descarte de efluentes com altos níveis de salinidade pelas usinas, que são feitos em três locais diferentes, em volumes menores e com menores riscos de dano à vida marinha. 

Como acontece em todo o mundo, cerca de 70% do consumo de água nas ilhas fica por conta da agricultura. Para evitar desperdícios de água nas atividades agrícolas, o Governo de Malta passou a implementar uma série de políticas para estimular o aproveitamento da chamada água de reúso na agricultura. Essas águas são resultantes do processo de tratamento dos efluentes nas ETEs – Estações de Tratamento de Esgotos, e apresentam um custo bem mais baixo para os agricultores. Também existem diversas experiências com novos sistemas de cultivos em estufas e com baixo consumo de água. Outra frente de trabalho das autoridades de Malta foi a modernização das tubulações da rede de distribuição de água potável nas cidades, no sentido de reduzir as perdas por vazamentos. O consumo per capita de água em Malta é, atualmente, um dos mais baixos da Europa – são aproximadamente 110 litros de água por habitante / dia

Em anos recentes, graças ao bom nível de desenvolvimento econômico que Malta vem apresentando, cerca de 50 mil cidadãos de outros países europeus vieram morar no arquipélago. Acostumados com níveis de consumo de água bem mais altos do que a média dos cidadãos malteses, esses novos moradores passaram a pressionar o consumo de água nas ilhas. Outra fonte de pressão é formada pelos turistas, que somam perto de 40 mil visitantes ao ano. Não podem ficar dessa lista os estudantes de língua, que são muitos. Como o inglês é a segunda língua oficial do país (a língua oficial é o maltês, a única língua de origem semítica da Europa), Malta recebe um número cada vez maior de estudantes de intercambio, que vêm até ao arquipélago para estudar a língua inglesa a preços mais baixos que nas ilhas britânicas. 

A capital de Malta, a cidade de Valeta, foi fundada pela Ordem dos Cavaleiros de São João em meados do século XVI. Essa ordem, chamada oficialmente de Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, nasceu ligada a monges beneditinos e surgiu originalmente na Palestina no século XI. A ordem deixou o Oriente Médio no ano de 1291 e se estabeleceu em diversas ilhas do Mar Mediterrâneo antes de se estabelecer definitivamente em Malta. Essa ordem militar e religiosa estabeleceu regras rígidas para a população da cidade, sendo que uma dessas regras era a obrigatoriedade de construção de cisternas para armazenamento de água das chuvas em todas as casas da cidade. Durante séculos, essa regra garantiu o abastecimento de água das famílias. 

Uma típica família de Malta costuma suprir entre 40 e 50% das suas necessidades diárias com a água das chuvas que foi armazenada em sua cisterna. Essa água é usada nos vasos sanitários, nas lavagens de pisos, quintais e veículos, entre outros usos que não requeiram a água potável. Essa é uma forma de reduzir os altíssimos custos das contas de água. Em anos mais recentes, em função do crescimento da população e também da presença de turistas em número cada vez maior, as novas construções residenciais e hoteleiras feitas na cidade de Valeta, e também em outras cidades das ilhas, abandonaram esse antigo costume de se construir as cisternas. Com isso, há uma pressão cada vez maior pela produção e distribuição de água dessalinizada. 

As famílias costumam comprar garrafas de água mineral, vindas na sua maior parte da Itália e da França, para cozinhar alimentos e para se beber, algo que nos dá uma ideia do alto custo de vida no país. A água dessalinizada que é servida para a população, apesar de todo o controle de qualidade feito nas usinas, apresenta altos índices de calcário, o que produz alterações no seu sabor – por isso, o costume da compra de água mineral. 

Em Malta, como acontece em muitos outros lugares que usam sistemas de dessalinização, a água deixa um “sabor” desagradável na boca e um rombo no bolso dos consumidores. 

AINDA FALANDO DOS ACIDENTES COM ESCORPIÕES

escorpião no entulho

Na última postagem falamos sobre o altíssimo número de acidentes com escorpiões aqui no Brasil – segundo dados do Ministério da Saúde, foram 141.400 notificações em 2018. Afirmamos também que problemas de saneamento básico estão na raiz do problema. Como esse blog se dedica à educação ambiental e à divulgação de conhecimentos na área dos recursos hídricos e do saneamento básico, vamos falar um pouco mais sobre esse assunto. 

De acordo com as informações disponíveis, metade dos acidentes com escorpiões ocorrem nos Estados de São Paulo e Minas Gerais. Essa grande concentração de acidentes se deve a dois fatores principais: a grande população e as taxas de urbanização desses Estados. São Paulo é o Estado mais populoso do Brasil e conta com uma população de 44 milhões de habitantes; Minas Gerais fica com a segunda posição em termos de população, se aproximando dos 21 milhões de habitantes

Esses dois Estados também possuem a maior concentração de cidades do país: são 853 cidades em Minas Gerais e 645 no Estado de São Paulo. Além das cidades sedes dos municípios, existem centenas e mais centenas de agrupamentos humanos em distritos espalhados pelas áreas rurais, o que só faz aumentar os índices de população vivendo em áreas urbanas. 

Um outro número interessante dos dados das ocorrências de acidentes com escorpiões é o perfil das vítimas: a maior parte das vítimas é do sexo masculino, na faixa etária entre 25 e 65 anos. O local onde os escorpiões picaram essas vítimas é na maior parte dos casos nos membros superiores. Confrontando essas informações com as características dos habitats preferidos pelos escorpiões – locais com pedras e entulhos, quentes e úmidos, percebemos que as vítimas são trabalhadores da construção cívil, da agricultura, de empresas madeireiras e ainda profissionais que trabalham em depósitos de armazenamento de materiais. Todos os ambientes de trabalho desses profissionais reúnem características muito próximas dos habitats naturais dos escorpiões.

Uma outra característica, essa dos trabalhadores, também reforça as suspeitas: os trabalhadores brasileiros não gostam de usar EPIs – Equipamentos de Proteção Individual, algo que já tratamos em uma postagem anterior. Dois itens de segurança, as luvas de proteção e as camisas de mangas compridas, se fossem devidamente utilizados, reduziriam sensivelmente esse número de acidentes com esses animais peçonhentos.

A maior incidência de acidentes com escorpiões são os meses de calor e chuvas, que na região Centro-Sul do Brasil (formada pelas regiões Sul, Sudeste menos o Norte de Minas e a parte mais ao Sul da região Centro-Oeste) ocorre entre os meses de novembro e março. Com a chegada das chuvas, escorpiões que se abrigam em tubulações e galerias subterrâneas dos sistemas de drenagem de águas pluviais das cidades saem em busca de locais mais confortáveis, podendo assim entrar em quintais e até mesmo no interior dos imóveis. Essa proximidade maior com os animais aumenta os riscos de acidentes nas residências. 

A imensa maioria dos acidentes com escorpiões não são fatais, apesar de muitas vezes produzir uma dor intensa na região onde ocorreu a picada. Os casos de morte equivalem a 0,58% (algumas fontes dão outro número – 0,15%) dos acidentes, ocorrendo na grande maioria dos casos em crianças pequenas e em idosos debilitados por doenças. As consequências da picada de um escorpião dependem da espécie e da quantidade de veneno inoculado (lembrando aqui que o escorpião-amarelo é a espécie mais venenosa da América do Sul e a responsável pela imensa maioria dos acidentes fatais), da quantidade de picadas, do tamanho e da massa corporal da vítima, além do tempo decorrido entre o acidente e o início do atendimento médico. 

Na falta de uma melhor cobertura dos serviços de saneamento básico nas cidades brasileiras, especialmente dos serviços de coleta e destinação dos resíduos sólidos, existem várias medidas “caseiras’ que auxiliam no controle das populações de escorpiões. Esses animais são criaturas noturnas, que passam o dia inteiro escondidas em locais escuros e úmidos – é bastante raro ver um espécime andando a luz do dia. É durante as noites que esses animais saem para caçar os seus alimentos, formado basicamente por insetos como baratas e grilos; justamente nesses períodos é que existe a maior probabilidade de um escorpião entrar em uma casa. Se possível, instale portas de tela e também telas nas janelas – assim é possível manter a casa ventilada e protegida desses animais. 

Outra medida bastante eficiente é manter os ralos da casa e os drenos de água pluviais devidamente protegidos. Existem inúmeras opções de ralos no mercado com tampa e fecho hídrico, que manterão o interior das casas devidamente protegidos da entrada dos escorpiões. As saídas de águas pluviais normalmente são protegidas por grades – instale um pedaço de tela plástica ou metálica nessas grades. 

Um bom conselho é manter os quintais limpos e evitar o acúmulo de objetos – pneus velhos, tijolos, telhas, madeiras, garrafas, eletrodomésticos quebrados, carcaças de veículos, entre outras “tranqueiras”. Esses resíduos são duplamente perigosos – eles tanto podem oferecer ótimos abrigos para famílias inteiras de escorpiões quanto podem acumular a água das chuvas e se transformar em criadouros de mosquitos como o perigoso Aedes Aegypti, transmissor de inúmeras doenças como a dengue, a Chikungunya e Zica vírus, entre outras. Se o quintal da casa possuir um gramado, esse deverá cortado e aparado regularmente. 

Também é fundamental que as populações evitem o descarte inadequado de lixo e resíduos da construção civil em terrenos baldios e nas ruas. O acúmulo desses resíduos recria artificialmente os habitas naturais dos escorpiões, que na natureza costumam se abrigar sob pedras, troncos de árvores e em fendas naturais. No meio do lixo sempre se encontram restos de alimentos que atraem as baratas – os escorpiões adoram comer baratas e sempre terão preferência por moradias próximas de suas “áreas de alimentação”. Quando populações de um bairro ou de uma rua fazem o descarte de resíduos em terrenos baldios e em ruas estão, literalmente, convidando os escorpiões para viver em sua vizinhança. Daí para a ocorrência de um acidente “é só um pulo”. 

Para finalizar, um outro ponto importante – está se observando um aumento da área onde se encontram os escorpiões-amarelos. É possível se supor que isso se deve ao transporte de cargas entre as regiões, especialmente por via terrestre. Os animais entram em caixas com produtos e, assim, acabam se espalhando como “passageiros clandestinos” por outras regiões. Recomenda-se que os armazéns onde essas cargas ficam armazenadas pratiquem as mesmas medidas de isolamento que recomendamos para as residências – portas e janelas com telas, ralos e drenos de águas pluviais bem tampados e protegidos por telas, além de se evitar ao máximo o acúmulo de resíduos nos terrenos. 

Quando o assunto são os escorpiões, todo o cuidado é pouco. 

OS ATAQUES DE ESCORPIÕES E OS PROBLEMAS DE SANEAMENTO BÁSICO

escorpiao-amarelo

Na última sexta-feira, dia 11 de janeiro, o Ministério da Saúde divulgou uma nota tratando do aumento do número de ataques de escorpiões aqui no Brasil em 2018. Como esse assunto está ligado diretamente aos nossos problemas de saneamento básico, vamos fazer uma pausa nas postagens sobre o uso da água dessalinizada

A gritante falta de investimentos em saneamento básico em nossos país, que já está na raiz de uma série de problemas de problemas de saúde pública e de baixa qualidade de vida, agora está nos atingindo através da invasão dos escorpiões em nossas cidades e na explosão dos chamados incidentes com esses animais. 

De acordo com a nota oficial do Ministério, foram registrados 141.400 acidentes com escorpiões em todo o Brasil ao longo de 2018. Esse número representa um aumento de 16 mil ocorrências em relação aos números de 2017 e, quando comparado aos ataques registrados em 2016, o crescimento foi de 50 mil ocorrências. O número de mortes decorrentes desses incidentes em 2018 ainda não foi fechado – foram 115 mortes em 2016 e 88 em 2017. 

Escorpiões são animais invertebrados que pertencem à ordem dos Scorpiones e enquadrados na classe dos aracnídeos, a mesma das aranhas. Existem mais de 2 mil espécies de escorpiões em todo o mundo, a exceção do continente Antártico. Esses animais geralmente têm hábitos noturnos, passando a maior parte do dia escondidos sob pedras, troncos e cascas de árvores. Na natureza, seus maiores predadores são as cobras, lagartos, sapos e aves noturnas como as corujas. Em ambientes urbanos, os escorpiões se valem dos terrenos baldios com lixo e entulho como habitats. Como não encontram predadores naturais nos meios urbanos, esses animais se multiplicam sem controle. 

As espécies mais comuns no Brasil são Tityus bahiensis, Tityus stigmurus, Tityus trivittatus, Tityus cambribge e a Tityus serralatus, essa última é a que causa o maior número de acidentes graves, sendo conhecida popularmente como escorpião-amarelo (vide foto). Essa espécie de escorpião é considerada a mais venenosa da América do Sul, sendo encontrada com maior frequência nas regiões, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país. As vítimas fatais mais comuns das picadas desses animais são as crianças menores de 7 anos e os idosos com organismo debilitado. De acordo com estudos realizados pelo Instituto Butantã de São Paulo, cerca de 75% dos acidentes com escorpiões ocorrem em áreas urbanas. A abrangência geográfica dos escorpiões-amarelos também vem crescendo ao longo dos últimos anos, o que é um motivo a mais para as preocupações.

O avanço dos desmatamentos por todo o país e o crescimento desordenado das cidades estão entre as principais causas da migração dos escorpiões para as áreas urbanas. O “sucesso” obtido pelos escorpiões na colonização das cidades está baseado principalmente na nossa falta de infraestrutura de saneamento básico. O acúmulo de lixo e entulho em ruas e terrenos baldios cria os habitats adequados para a moradia desses animais, proporcionando bons abrigos – quentes e úmidos como eles gostam. Aqui há um detalhe importante: as fêmeas dos escorpiões têm, em média, 20 filhotes a cada ano, crias essas que, bem abrigadas e alimentadas, têm todas as condições de chegar à idade adulta, quando os animais atingem a maturidade sexual. Outro número alarmante – ao longo de sua vida, uma fêmea de escorpião poderá produzir até 160 descendentes

Com relação à alimentação, escorpiões são vorazes predadores de insetos, especialmente uma espécie encontrada em abundância nas áreas urbanas – as baratas. Conforme já discutimos em publicações anteriores, as baratas encontram fartura de alimentos nas redes de esgoto das nossas cidades, especialmente a gordura que fica grudada nas paredes das tubulações. Essa gordura vem de restos de óleos comestíveis que são jogados inadvertidamente nas pias e também dos restos de gordura animal nos pratos e panelas, que são eliminados durante as lavagens.  

Em contato com a água fria, essa gordura solidifica e fica à espera das baratas para  verdadeiros banquetes. O uso de caixas de gordura nas saídas das pias das cozinhas é a forma mais adequada de se controlar esses despejos de gordura nas redes de esgotos e, consequentemente, das populações de baratas. Um outro problema ligado diretamente aos acúmulos de gordura são os entupimentos das redes de esgotos, algo que cria inúmeros transtornos para as populações. 

O saneamento básico pode ser definido como o conjunto de serviços que garantem as condições de higiene e saúde da população ou série de medidas que tornam uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de vida para uma população ou para a agricultura. Esses serviços ou medidas são: abastecimento de água, sistemas de drenagem de águas pluviais (chuva), serviços de limpeza urbana e coleta/destinação de lixo e resíduos sólidos, além dos sistemas de coleta e de tratamento de esgotos. Há um quinto serviço que está contido nos demais serviços.  – o controle de pragas e vetores: ratos, baratas, mosquitos, pulgas entre outros, além dos perigosos escorpiões. E, como todos sabem, nossas cidades falham muito em todos esses serviços.

Na falta de medidas mais concretas para o controle das populações de escorpiões, as autoridades do Ministério da Saúde fazem as seguintes recomendações:

  • Use telas em ralos no chão, pias e tanques; 
  • Procure vedar possíveis frestas nas paredes e colocar soleiras nas portas; 
  • Afaste camas e berços das paredes; 
  • Faça uma checagem em roupas e sapatos antes de vestir ou calçar, para se certificar de que nenhum inseto entrou; 
  • Mantenha jardins e quintais livres de entulhos, folhas secas e lixo doméstico; 
  • Guarde o lixo da casa em sacos bem fechados, pois os resíduos podem atrair baratas, que servem de alimento para o escorpião; 
  • Não descarte lixo e entulhos em vias públicas e em terrenos baldios;
  • Mantenha a grama aparada; 
  • Evite colocar a mão em buracos, embaixo de pedras ou em troncos apodrecidos; 
  • Use luvas e botas para manusear entulho, madeiras e materiais de construção, por exemplo; 
  • Se morar em área rural, procure preservar os predadores naturais dos escorpiões, especialmente lagartos, sapos, e aves noturnas, como as corujas; 
  • Evite usar pesticidas, pois eles não têm eficácia comprovada para controlar o animal em ambientes urbanos.;
  • Instale caixa de gordura na saída da pia do seu imóvel, controlando assim a população de baratas e, consequentemente as populações de escorpiões na sua vizinhança.

BARCELONA E O USO DA ÁGUA DESSALINIZADA PARA O ABASTECIMENTO DE SUA POPULAÇÃO

barcelona

Sempre que falamos do uso de água dessalinizada, a primeira imagem que parece vir às nossas mentes são lugares distantes e desérticos, com sol escaldante e rios secos. Os mais maldosos costumam chamar esses lugares ermos de “fim-do-mundistão”. Imaginar que cidades famosas e sofisticadas da Europa necessitem usar a água dessalinizada do mar parece algo surreal. 

Mas, acreditem ou não, isso acontece. A descolada Barcelona é um exemplo disso. É a maior cidade da Europa abastecida com água dessalinizada – cerca de 20% da população da região metropolitana de Barcelona utiliza esse tipo de água. A construção da usina de dessalinização da cidade foi concluída em 2009 e foi a solução encontrada para resolver um problema muito antigo: a pouca oferta de recursos hídricos na região. 

Ao contrário do que muitos imaginam, não são todas as regiões da Europa que são verdejantes, com extensos campos cobertos por plantações de trigo, cevada e alfazema. Países do Sul do continente como Grécia, Itália, Portugal, Chipre, Espanha e o Sul da França apresentam áreas de clima árido e semiárido, com baixa disponibilidade de água. O clima local é fortemente influenciado pela proximidade com o Norte da África, onde se encontra o maior deserto do mundo – o Saara. Grandes cidades europeias ao largo do Mar Mediterrâneo sofrem periodicamente com a escassez de água – e Barcelona é um grande exemplo disso. 

Barcelona tem suas origens perdidas na antiguidade – os primeiros vestígios de ocupação humana se situam entre 2.000 e 1.500 anos antes de Cristo, quando povos iberos se instalaram na região. Algumas lendas contam que a cidade foi fundada pelo mitológico herói grego Hércules cerca de quatrocentos anos antes da fundação de Roma. Outras fontes dizem que a cidade foi erigida pelo general cartaginês Amilcar Barca, durante a sua campanha para a conquista da Hispânia por volta do ano 220 a. C. O que se tem de concreto é que Barcelona já foi dominada por romanos, franceses, árabes e, finalmente, por espanhóis. Apesar de toda essa longa história de conquistas por diversos povos, os barcelonenses sempre mantiveram a sua identidade catalã. 

A moderna Barcelona, que é atualmente um dos maiores destinos turísticos da Europa e do mundo, tem suas “origens” em décadas bem mais recentes. Após um curto apogeu econômico no século XIX, quando foi um importante centro industrial e tecnológico da Espanha, a cidade enfrentou um longo período de ostracismo e decadência ao longo da maior parte do século XX, especialmente na época da ditadura do Generalíssimo Francisco Franco. Essa decadência só começou a ser revertida em meados da década de 1980, período em que a cidade iniciou um intenso processo de revitalização com vistas à realização dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992. 

O gigantesco projeto de revitalização urbano implementado em Barcelona foi focado em dois eixos principais: a infraestrutura de saneamento básico, com vistas a despoluição dos rios e praias; outro foco dos esforços foi a revitalização da antiga zona portuária da cidade, onde seria construída a Vila Olímpica, que após os Jogos seria transformada em uma zona residencial. De acordo com os dados disponíveis, apenas 1/3 do orçamento para a realização dos Jogos Olímpicos foi gasto em instalações esportivas – a maior parte dos investimentos foram alocados nas obras de revitalização urbana da cidade

Conforme estas obras avançavam, passaram a ser implementados vários projetos de revitalização de edifícios e construções históricas em importantes áreas da cidade. Todo esse conjunto de esforços do poder público estimulou empresas privadas dos ramos de hotelaria, turismo, alimentação e serviços a aumentarem seus investimentos na cidade, criando assim um efeito em cascata que contaminou, positivamente, toda a economia de Barcelona e cidades do entorno. Para se ter uma ideia das consequências dessa verdadeira “recauchutagem” urbana, Barcelona recebia pouco mais de 5 milhões de visitantes em 2005 – em 2017, foram 32 milhões de visitantes. O turismo é responsável por cerca de 14% das riquezas da cidade e pela geração de 65 mil empregos

Esse explosivo crescimento, inclusive, acabou se transformando no maior problema da cidade, de acordo com uma pesquisa realizada entre os moradores. A população local, que se encontra na casa de 5 milhões de habitantes – sendo 1,6 milhão em Barcelona, aumenta exponencialmente na alta temporada, o que satura completamente a infraestrutura da cidade, desde os serviços de água e esgoto até os sistemas de transporte, telefonia e eletricidade. Esse é um problema muito conhecido em várias regiões aqui no Brasil, especialmente em cidades litorâneas, que nos feriados e meses de férias sofrem um verdadeiro inchaço devido ao grande número de turistas. 

Toda a região de Barcelona sempre teve problemas no abastecimento de água de sua população, sendo que em algumas ocasiões foram necessárias medidas de racionamento. Na década de 2000 a situação chegou a um ponto crítico e, em vários momentos, foi necessária a importação de água da França, que foi feita através de navios-tanque. Esses problemas se agravaram ainda mais devido ao aumento do fluxo de turistas, especialmente nos meses mais críticos no verão. 

Com o início da operação da usina de dessalinização da água do mar, a região de Barcelona ganhou um reforço – essa água chega a abastecer uma população de aproximadamente 1 milhão de habitantes. Porém, como sempre acontece, essa água tem um custo de produção alto, além de todos os investimentos que precisaram ser feitos para a implantação da infraestrutura da usina de dessalinização. As contas de água dos moradores locais tiveram aumentos entre 50% e 70%, o que causou e ainda causa enormes protestos. Para muitos “barcelonins”, os culpados por esse aumento no custo de suas contas de água são os milhões de turistas que visitam a região todos os anos, o que explica o resultado da pesquisa citada a pouco. 

Apesar de todos os esforços feitos para controlar a qualidade da água dessalinizada servida à população da região de Barcelona, os altos custos dessa água ainda deixam um sabor amargo na boca de muita gente.

A ÁGUA DESSALINIZADA NO CONTINENTE MAIS SECO DO MUNDO, A AUSTRÁLIA

sidney austrália

A Austrália, chamada por muitos de ilha-continente, é pouca coisa menor do que o Brasil – o país ocupa uma área de 7,7 milhões de km², exatamente 10% a menos do que o nosso território. Junto com a Nova Guiné e algumas ilhas menores, que ocupam a mesma placa tectônica, forma o Continente Australiano, considerado o continente habitado mais seco do mundo. Nas últimas semanas, as altas temperaturas do verão Australiano concorrem para dar ao Continente um novo título: o de mais quente do mundo. Em algumas regiões do país, as temperaturas estão até 18° C acima da média, com valores próximos dos 50° C. 

Apesar da Austrália ocupar praticamente as mesmas latitudes das regiões Central e Sul do Brasil, o clima australiano é bem diferente do nosso – aliás, podemos afirmar que é praticamente o inverso. No Brasil, o clima Semiárido é encontrado em uma área relativamente pequena do interior da região Nordeste e no Norte do Estado de Minas Gerais – a maior parte do país tem clima Equatorial e Tropical; na região Sul, o clima é Subtropical.  

Na Austrália, a maior parte do território tem climas Semiárido e Desértico; uma estreita faixa ao longo das costas do Sul e uma área no Sudeste do país têm um clima Mediterrâneo, que nada mais é do que um clima temperado. Pequenas faixas ao Sudoeste e Leste do continente tem um clima Subtropical e uma faixa no extremo Norte apresenta características Tropicais (clima quente com uma forte temporada de chuvas de Monção).   

Outra forma de avaliar as diferenças drásticas nos climas dos dois países pode ser observado na disponibilidade de água: o Brasil possui 12% das reservas de água doce do mundo (lembrando que a maior parte dessa água se encontra na Bacia Amazônica), com chuvas regulares na maior parte do território. A Austrália dispõe de apenas 1% das reservas mundiais de água doce. Grande parte do território australiano sofre com a falta de chuvas, que além de irregulares, caem em volumes muito pequenos.   

A principal bacia hidrográfica da Austrália é formada pelos rios Murray e Darling. O rio Murray tem pouco mais de 2.500 km de extensão, com nascentes na Cordilheira Australiana no Sudeste do país, região que também é chamada de Alpes Australianos, e foz no Oceano Índico, nas proximidades da cidade de Adelaide. Apesar de bastante extenso, o Murray não é um rio caudaloso. Os caudais do rio aumentam consideravelmente no curso médio, quando o Murray passa a receber contribuições significativas de águas dos rios Murrumbidgee e, especialmente, do rio Darling. A região da bacia hidrográfica dos rios Murray-Darling é considerada o celeiro agrícola da Austrália. Em todo o restante da Austrália, são poucos os grandes rios e, muitos deles, são intermitentes. 

Em um país-continente com essas características e cercado por mares por todos os lados, é bastante lógico supor que a exploração e o uso da água dessalinizada sejam fundamentais para o abastecimento das populações das cidades. A partir do ano de 2006, todas as principais cidades australianas passaram a construir usinas para a dessalinização da água do mar. Com o advento da Seca do Milênio, que se estendeu entre os anos de 2000 a 2009, esses esforços foram redobrados. 

Sidney, a maior cidade da Austrália com 4 milhões de habitantes, inaugurou sua usina de dessalinização por osmose reversa em 2010, que hoje atende até 15% do abastecimento da população. Outro exemplo é a cidade de Perth, que tem 2 milhões de habitantes e é a maior cidade da Austrália Ocidental, que possui duas usinas de dessalinização, responsáveis pelo fornecimento de metade da água consumida pela população. Graças à segurança hídrica proporcionada pelo fornecimento de água dessalinizada, a cidade de Perth está realizando um interessante experimento: as águas residuárias, resultantes do tratamento dos esgotos, vem sendo injetada nos solos para auxiliar na recarga do aquífero Gnangara, o mais importante da região. Os solos arenosos funcionam como um filtro, garantindo a pureza da água, que depois será utilizada para irrigação agrícola e em parte do abastecimento da cidade. 

Apesar dos claros benefícios na complementação das cotas de água para o abastecimento, as plantas de dessalinização australianas sofrem um intenso bombardeio com críticas de grupos ambientalistas. Como o país não possui rios caudalosos que permitam a construção de usinas hidrelétricas, a maior parte da energia elétrica do país vem de usinas termelétricas a carvão, um combustível caro e poluente, que precisa ser importado. Calcula-se que mais da metade dos custos da dessalinização da água na Austrália se deve aos altos custos da energia elétrica. Outra fonte de críticas são os altos custos de implantação das plantas de dessalinização, que giram em torno de US$ 1,7 bilhão por unidade, dinheiro que poderia ser utilizado em outras obras hidráulicas

Respeitando essas críticas, que são altamente relevantes, é importante ressaltar que o aumento do uso da água dessalinizada na Austrália foi seguido por diversas iniciativas por parte das autoridades locais no sentido de reduzir e racionalizar ao máximo o consumo da água. Muitas dessas medidas foram tomadas em função da Seca do Milênio e, felizmente, foram mantidas. Com a implantação de programas de eficiência hídrica e restrições ao uso da água, algumas cidades do Sudeste australiano conseguiram reduzir o consumo em até 60%. Para atingir esses números, prefeituras e Governos dos Estados distribuíram gratuitamente kits com reguladores de pressão, arejadores para chuveiros e torneiras, além de vasos sanitários com baixo consumo de água. Em alguns casos, foram feitas campanhas para a troca de até dois chuveiros por residência por modelos mais eficientes. 

Também foram estabelecidas metas agressivas para a redução do consumo de água pelas empresas concessionárias dos serviços de saneamento básico. Essas empresas realizaram pesados investimentos em infraestrutura, modernizando redes de distribuição, ampliando unidades de armazenamentos, na produção e distribuição de água de reuso, na construção de cisternas para o aproveitamento da água das chuvas,  entre outras medidas. Essas obras, que foram fundamentais durante a grande seca, continuam garantindo uma alta eficiência dos sistemas de produção e distribuição de água potável.  

Um outro ponto importante a ser lembrado é o crescimento do uso fontes de energia renováveis na Austrália, como a energia solar. Em algumas regiões do Sul do país, essas fontes já geram perto de 40% da eletricidade consumida pelas famílias. A médio e longo prazo, essas fontes alternativas de produção de energia elétrica proporcionarão uma redução dos custos das usinas de dessalinização. 

Aumentar a oferta de água potável é fundamental, mas, acima de tudo, é importante aprender a usar a água com inteligência e racionalidade. Essa é a grande lição que a Austrália dá para o mundo.

CURAÇAO: PIONEIRA NO USO DE ÁGUA DESSALINIZADA DESDE 1928

curaçao

Curaçao é uma pequena ilha com aproximadamente 450 km² localizada no Sul do Mar do Caribe, a cerca de 50 km da costa da Venezuela. A ilha foi descoberta em 1499 por navegadores espanhóis que a batizaram como Ilha dos Gigantes – consta que os antigos nativos da ilha, os arawak, eram bem altos. Alguns anos mais tarde, uma nau portuguesa aportou na ilha – os tripulantes estavam sofrendo com o escorbuto, uma doença que frequentemente assolava os marinheiros e estava associada à falta de ingestão de alimentos ricos em vitamina C como as frutas cítricas. Depois de algumas semanas ingerindo laranjas e outras frutas e legumes frescos, os marinheiros já estavam curados e passaram a se referir ao local como “ilha da curação” (ou da cura). Esse nome foi modificado pelos colonizadores holandeses para Kòrsou, passando a ser pronunciado depois como Curaçao. 

Os holandeses assumiram o controle da ilha em 1634 e construíram a sua versão tropical de Amsterdam em Curaçao. Valendo-se da posição estratégica da ilha, traficantes de escravos holandeses dominaram esse mercado no Caribe por mais de um século. Com os sucessivos processos de abolição da escravidão em todos os países das Américas, o negócio acabou e a economia da Ilha entrou em franco declínio: Curaçao ficou longe dos holofotes do mundo por muito tempo. Foi somente em décadas bem recentes que “la isla bonita“, um dos muitos nomes dados a Curaçao, despontou como uma das jóias do Caribe.

A ilha é cercada por mares de águas calmas e cristalinas, com cores que vão do azul turquesa ao verde esmeralda, contrastando com suas praias de areias muito brancas. A capital da ilha, Willemstad, conserva um importante conjunto arquitetônico colonial holandês, que foi elevado à categoria de Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura. O centro histórico da cidade data de meados do século XVII e lembra muito as paisagens pintadas por grandes artistas flamengos como Rembrandt. A cultura local mescla as origens holandesas com influências espanholas, portuguesas e inglesas. Essa miscigenação se reflete na comida, na língua falada pelo povo – o papiamento (o holandês é falado por uma minoria), na cultura e no próprio povo. Em resumo, Curaçao é um dos melhores destinos turísticos do mundo. 

Esse paraíso caribenho, infelizmente, tem um gravíssimo problema: não existem rios nem lagos na Ilha de Curaçao. As únicas fontes de água potável que existiam na ilha eram depressões no solo e formações rochosas naturais que acumulavam as águas das chuvas. Com o início da colonização, a população começou a cavar cisternas e a construir pequenos açudes para aumentar esse armazenamento de água. Esgotada essa água, a população passava a depender de carregamentos trazidos em navios desde o continente sul-americano. A superação dessa carência absoluta de recursos hídricos se tornou uma obsessão para a população de Curaçao. 

Em 1928, a Ilha de Curaçao se tornou a pioneira no uso de água marinha dessalinizada com a construção da primeira usina desse tipo no mundo. A planta original sofreu várias atualizações, passando inclusive a gerar eletricidade a partir de turbinas a vapor. Recentemente, foi inaugurada uma nova e mais moderna usina de dessalinização; a antiga planta, que funcionou ininterruptamente por oito décadas, está sendo desmontada. Os novos equipamentos utilizam a tecnologia de osmose reversa e podem produzir água potável a partir da água do mar e, em caso de necessidade, a partir de  qualquer “fonte” de água doce residuária ou poluída. 

O custo dessa água dessalinizada, com o perdão do trocadilho, é bastante “salgado” para a maior parte da população da ilha: são aproximadamente US$ 1.20 para cada metro cúbico (1.000 litros). Independente da Holanda desde a década de 1950, Curaçao tem poucos recursos naturais em seu território e sobrevive basicamente do turismo. A maior parte da população trabalha em serviços ligados a essa atividade e sobrevive com salários módicos. Nos últimos anos, Curaçao foi transformada em mais um dos paraísos fiscais do Caribe, com a chegada de diversos bancos internacionais e inúmeras empresas offshore. Entretanto, os ganhos milionários dessas operações beneficiam apenas uma pequena parcela da população. 

Esse alto custo da água dessalinizada em Curaçao deve-se em grande parte ao uso de derivados de petróleo para a geração de energia elétrica na ilha, combustíveis que também fornecem a energia primaria das plantas de dessalinização. Em 1914, após as descobertas de grandes reservas de petróleo na Venezuela, a Shell, uma multinacional holandesa do ramo petrolífero, instalou uma refinaria em Curaçao. Naquela época, essa facilidade de acesso à derivados de petróleo baratos impulsionou seu uso nas usinas termelétricas da Ilha ao lado do tradicional carvão mineral. Ao longo das últimas décadas, após sucessivos choques no preço do petróleo, esses custos de geração de energia foram se tornando excessivamente caros.

A população da ilha sente no bolso os custos da água dessalinizada e faz todos os esforços possíveis para reduzir, ao máximo, o uso desse “precioso líquido” em suas casas, algo que lembra muito a rotina das populações brasileiras de regiões do semiárido no convívio com as secas periódicas. São banhos rápidos, otimização no uso de água na lavagem de louças e panelas, reaproveitamento da água do enxague de roupas para a limpeza das casas e dos quintais, entre outras medidas. O armazenamento e uso da água das chuvas, uma prática muito comum nas ilhas do Caribe, continua sendo uma das alternativas ao uso da água dessalinizada e uma forma da população de Curaçao economizar nas despesas. 

O uso da água dessalinizada para o abastecimento da população de Curaçao é um case de sucesso internacional há mais de 80 anos e sempre é usado como uma referência por países e cidades com dificuldades de acesso à recursos hídricos. Porém, como não foi difícil de demonstrar, os altos custos do abastecimento com água dessalinizada pesam no orçamento das faixas de população de menor renda, que são obrigadas a reduzir ao máximo o consumo de água. 

OS SISTEMAS DE DESSALINIZAÇÃO DE ÁGUA EM DUBAI

dubai

Além do Estado de Israel, sobre o qual falamos na última postagem, uma outra região do Oriente Médio onde o uso da água dessalinizada é cada vez mais imprescindível é no Golfo Pérsico. Ao contrário dos solos de Israel, onde apenas uma parte é formada por terrenos desérticos, nos emirados do Golfo Pérsico isso é regra. Um grande exemplo da importância da água dessalinizada para o abastecimento de  populações é encontrado em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. 

Dubai ou Cidade de Dubai, como é normalmente conhecida, fica na costa Sul do Golfo Pérsico e é considerado o mais populoso dos sete Emirados Unidos, com 2,3 milhões de habitantes. A fama de Dubai cresceu muito nas últimas décadas graças à extrema ostentação de riqueza – os gigantescos arranha-céus da cidade, as avenidas largas, os automóveis luxuosos e os “jatinhos” particulares de seus moradores mais ilustres, têm acirrado a inveja e a cobiça pelo mundo afora. Tudo o que há de bom e de melhor você encontra em Dubai, inclusive água em abundância, o que para um país desértico é simplesmente um luxo. A suntuosidade dessa “ilha da fantasia” atrai perto de 5 milhões de turistas ao Emirado a cada ano.

A usina de dessalinização de água do Emirado, a Jebel Ali, produz cerca de 2,1 bilhões de  litros de água potável a cada dia, um volume suficiente para abastecer três vezes a sua população. E os números não param por aí: utilizando o vapor quente liberado durante os processos de dessalinização da água, turbinas geram perto de 8 mil MW de energia elétrica, com capacidade para abastecer mais de 1,5 milhão de habitantes. Como fonte primária de energia para se produzir tanta água e energia elétrica, o país conta com suas reservas abundantes de petróleo e gás natural. 

A gigantesca planta industrial de Jabel Ali é dividida em diversas unidades menores de dessalinização de água e geração de energia elétrica. Essas unidades foram construídas gradativamente, acompanhando o desenvolvimento tecnológico. É por essa razão que se encontram dentro da planta unidades que utilizam tanto o processo de dessalinização da água do mar por osmose reversa quanto pelos processos convencionais de destilação térmica, onde a água do mar é aquecida até evaporar, sendo depois resfriada numa torre. Essa água destilada recebe a aplicação de diversos produtos químicos como o cloreto de cálcio, endurecedores e suportes de ácidos como forma de se controlar a qualidade da água que será distribuída para a população.

Com tanta “fartura” de água, a Cidade de Dubai foi transformada numa das mais verdejantes da região. Andando pelas ruas, avenidas e até mesmo pelas estradas, qualquer turista fica absolutamente fascinado pela quantidade de gramados, canteiros, praças e parques, onde árvores, plantas e flores de todas as variedades e cores se mostram com todo o seu esplendor, ignorando a secura do ar e as altíssimas temperaturas locais. Toda essa beleza, porém, cobra um preço alto – são gastos mais de 250 milhões de litros de água diariamente para regar todas essas plantas. No Emirado chove, em média, apenas quatro vezes por ano e sem os sistemas e as tubulações de irrigação, toda essa beleza “natural” se perderia em alguns poucos dias. 

Uma outra fonte de alto consumo de água são os sistemas de ar-condicionado usados nas casas, prédios, lojas, estabelecimentos comerciais e até mesmo nos pontos de ônibus da cidade, uma comodidade imprescindível para se suportar o calor e a secura do ar do deserto. Esses sistemas utilizam grandes volumes de água para resfriar e umidificar o ar. Um exemplo desse alto consumo é o edifício Burj Khalifa Bin Zayid, que já foi conhecido como Burj Dubai. Ainda detentor do título de arranha-céu mais alto já construído, o edifício foi concluído em 2004 e conta com 168 andares, com uma altura total de 828 metros. Os sistemas de ar-condicionado do edifício consomem diariamente um volume de água equivalente a vinte piscinas olímpicas

Falando em piscinas, elas são dezenas de milhares por todos os cantos da cidade, e se juntam a um sem número de espelhos d’água construídos ao redor das moderníssimas construções e arranha-céus. Vale ressaltar que há uma verdadeira disputa entre os proprietários de imóveis para ver quem é que possui a maior e mais extravagante piscina da cidade. Grandes espelhos d’água, com cascatas e fontes de todos os tipos, perdem milhões de litros de água a cada dia, que evaporam sob o calor escaldante do deserto – todas essas perdas são respostas religiosamente todos os dias. Quem mora em Dubai não se incomoda nenhum um pouco com o valor da sua conta de água. 

Como se sabe, na área dos recursos hídricos assim como na vida, não há “almoço grátis” para ninguém. Toda essa pressão ambiental para a produção de tamanho volume de água trás consequências, e muitas, para o meio ambiente local. Comecemos falando das emissões de gases de efeito estufa pelo Emirado, que apesar de muito pequeno, polui como país grande. A quantidade de gás natural e de derivados de petróleo usados para a geração de energia térmica para a dessalinização da água é enorme e não existem florestas na região para capturar todo esse volume de carbono emitido – essas emissões ficam por conta do resto da população do mundo. 

Outro problema grave das usinas de dessalinização são os volumes de águas residuárias produzidas, que são despejadas diretamente nas águas do Golfo Pérsico. São aproximadamente 480 mil m³ a cada dia. De acordo com estudos científicos realizados na região, o índice de salinidade nas águas do mar aumentou de 32 mil para 47 mil ppm (partes por milhão) em apenas 30 anos. Além de provocar esse aumento na salinização, essas águas residuárias apresentam altas temperaturas quando são despejadas no mar, algo que provoca uma série de problemas para a fauna e flora marinha local.

Um dos ecossistemas locais que mais tem sofrido com os impactos provocados pelos resíduos dessas águas residuárias são os manguezais do Golfo Pérsico. Aqui vale lembrar que o Emirado de Dubai não está sozinho no uso de águas dessalinizadas – os demais Emirados e a Arábia Saudita também contam com outras inúmeras plantas de dessalinização da água do mar e seus despejos de águas residuárias também são gigantescos. Os manguezais, como deve ser do conhecimento de todos, são importantes locais para a reprodução de peixes e crustáceos marinhos – qualquer tipo de alteração em suas características afeta enormemente toda a cadeia de vida marinha de uma região

Apesar de toda a sua importância dentro de um planeta com reservas de água potável cada vez mais escassas, a produção e a utilização da água dessalinizada cobram um preço alto do meio ambiente. Da mesma forma que qualquer outra fonte de água disponível, a água dessalinizada precisa ser usada com muito critério, consciência ambiental e sem desperdícios. 

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O USO DE ÁGUA DESSALINIZADA EM ISRAEL

usina de dessalinização em israel

O pequeno Estado de Israel é líder mundial em tecnologias para a dessalinização da água do mar – 80% da água potável consumida pela população é dessalinizada. Com a maior parte do seu território formado por solos semiáridos e desérticos, e contando com recursos hídricos escassos, o país foi obrigado a dominar, como nenhum outro, todos os aspectos da gestão eficiente do uso das suas águas e a desenvolver tecnologias que lhe permitiram aumentar a oferta destes recursos. 

Israel tem uma superfície de pouco mais de 22 mil km², incluindo-se algumas áreas em litígio: isso equivale a pouco menos que três vezes a área da Região Metropolitana de São Paulo ou ainda, uma área equivalente a Sergipe, o menor Estado brasileiro. A população israelense é de pouco mais de 9 milhões de habitantes, equivalente à soma das populações das cidades de Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Apesar destes números “insignificantes” em termos mundiais, Israel é um gigante quando se fala em agricultura. Por si só, isso já seria uma grande façanha, mas tem mais: o território de Israel é formado por terrenos difíceis para as atividades agrícolas: 60% do território é formado por regiões semiáridas e desérticas – metade da área restante é formada por solos rochosos

A principal fonte de água do país é o rio Jordão, com 190 km de extensão e nascentes no Monte Hermon no Norte de Israel. Os principais afluentes são os rios Hasbani ou Snir, com nascentes no Líbano, e Dan e Banias, rios com nascentes em território israelense. Sua foz fica no Mar Morto ao Sul, que se localiza numa depressão a 430 metros abaixo do nível do mar. O compartilhamento das águas do rio Jordão é conflituoso, envolvendo israelenses, jordanianos e palestinos. Apesar de toda a sua importância regional, o Jordão é um rio pequeno para os padrões que nós brasileiros estamos acostumados: tem profundidade máxima de 5,5 metros e uma largura média de 18 metros – é um rio com pouca água para atender as necessidades de muita gente. Além do rio Jordão, as populações locais vêm se utilizando das águas de poços desde tempos imemoriais. 

Um outro agravante da situação do país são as chuvas escassas e mal distribuídas. No Norte de Israel a precipitação média anual é de 70 mm e nas áreas desérticas do Sul cai para meros 5 mm anuais. Esse baixo volume de chuvas mal consegue repor os estoques dos poucos aquíferos da região, o que acabava pressionando cada vez mais os recursos hídricos do rio Jordão. O Governo de Israel é extremamente rígido na concessão de outorgas para uso de água para fins agrícolas, atividade que consome 75% dos recursos hídricos, estimados em 1,6 bilhão de metros cúbicos ao ano, além de cobrar taxas entre US$ 0,2 e US$ 0,4 por metro cúbico. 

As primeiras experiências em agricultura na moderna Israel datam da última década do século XIX, quando os primeiros colonos judeus chegaram a Palestina e se estabeleceram em terras compradas por companhias internacionais. Fazendas foram adquiridas em regiões semiáridas abandonadas havia séculos, consideradas como “impossíveis” de serem cultivadas pelos palestinos e árabes de diversas etnias que habitavam na região. Com apoio internacional de dezenas de entidades judaicas de todo o mundo, esses colonos pioneiros iniciaram um intenso trabalho de pesquisa, desenvolvendo técnicas de recuperação de solos, limpeza de terrenos rochosos, dessalinização de campos, construção de terraços agrícolas e contenção de encostas, drenagem de pântanos, reflorestamento, entre outras atividades.  

A partir de 1947, quando foi declarada a independência do Estado de Israel, o país passou a receber ondas maciças de imigrantes – em apenas dez anos, a população dobrou. Esse forte crescimento populacional passou a pressionar ainda mais os recursos hídricos locais – com mais gente para consumir água e alimentos, todos os esforços voltados para a racionalização do uso da água tiveram de ser aumentados. O desenvolvimento de tecnologias de irrigação cada vez mais eficientes e o desenvolvimento de novas variedades de cultivares adaptados à escassez de água passaram a ocupar posições prioritárias entre os pesquisadores. Outra linha importante de pesquisas envolveu o uso das águas residuárias do tratamento dos esgotos para irrigação de plantações, onde os resíduos orgânicos funcionam como fertilizante para as plantas. 

Graças ao alto grau de desenvolvimento tecnológico alcançada em irrigação, sistemas de cultivo e no desenvolvimento de espécies vegetais altamente adaptadas às condições de solo e clima, Israel passou a conseguir uma produção até 30 vezes maior por hectare que a maioria dos países. Entre as espécies vegetais desenvolvidas em institutos de pesquisa do país são destaques o tomate cereja, o melão Gália, diversas espécies de frutas cítricas e uvas, além de morangos, caquis e framboesas que crescem fora das estações. As variedades de algodão desenvolvidas também são destaque, com uma produtividade de 55 kg por hectare. Na área de produtos de origem animal, o leite é destaque, com espécies locais de vacas com produtividade superior às congêneres holandesas, consideradas grandes produtoras. 

O uso de água dessalinizada em Israel teve início em 1973, quando uma empresa privada passou a construir usinas com operação por osmose reversa para o atendimento de populações de comunidades isoladas. O grande salto tecnológico se deu em 2008, quando o Governo central decidiu construir cinco grandes usinas de dessalinização ao longo da costa do Mar Mediterrâneo (vide foto). Esse ambicioso projeto estabeleceu como meta a produção de 505 milhões de m³ de água dessalinizada até o ano de 2013, chegando a 750 milhões de m³ até o ano de 2020. Os planos do Governo israelense foram facilitados após a descoberta de grandes campos de gás natural no país, combustível que passou a ser utilizado em substituição à eletricidade, o que fez os custos de produção, estimados anteriormente em US$ 1.00 para cada 1 m³ de água dessalinizada, caírem pela metade. 

O aumento da oferta de água potável, além de todos os benefícios diretos para as populações, indústrias e para a agropecuária de Israel, passou a funcionar como uma importante “moeda de troca” com os países vizinhos. Um exemplo pode ser visto no lado Oriental de Jerusalém, trecho da cidade controlado pela Jordânia. Apesar de toda a disputa entre os países pelo controle da cidade sagrada, milhares de palestinos e árabes que vivem no lado Oriental de Jerusalém passaram a solicitar a desconexão de suas residências da rede de águas da Palestina e passaram a se integrar à rede israelense de abastecimento. Os motivos: a qualidade da água é muito superior e o fornecimento é contínuo. 

Esse pragmatismo das populações representa um importante passo para a normalização das relações belicosas entre os diversos países da região que, entre outros graves problemas, disputam ferozmente o controle das fontes de água. Numa reportagem sobre essa questão, um importante jornal de Israel afirmou que “esses árabes e palestinos podem fixar a bandeira do seu país na caixa d’água e participar de protestos contra Israel – mas ao chegar em suas casas, eles querem mesmo é contar com água para tomar um bom banho e suprir as necessidades de suas famílias.”